Fotos e Guerra

Terça-feira, dia do livro.

Aqueles que me conhecem sabem que entre minhas grandes paixões estão a leitura, a fotografia e a polemologia. Afinal, por meio dos livros, das fotos e das guerras, o ser humano consegue expressar o que há de mais profundo em sua natureza, o que o aproxima da beleza da divindade, mas também da escuridão de sua sordidez de ser imperfeito. De toda maneira, tudo é aprendizado.

Voltando a livros, fotos e guerras, hoje destaco uma obra que me é muito cara, pois retrata a vida daqueles que combateram na Grande Guerra (como é também chamada a I Guerra Mundial). São imagens de dor, tristeza, bravura, indignação, medo, angústia, fé, esperança, obstinação, fraternidade, alegria, alívio, conforto, raiva, introspecção, tudo isso junto e misturado. São sensações e sentimentos que preencheram os corações de milhões de homens que, há pouco mais de cem anos, estiveram envolvidos em um conflito sobre o qual, no final das contas, pouco sabiam, e nada entendiam.

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Acho realmente fascinante como a história dessas pessoas foi eternizada por meio da fotografia. Perguntas que sempre me vêm à mente quando vejo uma foto dessas: Quem terá sido essa pessoa? Como era na vida civil? Tinha família? O que achava daquilo tudo? Será que conseguiu sobreviver à Guerra?

Especificamente sobre a cena retratada na foto, fico a imaginar o contexto em que se deu, em uma época em que a fotografia ainda engatinhava, em que “selfie” era algo inconcebível e que cada clique era um precioso registro de arte e de história! Naqueles idos do começo do século passado, já fascinava a invenção do francês Joseph Nicéphore Niépce, que ocorrera então há menos de cem anos, tanto quanto ainda fascina bilhões de pessoas pelo globo! Sim, porque, seja uma clássica imagem do homem comum ou dos reis e imperadores do século XIX, seja uma “selfie” dos dias de hoje (muitas vezes tirada em lugar inusitado como um banheiro, sem qualquer pendor estético e com gosto indiscutivelmente duvidoso), a verdade é que a fotografia toca a alma do ser humano, e o faz se sentir um pouco divino, ao registrar aquele momento e congelar o tempo para todo o sempre!

 “The Faces of World War I”, de Max Arthur. Fica a recomendação do dia.

 

A história dos vencidos

Como ontem foi a celebração dos 101 do Armistício de 1918, e hoje é nosso dia do livro aqui em Frumentarius, indico uma obra excelente que li faz pouco: The Vanquished, de Robert Gerwarth (New York: FSG Books, 2016). Muito bem escrito e com uma profusão de histórias, o livro narra como ficou a Europa (e sua gente) no imediato pós-guerra. A pergunta central do autor é: “Que razões fizeram com que a I Guerra Mundial continuasse mesmo após seu término oficial?”

Pouca gente se dá conta disso, mas as guerras continuam mesmo depois do fim oficial das hostilidades. No que concerne à Grande Guerra, mais alguns milhões de seres humanos morreram ou tiveram sua vida destruída após o 11/11/1918. Vale lembrar que a Guerra continuou na Europa Oriental e no Oriente Próximo, com conflitos localizados e guerras civis, das quais a principal referência foi a Guerra Civil Russa. O massacre continuou, portanto, pela década de 1920 adentro. 

Tenho-me interessado pela história do imediato pós-guerra, seja no final da Grande Guerra, seja no período que imediatamente se seguiu ao 8 de maio de 1945. Recomendo muito o livro. 

Vanquished

Nunca serão esquecidos!

A noite de 11/11 já chegou, mas ainda há tempo de registrar aqui a importância desta data. Afinal, foi às 11:00 do dia 11 de novembro (11/11) de 1918 que entrou em vigor o armistício que pôs termo à I Guerra Mundial. Após quatro anos de conflito, a Grande Guerra já havia ceifado mais de 10 milhões de vidas, com toda uma geração sacrificada nas trincheiras da Europa, nas florestas da África, nos mares do globo.

Como já o sabem meus leitores, meu interesse pelo fenômeno da guerra é significativo, remontando a mais tenra infância. E, dentre todos os grandes conflitos humanos, a I Guerra Mundial é, indiscutivelmente, um dos mais marcantes, seja pelo romantismo que a caracterizou, pelos efeitos que causou (que nos influenciam até nossos dias), seja pela memória daqueles que lutaram e morreram no maior conflito que até então a humanidade conhecera.

Não tenho qualquer expectativa de fazer entender meus sentimentos com relação àquele conflito tão distante no tempo e no espaço. Afinal, são meus sentimentos, moldados não sei onde nem de que maneira. O que posso dizer é que hoje minhas preces serão para aquela geração que viveu a Grande Guerra. Meu respeito é por aqueles jovens que saíram de suas casas para combater pela pátria, mesmo sem saber direito contra quem e por quais razões matar ou morrer. Minha deferência para com tudo que significou aquele conflito, o qual para sempre mudou a História da humanidade.

E aquela gente sempre será lembrada! E seus feitos e suas histórias ainda ecoarão por muitas gerações! Que essa memória permaneça viva em nossas mentes e em nossos corações!

Remembrance-Sunday

Para quem tiver interesse em mais posts sobre a Grande Guerra ou sobre o Armistício de 11/11/1918, é só procurar aqui nas categorias Guerra e I Guerra Mundial. Pode procurar, ainda, digitando palavras como “Armistício”, “Flandres” e “Grande Guerra”.

O que acontece quando a guerra acaba?

Muita gente acha que quando se declara o fim de uma guerra, tudo volta à paz imediatamente após a interrupção do conflito. Doce ilusão!
O término da I Guerra Mundial tem uma data precisa: os combates seriam suspensos à 11ª hora do 11° do 11° mês do 4° da guerra, ou seja, em 11/11/1918. Haveria paz no mundo a ser reconstruído…
Mas enquanto a matança cessava na frente ocidental, ao longo de toda a Europa Oriental e do Sudeste, a guerra continuou até, pelo menos, 1923, e milhões (isso mesmo, milhões) de pessoas perderam a vida em conflitos por território, étnicos ou em guerras civis.
Tenho me dedicado ao estudo desse período de imediato pós-guerra, seja a partir de 1918, seja a partir de 1945, e indicarei aqui algumas leituras interessantes.
Acabei de ler The Vanquished – How the First World War Failed to End, de Robert Gerwarth.
Trata-se de obra fascinante e muito bem escrita, que relata o drama dos povos da Europa do Leste, Balcãs, Oriente Médio, Itália, e, do que viria a ser a União Soviética no imediato pós-guerra.
O livro, além de uma análise política e histórica, traz relatos sobre pessoas comuns que viram seus destinos definidos por forças que lhes escapavam à compreensão, e suas vidas alteradas para sempre em razão de sua etnia, religião, nacionalidade ou, simplesmente, “por terem nascido ou vivido no lugar errado”…
Recomendo efusivamente. E em breve trarei outras sugestões nessa linha…

Príncipes soldados

Passados 100 anos da Grande Guerra, aquele período continua fascinando a muitos de nós, apesar de uma parcela significativa da população brasileira vergonhosamente não saber nada sobre o conflito. Como eu não sou de desistir de divulgar conhecimento, segue uma publicação que pode agradar os amantes de Clio…

Familia Imperial no Exilio

A Princesa Isabel e o Conde D’Eu com a família no exílio.

Em 2014, O Globo publicou uma matéria sobre os príncipes brasileiros que combateram na I Guerra Mundial. E o jornal destaca:

Pouca gente sabe, por exemplo, que, muito antes de o país enviar equipe médica, embarcações e alguns oficiais apenas na reta final do confronto, dois príncipes brasileiros atuaram na guerra e até morreram em consequência disso. Filhos da Princesa Isabel com o francês Conde D’Eu, os nobres D. Luís Maria e D. Antônio Gastão, netos do ex-imperador D. Pedro II, serviram ao lado do Império Britânico. [Aqui um comentário nosso: não existe “ex-Imperador”, caro jornalista. Uma vez Imperador, sempre Imperador!]

Chama a atenção o fato dos príncipes exilados (em razão do famigerado golpe de 15 de novembro de 1889), filhos do Conde D’Eu (com sangue francês que remonta a antes mesmo da França existir) não terem sido aceitos pela República Francesa (ah, sempre ela!) para combater em suas fileiras contra as Potências Centrais (pelas quais lutavam muitos de seus primos e onde eles mesmos haviam feito serviço militar).

Dom Luís de Orléans e Bragança

Dom Luís de Orléans e Bragança (1878-1920)

Assim, os Príncipes Dom Luís e Dom Antônio Gastão, netos de Dom Pedro II, nascidos no Brasil e, portanto, oriundos da família real brasileira, eram também franceses (descendiam dos reis da França), foram treinados pelos austríacos (também eram Habsburgos, como os Imperadores da Áustria-Hungria) e serviriam na guerra lutando junto com os britânicos. Situação inusitada, não?

O fato é que os príncipes combateram na Grande Guerra, e combateram com galhardia e coragem. Foram reconhecidos pelos seus pares como bravos soldados. E, como outros tantos milhões de jovens de sua geração, sofreriam diretamente os dissabores do conflito: nas trincheiras da França, Dom Luís contrairia uma doença que o levaria à morte logo depois do conflito, em 1920 (pouco antes do centenário da Independência, proclamada por seu bisavô). Já Dom Antônio, reconhecido por sua coragem, teria participado de batalhas aéreas (teria sua paixão pelo avião vindo da proximidade de sua família com o grande Santos Dumont?) e, em 29 de novembro de 1918 (portanto, alguns dias depois do armistício de 11 de novembro), sofreria um acidente de avião e viria a óbito.

Antonio
Dom Antônio Gastão de Orléans e Bragança (1881-1918)

Cabe destacar que ambos os príncipes-soldados, que mostraram sua bravura no maior confronto que o mundo já conhecera, morreram longe de sua terra natal. Exilados com o golpe de 1889, foram para o Oriente Eterno sem nunca mais ver o Brasil que tanto amavam… Duas décadas depois, a belíssima Canção do Expedicionário expressaria essa preocupação de todo aquele que combate por sua pátria: “não permita D’us que eu morra sem que volte para lá”.

Essa foi mais uma das histórias da Grande Guerra. Belíssima contribuição de nossos príncipes imperiais à liberdade, contribuição essa que deveria ser digna de respeito e gratidão por todos oa brasileiros.

Importante que saibamos, como brasileiros, que os filhos da (legítima) nobreza  brasileira, que aqueles homens que poderiam simplesmente nada ter feito enquanto milhões combatiam nas trincheiras, foram nobres também em sua decisão de lutar e dar a vida pela causa em que acreditavam. Pergunto-me quais filhos da nossa elite republicana de hoje se prestariam a tão altivo sacrifício…

(E ainda tem gente que me pergunta o porquê de eu ser monarquista…)

Para acessar a reportagem, clique aqui.

Eu vim, e vi!

20181111_221459.jpgNeste aniversário de cem anos do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, praticamente ninguém mais que vivenciou o conflito está entre nós (os poucos centenários encontravam-se, no máximo, na primeira infância quando a Guerra acabou). Entretanto, a memória daquela geração de 1914-1918 deve permanecer viva nos corações e mentes de sua descendência, de modo que o sacrifício que foi feito jamais seja esquecido.

20181111_221547.jpgParis, assim como diversas cidades pelo mundo, celebrou o centenário do fim da Grande Guerra. Na manhã do domingo, 11/11/2018, um grande evento reuniu cerca de 80 Chefes de Estado no Arco do Triunfo: Markron, Trump, Putin, Merkel, Felipe VI… Estes e tantos outros vieram à capital francesa para prestar tributo aos que viveram e morreram durante aquele conflito.

Claro que, além dos líderes mundiais, a celebração se completou com milhares de homens e mulheres comuns, de diferentes raças e credos, que se aglomeraram perto das cercas colocadas para restringir a circulação dos transeuntes na Avenida mais famosa de Paris. O que foram fazer ali? Cada um tinha sua história, seu motivo para estar lá… E eu, que neste domingo fui uma dessas pessoas, também tinha os meus…

Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque queria presenciar esse momento único no coração da nação que, há cem anos, venceu a Guerra de 1914-1918 à custa de mais de 1 milhão de vidas… Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque a Grande Guerra sempre me fascinou, uma vez que pôs fim a uma era e deu início ao admirável mundo novo em que se transformaria o século XX. Decidi estar aqui para me unir em pensamento e pela minha presença física a todos os que entendem a importância da Grande Guerra. Enfim, se havia um lugar em que gostaria de estar no Centenário do Armistício era em Paris! Assim, eu vim! 

20181111_221404.jpgDaqui a muitos anos poderei dizer a meus netos que estive em Paris no Centenário do Armistício. Contarei o que vi. Contarei do dia frio e chuvoso, das ruas fechadas, da impecável organização para garantir a segurança daqueles que vieram celebrar a paz. Contarei que vi que nem de longe a cidade deveria estar como estivera há cem anos, com multidões pelas ruas em festa, mas que havia sim quem queria festejar a paz, cem anos depois… Contarei que vi que não houve desfile militar, o que me causou estranheza (não me convenço do argumento de que desfiles seriam incompatíveis com a celebração da paz…) e, de certo modo, frustração.

Daqui a muitos anos, poderei contar a meus netos que vim a Paris e ouvi os sinos de toda a cidade começaram a badalar exatamente às 11:00, pois há cem anos a Guerra acabou na décima-primeira hora, do décimo-primeiro dia, do décimo-primeiro mês… E contarei da dificuldade de descrever a emoção que preenchia o coração deste que, desde menino, era fascinado pela guerra, algo tão inerente à natureza humana…

Cinco gerações se passaram. Certamente, a história daqueles que viveram a hecatombe de 1914-1918 também passou despercebida a muitos dos que estavam hoje em Paris – no metrô, nos jardins e até na Avenida dos Campos Elíseos… Isso também vi. Enquanto ia em direção ao Arco do Triunfo, olhava para a diversidade de rostos que embelezam a capital francesa e me perguntava se essas pessoas tinham consciência de que dia seria hoje… Talvez não tivessem (não as culpo por isso, que fique claro…). Talvez estivessem mais preocupadas com sua guerra diária pela sobrevivência (poderia ser diferente? Não creio…)…

De toda maneira, eu tinha consciência do momento… Eu vim para ver. E sei que outros que estavam ali comigo nos Campos Elíseos também o tinham, é também vieram para ver…

E sempre que pensar na Guerra de 1914-1918, a partir de hoje poderei dizer que  eu vim, vi e, de alguma maneira, acabei me inserindo na história daquele conflito, na história daqueles pessoas.

Assim, quando algum dia me perguntarem o que estava fazendo em 11/11/2018, poderei dizer que, cem anos depois do Armistício, com a Paris, vi Paris, e entrei em comunhão com milhões de outros seres humanos, de ontem e de hoje, na capital francesa.

Sim! Vim a Paris para comungar, para me unir em pensamento àqueles que viveram e morreram há um século na Grande Guerra. E estive aqui para reunir impressões que só poderiam ser reunidas se aqui estivesse e se visse tudo que vi. E, diante do Arco do Triunfo, a alguns metros dos líderes de todo o mundo, prestei minha homenagem aos mais de 9 milhões de seres humanos que não viram o Armistício de 11/11/1918. E direi: “vim e vi”!

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Últimas horas antes do fim…

Há exatos cem anos, centenas de milhares de homens, de distintas nacionalidades, viviam os momentos finais daquela que seria a maior guerra até então travada, com mais de 9 milhões de vidas ceifadas em quatro sangrentos anos…
Pelas regras do armistício celebrado algumas horas antes, os combates cessariam à décima-primeira hora do décimo-primeiro dia do décimo-primeiro mês do quarto ano da Grande Guerra (ou seja, às 11:00 de 11/11/1918)…
Fico imaginando o que deveria se passar pela cabeça daqueles homens, em especial dos que estavam no front… Medo de ser uma das últimas baixas do conflito? Ansiedade pelo fim dos combates? Vontade de voltar para casa? Alívio por ter sobrevivido? Tristeza pelos tantos camaradas perdidos?
Lembrar do armistício de 1918 em seu centenário é render a justa homenagem a toda uma geração de homens e mulheres fortes e que foram protagonistas de um dos momentos mais nefastos e importantes da história da humanidade.
Cinco gerações se passaram… Muitos, muitos mesmo, não têm a menor ideia do que foi a Grande Guerra…
Eu, ao contrário, não consigo pensar em nada mais que naquelas pessoas que, há cem anos, aguardavam o fim do conflito que envolveu todos os continentes.
Que sua memória possa ser preservada, e que seu sacrifício seja sempre lembrado!

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Com esta publicação sobre o Armistício que pôs fim à Grande Guerra, retomamos as atividades de Frumentarius… Estamos de volta!

 

Canhões de Agosto

xadrezComo disse, devo publicar periodicamente uma vez por semana aqui em Frumentarius. E a última semana (a primeira de agosto) foi marcada por algumas efemérides importantes. A primeira delas, no dia 1º de agosto, marca a data em que a Alemanha declarou guerra à Rússia, em 1914, dando início à I Guerra Mundial para os alemães. Esse era um movimento importante no jogo de xadrez da política européia, e vinha na sequência da declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia (28 de julho), com o bombardeio de Belgrado (no dia seguinte), e a mobilização das tropas russas para socorrer seu aliado eslavo do sul (também no dia 29/07). Com a mobilização russa, a Alemanha apresentou um ultimato a São Petersburgo para que a suspendesse. Diante da recusa do Czar, no dia 1º de agosto, veio a declaração de guerra. Abria-se a frente oriental para os germânicos.

explosao-canhao-belgicaMas os alemães esperavam não ter que combater em dois fronts. Para isso, tinham que neutralizar a França antes que os russos conseguissem efetivamente entrar no conflito. Em 2 de agosto, as tropas do Kaiser entraram em Luxemburgo, e Berlim, em cumprimento ao Plano Schlieffen, solicitou ao Rei da Bélgica (então um país neutro) que autorizasse os alemães a atravessar aquele reino para atacar o território francês. A resposta do soberano belga foi “eu governo uma nação, não uma estrada”. Os alemães, então, invadiram e atravessaram a Bélgica no dia 4 de agosto. No dia anterior, Berlim declarara guerra a Paris.

trenche_wwi (1)Diante da invasão da Bélgica, a Grã-Bretanha, então garante da neutralidade belga, viu-se obrigada a declarar guerra à Alemanha (04/08). Em uma semana, os sinos silenciaram. Seriam substituídos pelos canhões de agosto, que continuariam a troar por longos e penosos quatro anos, com dezenas de milhões de mortos, destruição de campos e cidades, dor, desespero, morte… e o fim de uma era.

A memória daqueles canhões de agosto deve sempre permanecer viva nos corações e mentes dos homens. A carnificina ali começada jamais poderá ser esquecida, sob pena de ser repetida. Afinal, a estupidez humana é infinita.

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Filmes sobre a Trégua de Natal

Para quem tiver interesse em conhecer mais sobre a Trégua de Natal, recomendo dois bons filmes:

1) Feliz Natal (Joyeux Nöel), uma produção franco-britânica-alemã-belga-romena, dirigida por Christian Carion, que conta com uma beleza incomparável aqueles acontecimentos; e

2) Oh! What a Lovely War!, um musical de 1969, dirigido por Richard Attenborough sobre o conflito. Apesar de não gostar de musicais, este tem boas cenas de guerra.

Seguem um filme breve sobre a Trégua de 1914:

E cenas de Feliz Natal e de Oh! What a Lovely War.

Guerra e Paz no Natal

lal295769Ainda sobre a Trégua do Natal de 1914, segue uma matéria muito interessante do The Telegraph sobre o evento, com destaque para a carta de um jovem soldado britânico que viveu aqueles acontecimentos e o dia-a-dia nas trincheiras.

Boas Festas! Paz, Saúde e Prosperidade!

How one young soldier’s song inspired the 1914 Christmas Truce

It is a story handed down through the generations – and even Christmas adverts – but here a letter from the trenches tells the true story of the Christmas Truce 100 years ago

By Christopher Middleton
The Telegraph
7:00AM GMT 22 Dec 2014
British and German troops meeting in No-Mans's Land during the unofficial truce on Christmas Day in 1914

British and German troops meeting in No-Mans’s Land during the unofficial truce on Christmas Day in 1914

In the British trenches, a young farmer’s son in the Queen’s Westminster regiment, by the name of Edgar Aplin starts up a song. He’s 26, he’s got a good, tenor voice, and after a few verses of Tommy Lad, he hears voices coming from the German trenches, where the 107th Saxon Regiment are dug in, a short distance away.

“Sing it again, Englander,” they call out, in English. “Sing Tommy Lad again.”

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100 anos da Trégua de Natal

fr-trench1Quem já acompanha Frumentarius há algum tempo sabe que, desde o início deste blog, faço referência no dia 25/12 a um dos acontecimentos mais inusitados e marcantes da I Guerra Mundial, apesar de pouco conhecido: a Trégua do Natal de 1914. O evento, ocorrido no primeiro ano daquele sangrento conflito, completa em 2014 cem anos.

O que se viu nas trincheiras da Grande Guerra naquele dezembro de 1914 poderia, indubitavelmente, inserir-se entre mais os belos contos de Natal. E, como toda bela história, aconteceria apenas naquele ano, mas marcaria todas as gerações de combatentes a partir de então.

trenche_WWIA guerra já se seguia por quatro meses (mais do que esperado quando soaram os primeiros canhões de agosto). Após movimentos iniciais, como a invasão da Bélgica e a entrada em território francês, o conflito na frente ocidental estagnara-se, tornando-se uma guerra de trincheiras.

Já comentei aqui o que era uma guerra trincheiras, e por isso apenas assinalo que os soldados permaneciam a maior parte do tempo enfiados naquelas valas de cerca de 2,5 a 5 metros de profundidade e 2 de largura, em um complexo defensivo de túneis que se estendia da costa do Atlântico até a fronteira com a Suíça, enfrentando as intempéries, as péssimas condições sanitárias e os ataques do inimigo, aí incluído o fogo da artilharia que lançava projéteis convencionais e bombas com gás sobre os combatentes entrincheirados. A vida ali, portanto, não era fácil.

Periodicamente, cada lado conduzia ataques com o objetivo de tomar a trincheiras adversária. Para isso, a tropa tinha que literalmente desentocar-se e enfrentar a metralha inimiga, passando pela temível “terra de ninguém” (o espaço de cerca de 200 metros entre as trincheiras, cheio de crateras, lama, arame farpado e corpos de combatentes). Claro que os resultados dessas ações eram pouco efetivos para a vitória, embora custassem uma grande quantidade de vidas. E a guerra permaneceria estática, com as linhas de trincheiras quase imutáveis, por quatro longos anos.

Mas voltemos ao Natal de 1914. O inverno castigava. Os homens se agrupavam como podiam naquelas valas congelantes. Uma cabeça levantada para olhar para as linhas adversárias poderia custar a vida. A paz parecia bem distante. E o Natal, diferente de qualquer outro pelo qual já haviam passado todos aqueles combatentes, mostrar-se-ia ainda mais inusitado.

La-trève-de-noël-1914Naquele 24 de dezembro, em alguns pontos da frente ocidental, o milagre começou. Um soldado inglês relatou que, enquanto estavam entocados em sua trincheira, ele e seus companheiros começaram a ouvir canções de Natal do outro lado da terra de ninguém. Alemães celebravam o nascimento de Cristo. Logo veio a resposta: os soldados britânicos também começaram a cantar… Mais algum tempo e as primeiras palavras de feliz natal vinham do lado inimigo, cordialmente respondidas. Logo alguns corajosos colocaram o rosto para fora da trincheira. O inimigo não atirava de volta. Então, soldados de ambos os lados começaram a sair de seus abrigos, atravessando a terra de ninguém para cumprimentar oss oponentes do outro lado – afinal, tinham muito mais em comum do que imaginavam!

A confraternização nas trincheiras provocou uma reação em cadeia, que se estendeu por praticamente toda a frente ocidental. Combatentes de ambos os lados se abraçavam, cantavam juntos, trocavam cumprimentos de Feliz Natal e mesmo presentes (como cigarros). Fotos da família na carteira eram mostradas ao inimigo. Em alguns lugares, até partidas de futebol ocorreram. Os mortos foram enterrados. E, durante alguns dias, nenhum tiro foi disparado.

2657744611Claro que a situação inusitada deixou perplexos e preocupados os comandantes. Logo vieram ordens para por fim à “confraternização com o inimigo”. Soldados foram substituídos e oficiais punidos. E logo tiros voltaram a ser disparados. A guerra deveria continuar… e o seria por mais penosos quatro anos e milhões de mortos.

Nunca mais aconteceu uma confraternização como a do Natal de 1914. Passados 100 anos, aquele evento deve continuar a ser lembrado. Afinal, constatou-se ali o poder do espírito de Natal, que fez inimigos se darem as mãos e celebrarem o nascimento daquele que veio para pregar o amor e a união entre os povos. 

Feliz Natal a todos! E que a Paz do Cristo preencha todos os corações!

Segue um texto bem detalhado e interessante sobre o Milagre do Natal de 1914.

Christmas Truce 1914, as seen by the Illustrated London News.

Guerra de Trincheiras
Publicado em 30/04/2013 Fatos Internacionais
http://tokdehistoria.com.br/tag/guerra-de-trincheiras/

O MILAGRE DO NATAL DE 1914

OS INUSITADOS ACONTECIMENTOS DA CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA ENTRE INIMIGOS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O milagre do Natal de 1914

Tudo teve início quando foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia. A ação foi realizada por um estudante, mas toda trama fora criada por um membro do governo sérvio. Em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Tinha início a Primeira Guerra Mundial, conhecida então como Grande Guerra.

Na sequência o mundo viu um ataque alemão inicial através da Bélgica em direção a França. Este avanço foi repelido no início de setembro de 1914, nos arredores de Paris pelas tropas francesas e britânicas, na chamada Primeira Batalha do Marne. Os aliados empurraram as forças alemãs para trás cerca de 50 km. Os germânicos seguem para o vale do Aisne, onde prepararam suas posições defensivas.

Um infogr´´afico pyublicado na primeira página do jornal recifense Diário de Pernambuco, explicando sobre a nova guerra na Europa

As forças aliadas não foram capazes de avançar contra a linha alemã e a luta rapidamente degenerou em um impasse. Nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno e ambos começaram a desenvolver sistemas fortificados de trincheiras. Isso significou o fim da guerra móvel no oeste.

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The Maple Leaf Forever

remembrance_day_inottawa.jpeg.size.xxlarge.letterboxAqueles que me conhecem sabem de minha afeição pelo Canadá e por seu povo. Nesta semana de lembrança do fim da Grande Guerra (por meio do armistício de 11/11/1918), compartilho com meus leitores a letra e a música de uma canção que se torneou uma espécie de hino não-oficial do Canadá. Composta por Alexander Muir, em 1867, ano da fundação daquele grande país, The Maple Leaf Forever foi e é muito tocada em cerimônias patrióticas e militares. Impossível para um canadense não pensar nos que lutaram e morreram nas guerras das quais o país participou, e não lembrar de seus veteranos.

Minha homenagem, com esta canção, aos combatentes de ontem, de hoje, e do amanhã.

The Maple Leaf Forever

In days of yore, from Britain’s shore,
Wolfe, the dauntless hero came,

And planted firm Britannia’s flag,
On Canada’s fair domain.
Here may it wave, our boast, our pride,
And joined in love together,
The thistle, shamrock, rose entwine

The Maple Leaf forever!
Chorus:
The Maple Leaf, our emblem dear,
The Maple Leaf forever!
God save our Queen, and Heaven bless,
The Maple Leaf forever!

At Queenston Heights and Lundy’s Lane,
Our brave fathers, side by side,
For freedom, homes, and loved ones dear,
Firmly stood and nobly died;
And those dear rights which they maintained,
We swear to yield them never!
Our watchword evermore shall be,
The Maple Leaf forever!

Chorus:
Our fair Dominion now extends
From Cape Race to Nootka Sound;
May peace forever be our lot,
And plenteous store abound:
And may those ties of love be ours
Which discord cannot sever,
And flourish green o’er freedom’s home
The Maple Leaf forever!
Chorus:
On merry England’s far famed land
May kind heaven sweetly smile,
God bless old Scotland evermore
and Ireland’s Em’rald Isle!
And swell the song both loud and long
Till rocks and forest quiver!
God save our Queen and Heaven bless
The Maple Leaf forever!

Jamais Serão Esquecidos!!!

Lest forgetComo sempre faço todos os anos, relembro a importância da data de hoje. Há exatos 96 anos, na 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês de 1918, os sinos por toda a Europa começavam a badalar celebrando o fim de quatro anos de guerra, cujo saldo negativo fora de 10 milhões de mortos e outros tantos feridos, mutilados, incapacitados. Além das preciosas vidas perdidas e dos incalculáveis prejuízos materiais, a Grande Guerra que terminava provocara mudanças fundamentais na sociedade, no quadro político e econômico internacional e, acima de tudo, da maneira de ver o mundo dos homens e mulheres de então.

A I Guerra Mundial afetou toda uma geração nos cinco continentes. Vale lembrar de países como o Canadá, tão distante do continente europeu, mas que, com uma população de 10 milhões à época, mobilizou 1,5 dos seus nacionais para o esforço de guerra, deixando para sempre nos campos de batalha da Europa cerca de 65 mil homens entre 17 e 45 anos, que foram lutar uma guerra que muitos diziam que não era deles…

Lest forget2Como sempre faço todos os anos, relembro que a Grande Guerra é um divisor de águas na História da humanidade. O mundo mudou completamente naqueles quatro anos e, a partir dali, mudaria muito mais. Bastante do que vivemos hoje encontra origem no conflito de cem anos passados…

Como sempre faço todos os anos, relembro dos milhões que se sacrificaram nos campos de batalha da Grande Guerra, dos civis que pereceram no conflito, das famílias afetadas por aqueles acontecimentos. E é a eles que rendo homenagem. Como se está a dizer hoje por todo o planeta, “jamais serão esquecidos!”!

Em homenagem a todos que viveram a Grande Guerra e que morreram naquele conflito, reproduzo aqui o Ato da Lembrança (The Act of Remembrance), um trecho do poema “For the Fallen” de Laurence Binyon, escrito em 1914, e muito usado no Dia da Lembrança (Remembrance Day), comemorado nos países da Comunidade Britânica das Nações, para lembrar os veteranos e os que tombaram defendendo seu país (for the King and the Empire). Aprendi sobre ele quando vivia no Canadá, onde a data é muito significativa. 

The Act of Remembrance

They shall grow not old,
as we that are left grow old:
Age shall not weary them,
nor the years condemn.
At the going down of the sun
and in the morning
We will remember them.

O Ato da Lembrança

Eles  não envelhecerão
Como nós envelhecemos
Eles jamais ficarão cansados
Nem o tempo os condenará
E quando o sol se puser
E ao amanhecer
Nós lembraremos deles.

Nós lembraremos deles! 

Remembrance-Sunday

A declaração de guerra

GM_Aug5_1914_GB_Germ_at_WarO dia 3 de agosto de 2014 tem que ser lembrado. Afinal, há exatos cem anos, a Alemanha declarava guerra à França. No dia seguinte, após ter refutado seu pedido para atravessar o território belga para atacar a República Francesa (diante da solicitação alemã, o rei dos belgas teria dito que “a Bélgica não é uma estrada, a Bélgica é uma nação”), o Kaiser Guilherme II ordenou a invasão da Bélgica, país neutro. Como em um grande dominó, a Grã-Bretanha, em 4 de agosto, sob o argumento de garantia da neutralidade belga, declarou guerra à Alemanha. Logo seriam disparados os canhões de agosto.

Em uma semana, em razão da chamada política de alianças e dos tratados secretos: 

1) em 28/07: a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia e a Rússia (aliada da Sérvia) decreta mobilização parcial contra a Áustria-Hungria;
2) em 31/07: a Rússia decreta mobilização total, o que significa, de fato, estado de guerra;
3) em 01/08: a Alemanha (aliada da Áustria-Hungria),  em resposta à mobilização russa, declara guerra à Rússia; e a França (aliada da Rússia) ordena mobilização geral (01/08);
4) em 03/08: a Alemanha então declara guerra à França e invade dá um ultimato à Bélgica, pedindo passagem para atacar os franceses.
5) em 04/08: diante da negativa de passagem de Bruxelas, a Alemanha invade a Bélgica; e, com a quebra da neutralidade belga, a Grã-Bretanha declara guerra à Alemanha.

Acabava um século de paz na Europa. Começavam quatro anos de guerra. Assim ocorreu o início do curto século XX.

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Guerra declarada

Daily T 29071914 Mapa“Diversos acontecimentos de grande importância tiveram lugar ontem para trazer uma luz à crescente crise austro-sérvia. Primeiramente, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia.” Essa é nossa livre tradução da notícia do jornal britânico Daily Telegraph sobre o início da Grande Guerra.

De fato, muito interessante é ver como as pessoas da época percebiam os acontecimentos. Vale a pena a leitura do jornal, mesmo que sua apresentação seja a típica dos diários da primeira metade do século passado, com muita informação, em letras minúsculas, várias colunas por página e a ênfase à informação e não à forma. Interessante, também, como muitas notícias poderiam ser quase que literalmente publicadas hoje, sem que se notasse que são de um século atrás (por exemplo, “os mercados abalados”) e a publicidade da época, como a da Kodak.

Para acessar a edição do dia 29 de julho de 1914 do Daily Telegraph, clique Telegraph1914_2907_2983878a.

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Daily Telegraph July 29 1914

The conflagration starts as Austria-Hungary declares war on Serbia

“Several developments of great importance took place yesterday to throw light upon the situation arising out of the Austro-Servian crisis. In the first place, Austria-Hungary has declared war on Servia.” Thus in an extraordinarily understated way on page 11, the Telegraph starts to report the outbreak of war on the continent. Further on the page is another case of litotes as another report calls the declaration of war a “serious development.”

Our correspondent in Paris writes “the hopes of preserving general peace are still slender,” as all eyes turned now to Russia – how would she react to a military attack on a fellow Slavic state? The third of the several developments was reported to be negotiations between her and Austria – if Russia did come in then Germany, which in the second development announced its refusal to participate in Sir Edward Grey’s proposed mediation, would surely do so as well as Austria’s ally, and then France as Russia’s ally would surely be dragged in as well.

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O começo do fim do mundo

Greatwar3Foi há exatos cem anos! Depois de praticamente um mês de tensão, de construção e desconstrução de alianças, de ameaças, pressões e exigências, o Império Austro-Húngaro declarava guerra à Sérvia. Os motivos da rivalidade entre os dois países remontavam ao século XIX (ou, para alguns, a centenas de anos). Nas últimas décadas, a chamada “questão balcânica” levava um clima de grande instabilidade para uma das regiões mais belas da Europa. A coisa se agravara com as guerras dos anos anteriores… Mas o estopim daquilo tudo fora o assassinato do herdeiro do trono da Áustria, o Arquiduque Francisco Ferdinando, por meio de um atentado terrorista, no dia 28 de junho (vide aqui).

805916Com a declaração de guerra feita por Viena a Belgrado, logo os grandes impérios da Europa se mobilizariam para fazer cumprir as alianças costuradas pela diplomacia secreta da belle époque: a Rússia czarista, o Reich guilhermino, a República Francesa, o Império Britânico (onde o sol nunca se punha)… E os canhões de agosto logo seriam ouvidos, os sinos calados, e o mundo viveria quatro anos de uma guerra sem precedentes. 

fr-trench1A Grande Guerra poria fim a um mundo em 1914… e daria ensejo ao outro totalmente mudado, diferente, que surgiria, em 1918, das cinzas daquele massacre que ceifou a vida de milhões e envolveu os quatro cantos do planeta. A I Guerra Mundial poria fim a cem anos de paz e daria início a 20 anos de crise, que culminariam em mais seis anos de guerra, dor, sofrimento, destruição.

O mundo em que vivemos hoje é um resultado direto dos acontecimentos iniciados há exatos cem anos. E, se a História se repete, é bom que estejamos atentos aos acontecimentos internacionais da atualidade. Exatamente como há um século, o senso comum considerava impossível, impensável, inaceitável uma guerra entre as grandes potências em solo europeu. Só que ela aconteceu. E pôs fim a uma era.

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Segue matéria do The Economist sobre o começo da Grande Guerra. Detalhe interessante: é de 1º de agosto de 1914 o artigo.

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O Assassinato que Mudou o Mundo

HGM_Wilhelm_Vita_Porträt_Franz_FerdinandA História se faz de pessoas, fatos e coincidências, ao contrário do que pregam alguns historiadores marxistas (que elaboram teorias rebuscadas sobre lutas de classe e movimentos de ideias, em que o indivíduo pouca importância tem diante do coletivo e das relações sociais). E a história de algumas pessoas individualmente acaba afetando a história de toda uma coletividade. Foi exatamente o que aconteceu há exatos cem anos.

O nome dele era Francisco Ferdinando Carlos Luís José Maria da Áustria-Este. Nascido em 1863, aos 25 anos (1889) foi alçado à condição de herdeiro do trono da Áustria, com o suicídio de seu primo Rodolfo de Habsburgo e a renúncia de seu pai, Carlos, irmão do então quase sexagenário Imperador Francisco José (que reinaria até a morte, em 1916). De temperamento sisudo e, para alguns, pouco expressivo, Francisco Ferdinando não mantinha relações das mais amistosas com seu tio, o que não o impediria de ser preparado para assumir o trono da mais tradicional das Casas Reais europeias (sobre a história da grandiosa Casa de Habsburgo, clique aqui – já escrevemos em Frumentarius a respeito).

Archduke_Franz_with_his_wifeE foi exercendo suas funções de herdeiro do trono da Áustria-Hungria que Francisco Ferdinando perderia a vida, com conseqüências que alcançariam todo o conjunto da humanidade por décadas. Em 28 de junho de 1914, o Arquiduque e sua esposa, Sofia, duquesa de Hohenberg, visitavam Sarajevo, na Bósnia. Era a época das manobras de verão do exército austro-húngaro que se realizavam naquela região periférica, porém estratégica, do Império. Francisco Ferdinando ali chegara em 25 de junho para supervisionar os exercícios militares, e no dia 27 seguira para Sarajevo, capital da província, para compromissos oficiais. O problema é que a data coincidia com a festa de São Vito, o festival nacional sérvio Vidovdan, aniversário da mítica batalha de Kossovo, em 1389, quando os sérvios haviam sido derrotados pelos turcos – e acreditavam que ali havia começado o longo período de sofrimento nas mãos de opressores estrangeiros. Muitos sérvios percebiam a decisão da visita do Arquiduque como um insulto calculado.

sophie deadNaquela manhã, quando seguia pelas ruas de Sarajevo, o cortejo do Arquiduque sofreu um atentado, quando uma bomba foi lançada contra um dos carros da comitiva. O alvo, por óbvio, era Francisco Ferdinando, mas o terrorista incompetente (um jovem revolucionário bósnio) errou, e o veículo de Sua Alteza escapou iles, seguindo o compromisso no Legislativo local. O mentecapto que cometeu o atentado tentou suicídio, engolindo uma cápsula de cianureto e se jogou no rio, mas acabou vomitando o veneno, dominado pela polícia (o rio tinha apenas 12 centímetros de profundidade) e levado sob custódia. Os outros três conspiradores acovardaram-se e fugiram.

Após a solenidade na câmara municipal, o Arquiduque cancelou a agenda do dia e se dirigiu ao hospital para visitar os feridos no atento. Aí é que se operam as coincidências que alteram os rumos da História… O motorista de Francisco Ferdinando errou o caminho e separou dos carros da frente do cortejo, virando em uma rua (que por mais uma coincidência tinha o nome de seu tio, Francisco José). Ao fazer a manobra para retomar o trajeto, o motor parou. Naquele instante, os deuses do destino colocaram o veículo de Francisco Ferdinando indefeso diante de um dos terroristas que, frustrado, ia embora: o nacionalista bósnio, Gravilo Princip. Diante da oportunidade, Princip não titubeou e disparou dois tiros contra o carro do herdeiro do Trono da Áustria, acertando fatalmente o Arquiduque e sua esposa. Ambos morreram em alguns minutos. O acionamento do gatilho da pistola do jovem terrorista seria o estopim do maior conflito que o mundo já conhecera.

 Princip_arrest (1)Fugindo, Princip foi abrigar-se na Sérvia, nação vizinha e rival do Império Austro-Húngaro. Aberto um inquérito para apurar as responsabilidades pelo atentado, as autoridades austríacas não conseguiram encontrar elemento que ligasse diretamente o governo sérvio ao crime, mas identificaram vínculo entre setores do exército sérvio e os conspiradores. De fato, os terroristas pertenciam à “Mão Negra”, uma organização secreta do movimento nacionalista iugoslavo, cujo líder era o chefe do serviço de inteligência sérvio.

250px-GavrilloprincipNas semanas que se seguiriam, Viena exigiria que Belgrado entregasse Princip. Diante da negativa da Sérvia (que tinha o apoio político e militar do Império Russo), a Áustria-Hungria (que, por sua vez, possuía na Alemanha Guilhermina seu principal aliado) acabou declarando guerra aos sérvios no início de agosto. Logo, como em um dominó, partindo em auxílio uns dos outros, e sob a égide de alianças militares secretas, os principais países europeus ver-se-iam envolvidos em conflito que, pondo fim a um século de paz na Europa, duraria quatro anos, alcançaria todo o planeta e ceifaria 15 milhões de vidas: a I Guerra Mundial.

Os rosacruzes costumam dizer que o acaso não existe. Naquele fatídico 28 de junho de 1914, um Princip mataria um Arquiduque, e a morte de um homem acabaria por provocar a aniquilação de milhões. Eis uma data e um acontecimento que devem ser sempre lembrados. Afinal, foi um atentado terrorista, em uma região periférica da Europa, contra uma autoridade pouco querida e mesmo sem muito prestígio, em uma época em que se achava que a paz entre os povos estava assegurada, mas que provocaria uma hecatombe que até hoje afeta nossas vidas, 100 anos depois.

Curiosamente, há registros de que o herdeiro do Trono Austro-Húngaro simpatizava com a causa eslava e suas aspirações de maior autonomia.  De fato, havia-se mostrado predisposto a aceitar – ao contrário de seu tio, o Imperador – resoluções a favor de uma maior autonomia daqueles povos eslavos, desde que se mantivessem vinculados ao Império. Não viveu para promover essas mudanças… tampouco seu império sobreviveu à Grande Guerra…

arch-Duke Franz Ferdinand - assassination sarajevo - Mein kampf - Hitler - Third Reich

Memórias da Grande Guerra…

Este é um ano emblemático para todos que se interessam por História, em especial por História Militar e História das Relações Internacionais. Afinal, há exatos cem anos, o mundo testemunhava os canhões de agosto que poriam fim a um século de paz na Europa e conduziriam o Velho Continente (e todo o planeta) à mais avassaladora das guerras até então… Milhões de mortos, outros tantos de feridos, e uma mudança na maneira como os seres humanos percebiam o mundo.

Encontrei no site da Deutsche Welle uma página temática interessantíssima sobre a I Guerra Mundial! Em um tempo em que se vislumbra a possibilidade de voltarem a ocorrer conflitos interestatais (no velho estilo), cabe recuperar as memórias da Grande Guerra…

Para acessar o link, clique aqui (em alemão).

Segue, ainda, artigo muito interessante sobre um possível grande fracasso da diplomacia que culminou no morticínio de 1914-1918.

Erster Weltkrieg

Erster Weltkrieg – Hat die Diplomatie versagt?

Der Veranstaltungsort hätte passender kaum sein können: Das 1730 fertiggestellte Zeughaus in Berlin war einmal das größte Waffenlager Preußens. Heute befindet sich in dem barocken Prachtbau am Boulevard Unter den Linden das Deutsche Historische Museum (DHM). Gemeinsam mit dem Auswärtigen Amt (AA) hatte das DHM am Freitag (14.03.2014) zu einer Historiker-Diskussion eingeladen. “Julikrise 1914 – schlafwandelnde Diplomaten?” lautete die Überschrift der zweiten von sieben geplanten Gesprächsrunden, bei denen die Frankfurter Allgemeine Zeitung und die Deutsche Welle Medienpartner sind.
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O Natal de 1914

665321045O ano de 1914 foi, certamente, um dos mais marcantes do século XX. Afinal, para alguns, foi ali que o breve e intenso século começou, com o desencadeamento, no verão, da Grande Guerra.

A I Guerra Mundial fascina por suas peculiaridades. Toda guerra as tem, é certo, mas o conflito iniciado em 1914 esteve no cerne de grandes mudanças na história da humanidade, dividindo não só homens e nações, mas também mundos e eras. O mundo que começou a guerra era completamente distinto do que a viu acabar…

Ainda sobre as peculiaridades, nos campos de batalha e nas trincheiras da Europa, foram testemunhados eventos incríveis, os quais nem mesmo os maiores romancistas poderiam conceber. Um deles ocorreu no Natal de 1914. Sempre comento a respeito nessa época aqui em Frumentarius. E comentarei novamente.

La-trève-de-noël-1914Em breves palavras, naquela noite fria de Natal nas trincheiras do front ocidental, milhares de homens simplesmente suspenderam a carnificina e saíram para confraternizar com o “inimigo”. Não foi nem uma ordem de superiores, talvez uma ordem Superior.

Então, em meio a canções de Natal, combatentes de ambos os lados se encontraram, deram as mãos, abraçaram-se. Houve até troca de presentes. E a guerra, o ódio e as diferenças foram esquecidos, ao menos por algumas horas. O que imperava era o Espírito de Natal, e um sentimento inexplicável de fraternidade preencheu os corações daqueles homens que ali estavam para matar ou ferir seus semelhantes. 

1914As confraternizações aconteceram simultaneamente ao longo de todo o front ocidental. Nunca se vira nada parecido, nem se veria novamente.

Algum tempo depois, os combates foram retomados. E as autoridades militares se encarregariam de não permitir um novo evento como aquele (que quase acabou com a guerra) ocorresse novamente nos fatídicos anos que se seguiram de carnificina.

O Natal de 1914, nas trincheiras da Europa, deixou a lição de que a humanidade pode ser uma só, que diferenças podem ser postas de lado, e que a paz e a fraternidade podem reinar no coração dos justos. Não é esse o Espírito de Natal?!?

Boas Festas! Lembremos sempre de que milagres podem acontecer e que ainda há esperança para a humanidade.

Feliz Natal!
Merry Christmas!
Feliz Navidad!
Joyeux Noël!
Fröhliche Weinachten!
Buon Natale!

Segue um artigo sobre o Natal de 2014.

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Noite feliz na terra de ninguém: Natal de 1914

No Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol

Bruno Leuzinger | 01/03/2004 00h00
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/noite-feliz-terra-ninguem-natal-1914-433575.shtml

Finalmente parou de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada. Continuar lendo

Dia da Lembrança

Apesar de já estarmos no fim deste domingo, 11/11, importante registrar a efeméride de hoje deve ser sempre lembrada. Afinal, foi na 11ª hora do 11º dia do 11º mês do ano de 1918 que chegou ao fim a Grande Guerra. Aquele conflito, que envolveu a maioria das chamadas “nações civilizadas” pôs fim a uma era e deu início ao século XX. O saldo de milhões de mortos e feridos, da destruição de cidades e plantações, do colapso de impérios, marcaria toda uma geração e seria o prelúdio do maior massacre da história da humanidade.

A data de hoje serve para lembrar todos aqueles que pereceram na carnificina de 1914-1918 e todos os que dali saíram com seqüelas. Muitas jovens vidas foram ceifadas e muitos sonhos destruídos. Eles serão sempre lembrados! E que descansem em paz!

Segue o link para nosso post do ano passado:

https://joanisval.com/2011/11/11/a-importancia-do-1111/