Um já foi… Qual será o próximo a cair de maduro?

world_01_temp-1385803778-5299b002-620x348 Tudo indica que Yanukovich está fora do jogo político da Ucrânia e que a oposição venceu. Vejo a notícia com ressalvas porque o inesperado pode acontecer naquela bela e rica parte do mundo… Moscou ainda não se manifestou sobre a queda do presidente ucraniano. Se estiver confirmado que foi deposto, podemos estar diante de grandes transformações naquele país, com algumas possibilidades não-necessariamente excludentes: 1) uma aproximação com o Ocidente e com a União Européia e mais liberdade e democracia; 2) um movimento de xeque russo, que pode ser surpreendente; 3) a fragmentação do país.

De toda maneira, parece que um ditador já foi. A milhares de quilômetros que Kiev, outra crise de governabilidade coloca milhares de pessoas contra um regime autoritário: apesar da proximidade com o Brasil, parece que chega menos notícia aqui da Venezuela que da Ucrânia… Será que é porque ali é o companheiro Maduro e o regime autoritário bolivariano (detesto esse termo, e acho que o grande Bolívar também odiaria) que estão na berlinda?

2014-02-16T194828Z-1110150863-GM1EA2H0ABH01-RTRMADP-3-VENEZUELA-PROTESTS-size-598Logo escreverei aqui sobre a Venezuela. A situação ali é muito preocupante também. E gente tem sido presa, tem desaparecido, tem sido ferida e morta. O governo brasileiro mantém seu apoio a Maduro. O Mercosul (quê?) também, apesar da cláusula democrática (ah, sim! haveria uma coisa assim no bloco). Nem vou falar da Unasul…

16fev2014---manifestante-participa-de-protesto-em-altamira-regiao-metropolitana-de-caracas-venezuela-exigindo-a-libertacao-dos-estudantes-presos-em-manifestacoes-anteriores-neste-domingo-16-1392613640A cobertura sobre os efeitos da crise venezuelana por aqui é ínfima. Parece que os brasileiros estamos completamente apáticos diante do que ocorre no país vizinho. Não estamos, ao menos alguns. Esta semana, por exemplo, um grupo de jovens e bravos estudantes fez um protesto diante da Embaixada da Venezuela contra as violações aos direitos humanos e o autoritarismo do regime de Caracas. Perguntei sobre a cobertura da mídia à manifestação. Resposta: inexistente. Meus parabéns ao grupo pela coragem e pelo exercício de um direito fundamental na democracia!

Ucrania4Bom, como estamos na América Latina, há sempre o risco do novo Caracazo acabar antes de qualquer resultado que não seja a contabilização das vítimas que terão caído em vão. Ao menos na Ucrânia, isso parece não ter acontecido. Agora em Kiev é hora de chorar os mortos e sonhar com um futuro de liberdade econômica, política e social. E é tempo de se planejar um país em que o discurso autoritário, as ideologias anacrônicas, a corrupção e a falta de compromisso com a coisa pública não devem prosperar. A lição está dada, em que pese o sangue que foi lamentavelmente derramado pela liberdade. Temos muito que apreender com os ucranianos.

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Inverno Eslavo

UKRAINE_Muita gente tem-me perguntado sobre a crise na Ucrânia. Não sou especialista na região, e tampouco tenho-me aprofundado nesse interessante tema. Porém, como aqui se busca “pensar um pouco de tudo”, vamos a algumas reflexões de um curioso:

1) A situação é grave, muito mais grave do aquilo que chega aqui pela mídia generalizada. Kiev virou realmente um campo de batalha, um campo de batalha na cidade que simbolicamente é o berço do mundo eslavo; um campo de batalha em um país europeu, quando muitos europeus acreditavam que isso só poderia acontecer na periferia do mundo civilizado. “Ok”, podem dizer os mais cínicos, “mas a Ucrânia não seria assim tão européia…” É exatamente esse um dos aspectos centrais dos dilemas daquele povo, e tem gente morrendo por isso.

Ucrania22) Muita gente está morrendo em Kiev por ocasião dos protestos, começados há alguns meses e agravados agora. O uso do gerúndio aqui foi proposital: pessoas continuam sendo alvejadas nas ruas, hospitais lotados de feridos, filhos que não voltam para casa, famílias que perdem o pai… Se os brasileiros se chocam tanto com a violência dos protestos por aqui, deveriam ter mais consciência de que as mortes na capital ucraniana, em razão dos confrontos e das manifestações,  chegam a centenas.

3) Sim, a Ucrânia é um país dividido. Sempre foi. Metade da população fala russo, vem de uma cultura eminentemente russa, tem vínculos estreitos com a Rússia, e não se ofenderia em ver seu país tornando-se mais uma das repúblicas da Federação comandada a partir de Moscou. Uma outra parte é de ucranianos, que tentam de todas as maneiras a afirmação de seu idioma, sua cultura e sua nacionalidade, vendo a aproximação com a União Européia a esperança de libertação da hegemonia russa – essa aproximação, defendem, é uma questão de sobrevivência para o país, cuja a história foi em sua maior parte de ocupação e dominação por uma potência estrangeira. E ainda existem aqueles de origem polonesa, romena, tártara, que ficam no meio do fogo-cruzado… Ou seja, o que se vê no país agora não são protestos contra um governo, mas uma crise de identidade nacional e uma disputa decisiva pelos destinos da Ucrânia nas próximas décadas.

ucrania-17384614) Por sua posição estratégica, fica evidente que a disputa na Ucrânia ultrapassa os interesses dos próprios ucranianos. Trata-se, de fato, de uma confrontação entre o Ocidente e a Rússia, que se reergue da queda soviética. A Ucrânia é, tradicionalmente, zona de influência direta russo-soviética, é importante para Moscou, e Putin não abrirá mão tão fácil do segundo maior país eslavo, tanto por essa condição quanto por seu valor econômico e político. Das ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia, é o país mais estratégico e geopoliticamente importante para os russos. Que não seja desconsiderada uma intervenção militar direta de Moscou em socorro a Yanucovich. A Ucrânia não é, de forma alguma, a Geórgia.

5) O destino da Ucrânia repousa nas mãos de seus cidadãos, sem dúvida. Mas a disputa internacional não pode ser desconsiderada. E nessa queda de braço entre ocidentais e russos, convém observar atentamente quem cede primeiro. Putin não costuma ceder.

Ucrania36) Algumas mudanças políticas importantes parecem ocorrer nas últimas horas (escrevo no sábado, 22/02, pela manhã, a partir de Brasília): Yulia Timoshenko, ex-primeira ministra e opositora do regime, seria libertada por força de uma decisão do Parlamento (sim, ali, com a herança autoritária soviética, opositores do regime são presos, e presos políticos existem, presos políticos de verdade e não criminosos que em outras partes do mundo erguem o braço para ser dizer perseguidos políticos e são aplaudidos por mentecaptos comprados com ideologia e fé cega ou, simplesmente, com dinheiro mesmo). Yanucovich parece ter deixado a capital e haveria rumores de sua renúncia, parece… A questão é quem fica em seu lugar… E se já teriam negociado isso com os russos.

UcraniaEnfim, a situação na Ucrânia merece cobertura mais efetiva da imprensa em geral e acompanhamento mais atento dos internacionalistas. Pode ser que ali se esteja a vivenciar aquela que será a primeira confrontação em solo europeu de uma nova Guerra Fria. Sim, porque a Ucrânia está em solo europeu, que fique claro… A Rússia também…

Segue artigo interessante com um apanhado geral da situação ucraniana…

Ukraine protesters seize Yanukovich office; jailed rival ‘free under law’

Photo
9:03am EST
Reuters – By Timothy Heritage and Pavel Polityuk

KIEV (Reuters) – Protesters seized the Kiev office of President Viktor Yanukovich on Saturday and his whereabouts were a mystery, as the pro-Russian leader’s grip on power rapidly eroded following bloodshed in the Ukrainian capital.

Parliament voted to free his arch-rival, jailed former prime minister Yulia Tymoshenko. Her daughter said Tymoshenko was already free under Ukrainian law but still in the hospital where she has been held for treatment. Continuar lendo