A Capital Imperial e seu Metrô (Operação Outubro Vermelho)

Quando Pedro I construiu São Petersburgo, seu objetivo era mostrar ao mundo uma Rússia moderna, a qual ele pretendia inserir no clube das potências mais avançadas de seu tempo. A nova capital seria a vitrine do maior império da terra e em nada deixaria a desejar às principais cidades europeias em termos de arquitetura e urbanismo.

Assim, o primeiro Czar a se chamar de Imperador governaria a partir de uma belíssima capital, uma cidade projetada para evidenciar a grandeza da Rússia. Indubitavelmente, Pedro teve grande êxito em seu projeto!

As primeiras impressões de São Petersburgo são de um cidade clássica. A grandiosidade da antiga capital se revela em suas largas avenidas cortadas por canais, os quais se atravessa sobre pontes que por si são obras de arte. Mesmo com as sete décadas de comunismo, a cidade conseguiu conservar as características daquela que fora uma das mais belas capitais europeias dos séculos XVIII e XIX: palácios, teatros, igrejas grandiosos…

O centro histórico está muito bem preservado... E, caminhando por ali, por exemplo, da estação de trem até o Palácio de Inverno pela Avenida Nevsky, você observará belas lojas, vitrines suntuosas, estátuas e monumentos e uma harmoniosa beleza do século XXI pós-soviético inseridos em construções que resistiram às transformações dos últimos cem anos. É, realmente, como voltar no tempo…

Na primeira manhã na Rússia, Adriana, Gustavo e eu fomos passear pela cidade. Seguimos para a estação de metrô mais próxima do hotel para comprar bilhetes de viagens ilimitadas para uma semana – essa é uma boa alternativa se você for ficar pelo menos cinco dias… Assim, poderíamos nos deslocar, como quiséssemos e o tanto que julgássemos necessário, por todo o sistema de transporte urbano.

A estação era Ploshchad Vosstaniya, muito particular em sua arquitetura, é uma das primeiras do metrô de São Petersburgo, inaugurada em 1955 e cuja profundidade é de 58 (isso, cinquenta e oito) metros! Lembre-se que o metrô deveria converter-se em abrigo antiaéreo, inclusive com uma estrutura que protegesse a população (ao menos em tese) contra ataques nucleares.

A estação Ploshchad Vosstaniya

Assim, para chegar às plataformas, você desce por uma escada rolante que parece levar às profundezas da Terra… E, o que me chamou a atenção, no final da escada há uma “guarita” com um funcionário do metrô (ali os funcionários na guarita eram todos senhoras idosas de uniforme – típicas “avós” russas) e um telefone, o que nos remete automaticamente aos tempos da URSS, onde o “guarda do metrô” deveria ficar ali para “fiscalizar” os milhares de transeuntes que usavam o sistema de transporte – achei interessante! Por óbvio, a pergunta que me fiz era se aquelas senhoras estavam ali desde os tempos de Krushev (as mesmas mulheres, claro!)…

A dica de hoje, portanto, é: vá passear de metrô em São Petersburgo. Claro, a superfície é belíssima e interessante, mas os subterrâneos têm seu charme e merecem um tempinho para que se conheça algumas estações. Mesmo não tendo a decoração suntuosa do metrô de Moscou (construído a mando de Stálin para que cada estação fosse um “palácio subterrâneo para o povo”), o metrô de São Petersburgo também tem lugares belos e inusitados, com estátuas, afrescos e pinturas, estações que merecem ser conhecidas. E o bom é que você ainda vai para onde quiser!

Naturalmente, continuarei a falar de São Petersburgo nas próximas semanas. Mas o que percebi ao chegar àquela cidade, é que estava realmente na capital da Rússia. Mas e Moscou? Moscou, eu descobriria, também fascinante, é a capital da União Soviética. Essa foi a minha sensação: mesmo enquanto foi Leningrado (e apesar disso), São Petersburgo não perdeu sua majestade!

Mais adiante falarei das impressões sobre o povo e o ambiente. Antecipo que a gente de São Petersburgo é bem diferente da gente de Moscou (achei o povo nas duas cidades atencioso e simpático, mas ficavam claras suas diferenças). Numa comparação simplória, associaria São Petersburgo ao Rio de Janeiro, e Moscou a São Paulo! A conferir…

As cortes europeias entre 1843 e 1944

IMG_20190810_194918_365Como hoje é o dia do livro, faço referência a uma interessante obra que estava a consultar dia desses… Chama-se Les Cours d’Europe – Histoire d’un Siècle, 1843-1944, e é uma publicação da Revista L’Illustration, um semanário fundado em 1843, e que marcou a França durante a Belle Époque e a primeira metade do século XX. L’Illustration foi o primeiro periódico francês a publicar uma fotografia (em 1891) e também o primeiro a publicar uma foto colorida (em 1908). Em 1957, após inúmeros problemas relacionados inclusive ao colaboracionismo de seus editores durante a Segunda Guerra Mundial, a revista foi à falência e encerrou definitivamente suas atividades.

A obra, portanto, reúne uma série de reportagens e publicadas por L’Illustration nos seus tempos áureos. Descreve um pouco da vida e da história das Casas europeias reinantes no período, dos Windsor (com uma bela foto da Rainha Victoria e três gerações de descentes que reinaram no trono britânico) à Casa dos Romanov (brutalmente executada pelos bolcheviques em julho de 1918).

O que gostei no livro foi de conhecer um pouco mais sobre os antepassados dos atuais soberanos europeus (para aqueles que acham que a monarquia é coisa do passado, lembro que entre as 10 nações mais desenvolvidas do planeta, a maioria é composta por monarquias, como o Reino Unido, a Espanha, a Suécia, a Noruega, a Holanda, a Bélgica, e o Luxemburgo, além, é claro, do Império do Sol Nascente, o Japão).

Fatos inusitados são ali narrados. Certamente, conhecer a história dessas pessoas é positivo para a causa monárquica. Dessa maneira, consegue-se entender muito do lado humano da realeza se percebe o quanto esses Casas, reinantes ou não, são nada mais que “famílias”, o que naturalmente as aproxima do povo. Quem conhece a vida de reis e príncipes modernos (de monarquias constitucionais, que fique o registro) bem sabe o quanto são pessoas simples, comprometidas com suas funções de Estado (dificílimas, por sinal), sem vida privada, patriotas e amantes de seu povo e seu país.

O livro é rico em histórias e em ilustrações, portanto. Nesse sentido, lendo sobre Dom Manuel II, de Portugal, descobri que o último monarca português nasceu exatamente no dia 15 de novembro de 1889, ou seja, na data do golpe de estado que pôs fim ao Império do Brasil. Coincidência? Não sei. Definitivamente, os Bragança nos surpreendem sempre!

Terça, dia do livro!

Muito bem, meus queridos 16 leitores! Como havia prometido, as terças-feiras serão consagradas a uma de minhas grandes paixões – e que, tenho certeza, é também a de 11 em cada 10 seguidores de Frumentarius: os livros!

Assim, a ideia é a cada terça publicar algo sobre livros, por exemplo, comentários referentes a alguma obra que esteja lendo, bem como alguma matéria de interesse de apreciadores dessa maravilhosa peça provocadora da imaginação e geradora de emoções! Nesse sentido, impressionante o quanto repercutiu nosso desabafo, “Livro, um péssimo negócio!“, que alcançou mais de 4 mil visualizações em três dias! (Para alguém que não tem maiores pretensões que as de poder compartilhar com os amigos suas reflexões sobre um pouco de tudo, o alcance realmente superou quaisquer expectativas.)

Pois muito bem! Fique sabendo que toda terça teremos pelo menos um post sobre livros. Espero que goste!

Como “prólogo” dessa nova categoria de publicações de Frumentarius, quero compartilhar com vocês um vídeo sobre meu cantinho, meu lugar sagrado, onde reúno meus livros e posso relaxar e me dedicar à leitura e à reflexão. Conheçam a minha biblioteca! Abraço!

PS: Consultas no local, mediante agendamento prévio e acompanhadas do bibliotecário!

George e Nicky – razões de família versus imperativos de Estado

Dia desses, quando postei em minhas páginas no Facebook e no Twitter (siga-nos lá!) sobre um livro que tratava das Casas Reais Europeias, a foto da capa causou dúvida aos leitores. Quem era o casal real ali representado? Alguns amigos pensaram que eram Nicolau II e sua esposa Alexandra, os últimos Romanov a governar a Rússia. Surpreenderam-se quando disse que não eram eles… Mas quem seriam então?

A resposta: era uma foto de George V, do Reino Unido, e de sua esposa, Vitória Maria de Teck. “Mas como? Parece tanto com o Czar Nicolau II!”. Não se preocupe, essa confusão é mais comum do que se imagina…

Confundir George V e Nicolau II não é nada de absurdo. Os dois eram primos-irmãos (a mãe de Nicolau era irmã da mãe de George), e realmente se pareciam muito. Ambos os monarcas, assim como suas esposas, eram todos descendentes da Rainha Victoria (como a maioria absoluta dos soberanos europeus, diga-se de passagem).

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De fato, George e Nicky (como o Czar era chamado pelos parentes mais próximos) gostavam de brincar com essa grande semelhança. Não eram raras as vezes em que posavam para fotos vestindo os uniformes um do outro ou propositalmente confundiam aqueles que com eles se encontravam, pregando-se-lhes peças. Note-se que o soberano russo falava inglês sem sotaque e, sobretudo quando jovem, frequentava muito a corte britânica. A Czarina Alexandra (nascida Alice), por sua vez, era uma princesa alemã, mas passara grande parte da infância no Reino Unido, tornando-se muito próxima da avó materna, a Rainha Victoria.

Portanto, os dois soberanos eram bons amigos, desde a infância. Na juventude, conviveram bastante. Uma curiosidade: chegou-se a cogitar que a princesa Alice de Hesse iria se casar com George (o que, se tivesse acontecido, faria dela a futura esposa do Rei da Inglaterra). Entretanto, Alice apaixonou-se perdidamente por outro príncipe, seu primo Nicky, e “enfrentou” a própria avó (que gostou da impetuosidade da neta) e as “razões de Estado” para se casar com o amor de sua vida. Assim, Alice celebrou o matrimônio com Nicky, que se tornou Nicolau II, da Rússia, e ela própria alterou seu nome para Alexandra Feodorovna, vindo a ser a última Czarina. O casal Romanov teve cinco filhos (as Grão-Duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, e o Czarevich Alexei), seu amor perduraria por toda a vida e Nicolau e Alexandra seriam conhecidos como um dos casais mais apaixonados e verdadeiramente unidos entre as famílias aristocráticas de seu tempo.

Voltando a Nicolau e George, os primos, já soberanos da Rússia e do Reino Unido, respectivamente, veriam-se diante de um dos períodos mais trágicos e importantes da História: a I Guerra Mundial. Juntos, estariam à frente de seus Estados contra a Alemanha, na qual reinava seu outro primo, Guilherme II, também neto direto da Rainha Victoria. E a forma como lidaram com a dicotomia “razão de Estado” versus “razões de família” selaria o imbricado futuro de ambos e o destino de suas famílias e de seus tronos.

Não é exagero dizer que a Grande Guerra foi um conflito entre irmãos. Como consequência daqueles anos de morte, sofrimento e destruição, o Império Alemão ruiria, e Guilherme II se exilaria na Holanda, onde ficaria até o fim da vida, na década de 1940. George continuaria soberano do Reino Unido, país vitorioso da I Guerra Mundial, mas cuja decadência das décadas seguintes já dava os primeiros sinais. Quanto a Nicky, seria tragado pelos acontecimentos que o levariam à abdicação e consequente fim da monarquia na Rússia e dos trezentos anos de autocracia dos Romanov. Seu fim e o de sua amada família constituiriam um dos mais trágicos acontecimentos do século que se iniciava.

Após a abdicação, Nicolau Romanov, Alexandra e os filhos ficaram sob custódia do Governo Provisório. Visto como uma ameaça por aqueles que temiam a restauração monárquica, o antigo Soberano de Todas as Rússias tornou-se uma peça importante no tabuleiro político interno e seu destino uma questão de cunho internacional. Sua integridade e a de sua família estariam ameaçadas se permanecessem na Rússia, apesar das garantias do Governo Provisório de que ninguém tocaria no ex-Czar e nos seus. Começaram as negociações para que os Romanov partissem para o exílio, tendo como principal destino o Reino Unido. E aí começa o drama que mostrou a fraqueza de George e sua conduta reprovável, mas também a sua submissão às “razões de Estado” e a preocupação com a preservação da monarquia britânica.

Imediatamente após a abdicação, na primavera de 1917, o Governo Britânico chegou a oferecer asilo para o Czar e sua família. A pedido do Rei George, o Embaixador britânico em Petrogrado, George Buchanan, apresentou formalmente a oferta do Governo de Sua Majestade de abrigo para os Romanov no Reino Unido.

Entretanto, enquanto seguiam as negociações sobre o destino de Nicolau e família, aumentava a pressão do Gabinete de Sua Majestade contra o abrigo aos Romanov em solo britânico – o próprio Lloyd George, Premier do Reino Unido, era contrário a receber o “tirano” Nicolau em seu país de tradição liberal e democrática. A reação negativa da opinião pública crescia a cada dia, e havia argumentos de que a vinda dos Romanov para a Inglaterra poderia por em questão até a própria monarquia britânica.

George teve então que decidir sobre a acolhida de seus primos. Se as razões de sangue faziam-lhe querer ter seus familiares consigo, e garantir-lhes a segurança, os imperativos de Estado (ao menos era o que argumentavam os políticos) o impeliam a voltar atrás na proposta de asilo.

O monarca britânico decidiu. Aquela deve ter sido a mais difícil resolução de sua vida – como o fora a abdicação do primo Nicolau, alguns dias antes. Cedeu ao apelo dos políticos e lavou as mãos quanto ao destino de Nicky e sua família. Londres ordenou a Buchanan que voltasse atrás na oferta de asilo. E assim foi feito.

Tendo seu primo inglês dado-lhe as costas, Nicolau viu sua situação agravada nos meses seguintes. Tornou-se verdadeiro cativo do Governo Provisório. Com o golpe bolchevique de outubro de 1917, a desgraça se abateria definitivamente sobre aquela bela família. Levados como prisioneiros para a Sibéria, transportados às pressas de uma cidade a outra, em condições cada vez mais complexas e difíceis, Nicolau, Alexandra e os filhos enfrentariam seu trágico destino em julho de 1918, massacrados pelos algozes bolcheviques a mando do próprio Lênin. Triste fim para o último Czar.

Sempre me pergunto se a decisão de Nicolau em abdicar foi a mais acertada. Mesmo com sua situação como soberano tremendamente complicada, será que não deveria ter continuado no trono, e sido mais resoluto no trato dos problemas de Estado? Será que deveria ter escutado menos a sua amada Alexandra? Indiscutivelmente, a decisão de abdicar teve como fator preponderante a família: Nicolau sabia que Alexei, com sua hemofilia grave, jamais poderia se tornar o Czar. E acreditava sinceramente que, sem as responsabilidades de um monarca autocrático, poderia se dedicar plenamente a sua família e cuidar de maneira mais efetiva de seu filho doente. Abdicou em favor de seu irmão Mikhail, sem consultá-lo. E Mikhail, ele próprio, não quis o fardo de soberano, o que agravou a crise e provocou a queda da monarquia e o fim da dinastia dos Romanov à frente da Rússia.

George, por sua vez, optou pelos imperativos de Estado – os quais, certamente, também envolviam a preservação do trono. Difícil não associar a decisão abnegada de George V (que também, repito, pode ser entendida como submissão disciplinada e razoável aos interesses de Estado) ao triste destino dos Romanov (sobre o qual também a hesitação de Nicolau, especialmente no contexto de sua abdicação, teve forte influência). Se o Rei tivesse sido mais assertivo com seus ministros, ao menos a Czarina e as crianças poderiam ter sido salvas. Assim, a morte dos primos russos seria realmente indissociável da conduta claudicante do soberano britânico.

Por certo, George nunca se perdoou pelo que aconteceu a Nicolau, Alexandra e sua família. Nunca mais foi o mesmo depois daquilo. E levou para o túmulo a culpa, que, na verdade, era em parte do hesitante Nicky e dos facínoras bolcheviques, cujo ódio e a sofreguidão colocaram a Rússia no caos e conduziram o país a sete décadas de regime autoritário.

A história de George e Nicky é mais um drama entre os grandes dramas relacionados a um mundo romântico que desapareceu com a Guerra de 1914-1918. Passaram-se cem anos, mas essas histórias ainda nos comovem, marcam e emocionam. 

Leningrado, Dia 1 (Operação Outubro Vermelho) – Bônus

Estou aprendendo a editar vídeos. Assim, resolvi fazer este ensaio com um piloto sobre o primeiro dia na capital da Rússia Imperial, São Petersburgo. Fica como bônus pelo atraso na publicação desta quinta, hehehe. Ainda há falhas na edição, mas, repito, estou aprendendo – e, como digo a meus filhos, é errando que se aprende! Espero que gostem!

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Leningrado (Operação Outubro Vermelho)

depositphotos_107401748-stock-photo-saint-petersburg-on-the-mapTudo pronto para o início da primeira fase da Operação Outubro Vermelho! Desembarcaria em Lening…, em São Petersburgo!  O mais natural seria chegar à Rússia por Moscou, mas nosso planejamento envolvia ingressar no país por sua antiga capital, e que fora o epicentro da queda da monarquia e do golpe bolchevique de outubro de 1917.

Inconscientemente, via-me indo para Leningrado. Afinal, esse era o nome que conhecia desde a infância, época em que a humanidade se dividia entre o bloco socialista (comunista, para ser mais preciso), dirigido pela União Soviética, e o mundo livre (nós!), liderado pelos Estados Unidos. Para mim, portanto, aquela bela cidade banhada pelo Rio Neva ainda estava registrada em minha mente como Leningrado, “a cidade de Lênin” – só indo lá mesmo para alterar essa percepção!

Fundada em 1703, por Pedro I, o Grande, como parte do processo de “ocidentalização” da Rússia, São Petersburgo seria a capital do Império dos Czares até 1918 (os bolcheviques transferiram a capital para Moscou temendo a ofensiva alemã, em março daquele ano – vale lembrar que ainda estava em curso a Grande Guerra). De fato, seu aspecto ocidental – que em nada deixa a desejar às mais belas cidades da Itália, França ou Alemanha – seria a forte marca da “Capital do Norte”.

No que concerne ao nome da cidade, com a Grande Guerra, em 1914, o Czar decidiu mudar para Petrogrado (denominação mais “russa” – “grad” é um termo tradicional no idioma para “cidade”). Em 1924, após a morte do facínora que liderou a insurgência bolchevique, Petrogrado recebeu novo nome, Leningrado. Com o fim da União Soviética, em 1991, a cidade voltou a chamar-se São Petersburgo. Curiosidades: o aeroporto ainda mantém o código IATA como “LED”; e a cidade está no Oblast (nome das divisões administrativas, algo como província ou estado federado) de Leningrado.

Mas vamos à Operação Outubro Vermelho! Decolei de Brasília para Guarulhos (SP) – pois a capital federal do Brasil tem menos de meia dúzia de voos com destinos internacionais -, onde encontrei Adriana e Gustavo.  Ali no aeroporto, gosto de comer no Olive Garden, que fica bem perto do embarque internacional (a comida é boa, pode-se passar o tempo, e o preço… preço de aeroporto, né? Prepare-se…). Nossa conexão foi por Londres e chegamos a São Petersburgo (LED) no final da tarde!

Tentemos descrever a emoção! Pisando em solo sov…, russo! Que bacana! Íamos conhecer a Terra dos Czares! O coração acelera. Viagem longa… cansado… Mas estava lá! E que bacana ver tudo escrito em russo! E os avisos em cirílico! Sim, estávamos mesmo na Rússia!

Fui tenso para a imigração (sempre fico tenso na imigração, pois a maior autoridade do universo é o oficial de imigração! Se ele encrencar com você, pode até não deixar que entre no país, mandá-lo de volta ou mantê-lo detido por horas!).  Como seria na Rússia? Lembro que, no passado, a guarda de fronteira ficava a cargo do KGB, e que nem todo lugar é como no Canadá, onde o oficial de imigração lhe recebe com um sorriso, um bom dia e um “bem-vindo ao Canadá!” – isso quando, com uma simpatia sincera, não lhe pergunta sobre o Brasil, como está a situação política e a economia (asseguro que já aconteceu comigo, e é por isso que gosto demais do Canadá!)…

Procedimentos de imigração rápidos e descomplicados, tanto para mim quanto para Gustavo e Adriana, que passaram por outro guichê. Troquei com o guarda de fronteira duas ou três palavras antes do carimbo no meu passaporte. A Rússia já me acolhia bem! E isso era um ótimo sinal! Primeira etapa (imigração) concluída sem problemas!

Já com as malas em mãos (tudo certo também), saímos e lá no portão já estava nosso receptivo! (Excelente serviço contratado pela Tchayka!). Entramos os três em uma van. Já estava um pouco frio (lembre-se de levar gorro, luvas, cachecol e casacão – você vai precisar). E seguimos para o hotel, tendo as primeiras impressões da segunda maior cidade do maior país do mundo. Nos arredores, muitos prédios ao estilo soviético – com o qual estou familiarizado por viver em Brasília. Parecia uma viagem no tempo, e eu ficava imaginando quem seriam as pessoas que moravam naqueles blocos de apartamentos dos anos sessenta, como viviam, qual seria sua história… Gosto de gente, e as histórias de gente me fascinam!

Chegando ao hotel, outra grata surpresa: localização excelente! Nosso hotel, o Park Inn by Radisson, está em na Avenida Nevsky, provavelmente a mais importante (ou pelo menos uma das mais históricas) da cidade! Fica defronte a Moskovsky Vokzal (a estação de onde, como diz o próprio nome, partem os trens para Moscou – só por curiosidade, nos tempos pré-soviéticos, a estação se chamava Nikolaevsky, em homenagem ao Czar Nicolau I).

Se a localização é excelente para quem gosta de caminhar (muita coisa pode, e deve, ser feita a pé em São Petersburgo), o Park Inn também é próximo à estação do metrô. Trata-se de um hotel moderno com excelentes quartos – eu gostei. Recepção simpática, mesmo quando pedem seu passaporte para fazer uma cópia de algumas páginas – não estranhe, é assim mesmo na Rússia, por razões de segurança; só recomendo que você espere até que o recepcionista lhe devolva o passaporte em vez de deixar para pegar depois (eu faço assim, separo-me o mínimo possível de meu passaporte).

Outro ponto forte do Park Inn: o restaurante é um restaurante típico de comida… alemã! Isso mesmo! É o Paulaner Restaurant, onde servem também um café da manhã dos melhores que já experimentei. Enfim, a escolha da Tchayka para a hospedagem em São Petersburgo foi nota dez! E só seria superada pela do hotel em Moscou (sobre o qual falarei em outro post)!

Devidamente alojados, fomos descansar… Que nada! Descansar é para os fracos! Fomos é explorar o entorno! Sempre faço isso, e Adriana e Gustavo, como excelente companhia que são, foram juntos na etapa do reconhecimento!

Cidade linda! Lembra muito as ruas Paris, só que banhadas por canais (já chamaram São Petersburgo de Veneza do Oriente). Prédios no estilo neoclássico, com poucos andares… a gente se sente rapidamente voltando no tempo, e começa a imaginar como era aquela bela cidade na virada do século XIX para o XX! Na Avenida Nevsky, muitas lojas, casas de câmbio e bancos – ali andamos um pouco, comparando os preços, e acabamos trocando nossos dólares por rublos em um banco (no final do dia!). Depois, fomos comprar um cartão pré-pago, também na Nevsky, para ter acesso à internet.

20171031_193539Já disse aqui que a internet e a telefonia em geral na Rússia são baratas. Graças às dicas da Olga, pagamos cerca de 450 rublos (uns 25 reais) por internet ilimitada e 60 minutos (acho) de ligação local para duas semanas! E, repito, funcionou que foi uma beleza! Afinal, o país tem uma enorme cobertura satelital, investe em ciência e tecnologia, e as comunicações são ótimas – se o Governo sabe de tudo o que você está fazendo graças àquele chip, isso não é problema meu… ao menos funciona (ao contrário de outros lugares). E fomos bater perna!

Caminhamos na noite de São Petersburgo! Pela Avenida Nevsky, muitas lojas, prédios belíssimos, luzes em toda parte! Já começava a decoração de Natal, o que fazia ainda mais bonita aquela que era a grande rua do comércio desde os tempos dos czares! Quanta coisa não tinha acontecido ali! Quantos episódios marcantes aqueles prédios não haviam testemunhado!  De passeios matinais da aristocracia russa da belle époque às passeatas de protesto contra o governo e aos combates entre forças do czar e os revoltosos, passando pela terrível fome do inverno de 1918, pelo colapso da cidade nos 1000 dias do cerco de Leningrado durante a Segunda Mundial e chegando-se à transformação da cidade com o fim do comunismo! Muita história, muita vida! E caminhamos, caminhamos, caminhamos!

Paramos em uma lojinha de souvenires (como tantas outras que há ali) e então, outra surpresa: atendeu-nos, em um português quase perfeito, Kristina Rafaelovna, uma jovem russa, bonita, simpática e apaixonada pelo Brasil! Conversamos muito, sempre impressionados com seu excelente português. No final, compramos alguns presentes e Kristina nos indicou um restaurante georgiano, o ChaCha! E assim lá fomos para nossa primeira refeição em solo russo! E foi espetacular!

20171031_202943.jpgVoltamos para casa contentes e satisfeitos, bem alimentados, com fotos tiradas, goiabas na bolsa (“goiaba” é meu nome carinhoso para essas lembrancinhas), e realizados com nossas primeiras horas naquela maravilhosa cidade! Claro, antes de voltar para o hotel, descobri minha primeira livraria na Rússia! Mas isso será tratado no post da próxima quinta…

Na próxima semana, também vou contar mais sobre o ChaCha, e sobre como foi a experiência de testar minhas habilidades em russo no restaurante. Até lá!

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