26. Pelo Mundo (23/11/2014)

Navigare necesse; vivere non est necesse!
Pompeu

Faltam 15 dias para que eu complete 40 anos! E, direto das terras ludovicenses, escrevo sobre uma das minhas grandes paixões na vida: viajar! Pouca coisa me dá mais prazer do que sair pelo mundo a conhecer novos lugares, gente de diferentes matizes, culturas peculiares! Viajar é preciso!

Conheço pessoas que não gostam de viajar. Dizem não ter paciência para arrumar mala, sair do conforto do lar, pegar avião… Argumentam que preferem ficar em casa, conhecendo o mundo pela televisão, por meio de um livro ou recorrendo à internet… E tudo é motivo para não viajar: o destino é muito frio ou muito quente; agitado demais ou tremendamente monótono; longe ou muito perto… Não importa, sempre encontrarão um motivo para não fazer as malas e sair batendo perna por aí! Eu não as condeno! Mas comigo é o contrário.

Não sei de onde vem meu interesse por viajar. Talvez de mamãe, que sempre que tem oportunidade se lança ao mundo – bom lembrar que, numa dessas, ela veio para Brasília, conheceu papai, e o restante da história vocês já conhecem. Seu Jacob, por sua vez, é enraizado em casa, prefere o conforto do lar à surpresa de outros lugares… Pode ser de mamãe mesmo! Mas, claro, alguns diriam que tem a ver com o fato de ser eu sagitariano, ou com o mais íntimo de minha personalidade, ou com vidas passadas. Não sei de nada… só sei mesmo é que gosto disso!

Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo, conhecer outras terras, gente diferente, visitar lugares históricos, mergulhar em outras culturas! E queria fazê-lo viajando! Como não tínhamos dinheiro para isso, comecei a aprender pelos livros, revistas, tv, e decidi que me esforçaria para conseguir um emprego que me possibilitasse essas experiências. Pensei em ser comissário de bordo, jornalista, ou em trabalhar em algum organismo internacional… Daí minha opção por Relações Internacionais. Estava convicto de que, como internacionalista, meu mercado de trabalho seria o mundo, e minha profissão me levaria aos mais distantes locais do globo!

Claro que, devido às limitações financeiras, passei todo o curso de Relações Internacionais sem conhecer terras estrangeiras, restringindo-me a viajar algumas poucas vezes pelo Brasil mesmo. Naquela época, passagem de avião era coisa caríssima, carro eu não tinha, e aí ia de ônibus mesmo. Entretanto, por mais que gostasse de rodar pelo Brasil (e continuo adorando fazê-lo, pois nosso País é fantástico e diversificado), queria mesmo era me lançar ao mundo!

Só fui conseguir o que queria quando comecei a trabalhar. Então, a serviço ou nas férias, minha alegria era arrumar as malas e entrar em um avião para conhecer novas terras! E é o que tenho feito nos últimos 15 anos! Entre os lugares que já visitei estão Canadá, Chile e Alemanha (três países muito queridos, com os quais tenho uma relação bem especial, e onde já estive diversas vezes), Suécia (D’us abençoe o Reino da Suécia), Noruega (quando vivi o atentado de Oslo, pois estava em um hotel na rua atrás do local da explosão, no dia do ataque), Finlândia, Estônia (grandes experiências nesses dois países), França e Grã-Bretanha (dispensam qualquer comentário!), Bélgica (chocolate, cerveja, sede da União Europeia e da OTAN, campos de batalha), Portugal (nossas origens, nosso DNA!), Polônia (ah, Cracóvia!), República Tcheca (Praga é única!), Espanha (comprei uma espada em Toledo!), Argentina (alfajores, livrarias e boa gente!), Paraguai (conheci o Lago Azul de Ypacaraí – que de azul nada tinha), Peru (senti-me em casa entre os nativos!), Colômbia (só na fronteira), Falklands (que me desculpem os hermanos, mas é isso mesmo!), e, naturalmente, Estados Unidos (cujo nome já é múltiplo). Detalhe: quando gosto de um lugar, tenho por hábito voltar mais vezes. E a cada nova chegada, novos locais encontro para explorar: assim acontece, entre outros, com o Canadá, com minha querida Alemanha, com a Suécia, a França, e a Grã-Bretanha… Se gosto, volto! Por que não?

No meu Brasil, fico feliz em já ter passado por 21 das 27 capitais, e por outras cidades em pontos distantes. Em minhas atividades profissionais, tive a imensa satisfação de conhecer nossa preciosa Amazônia, visitar pelotões de fronteira, ir a rincões pouco conhecidos deste País continental! E me agrada tanto estar na megalópole paulistana quanto na pequena Clevelândia! O Brasil é lindo, e sua gente maravilhosa!

Indescritível a sensação de chegar em um lugar novo! Visões, sons e odores diferentes, locais a explorar, sabores pitorescos, gente diferente com quem conversar! Boas experiências, más experiências… Aprendizado intensivo, mesmo porque costumo viajar sozinho.

Prefiro viajar sozinho: faço meus horários e meus roteiros, tiro minhas centenas de fotos (sempre com meu tripé), passo o tempo que quiser em um determinado local… E, o melhor de tudo, acabo conhecendo gente fantástica. Nunca estamos sós quando viajamos sozinhos!

Definitivamente, tenho o bicho carpinteiro viajador. Sou econômico no dia-a-dia. Emprego meus recursos em viagens (excelentes investimentos!). Tenho uma malinha pronta em casa, e estou sempre disposto a pegar a estrada (não literalmente, pois não gosto de dirigir, e aprecio mesmo é a sensação de estar nas nuvens). Havendo a oportunidade, viajo!

Inspiro-me em um amigo, Gilberto Guerzoni. Solteiro, sem filhos, bom salário, Guerzoni usa seus 30 dias de férias por ano para rodar o mundo. Já conheceu mais de 150 países, da Groenlândia à Antártica, das florestas do Peru à savana africana, esteve em Galápagos e no Vietnã, na Austrália e em Kosovo, foi mesmo até Chernobyl. Esse é meu amigo, que preenche todas as folhas do passaporte muito rapidamente. Claro que estou longe de alcançar Guerzoni, mas pretendo continuar meus próximos quarenta anos viajando! Navegar é preciso!

Evolução das Grandes Economias do Globo

Sem maiores comentários, compartilho aqui um vídeo sobre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) das dez maiores Economias do globo, de 1961 a 2017. Interessante como a China sobe de posição na virada do século, alcançando em menos de vinte anos o segundo lugar, mas ainda bem atrás dos Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, apresenta-se entre as dez grandes, mas não consegue alçar vôo. Infelizmente, ainda não alcançamos um patamar civilizatório que nos permita, realmente, evoluir para uma nação desenvolvida – isso tem a ver com aspectos culturais, acredito.

Mais interessante ainda é o segundo vídeo, que apresenta as vinte maiores Economias, considerando-se a Paridade do Poder de Compra (PPP), entre 1980 e 2023, com comentários e explicações sobre as mudanças ocorridas. Sob essa perspectiva, a China já ultrapassou os Estados Unidos. Destaque para a Indonésia, que evolui rapidamente no ranking.

Vale muito conferir!

 

 

Como votaram os britânicos

13510914_10154493307779305_7902161969528145005_nQue meus 8 (oito) leitores não se irritem com minha insistência no tema, mas é que percebo a saída do Reino Unido da União Européia como um evento de grande importância para as relações internacionais contemporâneas. Prometo que o próximo post será sobre outro assunto (ainda que volte a falar do BREXIT e dos britânicos mais adiante, hehehe)…

Achei interessante a página cujo link publico aqui e que traz o resultado da votação por região do Reino Unido. Importante destacar que a decisão pela saída ganhou com o apoio das áreas mais interioranas daquele país, onde está a população menos afeita à ideia de integração com outras nações e, talvez, mais conservadora e arraigada a costumes de uma Grã-Bretanha que existia até meados do século XX. Optaram por permanecer na União Europeia a grande maioria dos escoceses (62%) e dos irlandeses do norte (55,7%). Londres, capital cosmopolita e moderna, teve quase 60% de eleitores que disseram a favor da permanência no bloco.

De toda maneira, a crise só está começando. No Parlamento Escocês já se fala em “vetar” o Brexit sob o argumento da necessidade de “consentimento legislativo” dos escoceses para se efetivar a medida (vide interessante matéria no Estadão a respeito clicando aqui), e há um risco real de que o Reino Unido sofra nos próximos anos com o crescimento do separatismo na Escócia e na Irlanda do Norte (tudo de que os súditos de Sua Majestade não precisam).

O fato é que uma primeira análise do resultado dessa votação mostra um Reino Unido dividido, e com situações delicadas que poderão se agravar nos próximos meses em razão do processo de saída da União Européia. Continuo achando que todos os lados vão perder com a escolha desses 51,9% de votantes… Espero, sinceramente, que os britânicos consigam resolver essa situação com o talento e a sabedoria que fazem daquele um grande povo! God save the Queen! God save the UK!

Para a página com as estatísticas do BREXIT, clique aqui.

Um Reino Desunido e sem queijo com chucrute

FISH CHIPSEra uma vez um Reino muito bonito, de gente honrada, trabalhadora e ordeira, que comia peixe com fritas e onde vivia uma grande e sábia rainha… Como toda monarquia constitucional, quem governava eram representantes do povo, os políticos, escolhidos pela gente trabalhadora, honrada e ordeira comedora de peixe com fritas. Todos viviam felizes e gostavam de sua rainha, que apesar de não governar, representava com grande maestria aquele povo que usava chapéu, guarda-chuva e galochas. E, já havia alguns anos, o reino que era unido se uniu também a um continente onde se comia queijo, chucrute, spaghetti, presunto, azeitonas e também, na falta desses, peixe com fritas.

Certo dia, um político (que era quem realmente governava aquele reino) decidiu fazer uma consulta popular para saber se o reino continuaria unido a outras nações em um próspero bloco continental, onde se podia comer de tudo (inclusive peixe com fritas)… Chamou o povo, que resolveu colocar seu peixe com fritas de lado, pegar seu guarda-chuva e suas galochas, e ir decidir sobre o futuro antes de tomar uma cerveja quente na taverna (mesmo porque o que não falta naquele reino são tavernas onde se pode beber cerveja quente e comer peixe com fritas).

cheese frenchO político achava que todos iriam apoiá-lo na consulta aos comedores de peixe com fritas e permitir que o reino, que era unido, continuasse unido também ao continente onde se comia de tudo. Só que apareceram outros políticos que não queriam o reino unido aos comedores de chucrute e tampouco àquele povo do outro lado do canal que falava uma língua estranha e comia queijo, muito queijo. Também não acharam uma boa ideia dividir seu peixe com fritas com gente que gostava de azeitonas, de spaghetti e de presunto, apesar de se incomodarem mesmo era com aqueles de fora do continente que gostavam de tabule e de grão-de-bico (e que aportavam no reino aos montes fugindo da guerra e da fome).

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Chegou finalmente o dia da votação naquele belo reino onde vivia uma sábia rainha. E 51,9% dos comedores de peixe com fritas que foram votar optaram por se separar do continente… Uma vez que 72% dos comedores de peixe com fritas foram votar, cerca de 37,4 % do total de eleitores optaram pela saída… Isso significa que aproximadamente 62% dos eleitores comedores de peixe com fritas ficarão sem poder se deliciar com queijos (muitos queijos), presuntos (pata negra), azeitonas, spaghetti (al pomodoro) e, claro, chucrute, por causa desses 38% que preferem continuar comendo só peixe com fritas…

bafea7d70aaf1fcd5f4740de03739a2fSou solidário aos 62% de comedores de peixe com fritas que não poderão mais comer outra coisa por causa dos 38% que adoram peixe com fritas! Dizem que é assim que funciona a democracia moderna. Só que democracia direta não é moderna, porque entrega ao povo questões complexas para que se decida de maneira simplória. Quando um político pergunta diretamente ao povo o que ele quer, corre o risco de fazer esse povo acreditar que não precisa de representantes para lhe governar… Aí há o perigo de decisões confusas e fatais… É o que aconteceu com o trabalhador, ordeiro e honrado povo do reino onde se come peixe com fritas… Vai ficar mais difícil comer queijo, presunto, spaghetti, azeitona e chucrute naquela ilha… Talvez se tivessem consultado a sábia rainha…

Plate, knife and fork on Union Jack

 

“O continente está isolado”

Illustration picture of postal ballot papers ahead of the June 23 referendum when voters will decide whether Britain will remain in the European UnionDeterminados acontecimentos nos dão a certeza de que estamos diante de um evento marcante da história da humanidade… Foi assim com o final das duas guerras mundiais, com a chegada do homem à Lua, com a queda do Muro de Berlim, com o discurso final de Gorbatchev no dia 25/12/1991 (seguido da extinção formal da União Soviética), com o início da circulação do Euro, com o 11 de setembro de 2001… Indubitavelmente, 24 de junho de 2016 também entra para a História como a data de mais um desses grandes eventos: o dia do resultado do plebiscito que decidiu que o Reino Unido (RU) deixará a União Européia (UE)…

Não pretendo aqui fazer qualquer grande digressão política, econômica, social, cultural, histórica, espacial, psicológica, sobrenatural no que concerne à saída dos britânicos do bloco europeu, nem sobre os impactos dessa saída para a UE ou para o próprio RU… Tampouco farei qualquer consideração sobre as consequências disso para o Brasil (haverá consequências para o Brasil, certamente). O que pretendo é dedicar algumas linhas a uma percepção inicial e bem pessoal desse evento marcante… Só divagações mesmo.

maxresdefaultComo internacionalista e alguém que vê com bons olhos o processo de integração europeu, fico triste com a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, com todos os seus problemas étnicos, políticos, econômicos, jurídicos, com todos os males causados por um sistema muito burocrático e que se tem mostrado desequilibrado, sob influência de idéias utópicas e imposições corporativas, a União Européia continua uma grande referência de êxito integração. É bonito ver as quatro liberalidades funcionando naquele continente tão diverso. É bonito ver como os europeus conseguiram superar uma situação de guerra fratricida e hoje (com todas suas idiossincrasias) se mostram mais unidos e integrados. Claro que sempre haverá quem assuma um maior protagonismo naquela grande família de nações, e haverá irmãos mais complicados e com problemas, uns mais ricos que outros, uns mais iguais que outros… Entretanto, a ideia de união permanece, em especial junto às novas gerações… E cada vez mais o sentimento de cidadania européia ganha espaço nesse processo evolutivo… “Unidos somos mais fortes”, é a ideia central do bloco.

160515065043_boris_johnson_640x360_getty_nocreditOs britânicos, porém, parecem não compartilhar dessa percepção de que é melhor uma Europa integrada. Não tirarei suas razões, e há argumentos fortes por parte daqueles que defendem a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, a Grã-Bretanha se veria muito engessada pelas instituições, normas e políticas de Bruxelas… Assustam também, argumentam os defensores da saída do bloco, as responsabilidades e os custos de pertencer à União Européia… Nesse sentido, a segunda economia da Europa precisaria estar livre (como sempre esteve) para alçar vôos próprios, com independência e de acordo com seus interesses… Ademais, há a preocupação com o aumento da imigração na Grande Albion (ainda que cheguem/tenham chegado às ilhas britânicas muitos imigrantes altamente qualificados, fluentes em inglês e contributivos para a Economia do país, ao mesmo tempo em que são abertos aos britânicos cerca de três dezenas de países onde eles podem viver, trabalhar, construir o futuro)… Interessante que a alternativa de saída da UE ganhou em regiões com pouca presença de imigrantes… Continuar lendo

Terror nos céus da Europa

putinMais um episódio de interceptação de aeronave militar russa no “espaço de interesse” do Reino Unido… Gostei da maneira como a reportagem tratou do assunto!

Venho acompanhando com interesse o aumento da tensão entre as potências ocidentais e a Rússia… Putin brinca com o Ocidente. De fato, ele testa os limites dos líderes europeus que, passados mais de trezentos anos desde que Pedro, o Grande, mostrou a Rússia para o Ocidente, ainda não entendem como os russos realmente pensam e agem (à exceção de Frau Merkel… Frau Merkel conhece os russos… e conhece bem). Assim, um clima de pânico ronda Paris e Londres quando o urso mostra os dentes…

estonia_indepMais a Leste, países como a Polônia têm todas as razões para ficar apreensivos. Os poloneses conhecem o peso da bota russa há séculos, e sempre lembram que a II Guerra Mundial (cujo término ocorreu há recentes 70 anos) começou com a invasão do território polonês por alemães… e russos (!), enquanto franceses e britânicos seguiam sua política do apaziguamento. Outro detalhe importante: em 1945, a Polônia foi “libertada” do jugo alemão e passou para a tutela dos soviéticos (que não tinham muita simpatia por poloneses), amargando quatro décadas de comunismo (leia-se retrocesso, autoritarismo e opressão). Hoje, os poloneses vivem em um dos mais prósperos países da Europa, com uma economia pujante e liberal, com aversão total e absoluta contra qualquer discurso que mencione o regime comunista que lhes foi imposto pelos russos, e com grande receio da Rússia (versão tricolor da boa e velha União Soviética). Enfim, os poloneses sabem o quanto a corda pode apertar no pescoço pela providência divina os ter colocado tão perto dos russos. Mais preocupados que os poloneses, só os cidadãos de Estônia, Letônia e Lituânia…

No caso dos Estados Bálticos, a apreensão também se justifica plenamente… Afinal, até a I Guerra Mundial eles eram parte do Império Russo, alcançaram a independência ao final do conflito (assim como os poloneses), mas já em 1940, desencadeada a II Guerra Mundial, foram invadidos e ocupados pelos soviéticos, tiveram seu território incorporado à União Soviética durante cinco décadas, e foram os primeiros a se separar do gigante comunista quando ele começou a desfalecer, em 1991. Convém lembrar que Moscou nunca engoliu essa emancipação…

Estonia-T_KELAM_21-www-384x248Já estive na Estônia (terra maravilhosa!). Naquele belo país 1,3 milhão de habitantes, pode-se notar em cada esquina o receio que os estonianos têm de uma invasão russa. Por isso se apressaram em aderir à OTAN e à União Européia – e mostraram-se uma Economia eficiente e um povo disposto a inserir-se entre as nações prósperas do Ocidente democrático. Esperam contar com a proteção de Bruxelas e de Washington. Ademais, já foram vítimas de ataques cibernéticos, que Putin jura que não vieram do Leste. Por via das dúvidas, o Centro de Defesa Cibernética da OTAN foi estabelecido na Estônia. Pretendo retornar à Estônia. E prefiro retornar a um país livre…

Voltando ao Urso frio… Muitas peças ainda devem ser mexidas nesse tabuleiro… Os ocidentais têm que estar atentos às manobras russas e buscar conhecer como joga Putin… Sim, porque Putin não é bobo e tem alguma coisa em mente com relação ao Ocidente (gosto de Putin; Putin é KGB). Fundamental estudar o tabuleiro e buscar se antecipar aos movimentos de Moscou… O jogo passa longe de ser fácil, mas tem que ser jogado. E, para desespero dos ocidentais, é sempre bom lembrar que os russos são, tradicionalmente, grandes enxadristas. 

Polonia comunismo

Novo incidente com bombardeiros russos reflete temor europeu com avanço de Moscou

BBC-Brasil, 19FEV2015
Bombardeiros russos em foto de 11 de fevereiro (AFP)Bombardeiros russos (semelhantes aos vistos acima) foram escortados para longe de ‘área de interesse’ do Reino Unido

Dois bombardeiros russos foram avistados na quarta-feira perto da costa oeste da Inglaterra, levando a Força Aérea britânica a interceptá-los e escoltá-los – em mais um desdobramento das preocupações europeias com os avanços russos.

Os bombardeiros não entraram no espaço aéreo britânico, apenas no que o Reino Unido chama de sua “área de interesse”. Episódio semelhante ocorreu no mês passado.

Analistas veem o caso como uma demonstração de força ou até mesmo como uma provocação por parte de Moscou, com intenção política – já que a Rússia saberia que o episódio ganharia repercussão.

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Sobre os atentados na França neste 07/01/2015

Estou fora de Brasília e com dificuldade de acesso à Internet e a canais de notícias. Difícil comentar os acontecimentos do dia na França, portanto.
Meu total e absoluto repúdio ao terrorismo e a seus perpetradores. Nada justifica o que esses criminosos fizeram. Uma observação preliminar: não eram suicidas, pois fugiram. As ações foram bem planejadas. Houve ataque a policiais (agentes do Estado). Pode haver algo a mais nesse cenário,  mas não tenho dados suficientes para análise.
Acho a tese do choque de civilizações frágil e diversionista. Foram duas dezenas de vítimas (entre mortos e feridos) francesas, mas lembro que frequentemente dezenas de muçulmanos são mortos por terroristas islâmicos no Oriente Médio,  Ásia Central e África.
Registro que sou profundamente intolerante para com os intolerantes.
Minha solidariedade ao povo francês,  às vítimas, seus familiares e amigos,  e a todos que defendem a liberdade de imprensa e de expressão.
Assinalo, ainda, e apesar de profundamente defensor da civilização ocidental (com todas as suas idiossincrasias), meu desejo de que todos tenhamos em mente que esses cretinos que promoveram os ataques em Paris em nada representam os mais de um bilhão de muçulmanos, tampouco o Islã.

Atentado_Franca_policial

OTAN: agora tudo se resolve! (só que não)

nato_summit_2014_fightersAlguém na OTAN descobriu que a organização é uma aliança militar! Pois é, na cúpula realizada no País de Gales (com direito a show de aviõezinhos sobrevoando palanque e soltando fumaça colorida – quero ver fazer isso nos céus da Estônia, da Polônia ou próximo a Kaliningrado), os líderes decidiram pelo envio de uma “força de ação rápida” para garantir a defesa e a integridade territorial dos países-membros do Leste Europeu contra uma agressão externa (leia-se, da Rússia).

Há quem comemore essa atitude da Aliança Atlântica como um “ato de força que conterá o expansionismo de Moscou” e restabelecerá as boas relações no continente. Afinal, é a OTAN, né? Quem ousar se meter com ela terá uma resposta de 28 nações, com um potencial bélico significativo. Ok, só que não consigo acreditar nessa disposição de endurecer com a Rússia – será que Putin acredita? Será que os próprios líderes da OTAN acreditam?

A iniciativa aprovada hoje mais parece uma tentativa de se dissimular a incapacidade de ação. Entendi dois recados aí. O primeiro, para os países do Leste, particularmente os estados bálticos e a Polônia (sempre a Polônia), é uma mensagem para acalmar os nervos daquela gente (afinal, os líderes dali devem estar à base de Rivotril com o risco de “intervenção humanitária” russa): “Não se preocupem! Estamos juntos! Não vão atacar vocês porque sabem que estão sob nosso guarda-chuva! Acalmem-se!” – só que os poloneses já ouviram isso antes, há exatos 75 anos… e estonianos, letões e lituanos sabem o que são quatro décadas de ocupação russa.

Putin-em-desfile-militar-size-598O segundo recado foi para a Rússia: “A OTAN garantirá a defesa e integridade de seus países-membros! Temos garras (apesar de garras com unhas pintadas há algum tempo)! Não mexa conosco!” Só que o outro lado disso é que… a Ucrânia não é membro da OTAN. Portanto, para meio entendedor, fica claro que a Organização não vai dar passos mais largos do que esses contra o Urso. Seria temerário fazer alguma coisa mais incisiva…

Haveria um terceiro recado, este para a Ucrânia: “Vejam bem, a coisa não está boa para vocês. Damos apoio total a seu pleito… exceto apoio militar. Não esperem que encaremos a Rússia para defender russos (tá, ucranianos… mas vocês não são todos soviéticos?!?!?). E tratem logo de negociar a paz e aceitar os termos de Moscou. Tudo vai ficar bem!”.

nato_summit_2014Enfim, a incapacidade da OTAN para gerenciar essa crise me faz lembrar a habilidade da Liga das Nações nos momentos tensos dos anos 1930. E vai acabar com o mesmo destino: virar uma organização só para sustentar sua própria burocracia e com pouca ou nenhuma influência real no mundo. Não dá para desaparecer como o Pacto de Varsóvia. Será portanto, um morto-vivo errante pela política mundial…

É assim que vejo a crise da Ucrânia. Não há líderes ocidentais que tenham coragem de (juntos ou isoladamente) encarar Putin e conter suas pretensões… a não ser, claro, Frau Merkel. Aprendam com essa mulher. Ela é durona e uma boa interlocutora junto aos russos (que conhece bem). Gosto de Frau Merkel. Mas também gosto de Putin. Putin é KGB.

Otan aprova presença militar contínua no Leste Europeu

Deutsche Welle, 05/09/2014 – Link permanente http://dw.de/p/1D7mQ

Diante da atual ameaça representada pela Rússia, líderes acertam criação de nova força de reação rápida e manutenção de tropas nos países orientais da aliança.

Os líderes da Otan aprovaram nesta sexta-feira (05/09), durante cúpula no País de Gales, a criação de chamada força de reação rápida e a manutenção de uma presença contínua no Leste Europeu, onde alguns países-membros estão preocupados com os movimentos russos na Ucrânia. A nova “ponta de lança”, como também é chamada a força de reação rápida, deverá ser formada por milhares de soldados, prontos para entrar em ação em poucos dias.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, afirmou que a nova unidade enviará uma mensagem clara para potenciais agressores, como a Rússia. “Se você pensar em atacar um aliado, estará de frente com toda a aliança”, declarou ele durante o encerrameno do encontro de dois dias.

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Kiev em duas semanas

Putin (1)A Rússia sempre teve sua História marcada por líderes fortes. Desde Ivã, o Terrível, passando por Pedro I, Catarina, a Grande, Alexandre II, Josef Stálin, para governar o maior país do globo parece que um punho de ferro tem sido o mais conveniente… Os fracos não têm muito espaço naquelas terras – vide o que aconteceu com Nicolau II, homem bom, mas que vacilou em um momento de extrema importância e sacrificou sua dinastia.

Nas últimas três décadas, certamente o nome forte que marcará a História russa é o de Vladimir Putin, ou Vlad, o Terrível. Jogando com ousadia e firmeza uma partida com as grandes potências, Putin tenta recuperar o prestígio da Grande Rússia, aí incluídos  territórios e pessoas que o perdidos desde o colapso da União Soviética. O alvo agora é a Ucrânia… mas, como assinala a reportagem da Deutsche Welle, os países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) já colocam as barbas de molho (e devem colocar mesmo!).

“Se eu quiser, ocupo Kiev em duas semanas!” – essa frase, que teria sido dita por Putin ao Presidente da Comissão Européia, Durão Barroso, é bastante elucidativa do que está disposto a fazer o novo czar. E também do que ele pode fazer. Não acho que vá passear pelas ruas da capital ucraniana nos próximos dias… mas, com uma ameaça como essa, pode conseguir mais um pedaço daquele país… Isso é o que se chama “botar um bode na sala”. Claro que tudo vai depender de como reagem os ocidentais.

Putin está jogando. Está testando a União Européia e os EUA. Conhece as fraquezas e vulnerabilidades de seus antagonistas e as suas próprias. Sabe que a Europa continua atemorizada e divida e, realmente, pouco disposta a fazer alguma coisa mais firme pelos ucranianos (que, repetirei sempre, e por mais cínico que isso pareça, estão e sempre estiveram na zona de influência russa). Por outro lado, há sempre a paúra de que a Rússia continue sua expansão rumo a oeste – é um medo atávico, irracional. Não acredito que Putin fosse além das tradicionais fronteiras… soviéticas.

Continuando a análise sobre os antagonistas de Moscou, do outro lado do Atlântico, um líder que parece perdido, e que se revela surpreendentemente fraco e titubeante ao lidar com questões de política externa. Há muito não se via um Presidente dos EUA demonstrando tanta inabilidade ao lidar com os russos (talvez porque seja ela da geração pós-Guerra Fria). Claro que, diante desse quadro, Putin não vacila… e tenta abocanhar o quanto mais puder. Três décadas depois, parece haver uma inversão de papéis no temperamento dos líderes estadunidense e russo. Nos anos oitenta, Reagan era firme e Gorbatchev vacilante (gosto muito de Gorbatchev, que fique claro… e de Reagan).

Interessante que não há como não pensar na Europa do final dos anos 1930, quando britânicos e franceses conduziram uma malfadada política de apaziguamento diante das pretensões de um certo chanceler alemão. Deu no que deu. E, por falar em alemães, a solução para essa crise parece repousar cada vez mais na habilidade política da única entre os líderes europeus que ainda se mantém firme: Frau Merkel. Ainda bem que Frau Merkel está lá. Como alemã oriental, a Chanceler conhece bem os russos e conhece Putin. Sabe como Putin joga e, de fato, resta como a esperança do Ocidente para, como diria Garrincha, “negociar com os russos”. Se isso não acontecer, o tempo continuará nublado e cada vez mais sujeito a chuvas e trovoadas.

Gosto de Frau Merkel. Gosto de Putin. Putin é KGB.

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Putin: “Se eu quiser, ocupo Kiev em duas semanas

Líder russo teria feito ameaça ao presidente da Comissão Europeia durante telefonema momentos antes da cúpula da UE, segundo jornal italiano. Merkel adverte que não se pode confiar no Kremlin.

Philip Verminnen – Deutsche Welle, 01/09/2014 – Link permanente http://dw.de/p/1D52c

“Se eu quiser, ocupo Kiev em duas semanas.” Em meio ao agravamento da crise no leste ucraniano, a frase teria sido dita pelo presidente russo, Vladimir Putin, ao presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Durão Barroso, em conversa telefônica.

A informação é do jornal italiano La Repubblica. Barroso comunicou o ocorrido aos chefes de Estado e de governo presentes na cúpula da União Europeia, em Bruxelas, no último sábado (01/09). Continuar lendo

A crise da Ucrânia e o gás para a Europa

gas_ucraniaHá muito não se vive um momento tão tenso na Europa. Os líderes europeus parecem ter esquecido como lidar com a Rússia. E também esqueceram que, há cerca de setenta anos, havia 7 milhões de soldados soviéticos em território europeu.

Ok, muita coisa mudou. Porém, a Ucrânia continua zona de influência russa, goste-se disso ou não. E Moscou não vai aceitar resignado que Kiev migre para a esfera de Bruxelas (nem na União Europeia e muito menos na OTAN). Quando a corda apertar, a pergunta que se vai fazer é “quantas divisões tem Durão Barroso?”. Outra questão possível é: quanto de gás tem a Europa?

Sim, muita coisa mudou desde que as hordas bolcheviques marcharam sobre a Europa. A própria Europa mudou. Os anseios europeus mudaram. A Rússia, porém, não mudou muito. A Rússia será sempre a Rússia. E o inverno está chegando…

Segue artigo interessante da RIA NOVOSTI (percepção russa, portanto), sobre a crise relacionada à aproximação da Ucrânia com a União Européia.

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RIA Novosti

The EU and Russia Policy: Happily Forgotten Lies

21:47 02/09/2014

MOSCOW, September 2 (RIA Novosti) – Some of the world’s worst criminals claimed that they committed their crimes in a fit of forgetfulness or oblivion, without actually realizing they were doing something wrong. Khodorkovsky for example complained to the German magazine Der Spiegel that he “sometimes suffers from memory holes.”

But of all the powerful people in the world, the EU commissioners are probably the most forgetful. When scanning their statements on Ukraine, one gets an impression of dealing with individuals who forget not only their own words but even of locations where they happen to be or to have been. Here are some examples. Continuar lendo

As primeiras gotas da Grande Tormenta

hitler_stalin_same2014 é um ano de grandes efemérides nos campos político e militar: 150 anos do início da Guerra do Paraguai e da Primeira Convenção de Genebra, 60 anos da morte de Getúlio Vargas, 50 anos do movimento de 31 de março de 1964, 100 anos do começo da Grande Guerra, 70 anos do Dia D (6 de junho) e da Conferência de Bretton Woods, só para lembrar alguns…

Não obstante, o dia 1 de setembro jamais será esquecido, em razão de um evento que em 2014 completa 75 anos: o início da II Guerra Mundial. Naturalmente, essa data não poderia ser esquecida em Frumentarius.

As origens do maior conflito por que já passou a humanidade podem ser encontradas no fim da guerra anterior, a Grande Guerra de 1914 a 1918: o Tratado de Versalhes e a responsabilização da Alemanha, que levariam à revolta dos alemães contra o que lhes fora imposto pelos vencedores; a inabilidade das Potências europeias em garantir a segurança coletiva por meio da Liga das Nações; o apaziguamento de britânicos e franceses diante dos anseios expansionistas de Adolf Hitler que, por sua vez, conseguira reerguer o país e recuperar o moral da população e desejava, a todo custo, o espaço vital para construir o império de mil anos… Tudo isso culminaria nos acontecimentos de 1 de setembro de 1939.

De fato, em 1939, a Política Exterior do III Reich parecia que conduziria a Alemanha a uma guerra avassaladora e definitiva contra seu maior rival, a União Soviética. Era o que esperavam franceses e britânicos, que sob a égide do discurso apaziguador, aguardavam ansiosos o momento em que, com seus movimentos expansionistas rumo ao Leste, Adolf Hitler entraria diretamente em choque com o outro grande ditador de seu tempo, Josef Stálin. Então aconteceria o tão esperado confronto entre os dois gigantes totalitários, o III Reich e a União Soviética, que culminaria na destruição de um e no enfraquecimento do outro, ou no colapso de ambos, o que beneficiaria sobremaneira as Potências ocidentais.

soviet_nazi_pact_1Mas Londres e Paris não contavam com o improvável: em 23 de agosto daquele ano, era assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, a aliança entre a Alemanha nazista e a União Soviética comunista, a inconcebível aproximação entre os dois inimigos tradicionais, o aperto de mãos (simbólico) entre os tiranos Hitler e Stálin. Aquele Tratado permitiria a expansão alemã para o Leste, a invasão, ocupação e partilha da Polônia. Aquele acordo deixaria atônitos britânicos e franceses.

a74ccf7c57b9858192d4630c18f8531dE foi exatamente o que aconteceu: um semana depois, diante dos olhares perplexos do mundo, na madrugada de 1 de setembro, tropas alemãs cruzavam a fronteira da Polônia. Apesar da bravura e do empenho em conter o inimigo, os poloneses não resistiriam mais que seis semanas à máquina de guerra germânica, associada ao ataque maciço do Exército Vermelho, que cruzou a fronteira vindo do Leste alguns dias depois. Alemães e soviéticos se encontrariam em Brest-Litovskyi, exatamente onde fora celebrado o tratado de paz entre o Reich Alemão e o governo bolchequive, em março de 1918 (tratado que, verdadeiramente, era a humilhante capitulação da Rússia na I Guerra Mundial).

A partir daquele primeiro dia de setembro, os sinos seriam silenciados por longos seis anos nas igrejas da Europa. Dor, sofrimento, destruição e morte seriam infligidos a outros povos como nunca se vira. E o conflito iniciado em solo polonês se expandiria pelo continente e por todo o planeta, culminando na perda de algo como cem milhões de vidas humanas. O acontecimento de 75 anos passados seria o começo da maior e mais trágica tormenta da História…

Polen, Schlagbaum, deutsche Soldaten

Conversando sobre a Grande Guerra

Ao longo dos próximos meses ainda teremos muitas publicações sobre a I Guerra Mundial, a Grande Guerra, o divisor de águas da História dos últimos duzentos anos… Afinal, passados cem anos do início daquele conflito, em agosto de 1914, muito se tem a aprender com ele, tanto em termos de relações humanas quanto no que concerne à política entre as nações.

Segue o link para uma entrevista dada por mim e por meu amigo e historiador, Dario Andrade, à Rádio Senado, sobre a Grande Guerra. Não consegui inserir os arquivos de áudio, por isso vá ao link, e procure a reportagem de 15/08/2014.

Homens indo para alistamento

 

O começo do fim do mundo

Greatwar3Foi há exatos cem anos! Depois de praticamente um mês de tensão, de construção e desconstrução de alianças, de ameaças, pressões e exigências, o Império Austro-Húngaro declarava guerra à Sérvia. Os motivos da rivalidade entre os dois países remontavam ao século XIX (ou, para alguns, a centenas de anos). Nas últimas décadas, a chamada “questão balcânica” levava um clima de grande instabilidade para uma das regiões mais belas da Europa. A coisa se agravara com as guerras dos anos anteriores… Mas o estopim daquilo tudo fora o assassinato do herdeiro do trono da Áustria, o Arquiduque Francisco Ferdinando, por meio de um atentado terrorista, no dia 28 de junho (vide aqui).

805916Com a declaração de guerra feita por Viena a Belgrado, logo os grandes impérios da Europa se mobilizariam para fazer cumprir as alianças costuradas pela diplomacia secreta da belle époque: a Rússia czarista, o Reich guilhermino, a República Francesa, o Império Britânico (onde o sol nunca se punha)… E os canhões de agosto logo seriam ouvidos, os sinos calados, e o mundo viveria quatro anos de uma guerra sem precedentes. 

fr-trench1A Grande Guerra poria fim a um mundo em 1914… e daria ensejo ao outro totalmente mudado, diferente, que surgiria, em 1918, das cinzas daquele massacre que ceifou a vida de milhões e envolveu os quatro cantos do planeta. A I Guerra Mundial poria fim a cem anos de paz e daria início a 20 anos de crise, que culminariam em mais seis anos de guerra, dor, sofrimento, destruição.

O mundo em que vivemos hoje é um resultado direto dos acontecimentos iniciados há exatos cem anos. E, se a História se repete, é bom que estejamos atentos aos acontecimentos internacionais da atualidade. Exatamente como há um século, o senso comum considerava impossível, impensável, inaceitável uma guerra entre as grandes potências em solo europeu. Só que ela aconteceu. E pôs fim a uma era.

great war

Segue matéria do The Economist sobre o começo da Grande Guerra. Detalhe interessante: é de 1º de agosto de 1914 o artigo.

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Sobre a crise na Ucrânia

Em continuidade àquela idéia de colocarmos vídeos em Frumentarius com reflexões sobre um pouco de tudo, seguem algumas breves considerações sobre a crise da Ucrânia. Creio que meus alunos de Relações Internacionais e de Direito Internacional possam se interessar. Abraço!

O Dragão e o Urso

dragão-chinesOs ocidentais podem até prosseguir nessas sanções contra a Rússia. Entretanto, parece que têm sido ineficazes, tendo como único êxito irritar o urso. E, para piorar a situação do Ocidente neste embate, as pressões contra os russos fazem com que Moscou busque novos parceiros ou redimensione os parceiros tradicionais, como a própria China. E Pequim está de braços abertos, pronta para receber seu parceiro eslavo. Com o dragão e o urso cada vez mais próximos, a águia que se cuide…

RIA Novosti

China Condemns Unilateral Sanctions Against Russia – Envoy

13:52 30/04/2014

China strongly opposes unilateral sanctions against Russia, Beijing’s ambassador to Moscow told reporters Wednesday, adding that US and EU sanctions would not resolve the crisis in Ukraine.

 MOSCOW, April 30 (RIA Novosti) – China strongly opposes unilateral sanctions against Russia, Beijing’s ambassador to Moscow told reporters Wednesday, adding that US and EU sanctions would not resolve the crisis in Ukraine. Continuar lendo

Crimeia: agora a coisa está russa!

putin_acordo5-640x427Nesta sexta, um decreto de Vladimir Putin confirmou o ingresso da Crimeia na Federação da Rússia. As pessoas têm-me perguntando a respeito. Algumas reflexões, portanto:

1) Difícil dizer se Putin tem uma “grande estratégia” para a região, para o entorno soviét…, digo, russo, ou mesmo para uma política externa retrô, que reviva os tempos da Guerra Fria. Mas, o que posso dizer é que, indiscutivelmente, Putin e Levrov não são bobos ou ingênuos nesse jogo, e não agem movidos por emoções ou achismos. Sabem que estão em um jogo, um grande jogo, e calculam seus movimentos…

2) Com o referendo de 16 de março, do qual participaram 1,2 milhão de eleitores (de um total de 1,5 milhão aptos a votar), 96,8% dos votantes decidiram pela incorporação à Rússia. Apesar da presença de tropas russas disfarçadas de russas e das críticas ocidentais, parece pouco crível que o povo da Crimeia não quisesse essa opção. Afinal, 58% dos habitantes são russos, a região sempre pertenceu à Rússia e é área de interesse estratégico do Kremlin. Vejo aí uma iniciativa brilhante de Moscou, pois o valioso princípio da autodeterminação dos povos, tão caro dos ocidentais, imperou nas urnas. O que pode ser dito contra 96,8% de eleitores? Valeria a pena afrontar os russos por algo que a população da península decidiu?

manchetes-russia-ucrania-crimeia-g73) A Crimeia volta, portanto, à Rússia, onde sempre esteve e de onde nunca deveria ter sido tirada (o que ocorreu por uma decisão de Krushev, em 1954). E, em que pesem os protestos de Kiev, parece fato consumado. Afinal, já foi dada a ordem para as tropas ucranianas deixarem o território da Crimeia e os ocidentais, apesar dos protestos, não ousaram movimentos mais firmes.

4) Moscou ganha a Crimeia, mas perde a Ucrânia. Nesse sentido, Kiev deve migrar para a esfera de influência da União Européia. Resta saber se os russos vão deixar isso acontecer, pois pareceria uma derrota da política externa de Putin.

crimeia russia5) Diante da reação tísica do Governo Obama, e da resposta firme de Moscou, parece que essa jogada foi vencida pelo Kremlin. Daí para imaginar um abalo mais profundo nas relações entre russos e estadunidenses, creio que isso não ocorrerá… As forças agregadoras são maiores.

6) As tropas da OTAN já estão em alerta na Polônia e nos Países Bálticos. Tudo indica que os russos pararão na Crimeia (ao menos por enquanto). De toda maneira, se fosse da OTAN estaria com as barbas de molho…  E não me surpreenderia se Moscou começasse a reorganizar um novo Pacto de Varsóvia (o que faria tremer todo mundo a Oeste do Dnieper – menos os bielorrussos, que serão sempre aliados dos russos).

Continuamos atentos aos desdobramentos nas terras eslavas… Ainda não acabou…

crimeia russia2

RIA Novosti

Putin Signs Final Crimea Reunification Decree

17:37 21/03/2014

Russian president Vladimir Putin signed a decree Friday on the ratification of the treaty providing for the reunification of the Crimean Peninsula with Russia.

MOSCOW, March 21 (RIA Novosti) – Russian President Vladimir Putin signed a decree Friday on the ratification of the treaty providing for the reunification of the Crimean Peninsula with Russia.

The treaty had been already ratified by both houses of the Russian parliament. Continuar lendo

Amigos, amigos, negócios…

Reportagem da Spiegel sobre “indisposições” no seio da OTAN, algumas delas associadas à conduta dos EUA com relação a seus aliados… Recomendo a leitura, sobretudo a meus alunos de Relações Internacionais que ainda achem que o mundo é feito de flores..

Daqui a pouco Putin propõe uma aliança no estilo Pacto de Varsóvia para atrair os povos do Leste (claro que com todos sabendo quem manda e quem pode o quê)…

Belgium NATO Ukraine

SPIEGEL ONLINE
03/06/2014 04:48 PM

Whither NATO? Difficulties in the Trans-Atlantic Relationship

An Op-Ed by Secretary William Cohen and General James Jones

Revelations about NSA spying and an unequal sharing of military burdens has cast a recent shadow over the trans-Atlantic relationship. But NATO remains just as important as ever. It is time for all alliance members to recognize that fact.

During the course of more than three decades, in our public service and private capacities, we have regularly attended the Munich Security Conference, formerly known as Wehrkunde.

The Conference initially consisted of a small group of military experts from the United States, Canada and Western Europe who discussed issues involving the threat posed by the former Soviet Union. Today, the Conference includes representatives from the business, diplomatic and military communities from all of Europe, Russia and Asia who examine the new threats posed by terrorists, religious extremists, nuclear proliferation, cyber warfare and organized crime.

Although the US delegation to the Conference included 15 members of Congress and a joint appearance by Secretary of State John Kerry and Secretary of Defense Chuck Hagel we detected the “brooding omnipresence” of a discontent for the United States that contained a whiff of anti-Americanism.

This dark overhang is due in part to Edward Snowden’s revelations about NSA’s collection activities, but it is coupled with a perception that the United States is withdrawing its interest from vast areas of the globe, including Europe, a feeling partly fueled by the “Pivot Towards Asia” declaration announced in Washington. While nothing could be further from the truth, perceptions can become reality when not effectively rebuffed by evidence to the contrary. There also seems to be a little too much enthusiasm to link this perception with the increasingly popular notion of a general “American decline”, something we have heard about in every decade since 1945. Continuar lendo

Frau Merkel e a Rússia

Matéria interessante sobre o papel de Frau Merkel na crise ucraniana. A Chanceler está à frente da principal potência européia, sabe ser prudente e firme e conhece bem os russos – melhor que qualquer outro líder ocidental. De toda maneira, está à frente da Alemanha, que há cem anos tem uma relação um pouco conturbada com a Rússia…

File photo shows German Chancellor Merkel and Russian President Putin listening to their national anthems before talks at Chancellery in Berlin

SPIEGEL ONLINE
03/04/2014 12:56 PM

Crimean Crisis – All Eyes on Merkel

By  and Gregor Peter Schmitz

As the conflict with Russia over Crimea intensifies, Germany is playing a central role in communications with Russian President Vladimir Putin. But the international community has doubts that Chancellor Angela Merkel can pull it off.

Germany had only recently announced the end of its era of restraint. German President Joachim Gauck, Defense Minister Ursula von der Leyen of the Christian Democrats and Foreign Minister Frank-Walter Steinmeier of the Social Democrats have all argued that it’s time for Germany to play a greater role in the world.

Steinmeier couldn’t have expected that he would need to follow-through on his push for an “aggressive foreign policy” so quickly. But the dramatic escalation in Crimea needs quick answers and it has become a focus of Chancellor Angela Merkel’s government in Berlin.

“Europe is, without a doubt, in its most serious crisis since the fall of the Berlin Wall,” Steinmeier said on Monday. “Twenty-five years after the end of the conflict between the blocs, there’s a new, real danger that Europe will split once again.” Continuar lendo

Solução à Munique

5311de3312d78A crise internacional envolvendo a Ucrânia parece já ter chegado a seu ápice. Os oponentes já mostraram suas cartas, seus dentes e suas garras. A Crimeia já se encontra sob ocupação russa. Putin não pretende arredar de lá. E, no Ocidente, apesar das palavras firmes de alguns líderes, todos sabem que não vale a pena afrontar o Urso por causa da Ucrânia – simples assim, é como funciona o cálculo estratégico em política internacional. Não obstante, pressões continuam para uma medida mais incisiva por parte dos ocidentais – iniciativa essa que dificilmente virá. O que fazer então?

A História (ah, a História!) é sempre pródiga em exemplos e referências para os que tentam navegar nos mares tortuosos das Relações Internacionais. E com a situação na Ucrânia não deve ser diferente. Tudo parece caminhar nesse caso para uma solução no melhor estilo da Conferência de Munique, de 1938.

Putin já disse o que quer. A Crimeia é russa desde sempre (era russa até 1954, quando Kruschev, nascido bem pertinho da fronteira russa com a Ucrânia, resolveu, em um típico ato de solidariedade entre os povos da União Soviética, transferir o território para a República Socialista Soviética da Ucrânia – o que, em termos de de dominação soviética, não significava absolutamente nada…), sua população é russa, e há uma outra série de razões para se dizer que a região deve ficar sob a égide de Moscou (exatamente como os Sudetos com relação à Alemanha, em 1938).

chamberlain 1938Os ocidentais, fora o discurso altivo, estão titubeantes, não querem confusão com a Rússia (ainda mais por uma região que sempre esteve sobre hegemonia russa), e buscam desesperadamente uma saída honrosa para a crise (exatamente como Chamberlain e Daladier, em 1938). Frau Merkel está em contato direto com Vladimir, que também tem conversado bem com Obama…

Portanto, parece que o espírito de Munique deve imperar na crise da Ucrânia. Os russos ficam com a Crimeia, os ocidentais saem eufóricos após conseguirem garantir a integridade do território ucraniano (tá, porque a Crimeia, repita-se, não é território ucraniano) e a manutenção dos exércitos russos do outro lado da fronteira, e o mundo suspira aliviado porque não chegamos a um conflito direto entre as grandes potências (exatamente como em Munique, em 1938).

Mas falta um ator nesse cenário… Ah, sim! A Ucrânia! E como ficam os ucranianos? Ficam na sala ao lado, esperando o resultado da negociação em que os ocidentais os salvarão dos russos. Simples assim. E que os ucranianos possam se contentar em manter sua independência e, de fato, a existência de seu país (exatamente como aconteceu com os tchecos, em 1938).

Exatamente como aconteceu em 1938, tudo ficará bem! Claro que, depois de perder os Sudetos, a Tchecoslováquia entrou em colapso, seu território foi dilacerado, com outros países tomando seus nacos ao norte, ao sul e ao leste, a economia entrou em crise e, alguns meses depois, os alemães “marchavam pacificamente” sobre as ruas da belíssima Praga, que seria a capital do Protetorado (alemão) da Boêmia e Morávia. Sim, alguns meses após a Conferência de Munique, a Tchecoslováquia sucumbiu… Mas o mundo estava em paz… Até que, um ano depois, começou a II Guerra Mundial.

Na crise da Ucrânia, portanto, esperemos que tudo acabe de maneira pacífica, e que seja restabelecida a harmonia entre os povos. Exatamente como aconteceu em Munique, em 1938.

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Mobilização e “Atos de Guerra”

ukranian presidentHá muito não vivíamos momentos de tamanha tensão… O Primeiro-Ministro ucraniano declarou mobilização total de suas (frágeis) forças armadas. Disse, ainda, que considera as ações de Moscou uma “declaração de guerra” – termos fortes, ainda mais em um momento de tamanha crise… 

A Crimeia já está ocupada pelos russos, e as lideranças locais declaram-se sob a proteção de Moscou (isso lembrou-me muito a situação em Dantzig, em agosto de 1939). Para complicar mais, o novo comandante da força naval ucraniana, empossado há dois dias, acabou de manifestar lealdade à Rússia e criou-se a “frota da Crimeia” com as naus que estavam em Sebastopol (ao lado da frota russa do Mar Negro) – ontem, eu disse aqui que isso logo poderia acontecer.

_73313166_76e8d616-6be8-4613-9a31-741d2fd20c38No Ocidente, a OTAN repudia a ofensiva russa… mas, por enquanto, fica só em palavras. O problema é que logo a Aliança Atlântica pode-se ver obrigada a agir, com fundamento no acordo de segurança firmado com Kiev há alguns anos. Situação muito parecida com a de Grã-Bretanha e França com relação à Polônia às vésperas da II Guerra Mundial. O apaziguamento tem limites…

Da parte de Washington, John Kerry também usou termos fortes, sobretudo quando vindos de um Secretário de Estado: falou em “atos de agressão” dos russos, dando sinal de que os norte-americanos já estariam considerando a tradicional justificativa “moral” para agir ou para pressionar Moscou mais ainda. O Kremlin, por sua vez, permanece inabalável na defesa dos interesses russos em sua natural área de influência. Parecem tempos de Guerra Fria… Só que Obama não é Kennedy, e tampouco Putin é Krushev. As próximas horas serão decisivas.

ukraine-crisisMobilização, ameaças, segurança coletiva, alianças militares, intervenções militares, atos de guerra, declaração de guerra. Na condição de historiador, fica difícil saber em que época estamos.

Segue matéria muito interessante da Reuters sobre o desenrolar da crise…

Ukraine mobilizes after Putin’s ‘declaration of war’

Photo
4:36pm EST
Reuters – By Natalia Zinets and Alissa de Carbonnel

KIEV/BALACLAVA, Ukraine (Reuters) – Ukraine mobilized for war on Sunday and Washington threatened to isolate Russia economically, after President Vladimir Putin declared he had the right to invade his neighbor in Moscow’s biggest confrontation with the West since the Cold War.

“This is not a threat: this is actually the declaration of war to my country,” Ukraine’s Prime Minister Arseny Yatseniuk said in English. Yatsenuik heads a pro-Western government that took power when the country’s Russia-backed president, Viktor Yanukovich, was ousted last week. Continuar lendo