O Dia Seguinte

Saudações, meus caros 16 (dezesseis) leitores! Sei que estavam com saudade (eu também estava), mas as últimas duas semanas foram muito agitadas e não consegui publicar nada. Espero que voltemos a nossa programação normal.

Comecemos a semana falando de algo que marcou muitos de minha geração: a possibilidade de uma hecatombe nuclear que poria fim à humanidade! Sim, aqueles que nascemos nos anos setenta ainda viveram a infância com a real ameaça de serem pulverizados em meio a uma guerra da era do átomo!

Os tempos eram complexos. O mundo era dividido entre as duas superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, que dispunham de arsenais com capacidade de destruir o planeta dezenas de vezes… A chamada Guerra Fria poderia esquentar e não sobraria ninguém para contar a história… Eu tinha medo disso quando era moleque.

Aí você deve estar pensando “Como é que um abestado desses, morando no Brasil, poderia pensar em morrer em meio a um conflito nuclear? Tem que ser muito pateta mesmo!”… Por óbvio, praticamente ninguém aqui em Pindorama se preocupava com isso – até porque as pessoas tinham outras coisas para fazer na vida atribulada do Brasil dos anos oitenta…

Mas eu me preocupava! Fazer o quê? E às vezes me pegava deitado na grama, olhando o belo céu azul do Planalto Central e imaginando mísseis intercontinentais cruzando o firmamento e anunciando o fim da minha existência – ok, dificilmente mísseis intercontinentais passariam por aqui, mas eu não sabia disso. Tinha  total consciência de que, mesmo o conflito entre as superpotências e seus mísseis com ogivas destruitoras acontecendo no distante Hemisfério Norte, o holocausto nuclear alcançaria a todos nós aqui ao sul do Equador! Afinal, viriam a radiação e o inverno nuclear! – sim, eu, um garoto de dez, doze anos, me preocupava com essas coisas!

Felizmente, o pior não aconteceu. As superpotências nunca entraram em confronto direto. Os mísseis nunca foram disparados. A Destruição Mútua Assegurada (MAD) garantiu que nem Washington nem Moscou se aventurassem em uma empreitada suicida…

Os anos noventa vieram… O Muro caiu. A União Soviética colapsou. O Ocidente venceu! A www chegou… E eu sobrevivi! (Eu e os outros 7 bilhões de seres humanos que, escapando do apocalipse nuclear, tivemos a oportunidade de continuar destruindo o planeta de maneira mais lenta…)

As lembranças daqueles tempos sombrios ficaram, entretanto, guardadas n’algumas daquelas caixinhas empoeiradas em um canto esquecido da memória. Quando em vez elas aparecem, só para dizer que ainda existem! Nesse sentido, recomendo à geração que não viveu aqueles anos do final da Guerra Fria, que veja o filme “O Dia Seguinte”, clássico sobre o holocausto nuclear que deixou muita gente (eu inclusive) assustada naquela época e esperando a hora final, quando só seríamos poeira e cinzas… As baratas, claro, sobreviveriam!

Segue o link para o filme (esse negócio de internet e youtube é fantástico!):

E se você quiser entrar mesmo no clima dos anos oitenta, taí a versão dublada:

Aproveite! (Antes que o mundo acabe!)

Evolução das Grandes Economias do Globo

Sem maiores comentários, compartilho aqui um vídeo sobre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) das dez maiores Economias do globo, de 1961 a 2017. Interessante como a China sobe de posição na virada do século, alcançando em menos de vinte anos o segundo lugar, mas ainda bem atrás dos Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, apresenta-se entre as dez grandes, mas não consegue alçar vôo. Infelizmente, ainda não alcançamos um patamar civilizatório que nos permita, realmente, evoluir para uma nação desenvolvida – isso tem a ver com aspectos culturais, acredito.

Mais interessante ainda é o segundo vídeo, que apresenta as vinte maiores Economias, considerando-se a Paridade do Poder de Compra (PPP), entre 1980 e 2023, com comentários e explicações sobre as mudanças ocorridas. Sob essa perspectiva, a China já ultrapassou os Estados Unidos. Destaque para a Indonésia, que evolui rapidamente no ranking.

Vale muito conferir!

 

 

Artilharia e Cultura (Operação Outubro Vermelho)

Ainda sem os demais integrantes do grupo, Adriana, Gustavo e eu seguimos a explorar a bela São Petersburgo. Aquele seria um dia cheio e muito andaríamos, daí a importância de começar nossa jornada com um lauto café da manhã – obrigado, Pai, pelo excelente desjejum no restaurante do hotel!

Já de posse de nossos bilhetes de metrô, fomos explorar a cidade de Pedro. A circulação é simples, e se torna mais fácil quando se tem um smartphone com internet. E seguimos a apreciar os monumentos e belos edifícios da antiga capital, e a andar pelas ruas que contavam muitas histórias, enquanto ríamos, tirávamos belas fotos e imaginávamos quanta gente interessante não teria feito aqueles caminhos pelos quais passávamos!

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São Petersburgo, repito, tem inúmeras atrações, de suntuosos monumentos a grandes museus, representando diferentes épocas da história da Rússia, seja o tempo dos czares, sejam os nefastos anos do comunismo. Naturalmente, como não somos turistas comuns, elegemos um museu que é imperdível para quem se interessa por assuntos militares e pela história das guerras: o Museu Militar e Histórico de Artilharia, Engenharia Militar e Tropas de Comunicação – Военно-исторический музей артиллерии, инженерных войск и войск связи (esse é o nome completo do lugar) ou, simplesmente, Museu da Artilharia de São Petersburgo!

Fundado por Pedro I, o Grande, em 1703 já como um Arsenal (depósito de armas), o museu se localiza em uma antiga fundição, no centro histórico da cidade (no número 7, em Aleksandrovsky Park), separado da Fortaleza de São Pedro e São Paulo por um canal. As estações de metrô mais próximas são as de Gorkovskaya e Sportivnaya. Desça em qualquer delas e aproveite uns dez minutos de caminhada!

Quando o visitante chega ao museu, já se depara, logo de cara, com o jardim, no qual estão dezenas de blindados, lançadores de mísseis, canhões de distintos calibres e uma diversidade de veículos militares. Isso é só o prenúncio dos 850.000 objetos que estão ali expostos, em diversas coleções, nas 13 salas que abrangem uma área de 17 mil metros quadrados. Gustavo logo fez amizade com um soldado russo e lá fomos nós tirar foto numa peça (ou canhão, para os leigos) – a propósito, meu amigo paulista tem uma grande capacidade de socialização, o que nos ajudava muito com os locais!

Entre as exposições, você encontrará armas de fogo e brancas, petrechos, munição, os mais distintos equipamentos militares e de engenharia de diversas épocas, material de comunicações, bandeiras, uniformes, pinturas e mapas, condecorações e peças que contam a história da artilharia entre os séculos XIV e XXI (inclusive com uma sala dedicada aos arsenais soviéticos e à Guerra Fria). Quando lá estivemos, havia uma exposição especial sobre os eventos de outro de 1917, com muitas fotos de época – e foi possível perceber como estava frio por ocasião do golpe bolchevique e das semanas que se seguiram ao fim do Governo Provisório (nem de longe uma temperatura tão agradável quanto a que vivenciamos cem anos depois).

Prepare-se para passar algumas horas ali dentro, imerso naquele parque de diversões dos apreciadores da engenhosidade militar e do talento humano para forjar armas! Dos canhões de Pedro I aos troféus conquistados de turcos, franceses e alemães ao longo de mais de 200 anos, passando pelos lançadores de foguete Katiusha, usados durante a II Guerra Mundial (os famosos órgãos de Stálin), tenho certeza de que você esquecerá do tempo no Museu da Artilharia. Há ainda uma exposição muito bacana sobre um certo Mikhail Kalashnikov, criador do fuzil mais famoso da história, o AK-47. E, antes de ir embora, lembre-se de dar um pulo na “lojinha” (não vai se arrepender)!

Passamos os três momentos agradabilíssimos no Museu da Artilharia, lugar imperdível da Capital do Norte. Terminamos o dia voltando a pé para o hotel, pelo centro histórico, aproveitando uma noite bonita e a temperatura de 3º (três graus) por sobre as pontes que cruzam os canais daquela cidade fascinante, fruto do sonho de um homem que quis levar a Rússia ao Ocidente! 

Em tempo: quanto é a entrada para o Museu? A inteira era de 400 rublos (uns 25 reais no câmbio de agosto de 2019). Vale muito a pena!

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E foram abertas as portas do Inferno…

Há exatos 80 anos, o mundo começava o mês de setembro com a mais tenebrosa de todas as notícias: às 4h45 (hora de Berlim) de 1º de setembro de 1939, o couraçado Schleswig-Holstein, da Kriegsmarine, abria fogo contra as defesas polonesas na cidade-livre de Dantzig (atual Gdansk), de população germânica desejosa de ser incorporada ao Terceiro Reich. Simultaneamente, e sem declaração formal de guerra, tropas alemãs atravessavam a fronteira, tendo à frente os 2.500 Panzer que varreriam as forças polonesas por onde passassem, abrindo caminho para a infantaria que logo chegaria para ocupar o terreno. Pelo ar, a Luftwaffe se encarregaria dos bombardeios de cidades importantes e da destruição da força aérea inimiga no solo. O conceito de Blitzkrieg, a guerra relâmpago (que teve como idealizador o general Heinz Guderian, um dos mais brilhantes militares de seu tempo,) era posto em prática. Tinha início o maior conflito que os seres humanos jamais vivenciaram. Tinha início a Segunda Guerra Mundial.

Algumas palavras sobre esse começo da Segunda Guerra Mundial… Primeiramente, cabe assinalar que o ataque à Polônia só foi possível, naquelas condições, em razão da “Política do Apaziguamento”, promovida por britânicos e franceses (com apoio da Itália Fascista), e da aliança entre o Terceiro Reich e a União Soviética de Stálin, consubstanciada em 23 de agosto (uma semana antes, portanto), por meio do Pacto Ribbentrop-Molotov. Sem essas duas situações, Hitler não teria ousado dar ensejo ao “Caso Branco” (codinome do plano para invasão e conquista da Polônia). 

Assim, de um lado havia a aquiescência de Lord Chamberlain (que, para ir à Alemanha, pela primeira vez entrara em um avião) e do Primeiro-Ministro francês Daladier (que liderava a coalizão de esquerda a qual governava a França naquela época). Clássica é a cena de Chamberlain que, ao retornar da Conferência de Munique (setembro de 1938), declara a seus concidadãos que “a paz estava salva!” – às custas da Tchecoslováquia, claro, que foi entregue a Hitler por decisão das grandes potências europeias. Veja as imagens a que me refiro:

Do outro lado, estava a aproximação entre os dois gigantes totalitários, a Alemanha nazista e a União Soviética stalinista. Em ambos os países, chegara-se ao ápice do totalitarismo (de direita e de esquerda), e muitos analistas da época acreditavam que o conflito entre as duas ditaduras era iminente, ocorrendo caso Hitler invadisse a última nação que separa o Reich do território soviético: a Polônia. Nesse sentido, defendo que havia mesmo o interesse de Reino Unido e França de que esse passo fosse dado pela Alemanha. Afinal, se a Polônia fosse invadida, certamente as duas Potências totalitárias se digladiariam, e as democracias ocidentais só precisariam assistir “de camarote” e esperar o enfraquecimento de ambas e a derrota, pelo menos, de uma delas…

A habilidade política dos alemães pôs termo às expectativas de Paris e Londres quando, para a surpresa de todos, o Ministro das Relações exteriores da Alemanha, Joachim von Ribbentrop, foi, na última semana de agosto, a Moscou. Lá celebrou, com seu colega soviético, Vyacheslav Molotov, o Tratado de Não Agressão entre a Alemanha e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na parte secreta daquele Tratado havia um acordo de partilha do território da Polônia entre soviéticos e alemães. Também era assegurado o reparte de outras regiões da Europa Oriental (garantindo-se que a Alemanha não entraria em conflito com a URSS, caso Moscou decidisse “recuperar” territórios que lhe seriam “de direito”, com herança da Rússia Czarista, ou seja, o que então constituía os Estados independentes da Estônia, Letônia e Lituânia, a Finlândia e partes da Romênia, além da própria Polônia). O Pacto Ribbentrop-Molotov selava, assim, o destino de várias nações europeias e, por que não, de toda a humanidade…

Não entrarei em detalhes táticos da invasão, nem de como a Polônia capitulou em menos de seis semanas. Tampouco cuidarei do fato de que, no dia 17 de setembro de 1939, foi a vez dos soviéticos adentrarem o território polonês (para “libertar” aquelas populações que ali viviam de uma invasão fascista que ainda não ocorrera), encontrando-se com seus “camaradas” alemães em Brest-Litovsk (em lembrança do tratado de 1918), onde apertaram as mãos. Tratarei menos ainda do “apoio” (pífio) dado aos poloneses por Reino Unido e França, que declararam guerra ao Reich três dias depois dos primeiros movimentos alemães, mas permaneceram praticamente inertes durante os meses seguintes (até a campanha alemã da primavera de 1940, voltada à Europa Ocidental), e silentes quando Stálin mandou o Exército Vermelho cruzar a fronteira com a Polônia…

Com a invasão de seu território pelos dois lados, e a derrota na campanha de setembro, a Polônia deixou de existir como Estado independente. Aquela nação, gloriosa de sua identidade e de suas tradições, viu-se subjugada, humilhada e forçada a servir aos dois senhores que repartiram o botim, e mostraram ao mundo seu poder. A seguir um documentário sobre o início da guerra.

Na Polônia ocupada pelos soviéticos, rapidamente o NKVD (antecessor do temido KGB) de Laurenti Beria tratou de executar cerca 7.000 civis e 15.000 oficiais poloneses, numa carnificina que teve no massacre de Katyn seu maior símbolo. A intelligentsia do país foi exterminada. Do lado alemão, além de perseguir a intelectualidade polonesa, a sanha nazista se voltou contra os 3,2 milhões de judeus que viviam plenamente integrados àquela sociedade: logo, professores universitários, profissionais liberais, comerciantes, funcionários públicos e trabalhadores das mais distintas áreas foram proibidos de exercer suas funções e obrigados a usar no peito ou no braço a Estrela de Davi. Depois viriam os guetos, os campos de concentração, as câmaras de gás, os crematórios, o extermínio.

 A Segunda Guerra Mundial começou, portanto, oficialmente, com o fim da Polônia como nação independente. Seis anos se passariam até que aquele povo fosse libertado do jugo alemão, para cair sob o controle soviético e o regime comunista. Foram seis anos de dor, sofrimento e morte, oitenta milhões de vidas perdidas, destruição total, perdas materiais e imateriais incalculáveis.

 O mundo realmente seria outro quando a Alemanha assinou a capitulação, em 8 de maio de 1945. A Guerra, que começara com a “questão polonesa”, tomara rumos inimagináveis. Para os poloneses, porém, sempre me lembrarei da história daqueles que, no dia que findaram as hostilidades na Europa, combatiam na Itália junto dos aliados e se desesperaram temendo retornar à pátria e cair nas mãos dos soviéticos, que ainda massacrariam centenas de milhares de poloneses étnicos no imediato pós-guerra. A sensação deveria ser de que os seis anos de guerra teriam sido em vão…

Indubitavelmente, a Polônia foi muito mais uma peça no jogo das grandes potências. Um jogo nocivo e caro, que custou milhões de vidas. Impossível esquecer das palavras de um judeu polonês, que conheci em Auschwitz, e que externou seu ressentimento com os “aliados” de Varsóvia por ocasião da guerra de 1939-1945: “O pior é que a guerra começou para nos libertar dos alemães e de Hitler”, disse ele, “mas nossos ‘salvadores’ acabaram a guerra nos entregando nas mãos dos soviéticos e de Stálin… Quem perdeu nisso tudo?”…

 Em tempo: fui o terceiro estudante de Relações Internacionais no Brasil a produzir uma monografia de final de curso, e isso lá em meados da década de 1990. O tema foi inusitado para aquele momento: “A Política Exterior do III Reich, 1933-1939”. Pretendo um dia trabalhar no arquivo e transformá-lo em livro. Pensei que poderia ser para os setenta anos do início da Guerra, depois para os oitenta… Quem sabe em comemoração aos 75 anos do fim do conflito, ou aos 85 do começo… Uma hora sai!

A Capital Imperial e seu Metrô (Operação Outubro Vermelho)

Quando Pedro I construiu São Petersburgo, seu objetivo era mostrar ao mundo uma Rússia moderna, a qual ele pretendia inserir no clube das potências mais avançadas de seu tempo. A nova capital seria a vitrine do maior império da terra e em nada deixaria a desejar às principais cidades europeias em termos de arquitetura e urbanismo.

Assim, o primeiro Czar a se chamar de Imperador governaria a partir de uma belíssima capital, uma cidade projetada para evidenciar a grandeza da Rússia. Indubitavelmente, Pedro teve grande êxito em seu projeto!

As primeiras impressões de São Petersburgo são de um cidade clássica. A grandiosidade da antiga capital se revela em suas largas avenidas cortadas por canais, os quais se atravessa sobre pontes que por si são obras de arte. Mesmo com as sete décadas de comunismo, a cidade conseguiu conservar as características daquela que fora uma das mais belas capitais europeias dos séculos XVIII e XIX: palácios, teatros, igrejas grandiosos…

O centro histórico está muito bem preservado... E, caminhando por ali, por exemplo, da estação de trem até o Palácio de Inverno pela Avenida Nevsky, você observará belas lojas, vitrines suntuosas, estátuas e monumentos e uma harmoniosa beleza do século XXI pós-soviético inseridos em construções que resistiram às transformações dos últimos cem anos. É, realmente, como voltar no tempo…

Na primeira manhã na Rússia, Adriana, Gustavo e eu fomos passear pela cidade. Seguimos para a estação de metrô mais próxima do hotel para comprar bilhetes de viagens ilimitadas para uma semana – essa é uma boa alternativa se você for ficar pelo menos cinco dias… Assim, poderíamos nos deslocar, como quiséssemos e o tanto que julgássemos necessário, por todo o sistema de transporte urbano.

A estação era Ploshchad Vosstaniya, muito particular em sua arquitetura, é uma das primeiras do metrô de São Petersburgo, inaugurada em 1955 e cuja profundidade é de 58 (isso, cinquenta e oito) metros! Lembre-se que o metrô deveria converter-se em abrigo antiaéreo, inclusive com uma estrutura que protegesse a população (ao menos em tese) contra ataques nucleares.

A estação Ploshchad Vosstaniya

Assim, para chegar às plataformas, você desce por uma escada rolante que parece levar às profundezas da Terra… E, o que me chamou a atenção, no final da escada há uma “guarita” com um funcionário do metrô (ali os funcionários na guarita eram todos senhoras idosas de uniforme – típicas “avós” russas) e um telefone, o que nos remete automaticamente aos tempos da URSS, onde o “guarda do metrô” deveria ficar ali para “fiscalizar” os milhares de transeuntes que usavam o sistema de transporte – achei interessante! Por óbvio, a pergunta que me fiz era se aquelas senhoras estavam ali desde os tempos de Krushev (as mesmas mulheres, claro!)…

A dica de hoje, portanto, é: vá passear de metrô em São Petersburgo. Claro, a superfície é belíssima e interessante, mas os subterrâneos têm seu charme e merecem um tempinho para que se conheça algumas estações. Mesmo não tendo a decoração suntuosa do metrô de Moscou (construído a mando de Stálin para que cada estação fosse um “palácio subterrâneo para o povo”), o metrô de São Petersburgo também tem lugares belos e inusitados, com estátuas, afrescos e pinturas, estações que merecem ser conhecidas. E o bom é que você ainda vai para onde quiser!

Naturalmente, continuarei a falar de São Petersburgo nas próximas semanas. Mas o que percebi ao chegar àquela cidade, é que estava realmente na capital da Rússia. Mas e Moscou? Moscou, eu descobriria, também fascinante, é a capital da União Soviética. Essa foi a minha sensação: mesmo enquanto foi Leningrado (e apesar disso), São Petersburgo não perdeu sua majestade!

Mais adiante falarei das impressões sobre o povo e o ambiente. Antecipo que a gente de São Petersburgo é bem diferente da gente de Moscou (achei o povo nas duas cidades atencioso e simpático, mas ficavam claras suas diferenças). Numa comparação simplória, associaria São Petersburgo ao Rio de Janeiro, e Moscou a São Paulo! A conferir…

George e Nicky – razões de família versus imperativos de Estado

Dia desses, quando postei em minhas páginas no Facebook e no Twitter (siga-nos lá!) sobre um livro que tratava das Casas Reais Europeias, a foto da capa causou dúvida aos leitores. Quem era o casal real ali representado? Alguns amigos pensaram que eram Nicolau II e sua esposa Alexandra, os últimos Romanov a governar a Rússia. Surpreenderam-se quando disse que não eram eles… Mas quem seriam então?

A resposta: era uma foto de George V, do Reino Unido, e de sua esposa, Vitória Maria de Teck. “Mas como? Parece tanto com o Czar Nicolau II!”. Não se preocupe, essa confusão é mais comum do que se imagina…

Confundir George V e Nicolau II não é nada de absurdo. Os dois eram primos-irmãos (a mãe de Nicolau era irmã da mãe de George), e realmente se pareciam muito. Ambos os monarcas, assim como suas esposas, eram todos descendentes da Rainha Victoria (como a maioria absoluta dos soberanos europeus, diga-se de passagem).

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De fato, George e Nicky (como o Czar era chamado pelos parentes mais próximos) gostavam de brincar com essa grande semelhança. Não eram raras as vezes em que posavam para fotos vestindo os uniformes um do outro ou propositalmente confundiam aqueles que com eles se encontravam, pregando-se-lhes peças. Note-se que o soberano russo falava inglês sem sotaque e, sobretudo quando jovem, frequentava muito a corte britânica. A Czarina Alexandra (nascida Alice), por sua vez, era uma princesa alemã, mas passara grande parte da infância no Reino Unido, tornando-se muito próxima da avó materna, a Rainha Victoria.

Portanto, os dois soberanos eram bons amigos, desde a infância. Na juventude, conviveram bastante. Uma curiosidade: chegou-se a cogitar que a princesa Alice de Hesse iria se casar com George (o que, se tivesse acontecido, faria dela a futura esposa do Rei da Inglaterra). Entretanto, Alice apaixonou-se perdidamente por outro príncipe, seu primo Nicky, e “enfrentou” a própria avó (que gostou da impetuosidade da neta) e as “razões de Estado” para se casar com o amor de sua vida. Assim, Alice celebrou o matrimônio com Nicky, que se tornou Nicolau II, da Rússia, e ela própria alterou seu nome para Alexandra Feodorovna, vindo a ser a última Czarina. O casal Romanov teve cinco filhos (as Grão-Duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, e o Czarevich Alexei), seu amor perduraria por toda a vida e Nicolau e Alexandra seriam conhecidos como um dos casais mais apaixonados e verdadeiramente unidos entre as famílias aristocráticas de seu tempo.

Voltando a Nicolau e George, os primos, já soberanos da Rússia e do Reino Unido, respectivamente, veriam-se diante de um dos períodos mais trágicos e importantes da História: a I Guerra Mundial. Juntos, estariam à frente de seus Estados contra a Alemanha, na qual reinava seu outro primo, Guilherme II, também neto direto da Rainha Victoria. E a forma como lidaram com a dicotomia “razão de Estado” versus “razões de família” selaria o imbricado futuro de ambos e o destino de suas famílias e de seus tronos.

Não é exagero dizer que a Grande Guerra foi um conflito entre irmãos. Como consequência daqueles anos de morte, sofrimento e destruição, o Império Alemão ruiria, e Guilherme II se exilaria na Holanda, onde ficaria até o fim da vida, na década de 1940. George continuaria soberano do Reino Unido, país vitorioso da I Guerra Mundial, mas cuja decadência das décadas seguintes já dava os primeiros sinais. Quanto a Nicky, seria tragado pelos acontecimentos que o levariam à abdicação e consequente fim da monarquia na Rússia e dos trezentos anos de autocracia dos Romanov. Seu fim e o de sua amada família constituiriam um dos mais trágicos acontecimentos do século que se iniciava.

Após a abdicação, Nicolau Romanov, Alexandra e os filhos ficaram sob custódia do Governo Provisório. Visto como uma ameaça por aqueles que temiam a restauração monárquica, o antigo Soberano de Todas as Rússias tornou-se uma peça importante no tabuleiro político interno e seu destino uma questão de cunho internacional. Sua integridade e a de sua família estariam ameaçadas se permanecessem na Rússia, apesar das garantias do Governo Provisório de que ninguém tocaria no ex-Czar e nos seus. Começaram as negociações para que os Romanov partissem para o exílio, tendo como principal destino o Reino Unido. E aí começa o drama que mostrou a fraqueza de George e sua conduta reprovável, mas também a sua submissão às “razões de Estado” e a preocupação com a preservação da monarquia britânica.

Imediatamente após a abdicação, na primavera de 1917, o Governo Britânico chegou a oferecer asilo para o Czar e sua família. A pedido do Rei George, o Embaixador britânico em Petrogrado, George Buchanan, apresentou formalmente a oferta do Governo de Sua Majestade de abrigo para os Romanov no Reino Unido.

Entretanto, enquanto seguiam as negociações sobre o destino de Nicolau e família, aumentava a pressão do Gabinete de Sua Majestade contra o abrigo aos Romanov em solo britânico – o próprio Lloyd George, Premier do Reino Unido, era contrário a receber o “tirano” Nicolau em seu país de tradição liberal e democrática. A reação negativa da opinião pública crescia a cada dia, e havia argumentos de que a vinda dos Romanov para a Inglaterra poderia por em questão até a própria monarquia britânica.

George teve então que decidir sobre a acolhida de seus primos. Se as razões de sangue faziam-lhe querer ter seus familiares consigo, e garantir-lhes a segurança, os imperativos de Estado (ao menos era o que argumentavam os políticos) o impeliam a voltar atrás na proposta de asilo.

O monarca britânico decidiu. Aquela deve ter sido a mais difícil resolução de sua vida – como o fora a abdicação do primo Nicolau, alguns dias antes. Cedeu ao apelo dos políticos e lavou as mãos quanto ao destino de Nicky e sua família. Londres ordenou a Buchanan que voltasse atrás na oferta de asilo. E assim foi feito.

Tendo seu primo inglês dado-lhe as costas, Nicolau viu sua situação agravada nos meses seguintes. Tornou-se verdadeiro cativo do Governo Provisório. Com o golpe bolchevique de outubro de 1917, a desgraça se abateria definitivamente sobre aquela bela família. Levados como prisioneiros para a Sibéria, transportados às pressas de uma cidade a outra, em condições cada vez mais complexas e difíceis, Nicolau, Alexandra e os filhos enfrentariam seu trágico destino em julho de 1918, massacrados pelos algozes bolcheviques a mando do próprio Lênin. Triste fim para o último Czar.

Sempre me pergunto se a decisão de Nicolau em abdicar foi a mais acertada. Mesmo com sua situação como soberano tremendamente complicada, será que não deveria ter continuado no trono, e sido mais resoluto no trato dos problemas de Estado? Será que deveria ter escutado menos a sua amada Alexandra? Indiscutivelmente, a decisão de abdicar teve como fator preponderante a família: Nicolau sabia que Alexei, com sua hemofilia grave, jamais poderia se tornar o Czar. E acreditava sinceramente que, sem as responsabilidades de um monarca autocrático, poderia se dedicar plenamente a sua família e cuidar de maneira mais efetiva de seu filho doente. Abdicou em favor de seu irmão Mikhail, sem consultá-lo. E Mikhail, ele próprio, não quis o fardo de soberano, o que agravou a crise e provocou a queda da monarquia e o fim da dinastia dos Romanov à frente da Rússia.

George, por sua vez, optou pelos imperativos de Estado – os quais, certamente, também envolviam a preservação do trono. Difícil não associar a decisão abnegada de George V (que também, repito, pode ser entendida como submissão disciplinada e razoável aos interesses de Estado) ao triste destino dos Romanov (sobre o qual também a hesitação de Nicolau, especialmente no contexto de sua abdicação, teve forte influência). Se o Rei tivesse sido mais assertivo com seus ministros, ao menos a Czarina e as crianças poderiam ter sido salvas. Assim, a morte dos primos russos seria realmente indissociável da conduta claudicante do soberano britânico.

Por certo, George nunca se perdoou pelo que aconteceu a Nicolau, Alexandra e sua família. Nunca mais foi o mesmo depois daquilo. E levou para o túmulo a culpa, que, na verdade, era em parte do hesitante Nicky e dos facínoras bolcheviques, cujo ódio e a sofreguidão colocaram a Rússia no caos e conduziram o país a sete décadas de regime autoritário.

A história de George e Nicky é mais um drama entre os grandes dramas relacionados a um mundo romântico que desapareceu com a Guerra de 1914-1918. Passaram-se cem anos, mas essas histórias ainda nos comovem, marcam e emocionam.