Operação Outubro Vermelho – Preparativos

Fundamental antes de qualquer viagem é a preparação. No caso de um destino como a Rússia, essa preparação adquire mais relevância, sobretudo porque, no meu caso, chegaria alguns dias antes e partiria depois que a excursão acabasse – ou seja, estaria entregue a minha própria sorte…

A preparação envolve conhecer um pouco sobre o destino, tanto no que concerne ao país que será visitado, como às cidades e, ainda, ao povo e à cultura local. Nesse sentido, começo usualmente por mapas (da Rússia, de São Petersburgo e de Moscou). Gosto de mapas e atlas e ali identifico onde ficarei e assinalo para onde quero ir, tendo feito uma pesquisa prévia sobre os lugares, horário de funcionamento, custo da entrada e, sempre bom lembrar, distâncias entre eles e meios de deslocamento. (Claro que você pode deixar isso tudo para sua agência de viagens, mas confesso que gosto muito de fazer isso por minha conta – é bem mais divertido, e você já começa a aprender com a viagem antes mesmo de sair de casa!)

A Rússia é o maior país do mundo em extensão territorial (são 17 milhões de km2, ocupando dois continentes), com uma população de 142 milhões de seres humanos de diferentes etnias (além dos russos, que constituem 81% da população, há ainda cerca de 160 grupos étnicos), que falam aproximadamente 100 línguas de distintos ramos (do abaza, com seu alfabeto de 71 letras – das quais apenas 6 vogais -, ao idioma falado pelo povo esquimó de Tchukotka – com singelas 63 formas verbais). Felizmente (?), o russo é a língua franca (dedicarei um post aqui à “barreira do idioma”).

IMG_20171113_211806_116jpg.0A terra dos russos tem uma história interessantíssima, desde os primeiros eslavos que ali se estabeleceram no século IX até a Era Putin (gosto de Putin; Putin é KGB), passando pelos 300 anos de autocracia dos Romanov (meus 16 leitores sabem da minha estima pelos Romanov) e pelas sete décadas de regime soviético, iniciado a partir da nefasta Revolução Bolchevique de 1917… Ademais, a Rússia é uma potência econômica (sim, gostem ou não, o país está no time de elite das Economias do planeta), nuclear (preserva o poder militar que herdou da URSS e o usa com sabedoria), e espacial (essa parte é importante para entender alguns de nossos posts futuros)…

Eu poderia dedicar várias páginas aqui a falar da Rússia… Entretanto, acabaria fugindo do tema desta publicação específica (se você quiser saber mais, pesquise, oras!). Mas o que cabe destacar é que eu estava ansioso e temeroso de desembarcar naquelas terras! Afinal, o mais próximo que havia ido a Leste havia sido a Estônia (que merecerá vários posts na categoria de viagens, por certo!), e já quando esse pequeno país do Báltico estava na União Européia e na OTAN. Como seria a chegada? E no aeroporto? Será que teria um receptivo para me transportar (junto com Adriana e Gustavo) ao hotel? E a hospedagem, como seria? (Localização de hotel é essencial, assim como condições mínimas de estadia.) Felizmente, essa logística inicial ficou por conta da Tchayka, missão cumprida com louvor!

Visto: para o brasileiro que vá a turismo à Rússia, não é mais necessário visto (agradeçam a Putin). Antigamente, nos tempos soviéticos, dizem que se precisava de um convite de alguém ou de alguma instituição para se solicitar o visto – naturalmente, isso era uma forma de o Estado controlar os estrangeiros que entrariam em seu território (e, só por curiosidade, o órgão responsável pelo controle de fronteiras era… o KGB! O serviço de inteligência teria chegado a possuir 400 mil homens cuidando das fronteiras soviéticas). Atualmente, repito, não lhe será necessário o visto – que exigirão de norte-americanos e europeus em geral, hehehe.

E o idioma? Teremos um post específico a respeito. Gosto de chegar a um lugar onde consiga me defender minimamente na língua local, mas o mundo é muito grande e a diversidade linguística torna isso impossível. Como disse, não morrerei de fome em russo, sei pedir desconto (скидка, ensinou-me Olga, minha professora de russo) e consigo pegar informação e comprar bilhetes de metrô, o que me deixa em vantagem quando naqueles lados. Mas se você não fala russo, não entre em pânico! Dou-lhe três opções: 1) fale inglês ou espanhol e entregue o diálogo ao Grande Arquiteto do Universo que ele lhe ajuda!; 2) Gestos – certamente, se você já jogou imagem e ação, vai se virar bem; 3) confie na agência de viagens especializada e deixe com eles a tarefa de se comunicar por você (recomendo alternativa 3, sobretudo se você for para lugares que estejam fora dos destinos turísticos clássicos) – gosto dessa terceira opção se não conhecer bem a língua, a cultura e o povo do lugar aonde pretendo ir.

20171031_193711.jpgAinda sobre o idioma, lembrei de uma quarta possibilidade de comunicação! Tenho um amigo de Minas Gerais (falam português lá também, adoro Minas!), que é muito comunicativo, e que me disse que, algumas vezes, inclusive na Rússia, em que não conseguiu falar o inglês, resolveu falar mesmo em português com os nativos! E, nas palavras dele, a coisa funcionava e ele conseguia se fazer entender (nunca tentei isso, mas se você quiser arriscar…)! E essa história me fez lembrar de outro amigo, que viajou certa feita com a esposa e a sogra para Paris e a genitora de sua esposa se perdeu… Após muito procurar, ele ouviu uma senhora no meio da rua, falando alto e pausadamente (e com o inconfundível sotaque pernambucano) aos transeuntes: “Es-tou per-DI-DA! Sou bra-si-lei-ra e es-tou per-DI-DA! Al-guém me a-ju-DE!” O fato é que ela conseguiu ser encontrada e ganhou nota dez em efetividade!

Melhor época do ano para ir à Rússia? Todo mundo vai dizer que é no verão (ou em maio, ou em setembro) … Deve ser mesmo, mas eu queria ir em novembro, para sentir como seria o clima do país no mês do golpe bolchevique que acontecera cem anos antes. Aí você me pergunta: não seria outubro? Até 1918, os russos adotavam o Calendário Juliano, enquanto nós aqui no Ocidente já estávamos, desde 1582, sob o Calendário Gregoriano, havendo uma diferença atualmente de 13 dias entre ambos. Assim, o levante bolchevique, ocorrido em outubro de 1917 para os russos, deu-se, no nosso calendário, em novembro. De toda maneira, o clima estaria bem frio para meus padrões tupiniquins…

Com que roupa eu vou? Sendo férias, roupas confortáveis. Costumo me programar para levar uma muda por dia, mais duas mudas extras e algumas peças caso vá sair para algum restaurante mais arrumado à noite ou coisa parecida. No caso de camisetas, vale lembrar que você pode levar um pouco menos, adquirir algumas no local onde estiver e já sair vestido nelas (o que lhe garantirá mais espaço na mala). Outro detalhe importante: quando para destinos frios, você necessitará de um ou dois casacos simples (tipo pulôver), que ficarão sob o casacão de inverno (esse é meu coringa!) – e saiba que passará a viagem toda com esse casacão (mande às favas quem quiser acusá-lo de repetir a roupa – você está de férias, no frio, e tem que ser prático). Duas calças: uma mais arrumada e aquela superprática com um monte de bolsos! E, para o frio russo, cachecol, gorro, luvas e malha interna (mão na roda!). No máximo dois pares de calçados (eu gosto de usar uma bota que me acompanha em diferentes ambientes). Os limites de peso de mala das companhias aéreas não ultrapassam uma peça de 23 kg, então seja comedido (e deixe espaço para as “goiabas” que comprará na viagem). E se for pegar trem, a coisa é mais restrita, com a ressalva de que será você mesmo quem carregará a mala para dentro e fora do vagão…

Ainda sobre as malas, lembre-se de tirar uma foto de sua bagagem antes de despachá-la (e de guardar com muito carinho o comprovante). Também recomendo fazer uma etiqueta para colocar dentro, com informações sobre seus voos, endereços do primeiro destino e de casa, e informações de contato. Coloque, repito, dentro da mala, sobre as roupas (eu faço assim). A ideia é mitigar o risco de extravio e, caso isso aconteça, ajudar a companhia aérea a lhe devolver a bagagem…

Dinheiro e câmbio: difícil encontrar rublos no Brasil, então você vai trocá-los lá. Evite trocar muito dinheiro no aeroporto, pois a taxa de câmbio é bem desfavorável em qualquer aeroporto da Via Láctea. Em São Petersburgo e em Moscou há bancos por todo lado (cheguei ao hotel, fui fazer o reconhecimento do ambiente operacional – procedimento padrão, e vi que havia muitos bancos e casas de câmbio, podendo escolher a melhor cotação). Não preciso dizer para você não trocar dinheiro na rua com estranhos, né? Nos hotéis costumam trocar, mas você sofrerá com o câmbio.

Comunicações: sem comunicação (leia, internet) você estará em situação bastante desfavorável. A boa notícia, quem me deu foi a Olga (a mesma que me ensinou, entre outras coisas, a pedir desconto), é que internet na Rússia é barata e você pode comprar um cartão telefônico pré-pago que lhe será tremendamente útil. Fiquei surpreso com o baixo custo da internet (muito inferior à Europa e aos EUA). E, melhor de tudo, a internet funcionava que era uma beleza! Depois, pensando a respeito, entendi a importância de se ter um setor espacial desenvolvido como o russo. Isso afeta diretamente o custo das comunicações do dia-a-dia. Fica a dica para um melhor aproveitamento do Centro de Lançamento de Alcântara (CTA) e para investimentos maciços no programa espacial brasileiro!

Passaporte em dia, mapas em mãos, com locais de interesse assinalados, dinheiro no bolso, seguro de viagem feito (faço sempre com a Cleide e a equipe da Adria Viagens – também não estou recebendo jabá deles não, mas há muitos anos trabalho com esse pessoal muito profissional aqui em Brasília e que acabou se tornando amigo – recomendo!), mala arrumada, história na cabeça, coração acelerado, expressões no idioma local memorizadas, entusiasmo de conhecer o novo, um outro mundo, a Terra dos Romanov! Sentia-me como César ao cruzar o Rubicão: logo eu cruzaria ao Atlântico e chegaria a um dos países mais fascinantes em que já estive! E vamos à Rússia!

Saí de Brasília para a conexão em Guarulhos, onde encontraria Gustavo e Adriana. Depois seria Londres e aí Lening…, São Petersburgo! Estávamos prontos para chegar em mais uma aventura, na Operação Outubro Vermelho!

Na próxima quinta, contarei um pouco sobre São Petersburgo, a cidade fundada por Pedro, o Grande, e capital da Rússia entre 1712 e 1918! Até lá!

brasil russia

Por que aprender russo?

Vi este gráfico e achei interessante reproduzir por aqui. Talvez seja um pouco forçado, mas são boas razões. Recomendo a meus alunos que aprendam russo – por todas esses motivos e outros mais. Ademais, pode-se acompanhar as notícias de Moscou (sempre oficiais, não importa em que meio) e os pronunciamentos do Putin no original (gosto Putin; Putin é KGB).Rus_lang_infogr

Fonte: http://nl.media.rbth.ru/web/br-rbth/images/2015-02/extra/Rus_lang_infogr.jpg

A crise da Crimeia sob uma perspectiva russa…

Alexander ChekalinExcelente artigo da Der Spiegel sobre a maneira como o Kremlin percebe a situação da Crimeia. Recomendo a leitura, sobretudo a meus alunos de Relações Internacionais. Muito interessante o fato de, como assinala o texto, a popularidade de Putin ter saltado de 67% à época dos jogos de Sochi para cerca de 80% hoje. Isso significa o apoio que o governante tem da população, que o vê como um líder forte e obstinado (exatamente do que os russos gostam…). Note-se, ainda, que até Gorbachev, prêmio Nobel da Paz, e último dirigente da União Soviética, fala em defesa de uma Crimeia na Federação da Rússia.

As perguntas centrais do artigo também merecem reflexão: a “reunificação”  da Crimeia é apenas mais um movimento contrário à redução da Rússia à condição de potência regional, em uma tentativa de recuperar a influência da época soviética, ou se trata do começo de uma série de “reconquistas” de um país que há séculos se vê como a potência hegemônica da Europa Oriental? Seria Putin um neoimperialista ou um líder que, colocado contra a parede pelas pressões domésticas e pelos desafios externos, mostra-se decidido em proteger os interesses de segurança nacional de seu país?

RUSSIA-UKRAINE-POLITICS-CRISIS-KREMLINOutra questão interessante se refere à percepção estratégica para a Defesa da Rússia diante da OTAN. O artigo assinala com propriedade que, nos tempos da União Soviética, a distância entre Moscou e as linhas da OTAN era de 1.800 km. Caso a Ucrânia ingresse da Aliança Atlântica (como desejam os EUA), essa distância se reduzirá a 500 km, e a Rússia perderia a “profundidade estratégica” tão relevante e que a protegeu das invasões de Napoleão e Hitler… Sete décadas após o fim da II Guerra Mundial, essa preocupação se mantém presente no imaginário daquele povo e na doutrina militar russa. Nesse sentido, continuo achando que o ingresso da Ucrânia na OTAN seria não só humilhante, mas inaceitável para Kremlin (e com razão, se considerarmos a perspectiva russa).

Destaco, por oportuno, a parte do artigo que se refere às possibilidades russas diante da crise e das restrições que lhe são feitas pelos ocidentais. No que concerne à Ucrânia, Putin tem o tempo e as populações russas naquele país a seu favor. Afinal, apesar das reticências do governo de Kiev, o país ainda é muito dependente de seu irmão-maior eslavo, e a minoria russa na Ucrânia é expressiva. Em termos de potências ocidentais, parecem que estas têm mais a perder do que a Rússia em uma queda de braço com Moscou. A economia européia depende mais da energia russa que os russos do comércio com a Europa. 

Finalmente, em se tratando de oportunidades, restrições ocidentais à Rússia podem fazer com que o maior país do mundo se volte para a Ásia, com novas parcerias com a China e a Índia (ambos que necessitarão, cada vez mais, de energia e matéria-prima que os russos têm de sobra). Nesse contexto, oportunidades podem surgir também para países mais afastados, como o Brasil. A falta de posicionamento do governo brasileiro nesta crise pode ser, em última instância, positiva para os interesses econômicos e geopolíticos do Brasil – desde que saiamos, alguma hora, da inércia.

Continuo acreditando que a anexação da Crimeia pela Rússia é fato consumado. Muito difícil reverter essa situação. O jogo, porém, não acabou. Ainda há muitas peças neste tabuleiro, e nenhum dos reis está nem de longe em xeque. Enquanto acompanhamos os movimentos, aproveito para lembrar que os russos são conhecidos por sua habilidade no xadrez…

People pass a mural showing a map of Crimea in Russian national colours on a street in Moscow

SPIEGEL ONLINE
03/25/2014 06:10 PM

‘Dear to Our Hearts’ – The Crimean Crisis from the Kremlin’s Perspective

By Matthias Schepp

The EU and US have come down hard on Russia for its annexation of the Crimean Peninsula. But from the perspective of the Kremlin, it is the West that has painted Putin into a corner. And the Russian president will do what it takes to free himself.

Last September, Vladimir Putin invited Russia experts from around the world to a conference, held halfway between Moscow and St. Petersburg. At the gathering, the Russian president delivered a passionate address. “We will never forget that Russia’s present-day statehood has its roots in Kiev. It was the cradle of the future, greater Russian nation,” Putin said. He added that Russians and Ukrainians have a “shared mentality, shared history and a shared culture. In this sense we are one people.”

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Sorriso russo

A Rússia é um país fascinante e mais ainda é seu povo (de fato, a miríade de povos que compõem aquela Federação). Segue interessante artigo, extraído da Gazeta Russa, sobre a maneira como os russos se comunicam por meio do sorriso (sim, isso mesmo!). Não sei até que ponto se pode generalizar tanto, mas é uma matéria que vale a pena ser lida por todos aqueles que desejem conhecer mais aquele grande país!

10 razões para sorrir (ou não) na Rússia

29/11/2013 Iossif Stérnin, especial para Gazeta Russa

Sorriso desempenha funções distintas do que se vê em outros países. Na opinião dos estrangeiros, os russos são sombrios, carrancudos e sorriem pouco. No entanto, a ausência de sorrisos não significa antipatia.

10 razões para sorrir (ou não) na Rússia
De um modo geral, a cultura comunicativa russa tem como pontos fortes a sinceridade e abertura Foto: Shutterstock

Não dá para negar que na Rússia há muita gente de cara fechada. Este é um dos traços nacionais mais marcantes do comportamento não verbal e da comunicação. Isso faz com que o sorriso assuma outros significados, além da expressão de alegria comum em outros lugares do mundo. De um modo geral, a cultura comunicativa russa tem como pontos fortes a sinceridade e abertura. Durante séculos, a vida cotidiana dos russos foi preenchida por uma difícil luta pela sobrevivência, e a preocupação constante foi fixada no inconsciente coletivo, passando a fazer parte do comportamento habitual.Saiba como identificar os sinais por trás de um sorriso russo e evite aborrecimentos desnecessários.

1. Sorriso contido
Na maior parte das vezes, os russos mexem os lábios, mostrando ligeiramente apenas os dentes superiores. Mostrar os dentes superiores e inferiores é considerado “vulgar” e recebe o apelido de sorriso “arreganhado” ou “de cavalo”.

2. Simpatia, só que não
Na comunicação entre os russos, o sorriso nem sempre é sinal de cortesia. Quando o sorriso é constante, é rotulado de hipocrisia ou disfarce. Continuar lendo