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Recebi de um colega por e-mail e resolvi compartilhar. Incomoda-me a maneira com parte importante da sociedade brasileira e a maioria dos formadores de opinião deste País desconhecem o conflito de 1864-1870 e desmerecem a participação brasileira. E o pior é a falácia criada na década de 1970 (por um brasileiro cujo nome prefiro nem registrar e que fez um grande desserviço ao País) segundo a qual o Paraguai era um centro de prosperidade na América do Sul, chegando a incomodar a Grã-Bretanha (HAHAHAHA!)a ponto daquela potência fazer com que Argentina, Uruguai e o Império do Brasil desencadeassem um guerra genocida contra Solano Lopes! Pelamordedeus!

Deprimente como há professores brasileiros que, por questões ideológicas ou ignorância, compraram a idéia e a disseminam entre seus alunos! Não, o Paraguai não era o paraíso de prosperidade na terra. Lopes era mais um caudilho governando com braço forte e oprimindo aquele povo (em que pese o fato de que seu pai promovera reformas importantes para o desenvolvimento do Paraguai) e o Brasil foi atacado, respondendo à injusta agressão contra nosso território.

Foi o maior conflito pelo qual passou a América do Sul. E deveríamos nos orgulhar de termos saído vencedores. Diga-se de passagem, o Império do Brasil (na figura de sua Majestade Imperial, o maior estadista de nossa História), mostrou-se sim muito nobre na vitória, preservando a integridade territorial paraguaia… E naquele conflito forjou-se nosso Exército, como figuras como Caxias e Osório, fazendo-se também presente nossa gloriosa Armada, cujo patrono, Tamandaré, deveria estar entre os heróis mais aclamados da Pátria.

Entretanto, preferimos acreditar nas mentiras que prejudicam a imagem do Brasil naquele conflito e ridicularizam nossos heróis. Creio que sejamos o único país do mundo que não canta louvores a suas vitórias, preferindo versões que nos desmerecem. Ainda temos muito que crescer, também nesse sentido. Pronto, desabafei!

Singularidade

* Sérgio Paulo Muniz Costa

 Exatamente o que Solano Lopes pretendia ao invadir o Brasil em dezembro de 1864 e junho de 1865, matando, estuprando, roubando e torturando brasileiros nas terras que habitavam há gerações não se sabe. Já o revisionismo histórico que se pratica há mais de quarenta anos no Brasil em relação à Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) é mais fácil de estimar: levar a luta ideológica ao extremo de negar a nacionalidade.

Num átimo, aplica-se o socialismo utópico ao Paraguai do século XIX, transformando uma nação pobre submetida a gerações de autocratas num bastião da luta antiimperialista contra o Brasil e a Inglaterra. Pouco importa que o Brasil estivesse rompido com a Inglaterra há mais de dez anos, que o Brasil tenha apoiado a independência paraguaia, que o Brasil tenha procurado chegar a algum tipo de acordo sobre fronteiras antes do conflito, que o Brasil tenha sofrido o apresamento de um navio e uma invasão predatória e que o Brasil, depois de sustentar praticamente sozinho uma guerra sangrenta e custosa, tenha se comedido na vitória, garantindo a soberania e a integridade territorial paraguaias, mesmo à custa de forte discordância com aliado.

Dada a facilidade com que o revisionismo histórico se alimenta da distorção de acontecimentos de há mais de um século, a comissão da “verdade” que o governo pretende impor à sociedade brasileira deveria estabelecer como marco cronológico inicial de seus trabalhos o século XIX. Quem sabe assim, de um debate não controlado pela esquerda revolucionária incrustada no governo, tivéssemos nossa História de volta, apagada dos livros de nossos filhos e netos pela fúria sindicalista e ideológica que transbordou aos currículos escolares.

A Guerra da Tríplice Aliança (12 de novembro de 1864 a 1º de março de 1870) se desdobrou nas campanhas de Mato Grosso (invadido a 27 de dezembro de 1864 e ocupado até abril de 1868), de Corrientes, na Argentina, (13 de abril a 5 de outubro de 1865), do Rio Grande do Sul (10 de junho a 18 de setembro de 1865) e do Paraguai (5 abril de 1866 a 1º de março de 1870), combatidas as três primeiras nos territórios invadidos do Brasil e da atual Argentina. O comando-em-chefe das tropas brasileiras foi desempenhado pelo General Osório e pelo General Polidoro, antes de o Duque de Caxias exercê-lo no período de 18 de novembro de 1867 a 19 de janeiro de 1869, e posteriormente pelo Conde D´Eu até o final da guerra. Diante desses fatos históricos, vitimizar o Paraguai e acusar Caxias só podem servir muito bem a um propósito: desmoralizar a maior atuação do Exército Brasileiro na sua missão de defesa da Pátria e a figura de seu patrono que o conduziu à vitória.

Não é pela manutenção do sigilo de documentos de estado que o Brasil se singulariza, pois não se tem notícia que Cuba, Coréia do Norte, China e a URSS antes de sua derrocada tenham aberto os seus arquivos ou estabelecido qualquer prazo para fazê-lo. Quem visitar os sítios históricos da Campanha do Paraguai nos dias de hoje vai notar o cuidado sistemático com que os paraguaios reconstroem a “Guerra Grande” segundo a sua perspectiva patriótica. Desde o túmulo napoleônico de Solano Lopez à discreta exibição num obscuro museu próximo ao Rio Paraguai do cruel instrumento de imobilização dos prisioneiros, passando por obras de arte e narrativas que enaltecem os combatentes paraguaios, sem esquecer o parque histórico Vapor-Cué, onde se findou a esquadra paraguaia e estão expostos os navios de guerra guaranis restaurados, aí incluído o patrimônio brasileiro tomado na invasão de Mato Grosso, verifica-se que os paraguaios estão fazendo na paz, sem a menor cerimônia, o que fizeram na guerra – defender o seu país. O Brasil não se singulariza pelo trato a documentos de estado, mas sim por ser o único que denigre a própria história. Não há nação no mundo do tamanho e, pior, com as pretensões do Brasil que dedique à sua história, em particular à militar, esse tratamento.

O Exército é uma instituição nacional e permanente. Não é justo ultrajá-lo, negando-lhe até mesmo ter defendido a Pátria. O mal que assim faz é ao país que não chegará a lugar algum ferindo a si mesmo.

País sem futuro é país sem passado.

* Historiador, é membro do CPE da UFJF, pesquisador de Segurança e Defesa do CEBRI e responsável pela Clio Consultoria Histórica. Foi Delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.

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