A crise da Crimeia sob uma perspectiva russa…

Alexander ChekalinExcelente artigo da Der Spiegel sobre a maneira como o Kremlin percebe a situação da Crimeia. Recomendo a leitura, sobretudo a meus alunos de Relações Internacionais. Muito interessante o fato de, como assinala o texto, a popularidade de Putin ter saltado de 67% à época dos jogos de Sochi para cerca de 80% hoje. Isso significa o apoio que o governante tem da população, que o vê como um líder forte e obstinado (exatamente do que os russos gostam…). Note-se, ainda, que até Gorbachev, prêmio Nobel da Paz, e último dirigente da União Soviética, fala em defesa de uma Crimeia na Federação da Rússia.

As perguntas centrais do artigo também merecem reflexão: a “reunificação”  da Crimeia é apenas mais um movimento contrário à redução da Rússia à condição de potência regional, em uma tentativa de recuperar a influência da época soviética, ou se trata do começo de uma série de “reconquistas” de um país que há séculos se vê como a potência hegemônica da Europa Oriental? Seria Putin um neoimperialista ou um líder que, colocado contra a parede pelas pressões domésticas e pelos desafios externos, mostra-se decidido em proteger os interesses de segurança nacional de seu país?

RUSSIA-UKRAINE-POLITICS-CRISIS-KREMLINOutra questão interessante se refere à percepção estratégica para a Defesa da Rússia diante da OTAN. O artigo assinala com propriedade que, nos tempos da União Soviética, a distância entre Moscou e as linhas da OTAN era de 1.800 km. Caso a Ucrânia ingresse da Aliança Atlântica (como desejam os EUA), essa distância se reduzirá a 500 km, e a Rússia perderia a “profundidade estratégica” tão relevante e que a protegeu das invasões de Napoleão e Hitler… Sete décadas após o fim da II Guerra Mundial, essa preocupação se mantém presente no imaginário daquele povo e na doutrina militar russa. Nesse sentido, continuo achando que o ingresso da Ucrânia na OTAN seria não só humilhante, mas inaceitável para Kremlin (e com razão, se considerarmos a perspectiva russa).

Destaco, por oportuno, a parte do artigo que se refere às possibilidades russas diante da crise e das restrições que lhe são feitas pelos ocidentais. No que concerne à Ucrânia, Putin tem o tempo e as populações russas naquele país a seu favor. Afinal, apesar das reticências do governo de Kiev, o país ainda é muito dependente de seu irmão-maior eslavo, e a minoria russa na Ucrânia é expressiva. Em termos de potências ocidentais, parecem que estas têm mais a perder do que a Rússia em uma queda de braço com Moscou. A economia européia depende mais da energia russa que os russos do comércio com a Europa. 

Finalmente, em se tratando de oportunidades, restrições ocidentais à Rússia podem fazer com que o maior país do mundo se volte para a Ásia, com novas parcerias com a China e a Índia (ambos que necessitarão, cada vez mais, de energia e matéria-prima que os russos têm de sobra). Nesse contexto, oportunidades podem surgir também para países mais afastados, como o Brasil. A falta de posicionamento do governo brasileiro nesta crise pode ser, em última instância, positiva para os interesses econômicos e geopolíticos do Brasil – desde que saiamos, alguma hora, da inércia.

Continuo acreditando que a anexação da Crimeia pela Rússia é fato consumado. Muito difícil reverter essa situação. O jogo, porém, não acabou. Ainda há muitas peças neste tabuleiro, e nenhum dos reis está nem de longe em xeque. Enquanto acompanhamos os movimentos, aproveito para lembrar que os russos são conhecidos por sua habilidade no xadrez…

People pass a mural showing a map of Crimea in Russian national colours on a street in Moscow

SPIEGEL ONLINE
03/25/2014 06:10 PM

‘Dear to Our Hearts’ – The Crimean Crisis from the Kremlin’s Perspective

By Matthias Schepp

The EU and US have come down hard on Russia for its annexation of the Crimean Peninsula. But from the perspective of the Kremlin, it is the West that has painted Putin into a corner. And the Russian president will do what it takes to free himself.

Last September, Vladimir Putin invited Russia experts from around the world to a conference, held halfway between Moscow and St. Petersburg. At the gathering, the Russian president delivered a passionate address. “We will never forget that Russia’s present-day statehood has its roots in Kiev. It was the cradle of the future, greater Russian nation,” Putin said. He added that Russians and Ukrainians have a “shared mentality, shared history and a shared culture. In this sense we are one people.”

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O Urso está lá… e tem fome.

Matéria interessante da Deutsche Welle sobre o temor das ex-repúblicas soviéticas das pretensões expansionistas russas… Não acredito que Putin fará outros movimentos expansionistas por agora… Isso não quer dizer que ele parou com suas idéias de aumentar a esfera de influência de Moscou. Lembrem-se, Putin é KGB.

De toda maneira, se eu tivesse a Rússia como vizinho também estaria preocupado (menos a China, claro, porque a China não precisa se preocupar…).

Ex-repúblicas soviéticas na mira de Moscou

Depois da Crimeia, outros vizinhos da Rússia podem ser vítimas do novo expansionismo de Putin. DW examina as situações dos diferentes países, do Báltico ao Cáucaso, passando pela União Europeia.

DW 22/03/2014

Após a anexação da península da Crimeia à Federação Russa, observadores se perguntam se o presidente Vladimir Putin teria na mira outros países na periferia da Rússia. A Deutsche Welle apresenta os eventuais candidatos na campanha expansionista do Kremlin.

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Crimeia: agora a coisa está russa!

putin_acordo5-640x427Nesta sexta, um decreto de Vladimir Putin confirmou o ingresso da Crimeia na Federação da Rússia. As pessoas têm-me perguntando a respeito. Algumas reflexões, portanto:

1) Difícil dizer se Putin tem uma “grande estratégia” para a região, para o entorno soviét…, digo, russo, ou mesmo para uma política externa retrô, que reviva os tempos da Guerra Fria. Mas, o que posso dizer é que, indiscutivelmente, Putin e Levrov não são bobos ou ingênuos nesse jogo, e não agem movidos por emoções ou achismos. Sabem que estão em um jogo, um grande jogo, e calculam seus movimentos…

2) Com o referendo de 16 de março, do qual participaram 1,2 milhão de eleitores (de um total de 1,5 milhão aptos a votar), 96,8% dos votantes decidiram pela incorporação à Rússia. Apesar da presença de tropas russas disfarçadas de russas e das críticas ocidentais, parece pouco crível que o povo da Crimeia não quisesse essa opção. Afinal, 58% dos habitantes são russos, a região sempre pertenceu à Rússia e é área de interesse estratégico do Kremlin. Vejo aí uma iniciativa brilhante de Moscou, pois o valioso princípio da autodeterminação dos povos, tão caro dos ocidentais, imperou nas urnas. O que pode ser dito contra 96,8% de eleitores? Valeria a pena afrontar os russos por algo que a população da península decidiu?

manchetes-russia-ucrania-crimeia-g73) A Crimeia volta, portanto, à Rússia, onde sempre esteve e de onde nunca deveria ter sido tirada (o que ocorreu por uma decisão de Krushev, em 1954). E, em que pesem os protestos de Kiev, parece fato consumado. Afinal, já foi dada a ordem para as tropas ucranianas deixarem o território da Crimeia e os ocidentais, apesar dos protestos, não ousaram movimentos mais firmes.

4) Moscou ganha a Crimeia, mas perde a Ucrânia. Nesse sentido, Kiev deve migrar para a esfera de influência da União Européia. Resta saber se os russos vão deixar isso acontecer, pois pareceria uma derrota da política externa de Putin.

crimeia russia5) Diante da reação tísica do Governo Obama, e da resposta firme de Moscou, parece que essa jogada foi vencida pelo Kremlin. Daí para imaginar um abalo mais profundo nas relações entre russos e estadunidenses, creio que isso não ocorrerá… As forças agregadoras são maiores.

6) As tropas da OTAN já estão em alerta na Polônia e nos Países Bálticos. Tudo indica que os russos pararão na Crimeia (ao menos por enquanto). De toda maneira, se fosse da OTAN estaria com as barbas de molho…  E não me surpreenderia se Moscou começasse a reorganizar um novo Pacto de Varsóvia (o que faria tremer todo mundo a Oeste do Dnieper – menos os bielorrussos, que serão sempre aliados dos russos).

Continuamos atentos aos desdobramentos nas terras eslavas… Ainda não acabou…

crimeia russia2

RIA Novosti

Putin Signs Final Crimea Reunification Decree

17:37 21/03/2014

Russian president Vladimir Putin signed a decree Friday on the ratification of the treaty providing for the reunification of the Crimean Peninsula with Russia.

MOSCOW, March 21 (RIA Novosti) – Russian President Vladimir Putin signed a decree Friday on the ratification of the treaty providing for the reunification of the Crimean Peninsula with Russia.

The treaty had been already ratified by both houses of the Russian parliament. Continuar lendo

O mundo perdido do Comunismo – O Paraíso Socialista

crimes comunismoInteressante a quantidade de jovens que vemos em redes sociais defendendo uma “alternativa socialista” (porque ninguém tem mais coragem de falar em comunismo nesses termos) e condenado a “sociedade capitalista exploradora” (condenam, apesar dos benefícios que usufruem dela, como a própria tecnologia de hardware e software por meio da qual protestam e rede social em que operam). Irritante como qualquer discurso contrário às idéias dessas pessoas é chamado de “fascista” (o termo voltou à moda no Brasil e em alguns lugares do mundo, como nos bons tempos da Guerra Fria e da Cortina de Ferro) ou de autoritário. Tudo isso tomando-se como ícones pensadores de esquerda e “heróis da luta dos trabalhadores” (como o famigerado Guevara, sobre o qual muito pouco verdadeiramente conhecem).

Impressiona-me, realmente, como as gerações atuais são iludidas com o discurso do “paraíso socialista”, ou de como as idéias que construíram regimes autoritários e genocidas são um ideal de “liberdade, democracia e fraternidade entre os povos” – não são. De fato, sob o signo da foice e do martelo foram perpetradas grandes atrocidades nos últimos cem anos. O socialismo trouxe dor e sofrimento a muita gente. Liberdade não houve, tampouco democracia.

anticomunismoEssas reflexões me vieram quando revia um documentário muito interessante da BBC (cujo título é o deste post) sobre a maneira como as pessoas viviam sob os regimes socialistas. Tenho estudado o tema, mesmo. Em visita a países do Leste Europeu, sempre busco a oportunidade de conversar com pessoas que viveram sob os regimes socialista que imperavam naquela parte do mundo até o fim da década de 1980. A maioria absoluta das pessoas com quem conversei tinha histórias e lembranças ruins daquela época e repudia o socialismo/comunismo.

Triste e inadmissível como pessoas permanecem iludidas por aqui, em Pindorama. Preocupante como muitas defendem essas idéias, inclusive na estrutura do Estado e no governo. Aterrorizante como tem gente que acha que aquilo era uma coisa boa e prega uma guinada cada vez mais à esquerda para o Brasil.

muro de berlimO sonho socialista/comunista mostrou-se um pesadelo. Não quero, de forma alguma, essa alternativa para o Brasil. Alguém precisa esclarecer as novas gerações de que não existe bem maior que a liberdade e regime mais valoroso que a democracia (apesar de todos os seus defeitos).

Recomendo o documentário “O mundo perdido do Comunismo – O Paraíso Socialista“. Para acessá-lo, clique aqui.

portao de brandenburgo queda do muroE, para quem quiser conhecer mais a respeito das atrocidades sob o signo da estrela vermelha, indico “O Livro Negro do Comunismo” (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999), editado por Stéphane Courtois, obra coletiva de professores e pesquisadores europeus, e lançado originalmente na França, em 1997. Trata-se de trabalho sério e científico, que faz um inventário da repressão política conduzida nos regimes socialistas/comunistas. A primeira referência que tive sobre esse livro foi do saudoso Roberto Campos. Logo comentarei um pouco mais aqui sobre a obra…

russiansoldiers

Amigos, amigos, negócios…

Reportagem da Spiegel sobre “indisposições” no seio da OTAN, algumas delas associadas à conduta dos EUA com relação a seus aliados… Recomendo a leitura, sobretudo a meus alunos de Relações Internacionais que ainda achem que o mundo é feito de flores..

Daqui a pouco Putin propõe uma aliança no estilo Pacto de Varsóvia para atrair os povos do Leste (claro que com todos sabendo quem manda e quem pode o quê)…

Belgium NATO Ukraine

SPIEGEL ONLINE
03/06/2014 04:48 PM

Whither NATO? Difficulties in the Trans-Atlantic Relationship

An Op-Ed by Secretary William Cohen and General James Jones

Revelations about NSA spying and an unequal sharing of military burdens has cast a recent shadow over the trans-Atlantic relationship. But NATO remains just as important as ever. It is time for all alliance members to recognize that fact.

During the course of more than three decades, in our public service and private capacities, we have regularly attended the Munich Security Conference, formerly known as Wehrkunde.

The Conference initially consisted of a small group of military experts from the United States, Canada and Western Europe who discussed issues involving the threat posed by the former Soviet Union. Today, the Conference includes representatives from the business, diplomatic and military communities from all of Europe, Russia and Asia who examine the new threats posed by terrorists, religious extremists, nuclear proliferation, cyber warfare and organized crime.

Although the US delegation to the Conference included 15 members of Congress and a joint appearance by Secretary of State John Kerry and Secretary of Defense Chuck Hagel we detected the “brooding omnipresence” of a discontent for the United States that contained a whiff of anti-Americanism.

This dark overhang is due in part to Edward Snowden’s revelations about NSA’s collection activities, but it is coupled with a perception that the United States is withdrawing its interest from vast areas of the globe, including Europe, a feeling partly fueled by the “Pivot Towards Asia” declaration announced in Washington. While nothing could be further from the truth, perceptions can become reality when not effectively rebuffed by evidence to the contrary. There also seems to be a little too much enthusiasm to link this perception with the increasingly popular notion of a general “American decline”, something we have heard about in every decade since 1945. Continuar lendo

Guerra cibernética na Ucrânia

cyberattackEnquanto no Brasil se comemora o resultado do desfile das escolas de samba do grupo especial (hein?), na Ucrânia a situação está cada vez mais russa… Segue artigo muito interessante, enviado por um caríssimo amigo lá do Timor Leste, que trata de ataques cibernéticos contra aquele país.

Lembro que a guerra neste novo século pode-se dar em diferentes cenários, com as armas mais distintas. E um campo absurdamente sensível é o cibernético. Daí a importância de estarmos preparados… Daí meu pleito por investimento maciço em segurança e defesa cibernética. Os danos de um ataque no mundo virtual podem ser tão ou mais nefastos que um ataque com mísseis ou com a infantaria contra um território. Ah sim, atentem na reportagem para o comentário sutil sobre a origem do ataque.

Em tempo, sempre convém lembrar que, por ocasião da guerra entre a Rússia e a Geórgia, em agosto de 2008, antes que a primeira bota russa estivesse em solo georgiano, os sistemas deste país já haviam colapsado sob ataque cibernético. Mas, por aqui, o que importa é quem venceu o desfile do grupo especial…

Finantial Times – March 7, 2014 7:25 pm

Cyber Snake plagues Ukraine networks

By Sam Jones, Defence and Security Editor
A magnifying glass is held in front of a computer screen©Reuters

An aggressive cyber weapon called Snake has infected dozens of Ukrainian computer networks including government systems in one of the most sophisticated attacks of recent years.

Also known as Ouroboros, after the serpent of Greek mythology that swallowed its own tail, experts say it is comparable in its complexity with Stuxnet, the malware that was found to have disrupted Iran’s uranium enrichment programme in 2010.

 The cyber weapon has been deployed most aggressively since the start of last year ahead of protests that climaxed two weeks ago with the overthrow of Viktor Yanukovich’s government. Continuar lendo

Putin e seus inimigos

Outra boa matéria da Spiegel sobre a questão da Ucânia. O foco aqui é em Vladimir Putin e seus argumentos. Recomendo leitura.

Military personnel, believed to be a Russian serviceman, stands guard on military vehicle outside the territory of a Ukrainian military unit in the village of Perevalnoye outside Simferopol

SPIEGEL ONLINE
03/03/2014 01:01 PM

Ukraine Conflict – Putin Strengthens His True Enemies

A Commentary by   in Moscow

Although Russia has espoused moral justifications for its invasion of Crimea, President Vladimir Putin’s move is all about geopolitics. His short-sighted logic, however, could bring Ukrainian nationalists to power — and create a whole new set of problems.

Whenever Russia pursues its own interest against the will of the international community, a dictum by Czar Alexander III springs to mind. Russia, he said, has only two allies: its army and its navy. If you can believe the Kremlin’s propagandists, however, a new, unexpected ally has come to Moscow’s defense: the Western press. According to the website “Sputnik and Pogrom,” the Western media have “begun to support the Russian Federation’s course of action in the Crimean crisis.”

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Frau Merkel e a Rússia

Matéria interessante sobre o papel de Frau Merkel na crise ucraniana. A Chanceler está à frente da principal potência européia, sabe ser prudente e firme e conhece bem os russos – melhor que qualquer outro líder ocidental. De toda maneira, está à frente da Alemanha, que há cem anos tem uma relação um pouco conturbada com a Rússia…

File photo shows German Chancellor Merkel and Russian President Putin listening to their national anthems before talks at Chancellery in Berlin

SPIEGEL ONLINE
03/04/2014 12:56 PM

Crimean Crisis – All Eyes on Merkel

By  and Gregor Peter Schmitz

As the conflict with Russia over Crimea intensifies, Germany is playing a central role in communications with Russian President Vladimir Putin. But the international community has doubts that Chancellor Angela Merkel can pull it off.

Germany had only recently announced the end of its era of restraint. German President Joachim Gauck, Defense Minister Ursula von der Leyen of the Christian Democrats and Foreign Minister Frank-Walter Steinmeier of the Social Democrats have all argued that it’s time for Germany to play a greater role in the world.

Steinmeier couldn’t have expected that he would need to follow-through on his push for an “aggressive foreign policy” so quickly. But the dramatic escalation in Crimea needs quick answers and it has become a focus of Chancellor Angela Merkel’s government in Berlin.

“Europe is, without a doubt, in its most serious crisis since the fall of the Berlin Wall,” Steinmeier said on Monday. “Twenty-five years after the end of the conflict between the blocs, there’s a new, real danger that Europe will split once again.” Continuar lendo

Mais deserções…

mísseis A Voz da Rússia anunciou nesta segunda que mais três grupos (que lá chamam de regimentos) de mísseis antiaéreos das Forças Armadas da Ucrânia  (os 50º, 55º e 147º regimentos de mísseis antiaéreos, localizados em Eupatória, Feodosia e Fiolente) passaram para o lado das autoridades da Crimeia – leia-se, Moscou. 

Segundo o porta-voz da República Autônoma, “no total, mais de 700 soldados e oficiais declararam a sua disponibilidade para defender a população da Crimeia. As unidades de defesa aérea, que passaram para o lado do governo, contam com mais de 20 complexos de mísseis antiaéreos Buk e mais de 30 sistemas de mísseis antiaéreos S-300PS”. Seriam já cerca de 5.500 soldados “ucranianos” a passar para o lado dos russos.

Assim, das 34 unidades militares ucranianas estacionadas na Crimeia, 23 já teriam manifestado lealdade a Moscou. Some-se aí a frota ucraniana (ou ex-frota ucraniana, ou ex-frota soviética do Mar Negro) de Sebastopol que optou por aderir à causa da secessão.

Diante desse quadro, alguém tem dúvida de que a Crimeia deixou de pertencer à Ucrânia? O problema é se o exemplo for seguido pela região leste do país, de maioria russa. Isso acontecendo, a probabilidade de secessão da Ucrânia é  alta. Com o Urso à espreita, as lideranças do governo provisório em Kiev têm muito com o que se preocupar…

Segue artigo da RIA Novosti sobre as deserções…

RIA Novosti

5,500 Ukrainian Soldiers Defect to Serve an Independent Crimea

18:22 04/03/2014

More than 5,500 soldiers have defected from Ukraine’s military to serve the autonomous republic of Crimea, the region’s newly appointed leader said.

 MOSCOW, March 4 (RIA Novosti) – More than 5,500 soldiers have defected from Ukraine’s military to serve the autonomous republic of Crimea, the region’s newly appointed leader said.

Sergei Aksyonov, named prime minister last week in a local parliamentary vote, said Tuesday that talks with unit commanders led to the defections of soldiers to join an independent Crimean military. Continuar lendo

Solução à Munique

5311de3312d78A crise internacional envolvendo a Ucrânia parece já ter chegado a seu ápice. Os oponentes já mostraram suas cartas, seus dentes e suas garras. A Crimeia já se encontra sob ocupação russa. Putin não pretende arredar de lá. E, no Ocidente, apesar das palavras firmes de alguns líderes, todos sabem que não vale a pena afrontar o Urso por causa da Ucrânia – simples assim, é como funciona o cálculo estratégico em política internacional. Não obstante, pressões continuam para uma medida mais incisiva por parte dos ocidentais – iniciativa essa que dificilmente virá. O que fazer então?

A História (ah, a História!) é sempre pródiga em exemplos e referências para os que tentam navegar nos mares tortuosos das Relações Internacionais. E com a situação na Ucrânia não deve ser diferente. Tudo parece caminhar nesse caso para uma solução no melhor estilo da Conferência de Munique, de 1938.

Putin já disse o que quer. A Crimeia é russa desde sempre (era russa até 1954, quando Kruschev, nascido bem pertinho da fronteira russa com a Ucrânia, resolveu, em um típico ato de solidariedade entre os povos da União Soviética, transferir o território para a República Socialista Soviética da Ucrânia – o que, em termos de de dominação soviética, não significava absolutamente nada…), sua população é russa, e há uma outra série de razões para se dizer que a região deve ficar sob a égide de Moscou (exatamente como os Sudetos com relação à Alemanha, em 1938).

chamberlain 1938Os ocidentais, fora o discurso altivo, estão titubeantes, não querem confusão com a Rússia (ainda mais por uma região que sempre esteve sobre hegemonia russa), e buscam desesperadamente uma saída honrosa para a crise (exatamente como Chamberlain e Daladier, em 1938). Frau Merkel está em contato direto com Vladimir, que também tem conversado bem com Obama…

Portanto, parece que o espírito de Munique deve imperar na crise da Ucrânia. Os russos ficam com a Crimeia, os ocidentais saem eufóricos após conseguirem garantir a integridade do território ucraniano (tá, porque a Crimeia, repita-se, não é território ucraniano) e a manutenção dos exércitos russos do outro lado da fronteira, e o mundo suspira aliviado porque não chegamos a um conflito direto entre as grandes potências (exatamente como em Munique, em 1938).

Mas falta um ator nesse cenário… Ah, sim! A Ucrânia! E como ficam os ucranianos? Ficam na sala ao lado, esperando o resultado da negociação em que os ocidentais os salvarão dos russos. Simples assim. E que os ucranianos possam se contentar em manter sua independência e, de fato, a existência de seu país (exatamente como aconteceu com os tchecos, em 1938).

Exatamente como aconteceu em 1938, tudo ficará bem! Claro que, depois de perder os Sudetos, a Tchecoslováquia entrou em colapso, seu território foi dilacerado, com outros países tomando seus nacos ao norte, ao sul e ao leste, a economia entrou em crise e, alguns meses depois, os alemães “marchavam pacificamente” sobre as ruas da belíssima Praga, que seria a capital do Protetorado (alemão) da Boêmia e Morávia. Sim, alguns meses após a Conferência de Munique, a Tchecoslováquia sucumbiu… Mas o mundo estava em paz… Até que, um ano depois, começou a II Guerra Mundial.

Na crise da Ucrânia, portanto, esperemos que tudo acabe de maneira pacífica, e que seja restabelecida a harmonia entre os povos. Exatamente como aconteceu em Munique, em 1938.

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Mobilização e “Atos de Guerra”

ukranian presidentHá muito não vivíamos momentos de tamanha tensão… O Primeiro-Ministro ucraniano declarou mobilização total de suas (frágeis) forças armadas. Disse, ainda, que considera as ações de Moscou uma “declaração de guerra” – termos fortes, ainda mais em um momento de tamanha crise… 

A Crimeia já está ocupada pelos russos, e as lideranças locais declaram-se sob a proteção de Moscou (isso lembrou-me muito a situação em Dantzig, em agosto de 1939). Para complicar mais, o novo comandante da força naval ucraniana, empossado há dois dias, acabou de manifestar lealdade à Rússia e criou-se a “frota da Crimeia” com as naus que estavam em Sebastopol (ao lado da frota russa do Mar Negro) – ontem, eu disse aqui que isso logo poderia acontecer.

_73313166_76e8d616-6be8-4613-9a31-741d2fd20c38No Ocidente, a OTAN repudia a ofensiva russa… mas, por enquanto, fica só em palavras. O problema é que logo a Aliança Atlântica pode-se ver obrigada a agir, com fundamento no acordo de segurança firmado com Kiev há alguns anos. Situação muito parecida com a de Grã-Bretanha e França com relação à Polônia às vésperas da II Guerra Mundial. O apaziguamento tem limites…

Da parte de Washington, John Kerry também usou termos fortes, sobretudo quando vindos de um Secretário de Estado: falou em “atos de agressão” dos russos, dando sinal de que os norte-americanos já estariam considerando a tradicional justificativa “moral” para agir ou para pressionar Moscou mais ainda. O Kremlin, por sua vez, permanece inabalável na defesa dos interesses russos em sua natural área de influência. Parecem tempos de Guerra Fria… Só que Obama não é Kennedy, e tampouco Putin é Krushev. As próximas horas serão decisivas.

ukraine-crisisMobilização, ameaças, segurança coletiva, alianças militares, intervenções militares, atos de guerra, declaração de guerra. Na condição de historiador, fica difícil saber em que época estamos.

Segue matéria muito interessante da Reuters sobre o desenrolar da crise…

Ukraine mobilizes after Putin’s ‘declaration of war’

Photo
4:36pm EST
Reuters – By Natalia Zinets and Alissa de Carbonnel

KIEV/BALACLAVA, Ukraine (Reuters) – Ukraine mobilized for war on Sunday and Washington threatened to isolate Russia economically, after President Vladimir Putin declared he had the right to invade his neighbor in Moscow’s biggest confrontation with the West since the Cold War.

“This is not a threat: this is actually the declaration of war to my country,” Ukraine’s Prime Minister Arseny Yatseniuk said in English. Yatsenuik heads a pro-Western government that took power when the country’s Russia-backed president, Viktor Yanukovich, was ousted last week. Continuar lendo

A águia observa

Os EUA estão fazendo seu papel, instando a Moscou a retirar os soldados russos disfarçados de soldados russos da Crimeia e a buscar uma solução pacífica para a crise da Ucrânia. Poderia ser diferente? A alternativa é uma confrontação com o Urso, que não é a Líbia, a Síria ou mesmo o Iraque. De fato, a Rússia é a Rússia e, para os incautos, é governada por Vladimir Putin (gosto de Putin, Putin é KGB). Assim, Washington está em situação bastante delicada se considerar qualquer movimento mais incisivo… Não obstante, se não fizer nada, Obama passa a imagem de fraco e de incapaz de defender os interesses de aliados quando o adversário realmente importa.

Cedo demais para pensar em conflito? Naturalmente. Afinal, é a Administração Obama! São os democratas na Casa Branca (e pode ser com isso que o Kremlin esteja contanto e apostando suas fichas). Diante do quadro, não consigo deixar de lembrar que, se não estiver enganado (não fui conferir), nos últimos cem anos, das guerras em que os EUA participaram diretamente, ou acabaram envolvidos e tiveram que usar a força, à exceção das duas Guerras do Golfo, todas ocorreram em administrações democratas… Pois é…

Kerry, Hagel, Dempsey Testify on Use of Force in Syria

Crise da Ucrânia: EUA ameaçam Rússia

O secretário de Estado norte-americano John Kerry pediu a Rússia para retirar imediatamente suas tropas e a aceitar a intermediação internacional na Ucrânia. Continuar lendo

Tambores de guerra

soldier russian crimeaPrimeiro-ministro da Criméia solicita proteção a Moscou. Soldados russos disfarçados de soldados russos estão em território ucraniano e ocupam posições-chave. O Senado russo já autorizou Putin a uma ação militar na Ucrânia. Kiev decreta mobilização geral das Forças Armadas. Ocidentais esbravejam, criticam o Kremlin, instam Putin a conter-se, mas estão realmente preocupados em não atiçar tanto o Urso que se movimenta em seu território, buscando a presa em sua área de caça (ou, como diriam os internacionalistas, em sua zona de influência)….

ukranian troops

Não estou dizendo que haverá guerra. Afinal, em pleno século XXI, em território europeu e envolvendo grandes potências – inclusive potências nucleares -, um conflito assim poderia ser realmente de consequências extremamente desastrosas não só para europeus, russos ou estadunidenses… Não estou dizendo que haverá guerra, pois o que se vê agora são as peças dispostas em um grande tabuleiro, com jogadores/oponentes habilidosos, experientes e pragmáticos – como deve ser.

Não estou dizendo que haverá guerra. Essa não seria a saída racional da crise. Entretanto, a História ensina que em situações de significativa tensão – e a presente é uma delas – por mais racionalmente que se opere, podem acontecer variáveis inesperadas e eventos secundários, de menor importância no grande jogo, mas que funcionam como estopim para um conflito. Sim, há sempre os insignificantes acontecimentos que podem servir de estopins, de gatilhos para o pior. O deus da guerra é muito habilidoso nesses assuntos e vela por seus filhos…

bandeiras rasgadas ucrania russiaNão estou dizendo que haverá guerra. Porém, como já comentei aqui em Frumentarius, o clima está muito semelhante àquele das semanas que antecederam a invasão da Polônia pela Alemanha, em 1º de setembro de 1939: interesses de grandes potências em xeque, territórios ameaçados, um país menor no meio do jogo, feras mostrando os dentes, mobilização de tropas, trocas de advertências… E isso aconteceu há 75 anos… Ademais, com as coincidências que fazem do mundo um lugar fascinante, 2014 é o ano do centenário do início da I Guerra Mundial, a Grande Guerra – que começou, por sinal, com um evento secundário…

O clima no planeta está tenso. No Brasil, é Carnaval. Ziriguidum…

russia-ukraine-war-sevastopol-crimea-georgia

Autoridades da Crimeia pedem a Putin que garanta a paz

Voz da Rússia, 01MAR2014 – http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_03_01/autoridades-da-crimeia-pedem-a-putin-garantir-paz-7438/

Serguei Aksenov, primeiro-ministro da Crimeia, emitiu na manhã deste sábado uma declaração urgente. Ele apela ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, pedindo assistência para assegurar a paz e a estabilidade no território da república autônoma. Continuar lendo

Começou!

interventionSeriam dois mil homens ocupando pontos estratégicos na Criméia: Simferopol, a capital regional e Sebastopol, onde está a frota ucraniana e a frota russa do Mar Negro. Obviamente são forças russas. Acompanhando ansiosamente a reação do Ocidente…

E, para quem quiser ver um trecho do discurso de Yanukovich, clique aqui. Interessante os termos que parecem vindos direto da União Soviética…

Armed men seize two airports in Ukraine’s Crimea, Yanukovich reappears

Photo
4:13pm EST

Reuters, 28FEB2014 – By Alissa de Carbonnel and Alessandra Prentice

SIMFEROPOL, Ukraine (Reuters) – Armed men took control of two airports in the Crimea region on Friday in what the new Ukrainian leadership described as an invasion by Moscow’s forces, and ousted President Viktor Yanukovich surfaced in Russia after a week on the run.

Yanukovich said Russia should use all means at its disposal to stop the chaos in Ukraine as tension rose on the Black Sea peninsula of Crimea, the only region with an ethnic Russian majority and the last major bastion of resistance to the overthrow of the Moscow-backed leader.

Acting President Oleksander Turchinov accused Russia of open aggression and said Moscow was following a scenario simliar to the one before it went to war with fellow former Soviet republic Georgia in 2008. Continuar lendo

Ucrânia: o pior ainda não passou…

158772077Os amigos têm-me perguntado sobre minha percepção do que se passa na Ucrânia. Reitero minhas preocupações do post anterior. A crise ainda não acabou…

O país está cada vez mais dividido, pois parece que se organiza uma resistência ao novo governo no Leste do país, de maioria étnica russa. O próprio Yanukovich, abrigado na Rússia, continua se dizendo o legítimo governante da Ucrânia. “Sim”, alguns diriam, “mas é assim que faria qualquer líder deposto em semelhantes circunstâncias”. O problema é que ele fez esse pronunciamento a partir da Rússia. Daí vamos às reflexões:

yanukovich1) Yanucovich, apesar de caído, não está morto. E pode contar com apoio de parte da população e de grupos do Leste da Ucrânia em uma eventual resistência à nova ordem. Nesse caso, é de se esperar que Moscou não fique quieto assistindo…

2) Sim, Moscou pode intervir. Exercícios militares são feitos na fronteira. Tropas estão mobilizadas. E não se deve descartar a hipótese de intervenção militar à velha moda do que acontecia à época do Pacto de Varsóvia – mesmo porque, se a Ucrânia não é como a Geórgia, tampouco é como a Hungria ou a Tchecoslováquia. O país era parte do Império Soviético até 1991. O que estou tentando dizer é que, com a Ucrânia, a situação é mais sensível, os interesses russos são significativos e a coisa pode piorar.

3) Ainda que não haja intervenção militar direta de Moscou, naturalmente o Kremlin o fará não-oficialmente, seja usando seu pessoal de forças especiais, seu aparato de inteligência, sua capacidade de influência na região, ou tudo isso ao mesmo tempo agora! Repito, a Ucrânia era parte do Império Soviético até 1991 e, para algumas lideranças em Moscou (ou na própria Ucrânia), nunca deveria ter deixado de sê-lo.

Sleeve_Insignia_of_the_Russian_Black_Sea_Fleet.svg4) E tem a Criméia… alguém em sã consciência acredita realmente que os russos abririam mão da Criméia? É uma das áreas mais estratégicas para o país! A propósito, no momento em que escrevo, já há tropas russas ocupando Sebastopol e Simferopol… Isso para não falar da frota do Mar Negro… Um amigo que chegou recentemente da Ucrânia mostrou-me as fotos da disposição das frotas russa e ucraniana em Sebastopol – as duas ficam juntas, os navios são semelhantes, pertenciam à frota soviética até 1991… De fato, é só trocar a bandeira e ocupar os navios.

5) Um desfecho pacífico (digo, sem um conflito internacional envolvendo ocidentais e russos) pode ser a fragmentação da Ucrânia… o país pode acabar dividido… Só não creio que será tranquila essa secessão como foi a Revolução de Veludo na Tchecoslováquia, há duas décadas. Sangue correrá,  o país ficará ainda mais fragilizado e o futuro é tenebroso…

839-i7BBd.AuSt.556) Tenho lá minhas dúvidas sobre a reação ocidental quando a coisa esquentar mais e os russos entrarem definitivamente no jogo. Será que a União Européia e os Estados Unidos vão realmente intervir em favor da Ucrânia? Nesse jogo, Putin parece mais seguro e os ocidentais bem hesitantes…

Enquanto escrevo, a situação me faz lembrar o que aconteceu em setembro de 1939, na Europa Oriental… com a invasão da Polônia pelos alemães, em 1 de setembro, os ocidentais, que haviam procrastinado a reação à Alemanha mas empenharam seu apoio a Varsóvia, tiveram que entrar em guerra contra Hitler em socorro desesperado aos poloneses (ou, mais precisamente, à sua própria honra)… Inimaginável uma guerra nos moldes daquela de 1939-1945… Inimaginável europeus ocidentais (ou norte-americanos) entrando em conflito com os russos por causa de um povo e um território que (na visão de muita gente, pertence mesmo aos russos)… Inimaginável uma nova Guerra Fria… Inimaginável?

Bom, se a história realmente se repetir, lembro que em 2014 completa-se um século do desencadeamento do maior conflito armado até então: a I Guerra Mundial… Um século, duas guerras mundiais, uma Guerra Fria se passaram. Será que as lições foram aprendidas?

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Um já foi… Qual será o próximo a cair de maduro?

world_01_temp-1385803778-5299b002-620x348 Tudo indica que Yanukovich está fora do jogo político da Ucrânia e que a oposição venceu. Vejo a notícia com ressalvas porque o inesperado pode acontecer naquela bela e rica parte do mundo… Moscou ainda não se manifestou sobre a queda do presidente ucraniano. Se estiver confirmado que foi deposto, podemos estar diante de grandes transformações naquele país, com algumas possibilidades não-necessariamente excludentes: 1) uma aproximação com o Ocidente e com a União Européia e mais liberdade e democracia; 2) um movimento de xeque russo, que pode ser surpreendente; 3) a fragmentação do país.

De toda maneira, parece que um ditador já foi. A milhares de quilômetros que Kiev, outra crise de governabilidade coloca milhares de pessoas contra um regime autoritário: apesar da proximidade com o Brasil, parece que chega menos notícia aqui da Venezuela que da Ucrânia… Será que é porque ali é o companheiro Maduro e o regime autoritário bolivariano (detesto esse termo, e acho que o grande Bolívar também odiaria) que estão na berlinda?

2014-02-16T194828Z-1110150863-GM1EA2H0ABH01-RTRMADP-3-VENEZUELA-PROTESTS-size-598Logo escreverei aqui sobre a Venezuela. A situação ali é muito preocupante também. E gente tem sido presa, tem desaparecido, tem sido ferida e morta. O governo brasileiro mantém seu apoio a Maduro. O Mercosul (quê?) também, apesar da cláusula democrática (ah, sim! haveria uma coisa assim no bloco). Nem vou falar da Unasul…

16fev2014---manifestante-participa-de-protesto-em-altamira-regiao-metropolitana-de-caracas-venezuela-exigindo-a-libertacao-dos-estudantes-presos-em-manifestacoes-anteriores-neste-domingo-16-1392613640A cobertura sobre os efeitos da crise venezuelana por aqui é ínfima. Parece que os brasileiros estamos completamente apáticos diante do que ocorre no país vizinho. Não estamos, ao menos alguns. Esta semana, por exemplo, um grupo de jovens e bravos estudantes fez um protesto diante da Embaixada da Venezuela contra as violações aos direitos humanos e o autoritarismo do regime de Caracas. Perguntei sobre a cobertura da mídia à manifestação. Resposta: inexistente. Meus parabéns ao grupo pela coragem e pelo exercício de um direito fundamental na democracia!

Ucrania4Bom, como estamos na América Latina, há sempre o risco do novo Caracazo acabar antes de qualquer resultado que não seja a contabilização das vítimas que terão caído em vão. Ao menos na Ucrânia, isso parece não ter acontecido. Agora em Kiev é hora de chorar os mortos e sonhar com um futuro de liberdade econômica, política e social. E é tempo de se planejar um país em que o discurso autoritário, as ideologias anacrônicas, a corrupção e a falta de compromisso com a coisa pública não devem prosperar. A lição está dada, em que pese o sangue que foi lamentavelmente derramado pela liberdade. Temos muito que apreender com os ucranianos.

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Inverno Eslavo

UKRAINE_Muita gente tem-me perguntado sobre a crise na Ucrânia. Não sou especialista na região, e tampouco tenho-me aprofundado nesse interessante tema. Porém, como aqui se busca “pensar um pouco de tudo”, vamos a algumas reflexões de um curioso:

1) A situação é grave, muito mais grave do aquilo que chega aqui pela mídia generalizada. Kiev virou realmente um campo de batalha, um campo de batalha na cidade que simbolicamente é o berço do mundo eslavo; um campo de batalha em um país europeu, quando muitos europeus acreditavam que isso só poderia acontecer na periferia do mundo civilizado. “Ok”, podem dizer os mais cínicos, “mas a Ucrânia não seria assim tão européia…” É exatamente esse um dos aspectos centrais dos dilemas daquele povo, e tem gente morrendo por isso.

Ucrania22) Muita gente está morrendo em Kiev por ocasião dos protestos, começados há alguns meses e agravados agora. O uso do gerúndio aqui foi proposital: pessoas continuam sendo alvejadas nas ruas, hospitais lotados de feridos, filhos que não voltam para casa, famílias que perdem o pai… Se os brasileiros se chocam tanto com a violência dos protestos por aqui, deveriam ter mais consciência de que as mortes na capital ucraniana, em razão dos confrontos e das manifestações,  chegam a centenas.

3) Sim, a Ucrânia é um país dividido. Sempre foi. Metade da população fala russo, vem de uma cultura eminentemente russa, tem vínculos estreitos com a Rússia, e não se ofenderia em ver seu país tornando-se mais uma das repúblicas da Federação comandada a partir de Moscou. Uma outra parte é de ucranianos, que tentam de todas as maneiras a afirmação de seu idioma, sua cultura e sua nacionalidade, vendo a aproximação com a União Européia a esperança de libertação da hegemonia russa – essa aproximação, defendem, é uma questão de sobrevivência para o país, cuja a história foi em sua maior parte de ocupação e dominação por uma potência estrangeira. E ainda existem aqueles de origem polonesa, romena, tártara, que ficam no meio do fogo-cruzado… Ou seja, o que se vê no país agora não são protestos contra um governo, mas uma crise de identidade nacional e uma disputa decisiva pelos destinos da Ucrânia nas próximas décadas.

ucrania-17384614) Por sua posição estratégica, fica evidente que a disputa na Ucrânia ultrapassa os interesses dos próprios ucranianos. Trata-se, de fato, de uma confrontação entre o Ocidente e a Rússia, que se reergue da queda soviética. A Ucrânia é, tradicionalmente, zona de influência direta russo-soviética, é importante para Moscou, e Putin não abrirá mão tão fácil do segundo maior país eslavo, tanto por essa condição quanto por seu valor econômico e político. Das ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia, é o país mais estratégico e geopoliticamente importante para os russos. Que não seja desconsiderada uma intervenção militar direta de Moscou em socorro a Yanucovich. A Ucrânia não é, de forma alguma, a Geórgia.

5) O destino da Ucrânia repousa nas mãos de seus cidadãos, sem dúvida. Mas a disputa internacional não pode ser desconsiderada. E nessa queda de braço entre ocidentais e russos, convém observar atentamente quem cede primeiro. Putin não costuma ceder.

Ucrania36) Algumas mudanças políticas importantes parecem ocorrer nas últimas horas (escrevo no sábado, 22/02, pela manhã, a partir de Brasília): Yulia Timoshenko, ex-primeira ministra e opositora do regime, seria libertada por força de uma decisão do Parlamento (sim, ali, com a herança autoritária soviética, opositores do regime são presos, e presos políticos existem, presos políticos de verdade e não criminosos que em outras partes do mundo erguem o braço para ser dizer perseguidos políticos e são aplaudidos por mentecaptos comprados com ideologia e fé cega ou, simplesmente, com dinheiro mesmo). Yanucovich parece ter deixado a capital e haveria rumores de sua renúncia, parece… A questão é quem fica em seu lugar… E se já teriam negociado isso com os russos.

UcraniaEnfim, a situação na Ucrânia merece cobertura mais efetiva da imprensa em geral e acompanhamento mais atento dos internacionalistas. Pode ser que ali se esteja a vivenciar aquela que será a primeira confrontação em solo europeu de uma nova Guerra Fria. Sim, porque a Ucrânia está em solo europeu, que fique claro… A Rússia também…

Segue artigo interessante com um apanhado geral da situação ucraniana…

Ukraine protesters seize Yanukovich office; jailed rival ‘free under law’

Photo
9:03am EST
Reuters – By Timothy Heritage and Pavel Polityuk

KIEV (Reuters) – Protesters seized the Kiev office of President Viktor Yanukovich on Saturday and his whereabouts were a mystery, as the pro-Russian leader’s grip on power rapidly eroded following bloodshed in the Ukrainian capital.

Parliament voted to free his arch-rival, jailed former prime minister Yulia Tymoshenko. Her daughter said Tymoshenko was already free under Ukrainian law but still in the hospital where she has been held for treatment. Continuar lendo

Anacronismo musical

Internacional SocialistaSeria até cômico se não fosse ridículo e preocupante: coral cantando a Internacional em evento da Comissão da Verdade? Será que esse pessoal sabe a verdade sobre os males causados sob a égide dessa canção? Lembro que esse era o hino soviético até a década de 1940 (os genocídios da Revolução Russa, da Guerra Civil naquele país e do Estalinismo se deram sob a referida melodia)…  Em muitos lugares, essa canção inspira dor, sofrimento e opressão. Será que esse coral sabe cantar o hino nacional brasileiro?

O que faz com que a patuscada seja preocupante é que pequenos acontecimentos como esse dão sinal de que ainda há certos grupos radicais, que defendem vias heterodoxas para o Estado e a sociedade e, o pior, que têm apoio do Poder público. Sim, porque a situação ocorreu em um evento patrocinado pelo Governo – com o dinheiro do meu, do seu, do nosso imposto. Se fosse em um evento privado, tudo bem, mas em algo oficial, com participação de autoridades públicas, é aceitável?!?

E o mais ridículo é o grito final de “Pátria Livre! Venceremos!”… Será que o sujeito sabe que está no Brasil e em 2014? Ou ele está se referindo a outro país onde não há liberdade – como Cuba ou Coréia do Norte? “Venceremos” quem?

socialismoO caso revela como se orientam as comissões da verdade pelo Brasil… E que há gente que defende idéias há muito superadas – a maior parte nem as conhece… É para isso que serve a tal da Comissão, para apologia ao socialismo, ao comunismo e a toda a violência relacionada a essas idéias?

Tudo bem, há quem goste desses anacronismos…

(Para quem não tiver vergonha da vergonha alheia e quiser ver o ouvir a pachouchada, clique aqui)

Coral canta ‘Internacional Socialista’ em ato da Comissão da Verdade do Rio

Folha de São Paulo – BERNARDO MELLO FRANCO, 11/02/201421h28

Antigo hino das esquerdas, a “Internacional” voltou a ser cantada em ato da Comissão Estadual da Verdade do Rio, nesta terça-feira (11). A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, participava da cerimônia.

A canção é cantada por militantes socialistas e comunistas desde o século 19. Também chegou a ser adotada como hino da extinta União Soviética até 1944.

A música foi entoada por jovens do coro Nheengarecoporanga, de Petrópolis (RJ), que cantaram a parte final com os punhos cerrados. O gesto foi repetido por militantes na plateia. No fim, o maestro Carlos Fecher puxou uma saudação com gritos de “Pátria livre!” e “Venceremos!”. Continuar lendo

Não, não estava não…

Edward_SnowdenMatéria da RIA Novosti segundo a qual legislador estadunidense não encontrou evidências de que o traidor Snowden estaria trabalhando para os russos… Ah, bom! Agora fiquei convencido!

De fato, tenho dito desde o início que isso parece um típico caso de recrutamento… Alguns amigos, como o estimado Sílvio Souza, de São Paulo, consideram a possibilidade de infiltração. Não acho que seria para tanto… Mas que o caso perece o bom e velho recrutamento, ah isso parece! (E faz parte do jogo, diga-se de passagem…)

RIA Novosti

No Evidence Snowden Spied for Russia – US Senator

09:53 29/01/2014

A senior US lawmaker said Tuesday that she has seen no evidence that intelligence leaker Edward Snowden was working with Russia when he disclosed troves of documents on classified US spying programs.

 WASHINGTON, January 28 (RIA Novosti) – A senior US lawmaker said Tuesday that she has seen no evidence that intelligence leaker Edward Snowden was working with Russiawhen he disclosed troves of documents on classified US spying programs.

“I have no information to that effect. I have never seen anything to that effect,” Senator Dianne Feinstein, chairwoman of the Senate Intelligence Committee, told the US cable network MSNBC.

Feinstein said earlier this month that Snowden “may well have” been working with a foreign government when he leaked information about mass electronic surveillance programs operated by the US National Security Agency (NSA). Continuar lendo

Frio e Solidão

poustozersk468Matéria da Gazeta Russa sobre uma cidade daquele país, localizada no Ártico e fundada um anos antes do descobrimento do Brasil, mas que acabou abandonada no século XX. Interessante como o homem consegue chegar a lugares inóspitos e ali se estabelecer para, algum tempo depois, ver tudo se esvair não pela força da natureza, mas pelo retrocesso econômico. Sim, a vida é efêmera! Achei curioso!

Cidade fantasma no Ártico atrai visitantes por sua história

2/01/2014 Semion Kvachá, especial para a Gazeta Russa

Pustozersk foi fundada em 1499 por ordem do Grão-Duque Ivan III para consolidar a presença do Ducado de Moscou nas recém-conquistadas terras de Nóvgorod e garantir a segurança da circulação de pessoas e mercadorias pela rota comercial ártica, uma vez que os outros caminhos para a Sibéria eram controlados pelos tártaros.

Fundada no final do século 15, a cidade ártica russa de Pustozersk foi completamente abandonada em meados do século 20. Ao local só se chega de barco ou de bicicleta no verão, sempre curto, e de moto de neve no inverno, muito longo. Mesmo assim, o local é digno de visita.

Narian-Mar é a capital da Região Autônoma de Nenents, uma unidade transpolar da Federação Russa. A região é coberta pela tundra (um tipo de vegetação rasteira típica de regiões polares), rica em petróleo e tem cerca de 40 mil habitantes, dos quais cerca de 7.000 de origem nenets (povo autóctone nômade). Desses, cerca de 1.000 vivem na tundra sustentados por rebanhos de rena, acampando em tendas construídas com varas e peles de animais. Os nenets preferem contornar Pustozersk. Não gostam do local.

A cidade foi abandonada há 50 anos. A última moradora deixou o local no início dos anos 1960. Desmontou sua casa de madeira para transportá-la rio abaixo e remontá-la na aldeia de Ustie. Como resultado, a cidade foi retirada da lista de aglomerados populacionais e teve sua história de quase 500 anos acabada. Continuar lendo