George e Nicky – razões de família versus imperativos de Estado

Dia desses, quando postei em minhas páginas no Facebook e no Twitter (siga-nos lá!) sobre um livro que tratava das Casas Reais Europeias, a foto da capa causou dúvida aos leitores. Quem era o casal real ali representado? Alguns amigos pensaram que eram Nicolau II e sua esposa Alexandra, os últimos Romanov a governar a Rússia. Surpreenderam-se quando disse que não eram eles… Mas quem seriam então?

A resposta: era uma foto de George V, do Reino Unido, e de sua esposa, Vitória Maria de Teck. “Mas como? Parece tanto com o Czar Nicolau II!”. Não se preocupe, essa confusão é mais comum do que se imagina…

Confundir George V e Nicolau II não é nada de absurdo. Os dois eram primos-irmãos (a mãe de Nicolau era irmã da mãe de George), e realmente se pareciam muito. Ambos os monarcas, assim como suas esposas, eram todos descendentes da Rainha Victoria (como a maioria absoluta dos soberanos europeus, diga-se de passagem).

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De fato, George e Nicky (como o Czar era chamado pelos parentes mais próximos) gostavam de brincar com essa grande semelhança. Não eram raras as vezes em que posavam para fotos vestindo os uniformes um do outro ou propositalmente confundiam aqueles que com eles se encontravam, pregando-se-lhes peças. Note-se que o soberano russo falava inglês sem sotaque e, sobretudo quando jovem, frequentava muito a corte britânica. A Czarina Alexandra (nascida Alice), por sua vez, era uma princesa alemã, mas passara grande parte da infância no Reino Unido, tornando-se muito próxima da avó materna, a Rainha Victoria.

Portanto, os dois soberanos eram bons amigos, desde a infância. Na juventude, conviveram bastante. Uma curiosidade: chegou-se a cogitar que a princesa Alice de Hesse iria se casar com George (o que, se tivesse acontecido, faria dela a futura esposa do Rei da Inglaterra). Entretanto, Alice apaixonou-se perdidamente por outro príncipe, seu primo Nicky, e “enfrentou” a própria avó (que gostou da impetuosidade da neta) e as “razões de Estado” para se casar com o amor de sua vida. Assim, Alice celebrou o matrimônio com Nicky, que se tornou Nicolau II, da Rússia, e ela própria alterou seu nome para Alexandra Feodorovna, vindo a ser a última Czarina. O casal Romanov teve cinco filhos (as Grão-Duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, e o Czarevich Alexei), seu amor perduraria por toda a vida e Nicolau e Alexandra seriam conhecidos como um dos casais mais apaixonados e verdadeiramente unidos entre as famílias aristocráticas de seu tempo.

Voltando a Nicolau e George, os primos, já soberanos da Rússia e do Reino Unido, respectivamente, veriam-se diante de um dos períodos mais trágicos e importantes da História: a I Guerra Mundial. Juntos, estariam à frente de seus Estados contra a Alemanha, na qual reinava seu outro primo, Guilherme II, também neto direto da Rainha Victoria. E a forma como lidaram com a dicotomia “razão de Estado” versus “razões de família” selaria o imbricado futuro de ambos e o destino de suas famílias e de seus tronos.

Não é exagero dizer que a Grande Guerra foi um conflito entre irmãos. Como consequência daqueles anos de morte, sofrimento e destruição, o Império Alemão ruiria, e Guilherme II se exilaria na Holanda, onde ficaria até o fim da vida, na década de 1940. George continuaria soberano do Reino Unido, país vitorioso da I Guerra Mundial, mas cuja decadência das décadas seguintes já dava os primeiros sinais. Quanto a Nicky, seria tragado pelos acontecimentos que o levariam à abdicação e consequente fim da monarquia na Rússia e dos trezentos anos de autocracia dos Romanov. Seu fim e o de sua amada família constituiriam um dos mais trágicos acontecimentos do século que se iniciava.

Após a abdicação, Nicolau Romanov, Alexandra e os filhos ficaram sob custódia do Governo Provisório. Visto como uma ameaça por aqueles que temiam a restauração monárquica, o antigo Soberano de Todas as Rússias tornou-se uma peça importante no tabuleiro político interno e seu destino uma questão de cunho internacional. Sua integridade e a de sua família estariam ameaçadas se permanecessem na Rússia, apesar das garantias do Governo Provisório de que ninguém tocaria no ex-Czar e nos seus. Começaram as negociações para que os Romanov partissem para o exílio, tendo como principal destino o Reino Unido. E aí começa o drama que mostrou a fraqueza de George e sua conduta reprovável, mas também a sua submissão às “razões de Estado” e a preocupação com a preservação da monarquia britânica.

Imediatamente após a abdicação, na primavera de 1917, o Governo Britânico chegou a oferecer asilo para o Czar e sua família. A pedido do Rei George, o Embaixador britânico em Petrogrado, George Buchanan, apresentou formalmente a oferta do Governo de Sua Majestade de abrigo para os Romanov no Reino Unido.

Entretanto, enquanto seguiam as negociações sobre o destino de Nicolau e família, aumentava a pressão do Gabinete de Sua Majestade contra o abrigo aos Romanov em solo britânico – o próprio Lloyd George, Premier do Reino Unido, era contrário a receber o “tirano” Nicolau em seu país de tradição liberal e democrática. A reação negativa da opinião pública crescia a cada dia, e havia argumentos de que a vinda dos Romanov para a Inglaterra poderia por em questão até a própria monarquia britânica.

George teve então que decidir sobre a acolhida de seus primos. Se as razões de sangue faziam-lhe querer ter seus familiares consigo, e garantir-lhes a segurança, os imperativos de Estado (ao menos era o que argumentavam os políticos) o impeliam a voltar atrás na proposta de asilo.

O monarca britânico decidiu. Aquela deve ter sido a mais difícil resolução de sua vida – como o fora a abdicação do primo Nicolau, alguns dias antes. Cedeu ao apelo dos políticos e lavou as mãos quanto ao destino de Nicky e sua família. Londres ordenou a Buchanan que voltasse atrás na oferta de asilo. E assim foi feito.

Tendo seu primo inglês dado-lhe as costas, Nicolau viu sua situação agravada nos meses seguintes. Tornou-se verdadeiro cativo do Governo Provisório. Com o golpe bolchevique de outubro de 1917, a desgraça se abateria definitivamente sobre aquela bela família. Levados como prisioneiros para a Sibéria, transportados às pressas de uma cidade a outra, em condições cada vez mais complexas e difíceis, Nicolau, Alexandra e os filhos enfrentariam seu trágico destino em julho de 1918, massacrados pelos algozes bolcheviques a mando do próprio Lênin. Triste fim para o último Czar.

Sempre me pergunto se a decisão de Nicolau em abdicar foi a mais acertada. Mesmo com sua situação como soberano tremendamente complicada, será que não deveria ter continuado no trono, e sido mais resoluto no trato dos problemas de Estado? Será que deveria ter escutado menos a sua amada Alexandra? Indiscutivelmente, a decisão de abdicar teve como fator preponderante a família: Nicolau sabia que Alexei, com sua hemofilia grave, jamais poderia se tornar o Czar. E acreditava sinceramente que, sem as responsabilidades de um monarca autocrático, poderia se dedicar plenamente a sua família e cuidar de maneira mais efetiva de seu filho doente. Abdicou em favor de seu irmão Mikhail, sem consultá-lo. E Mikhail, ele próprio, não quis o fardo de soberano, o que agravou a crise e provocou a queda da monarquia e o fim da dinastia dos Romanov à frente da Rússia.

George, por sua vez, optou pelos imperativos de Estado – os quais, certamente, também envolviam a preservação do trono. Difícil não associar a decisão abnegada de George V (que também, repito, pode ser entendida como submissão disciplinada e razoável aos interesses de Estado) ao triste destino dos Romanov (sobre o qual também a hesitação de Nicolau, especialmente no contexto de sua abdicação, teve forte influência). Se o Rei tivesse sido mais assertivo com seus ministros, ao menos a Czarina e as crianças poderiam ter sido salvas. Assim, a morte dos primos russos seria realmente indissociável da conduta claudicante do soberano britânico.

Por certo, George nunca se perdoou pelo que aconteceu a Nicolau, Alexandra e sua família. Nunca mais foi o mesmo depois daquilo. E levou para o túmulo a culpa, que, na verdade, era em parte do hesitante Nicky e dos facínoras bolcheviques, cujo ódio e a sofreguidão colocaram a Rússia no caos e conduziram o país a sete décadas de regime autoritário.

A história de George e Nicky é mais um drama entre os grandes dramas relacionados a um mundo romântico que desapareceu com a Guerra de 1914-1918. Passaram-se cem anos, mas essas histórias ainda nos comovem, marcam e emocionam. 

Um Reino Desunido e sem queijo com chucrute

FISH CHIPSEra uma vez um Reino muito bonito, de gente honrada, trabalhadora e ordeira, que comia peixe com fritas e onde vivia uma grande e sábia rainha… Como toda monarquia constitucional, quem governava eram representantes do povo, os políticos, escolhidos pela gente trabalhadora, honrada e ordeira comedora de peixe com fritas. Todos viviam felizes e gostavam de sua rainha, que apesar de não governar, representava com grande maestria aquele povo que usava chapéu, guarda-chuva e galochas. E, já havia alguns anos, o reino que era unido se uniu também a um continente onde se comia queijo, chucrute, spaghetti, presunto, azeitonas e também, na falta desses, peixe com fritas.

Certo dia, um político (que era quem realmente governava aquele reino) decidiu fazer uma consulta popular para saber se o reino continuaria unido a outras nações em um próspero bloco continental, onde se podia comer de tudo (inclusive peixe com fritas)… Chamou o povo, que resolveu colocar seu peixe com fritas de lado, pegar seu guarda-chuva e suas galochas, e ir decidir sobre o futuro antes de tomar uma cerveja quente na taverna (mesmo porque o que não falta naquele reino são tavernas onde se pode beber cerveja quente e comer peixe com fritas).

cheese frenchO político achava que todos iriam apoiá-lo na consulta aos comedores de peixe com fritas e permitir que o reino, que era unido, continuasse unido também ao continente onde se comia de tudo. Só que apareceram outros políticos que não queriam o reino unido aos comedores de chucrute e tampouco àquele povo do outro lado do canal que falava uma língua estranha e comia queijo, muito queijo. Também não acharam uma boa ideia dividir seu peixe com fritas com gente que gostava de azeitonas, de spaghetti e de presunto, apesar de se incomodarem mesmo era com aqueles de fora do continente que gostavam de tabule e de grão-de-bico (e que aportavam no reino aos montes fugindo da guerra e da fome).

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Chegou finalmente o dia da votação naquele belo reino onde vivia uma sábia rainha. E 51,9% dos comedores de peixe com fritas que foram votar optaram por se separar do continente… Uma vez que 72% dos comedores de peixe com fritas foram votar, cerca de 37,4 % do total de eleitores optaram pela saída… Isso significa que aproximadamente 62% dos eleitores comedores de peixe com fritas ficarão sem poder se deliciar com queijos (muitos queijos), presuntos (pata negra), azeitonas, spaghetti (al pomodoro) e, claro, chucrute, por causa desses 38% que preferem continuar comendo só peixe com fritas…

bafea7d70aaf1fcd5f4740de03739a2fSou solidário aos 62% de comedores de peixe com fritas que não poderão mais comer outra coisa por causa dos 38% que adoram peixe com fritas! Dizem que é assim que funciona a democracia moderna. Só que democracia direta não é moderna, porque entrega ao povo questões complexas para que se decida de maneira simplória. Quando um político pergunta diretamente ao povo o que ele quer, corre o risco de fazer esse povo acreditar que não precisa de representantes para lhe governar… Aí há o perigo de decisões confusas e fatais… É o que aconteceu com o trabalhador, ordeiro e honrado povo do reino onde se come peixe com fritas… Vai ficar mais difícil comer queijo, presunto, spaghetti, azeitona e chucrute naquela ilha… Talvez se tivessem consultado a sábia rainha…

Plate, knife and fork on Union Jack

 

“O continente está isolado”

Illustration picture of postal ballot papers ahead of the June 23 referendum when voters will decide whether Britain will remain in the European UnionDeterminados acontecimentos nos dão a certeza de que estamos diante de um evento marcante da história da humanidade… Foi assim com o final das duas guerras mundiais, com a chegada do homem à Lua, com a queda do Muro de Berlim, com o discurso final de Gorbatchev no dia 25/12/1991 (seguido da extinção formal da União Soviética), com o início da circulação do Euro, com o 11 de setembro de 2001… Indubitavelmente, 24 de junho de 2016 também entra para a História como a data de mais um desses grandes eventos: o dia do resultado do plebiscito que decidiu que o Reino Unido (RU) deixará a União Européia (UE)…

Não pretendo aqui fazer qualquer grande digressão política, econômica, social, cultural, histórica, espacial, psicológica, sobrenatural no que concerne à saída dos britânicos do bloco europeu, nem sobre os impactos dessa saída para a UE ou para o próprio RU… Tampouco farei qualquer consideração sobre as consequências disso para o Brasil (haverá consequências para o Brasil, certamente). O que pretendo é dedicar algumas linhas a uma percepção inicial e bem pessoal desse evento marcante… Só divagações mesmo.

maxresdefaultComo internacionalista e alguém que vê com bons olhos o processo de integração europeu, fico triste com a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, com todos os seus problemas étnicos, políticos, econômicos, jurídicos, com todos os males causados por um sistema muito burocrático e que se tem mostrado desequilibrado, sob influência de idéias utópicas e imposições corporativas, a União Européia continua uma grande referência de êxito integração. É bonito ver as quatro liberalidades funcionando naquele continente tão diverso. É bonito ver como os europeus conseguiram superar uma situação de guerra fratricida e hoje (com todas suas idiossincrasias) se mostram mais unidos e integrados. Claro que sempre haverá quem assuma um maior protagonismo naquela grande família de nações, e haverá irmãos mais complicados e com problemas, uns mais ricos que outros, uns mais iguais que outros… Entretanto, a ideia de união permanece, em especial junto às novas gerações… E cada vez mais o sentimento de cidadania européia ganha espaço nesse processo evolutivo… “Unidos somos mais fortes”, é a ideia central do bloco.

160515065043_boris_johnson_640x360_getty_nocreditOs britânicos, porém, parecem não compartilhar dessa percepção de que é melhor uma Europa integrada. Não tirarei suas razões, e há argumentos fortes por parte daqueles que defendem a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, a Grã-Bretanha se veria muito engessada pelas instituições, normas e políticas de Bruxelas… Assustam também, argumentam os defensores da saída do bloco, as responsabilidades e os custos de pertencer à União Européia… Nesse sentido, a segunda economia da Europa precisaria estar livre (como sempre esteve) para alçar vôos próprios, com independência e de acordo com seus interesses… Ademais, há a preocupação com o aumento da imigração na Grande Albion (ainda que cheguem/tenham chegado às ilhas britânicas muitos imigrantes altamente qualificados, fluentes em inglês e contributivos para a Economia do país, ao mesmo tempo em que são abertos aos britânicos cerca de três dezenas de países onde eles podem viver, trabalhar, construir o futuro)… Interessante que a alternativa de saída da UE ganhou em regiões com pouca presença de imigrantes… Continuar lendo

Qual o problema da Grã-Bretanha com a Rússia?!?!?!

Encontrei este artigo na versão em inglês do Pravda (tradicionalmente isento, absolutamente imparcial, hehehe). Achei divertido. Não farei maiores comentários…

PS: Para os mais jovens, o Pravda (Пра́вда) foi o principal jornal da União Soviética e um órgão oficial de notícias do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética entre 1918 e 1991. O jornal ainda existe e está em circulação na Rússia, mas ficou mais conhecido nos países ocidentais por seus pronunciamentos durante o período da Guerra Fria (ou seja, pronunciamentos oficiais do Partido Comunista). Hoje, a versão online nada tem a ver com a versão impressa, mas ambos trazem a percepção peculiar do bom e velho Pravda soviético.

O outro grande jornal soviético era o Izvestia (Известия), que também existe ainda hoje, e pertence a estatal russa de notícias. Nos tempos da Guerra Fria, fora da União Soviética, e sobretudo entre as esquerdas da América Latina, exemplares desses jornais eram artigos de luxo para os militantes que sonhavam com a vitória proletária (sei…), e quem tinha um se destacava como bom revolucionário (apesar de, geralmente, não entender uma palavra de russo).

Pravda em russo significa verdade, e Izvestia notícia. Havia inúmeras piadas à época soviética com esses dois diários. Em uma delas, dizia-se que o Pravda nunca trazia notícias e que no Izvestia não havia verdade… 

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Why does Britain have a problem with Russia?

Pravda.ru – 19.02.2015 13:13
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In recent days, the hyperbole has risen to hysteria level with senior members of the British government outdoing each other to make the most infantile, irresponsible, insolent and insulting remarks against Russia and its President, Vladimir Putin. What is Britain’s problem with Russia, the country that shed rivers of blood to free Europe from Fascism?

Only last week, Britain’s Foreign Secretary Philip Hammond was insinuating that Britain might get involved in Ukraine because he would not allow Ukraine’s military forces to collapse, while his boss, Prime Minister Cameron, rudely referred to Russia’s President as “Putin”. Today, we have the Defense Secretary Michael Fallon warning that Russia might use military force against its neighbors, while the British Bullshit Corporation and Lies on Sky ratchet up the anti-Russia hype calling its President a despot, calling Russia’s government “desperate” and insinuating that Moscow might suddenly send the tanks rolling across the frontiers.

Two questions: Is the British public really so gullible that it will swallow that nonsense, or are the purveyors of lies as truth yet again a decade or so behind the times? The answer to the first question is no and the answer to the second is yes.

Everybody knows that Russia and Britain (and France and the USA, among others, including Serbia) stood together just over half a century ago to defeat the worst scourge Europe has seen since the days of Genghis Khan – Adolf Hitler’s Nazi Third Reich. It was a war in which Russia, as part of the Union of Soviet Socialist Republics, lost over 26 million souls freeing Europe from tyranny, racism, homophobia, intolerance and Fascism. Around ninety per cent of  the Wehrmacht losses were incurred on the Eastern Front. Continuar lendo

Separar para quê?

scotland-flag-1_2103925cÉ sempre bom lembrar a meus alunos de Relações Internacionais que o separatismo não é uma exclusividade da Ucrânia na Europa de hoje… Há muitas regiões do continente que clamam por emancipação. Geralmente, no contexto atual de integração européia, o separatismo pode trazer mais prejuízos que benefícios para as novas nações que queiram surgir no Velho Mundo.

Publico aqui interessante artigo da DW sobre o separatismo escocês e o referendo de 18 de setembro, quando os escoceses decidirão se permanecerão no Reino Unido e se constituirão uma nação independente. Sei não, mas acho que seria um tiro fatal no pé essa separação da Escócia. A União existe há três séculos; a Grã-Bretanha é a sexta economia do planeta e os escoceses, apesar de suas diferenças e do sotaque, estão tão inseridos na sociedade britânica que é inconcebível imaginar o povo das terras altas constituindo outro país… Esqueçam separação… a coisa não vai acabar bem…

Os escoceses até poderiam se separar… só queria ver onde ficará a Pedra de Scone, ou Pedra do Destino, na coroação do sucessor de Elizabeth II (se algum dia Elizabeth II vier a falecer…). Para quem não sabe, é uma pedra sobre a qual os reis escoceses eram coroados e que foi tomada pelos ingleses quando conquistaram as terras altas. Desde então, durante séculos a pedra ficou em Londres, e todos os reis ingleses e britânicos a partir de então são coroados sobre essa pedra, que fica embaixo do trono… Recentemente ela foi transferida para Edimburgo, mas com a ressalva, sempre destacada, que continua a pertencer à Coroa Britânica… tradição é tradição.

Reino Unido acirra campanha contra a independência da Escócia

Deutsche Welle, 27/04/2014

Após mais de 300 anos de união, escoceses opinam sobre separação do Reino Unido em referendo marcado para setembro. Governo em Londres faz campanha para reverter o avanço nacionalista entre o eleitorado escocês.

Schottland Unabhängigkeit von Großbritannien

O governo britânico decidiu intensificar a campanha contra o referendo sobre a independência da Escócia, marcado para o dia 18 de setembro. Nesta semana, o secretário-chefe do Tesouro britânico, Danny Alexander, irá a Edimburgo tentar “desfazer mitos” que cercam as reivindicações feitas pelos defensores da separação.

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Luto pela Dama

Margaret-ThatcherDemorei a escrever sobre ela. A correria de ontem e de hoje me impediu de registrar com a clareza devida meu pesar pela transição (é assim que se referem os rosacruzes à morte) daquela que considero uma das grandes mulheres de seu tempo.

O que dizer de Lady Thatcher? Muito já foi dito nas últimas horas. Nada suficiente para que a atual geração entenda quem foi a Dama de Ferro. Junto com Ronald Reagan e João Paulo II, Thatcher compôs o grande triunvirato do mundo livre que, no último quartel do século XX, pôs abaixo a Cortina de Ferro e derrotou o comunismo. Isso já bastaria para tornar aquela senhora inesquecível.

Margaret Thatcher mostrou-se forte quando precisou ser forte. Quanto respondeu à agressão da ditadura argentina, com generais ansiosos por desviar a atenção de seu povo dos problemas domésticos e desafiar um Império que parecia distante e, na percepção machista latino-americana, governado por uma frágil mulher. A Primeira-Ministra era tudo menos frágil. E a senhora de voz firme mostrou-se firme também na defesa da soberania britânica sobre as Falklands.

Margaret-Thatcher2A filha de alfaiate mostrou-se forte também para reformar a economia e a sociedade de seu país. Diante da crise que ameaçava a estabilidade britânica, promoveu reformas que desagradaram a muitos, mas que, a seu ver, eram necessárias. Essas reformas, e a maneira singular com que conduziu o país por 12 anos, dariam origem ao termo “thatcherismo”. Indubitavelmente, a baronesa Thatcher não era uma mulher nada frágil.

A História da Grã-Bretanha é marcada por mulheres fortes. Elizabeth I, Rainha Victoria… ambas deram seus nomes a sua época… Também se pode falar de uma era Thatcher, de um período de grandes transformações no Reino Unido e que reverberaram pela Europa e pelo mundo!

A Grã-Bretanha teve dois memoráveis primeiros-ministros no século XX: Sir Winston Churchill… e Lady Margaret Thatcher… Aquele venceu o nazi-fascismo, esta o comunismo. Ambos foram líderes conservadores enérgicos e sagazes, tinham discurso incisivo, frases de efeito, enfrentaram guerras, encontraram em grandes presidentes dos EUA bons aliados… Churchill e Thatcher conduziram seu povo em horas difíceis, e combateram o bom combate. Churchill e Thatcher deixaram um grande legado!

Não sei mais o que dizer sobre Lady Thatcher… o que sei é que o mundo fica mais triste sem a Dama de Ferro. Eu ao menos fico.

Como não tenho eloqüência tampouco competência para expressar meu sentimento de pesar, concluo essa reflexão com as palavras de meu caro Paulo Kramer, que consegue com primor expor em algumas linhas o sentimento de muitos:

Descanse em paz, baronesa Thatcher! Ao lado de Ronald Reagan e João Paulo II, V. formou a trinca dos estadistas da segunda metade do século 20 que mais admirei. Simplesmente amo aquela sua frase: “A liderança é o oposto do consenso.” É preciso sacudir o conformismo, desafinar o coro dos contentes, denunciar o ‘mais do mesmo’, balançar o coreto — enfim, despertar a humanidade modorrenta para o fato de que a conquista da liberdade, o maior bem da vida individual e social, pressupõe responsabilidade, maturidade e muita coragem; não é coisa para fracotes, covardes, conformistas que só sabem se esconder atrás das plataformas choronas e imaturas dos eternos grupos-vítima. V., Margaret, combateu o bom combate e será sempre uma referência, uma inspiração para todos nós, liberais-conservadores.

Acordei hoje às 05:20 da manhã para uma ida e volta ao Rio de Janeiro. Peço perdão a meus oito leitores por essas linhas truncadas… Morfeu me chama…

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Thatcher e as Falklands

"Ela tem a boca de Marilyn Monroe e os olhos de Calígula". François Mitterand

“Ela tem a boca de Marilyn Monroe e os olhos de Calígula”. François Mitterand

Interessante a liberação de parte dos arquivos britânicos sobre a Guerra das Malvinas/Falklands. Bom para os que estudam processos decisórios das Grandes Potências.

Sobre a matéria aqui postada, algumas observações:

1) Lady Thatcher não foi “pega de surpresa” com a invasão argentina das Falklands”. A própria matéria registra que a inteligência (e sempre a inteligência) já vinha informando dos planos de Buenos Aires.

2) O comentário de Lady Thatcher ilustra bem a insanidade que foi a iniciativa de se atacar as ilhas: “I again stress, I thought that they would be so absurd and ridiculous to invade the Falklands that I did not think it would happen.” Nesse sentido, por melhor que fossem as informações fornecidas pela inteligência, a razão levaria o tomador de decisões a não conceber uma campanha tão “absurda e ridícula”.

malvinasO episódio das Malvinas/Falklands foi fundamental para o colapso da ditadura na Argentina. Também serviu para consolidar a imagem de Thatcher como Dama de Ferro. E os argentinos, que acharam que iriam anexar facilmente as ilhas, acabaram contribuindo para que não ocorressem cortes no orçamento de Defesa do Reino Unido e para implodir definitivamente a imagem dos militares na Argentina, com conseqüências, inclusive orçamentárias, que alcançam nossos dias.

Nesta segunda década do século XXI, as relações entre os dois países continuam delicadas. Para piorar, no aniversário do Conflito, Cristina (sempre Cristina!) começou a provocar Londres com um discurso nacionalista pela e retomada das Malvinas (que, desde o início do século XIX, não são argentinas… e são Falklands!)… Claro que se tem que dar um desconto para demagogia latino-americana, mas…

Em tempo: há pouco, no Jornal da Globo News, Ariel Palacios deu uma aula de História e Jornalismo (pela capacidade de síntese e clareza na exposição) ao falar daqueles acontecimentos de 1982. Considero Palacios um dos grandes correspondentes que temos.

Gosto muito de Lady Thatcher… Aquela foi uma grande mulher na política. Thatcher é coerente. Thatcher é decidida. Thatcher é sexy.

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BBC UK 28 December 2012
 By Peter Biles BBC World Affairs Correspondent
Argentine soldiers in the Falkland Islands

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The 1982 invasion of the Falkland Islands by Argentina took Margaret Thatcher by surprise, newly released government papers have shown.

The then-prime minister only saw it was likely after getting “raw intelligence” two days before the Argentines landed.

Papers released under the 30-year rule show Mrs Thatcher was acutely worried about retaking the islands. Continuar lendo

Mais sobre o Jubileu

Para terminar o domingo, notícia sobre o Jubileu de Diamante de Sua Majestade, Elizabeth II. O dia foi repleto de imagens das comemorações na Grã-Bretanha, em uma clara demonstração do quanto os britânicos amam sua rainha e da importância da monarquia como instituição naquele país. Tudo bem organizado e nos padrões civilizatórios que são a marca daquele Império. Diverti-me até mesmo com as imagens dos “efusivos” protestos contra as comemorações (afinal, o direito de protestar é sagrado em uma democracia!): meia dúzia de manifestantes com homogêneos pequenos cartazes impecáveis e todos bem comportados… Isso é civilização! God Save the Queen!

Back to Queen's Diamond Jubilee

More than one million rain-soaked people have watched the Queen’s 1,000-boat Diamond Jubilee pageant weave its way along the Thames, organisers say. The Queen’s barge travelled among the flotilla of tugs, steamers, pleasure cruisers, dragon boats and kayaks. The London event was the highlight of the Jubilee weekend, but a fly-past was cancelled because of the weather. Continuar lendo

The Act of Settlement

Neste fim-de-semana do Jubileu de Diamante de Sua Majestade, Elizabeth II, segue artigo interessante sobre importante instituição daquela monarquia! Deus Salve a Rainha!

The Act of Settlement

The Act of Settlement of 1701 was designed to secure the Protestant succession to the throne, and to strengthen the guarantees for ensuring a parliamentary system of government. The Act also strengthened the Bill of Rights (1689), which had previously established the order of succession for Mary II’s heirs. Continuar lendo

God Save the Queen! Elizabeth II Regina

Como último post da noite, minha homenagem a Sua Majestade, Elizabeth II, neste fim-de-semana comemorativo do Jubileu de Diamante da soberana! Que Sua Majestade possa permanecer ainda muitos e muitos anos à frente da Casa de Windsor! God Save the Queen!

The Queen is Head of State in the United Kingdom. As a constitutional monarch, Her Majesty does not ‘rule’ the country, but fulfils important ceremonial and formal roles with respect to Government. She is also Fount of Justice, Head of the Armed Forces and has important relationships with the established Churches of England and Scotland.

http://www.royal.gov.uk/MonarchUK/TheMonarchyToday.aspx