Sobre Joanisval

Brasiliense. Doutor em Relações Internacionais e Mestre em História. Graduou-se em Relações Internacionais e em Direito. É advogado, professor universitário e consultor legislativo do Senado Federal. Monarquista convicto. Contato: joanisval@gmail.com.

39. Sonhos, títulos e livros (06/12/2014)

O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã.
Leonardo da Vinci

De que adianta ter conhecimento e não-lo transmitir? O conhecimento é como o sorriso, seus efeitos são muito maiores se compartilhados. Faltando 2 dias para meu aniversário, resolvi dividir com os amigos alguns aspectos de minha formação acadêmica e das obras que escrevi.

Os rosacruzes ensinam tradicionalmente que qualquer criação no mundo material deve começar com um projeto nos planos mental e espiritual. Em outras palavras, conquistas de hoje são sonhos de ontem realizados – ao menos para quem realmente tem conquistas, pois há pessoas que conseguem viver passivas, aguardando tudo cair em suas mãos (em geral, são acomodadas e, ainda que a Providência lhes traga grandes riquezas, não dão o devido valor e permanecem com um vazio que não conseguem preencher).

Sempre tive que batalhar para alcançar o que desejava. Nunca me acomodei. Mas todas as vitórias se forjaram, primeiro, em sonhos que ansiava realizar. Sim! Sonhar é bom e tem efeitos muito positivos. E, a melhor maneira de fazer os sonhos realidade é trabalhando para torná-los concretos e, isso aprendi também com os rosacruzes, construir no plano mental os alicerces para as realizações, o que é feito por meio da técnica milenar da visualização. A fórmula é: sonhar, visualizar, trabalhar, realizar (ou saber, ousar, querer e calar, diriam os sábios).

Nos primeiros 40 anos de vida, concluí um Mestrado, um Doutorado, quatro Especializações e duas Graduações. Publiquei alguns livros. Busquei difundir conhecimento. E todos esses projetos nasceram de sonhos que, com visualização, planejamento, e muito esforço e dedicação, tornaram-se realidade.

Tenho sede de conhecimento. Desde cedo, busco ampliar meus horizontes e obter mais e mais informações sobre o mundo e as pessoas. Por isso gosto de estudar. Daí as duas graduações, as especializações, o mestrado e o doutorado. E não pretendo parar por aí. Só pararei de estudar e de buscar conhecimento quando passar pela maior e mais certa experiência de todos os seres vivos: a Grande Iniciação. E quanto mais conhecimento obtiver, mais pretendo difundi-lo, seja por meio de aulas, palestras, artigos ou livros.

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Não fiz um Mestrado só por fazer. Não me contentaria com mais uma dissertação acadêmica esquecida nas prateleiras de um repositório na universidade. Ingressei no mestrado com uma proposta de estudo sobre integração latino-americana. Claro que logo mudei meu tema: decidi tratar de um assunto sobre o qual nenhum outro lusófono já havia tratado em um trabalho de pós-graduação: o Julgamento de Nuremberg.

Poderia passar horas dissertando sobre Nuremberg (pouparei o leitor disso, fique tranquilo). O que me levou a estudar o caso, a ir aos autos (42 volumes em francês, que encontrei na Biblioteca do Superior Tribunal Militar, em Brasília), transportar-me para a sala de audiências daquela corte, naqueles onze meses de 1945 e 1946, foi a vontade de conhecer sobre a natureza humana, sobre a história do maior conflito de todos os tempos, e sobre o julgamento dos acusados de crimes de guerra, crimes contra a paz e contra a humanidade. E tive uma experiência tremendamente fascinante, envolvente. Éramos eu e os réus, juízes, promotores e testemunhas de Nuremberg.

Após três anos de intenso trabalho e uma Dissertação de mais de 300 páginas, fui aprovado pela banca examinadora e obtive o título de Mestre em História (lembrando que História é uma grande paixão). Interessante que a outorga do título, feita na hora pela Presidente da Banca (minha orientadora e amiga, Albene Menezes) teve efeitos de um gesto final de uma iniciação, como se a espada do conhecimento estive colocada sobre minha cabeça. Esse momento, no Mestrado, foi mais importante que qualquer outro título futuro, e jamais me esquecerei dele.

Como o título de Mestre, estava habilitado a lecionar no ensino superior. Foi o que fiz. E pude difundir conhecimento. E ali começou a trajetória como professor universitário, que nunca abandonei, pois, como já disse em outra crônica, aprendemos muito dando aula e com nossos alunos.

Mas não consigo ficar quieto. Por ser inédito, achava que o tema de minha Dissertação poderia dar um bom livro. Fiz algumas adaptações, apresentei a editoras de Brasília e de outras cidades. Algumas não deram resposta, outras retornaram dizendo que não tinham interesse, e uma, daqui de Brasília, deixou-me em banho-maria por vários meses para, no final, retornar dizendo que não valeria a pena publicar meu livro. Essas repostas seriam suficientes para fazer desistir a muita gente, mas não a mim. Continuei tentando. Meu sonho era publicar um livro sobre o Julgamento de Nuremberg.

Foi quando recebi uma carta de uma editora de médio porte do Rio de Janeiro, a Renovar, interessada em publicar a obra. Aceitei a proposta. Passados alguns meses, saiu a primeira edição, cujo lançamento foi em setembro de 2001: “Tribunal de Nuremberg, 1945-1946: a Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional”. Apesar de muito específico, o livro rendeu uma segunda edição, em 2004. E o nome do filho de Seu Jacob e Dona Conceição ficou associado definitivamente ao Julgamento de Nuremberg aqui no Brasil.

O primeiro livro trouxe grandes satisfações, não em termos de direitos autorais, mas de difusão de nossas reflexões e projeção de nosso trabalho. Também conseguiu alcançar o público em geral, o que me deixou tremendamente feliz. Afinal, busco escrever de maneira simples, pois me alegro quando descubro que meu texto é compreendido por “não-iniciados”. Isso me realiza. E aqui conto um episódio que me deixou muito feliz: certa feita, encontrei meu amigo Erick Vidigal, com sua filha de 15, 16 anos, lá no Ceub (a faculdade onde Erick e eu lecionávamos). Qual não foi o regozijo quando me disse que ela havia lido o “Tribunal de Nuremberg”, gostado, e tinha alguns comentários a fazer sobre o caso! Ganhei o dia!

O Tribunal de Nuremberg encontra-se esgotado. Desde 2006, a Editora não me presta contas sobre as vendas ou a situação do livro. Tentei inúmeros contatos, sem sucesso. Isso me decepcionou muito com uma editora que reputava séria. Pretendo atualizar o livro e buscar outro editor que queira republicá-lo. Quem sabe não o consigo com quarenta anos!

Quando se acaba um mestrado, ainda mais como foi o meu, a sensação é de que você vai embora da universidade e deseja nunca mais passar por lá. Isso é perfeitamente normal e aconteceu comigo. Mas a sede de continuar os estudos, o sonho de progredir academicamente, e a ânsia por conhecimento me fizeram voltar, em 2004, para um programa de doutorado. A proposta inicial da tese era sobre o Brasil e questões de Defesa na América do Sul – coincidentemente, um certo professor da UnB a quem mostrei minha proposta de trabalho, algum tempo depois, montou um projeto de pesquisa em termos muito parecidos, com o qual conseguiu alguns recursos, inclusive de fundações estrangeiras (ali conheci mais uma faceta da canalhice acadêmica!). Mas acabei mudando para um assunto que me apraz ainda mais que Defesa: Inteligência.

Foram quatro anos de doutorado, com uma pesquisa aprofundada que rendeu uma Tese de cerca de 800 páginas (fora os anexos, que entreguei em CD) sobre os sistemas de inteligência no Brasil e no Canadá e seus mecanismos de controle – outro assunto inédito no País. Ao final de seis horas de banca examinadora, fui aprovado e recebi o título de Doutor em Relações Internacionais. Mais um sonho realizado! Era o primeiro com mestrado dos dois lados da família, e também o primeiro com doutorado. E, o melhor de tudo, conhecia mais sobre Inteligência ao final do doutorado do que quando ingressara nele!

Li uma vez que não adianta ter doutorado e não dar bom dia ao porteiro. Concordo plenamente! Mesmo com todo o esforço para gerar a tese, posso assegurar que um título de Doutor não faz ninguém melhor que outra pessoa. E se tentarem afirmar de forma diferente, estão mentindo. Não adquiri superpoderes, não fiquei mais inteligente, e continuo com os mesmos anseios e necessidades de todo ser humano. Por isso, quando um idiota pernóstico vier tripudiar sobre alguém se dizendo melhor porque é “Doutor nisso ou naquilo”, tenha a absoluta certeza de que a maior característica dessa pessoa, e que a diferencia de você, é que ela é “um idiota pernóstico”.

De toda maneira, o doutorado me permitiu alçar voos mais altos e obter certo reconhecimento no meio acadêmico e na comunidade de inteligência. E, como não poderia deixar o conhecimento apodrecendo como água parada, tenho buscado publicar com constância sobre o assunto, com destaque para os dois livros “Atividade de Inteligência e Legislação Correlata” (já na terceira edição) e “Políticos e Espiões: o controle da Atividade de Inteligência” (caminhando para a segunda). Daí advieram palestras, cursos e artigos… E pude contribuir para difundir o conhecimento sobre um tema tão hermético.

Enfim, nestes primeiros quarenta anos, busquei adquirir o máximo de conhecimento que consegui. E, sob a proteção do Criador, pude compartilhar com muita gente esse conhecimento, o que me deixa bastante realizado. Pretendo continuar estudando, lecionando, escrevendo, palestrando, adquirindo e difundindo conhecimento. Sou feliz assim. E pretendo fazer muito mais nos próximos quarenta anos.

Em tempo: seguem algumas fotos de lançamentos de meus livros, oportunidade sempre muito agradável de encontrar os amigos!

[Em 2019, o Atividade de Inteligência encontrava-se na 6ª edição, o Políticos e Espiões na 2ª, havia publicado outro livro, Terrorismo: conhecimento e combate, em parceria com meu amigo Marcus Reis, e não parei de escrever…]

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38. Pequeno grande homem (05/12/2014)

Vossos filhos não são vossos filhos. 
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 
Pois assim como ele ama a flecha que voa, 
Ama também o arco que permanece estável.
Gibran Khalil Gibran

 

Os místicos sabem que, pelas leis cármicas, uma família é brindada com filhos essenciais para seu aprendizado. Certas escolas ensinam que a personalidade-alma escolhe o lugar e a família em que pretende encarnar. Assim, cada filho é uma benção, uma oportunidade de crescimento para os pais, e um ser para com o qual se deve ter toda responsabilidade. Não é à toa que os chamamos de “presentes de D’us”.

Fui abençoado com o nascimento dele, com sua escolha de nascer no seio de minha família. E ele veio e se mostrou como o ser humano mais maravilhoso que conheci em toda minha existência. É inteligente, amigo, companheiro, alegre, sábio, responsável e nobre. Impressiona quantas qualidades podem se acumular em uma criatura tão jovem e pequena.

Desde bem criança, já demonstrava uma preocupação com o outro que falta a muitos adultos. Sua sensibilidade para com a dor e o sofrimento alheios surpreendem. Sempre alegre e paciente, percebi nele também equilíbrio e senso de responsabilidade pouco comuns entre os da sua idade. E é de uma bondade cativante – não por acaso, seu nome em hebraico significa “D’us é bondoso”.

Também é um sujeito que gosta de gente. Ainda bem pequenininho, falava com todo mundo e tinha usualmente um elogio que deixava a pessoa completamente seduzida. É popular entre os colegas. Relaciona-se bem com todos. Lembro-me quando foi escolhido, com 4 ou 5 anos, para representar São José no Auto de Natal de sua turminha da escola. Sorrio sempre que me recordo da imagem do “meu São José” chegando em Belém, puxando Nossa Senhora em um cavalinho de madeira, e saudando a todos que assistiam à apresentação, enquanto caminhava pelo palco: “Oi, tudo bem?”, “Como vai?”, tchauzinho para cá, tchauzinho para lá, representou de maneira pouco usual o São José bíblico.

Teria sido também sua popularidade a causa de uma namoradinha da escola – tinha duas, conta ele (de nomes iguais para evitar confusão, creio) – ter decidido não querer mais nada com ele. “Ela disse que eu falo com todo mundo e por isso não quer mais saber de mim! Tudo bem.”, comenta com uma tranquilidade que só é possível aos justos e de coração puro.

Claro, como toda criança, adora brincar. Sempre gostou de máquinas, desde bem pequenininho: carros, naves, aviões, transformers. E monta coisas com lego que eu jamais conseguiria (e que, de fato, ainda hoje me são impossíveis). Já disse que quer ser cientista quando crescer, trabalhar na NASA (“na NASA, papai, não na BRASA”), para projetar foguetes e, em suas próprias palavras, “módulos espaciais”. Quando pergunto se quer ser astronauta, responde de pronto: “não, astronauta não. Quero ser projetista de sondas espaciais”. Esse é meu garoto.

Meu garoto já é um grande homem. E meu amor por ele é incondicional, assim como o respeito que tenho por este ser de grande luminosidade. Os filhos deveriam aprender com os pais, mas sou eu que aprendo a cada dia com ele. Teria ainda muitos episódios para contar aqui, mas deixo para outra ocasião.

Faltam palavras, então serei sucinto e encerro agora. Só o que posso dizer é que nunca vi ninguém com espírito tão elevado. A 3 dias de meus 40 anos, posso assegurar, incontestavelmente, que ele é a maior benção de minha vida. Agradeço ao Criador por me permitir ser o pai dessa grande alma.

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37. A mulher da minha vida (04/12/2014)

Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você.

Roberto Carlos

Este e o próximo texto são os mais difíceis de escrever. Afinal, como expressar em palavras o que sinto por duas pessoas que são a razão da minha existência? Vou começar com ela, a pequena notável, aquela que, em questões de segundos, fez minha vida nesta encarnação mudar para sempre.

Lembro, como se fosse hoje, do dia em que ela nasceu. Havíamos passado o sábado resolvendo coisas em Brasília, passeando com a sogra. Algumas reclamações de dor. A mãe queria tomar um Buscopan. Não deixei. Continuamos passeando. À noite, as dores tornaram-se mais intensas e fomos para o hospital. O trabalho de parto prosseguiria até a manhã de domingo.

Fomos para o centro cirúrgico. O parto seria normal – e realmente foi. E eu junto – não perderia aquele momento por nada. Pude, assim, testemunhar o milagre do nascimento: dor, choro, grito, esforço, alívio, alegria… imensa alegria! Experiência única e universal pela qual todos já passamos. Continuidade da espécie. Linhagem que se mantém. E, naquele instante em que ela chegava para a Luz, tudo mudou em nossa vida!

O nascimento dela foi marcante. Quando a vi, a emoção preencheu todo meu ser. Segurei as lágrimas – tinha que ser forte (só viria a chorar e a voltar a dormir dois dias depois, quando as levei para casa – aí desabaria e poderia me entregar ao caleidoscópio de emoções que só um filho recém-nascido pode causar em um pai). O médico me concedeu uma grande honra: cortei o cordão umbilical. Naquele momento, eu a separava fisicamente de sua mãe e a apresentava ao mundo. E ela passava para meus braços: frágil, doce, bela. Felicidade é a palavra!

Desde então, minha vida realmente mudou. Só quem é pai sabe o que é amar incondicionalmente alguém a ponto de não pensar, nem por um segundo, se tiver que dar a vida pela pessoa amada. Minha pequena, minha menina, meu tesouro precioso. Impossível expressar em palavras o amor paterno.

E cresce a cada dia. Como todo filho, consegue me tirar do sério em vários momentos. Mas também consegue me fazer imensamente alegre com um simples sorriso, um gesto, uma palavra. Orgulham-me sua genialidade e suas conquistas. Em 2014, tenho que compartilhar, foram uma Medalha de Ouro na Olimpíada Nacional de Robótica e uma de bronze na Olimpíada Nacional de Astronomia. E aí o pai desaba!

Claro que há as conquistas do dia a dia! As primeiras palavras (não pararia mais de falar), os primeiros passos… A fralda suja no quadradinho com cocô espalhado – e eu sozinho, dando banho, trocando a fralda e limpado o estrago. O primeiro dia na escola – pais tensos, preocupados, e a criatura vira e diz, com ar soberano: “Podem me deixar aqui que sigo sozinha, tá?” – independência aos 3, 4 anos… Momentos únicos que nos fazem entender o sentido da vida…

Ela me lembra muito a Mafalda, de Quino. Extremamente crítica, gosta de, desde os 8, 9 anos, discutir política, protestar contra abusos do governo, defender os oprimidos. Lê intensamente e gosta de conhecer sobre tudo. Sua paixão, expressa já na mais tenra infância, são os animais – conhece tudo sobre eles, inclusive sobre os extintos há milênios. Quer ser bióloga, isso já dizia desde muito cedo. Mas acho que poderia ser uma ótima advogada, pelo senso crítico, conduta contestadora e vontade de defender os necessitados. No final das contas, a decisão será dela.

Às vezes, é difícil percebê-la como uma criança, dada à maneira crítica e escorreita como se expressa. Parece uma pequena adulta nos gestos, no palavreado e nas reflexões. Aí tenho que estar atento para me lembrar que é apenas uma menina, uma pré-adolescente, uma flor ainda por desabrochar. Claro que é, e sempre será, para este pai, uma menina, a minha menina.

Não escreverei mais nada sobre ela. Faltando 4 dias para completar 40 anos, o que posso dizer é que ela, junto com o irmão, são o grande motivo para meus esforços por um futuro melhor, em casa, no trabalho e na vida pública. Digo, ainda, que ela chegou e, sem a mínima noção disso, arrebatou meu coração, conquistou-me de imediato, e é, e será sempre, a grande mulher da minha vida. Obrigado, filha, por ser o que você é, e por me fazer pai!

 

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36. Senado (03/12/2014)

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Iniciais de SENATUS POPULUSQUE ROMANUS
inscritas nos estandartes das legiões

Estava trabalhando muito feliz na ABIN. Agradava-me o emprego, a atividade e o setor onde me encontrava. Porém, algo inusitado aconteceu: fui transferido para um setor tremendamente interessante, mas com um problema – um chefe que começou a me perseguir profissionalmente.

Hoje isso seria chamado de assédio moral. À época, porém, era só um idiota atazanando a vida de outro. Acho que o sujeito se sentiu inseguro em seu cargo e ameaçado pela minha pessoa (apesar de ter a idade para ser meu pai e ser oficial superior da reserva, portanto, com mais de trinta anos de vida profissional). E passou a implicar comigo – e eu não era o primeiro, pois outros colegas já haviam passado por momentos difíceis com aquele chefe e deixado o setor. Vi que a situação começava a prejudicar minha saúde física e mental. Chegava a ter taquicardia do tanto que o homem implicava comigo. Tinha que fazer alguma coisa.

Conto essa história porque ela acabou se mostrando uma excelente oportunidade de aprendizado e crescimento. De tanto o chefe me assediar moralmente, tomei duas decisões: iria sair do setor de que tanto gostava; e não ficaria mais um ano na ABIN. Aquilo foi bom, no final das contas, porque me motivou a dar um passo maior.

Pedi para mudar de setor. Fui para outro, onde me receberam muito bem. Todos os chefes, ao contrário do anterior, eram de carreira, analistas de informações, colegas que virariam amigos. Entretanto, o ex-chefe continuaria me incomodando da pior forma possível: deu-me uma nota baixa na avaliação periódica profissional, o que reduziu meu salário (que já não era muito) em cerca de 20% por seis meses. Tive que recorrer e, felizmente, consegui reverter o processo administrativamente. Mas o estrago fora grande e minha decisão tomada.

A Providência Divina colocou então o concurso do Senado em meu caminho. O cargo: Consultor Legislativo. Era um concurso que ocorria a cada dez anos e, por razões que só os místicos entendem, coincidiu de ser aquele o momento para um novo certame. Número de vagas para minha área (Relações Exteriores e Defesa Nacional): 1 (uma). Ia fazer e tentar obter êxito.

Não tinha muito tempo para estudar para o concurso. Trabalhava na ABIN o dia todo e à noite dava aula na faculdade (fazia 20 horas lá, todas as noites da semana, portanto). Chegava em casa às 23h e aí tirava umas duas horas para tentar cumprir o programa previsto no edital – acho que foi daí que consolidei a prática de dormir muito tarde.

Nos fins de semana, ia à biblioteca da UnB para estudar e tentar apreender o conteúdo de Matemática para o concurso. Aqui faço referência a meu querido amigo Carlos Tomé, à época analista legislativo da Câmara dos Deputados, engenheiro de formação, professor por vocação, que conseguiu me ensinar, da obscura Ciência Pitagórica, o que precisava para o concurso. Devo, de certo modo, minha aprovação ao Tomé. Foi ele o responsável por me fazer entender um pouco a Matemática. Nunca vou esquecer a ajuda do amigo. Sim, sempre aparecem anjos no caminho…

Pouco antes dos exames, tirei alguns dias de férias: concentrei-me totalmente na matéria e fui fazer a prova. No local do certame, encontrei alguns amigos, professores, e também uma gente danada de besta – lembro-me de uma menina comentando na sala que “aquela vaga já era dela, pois estava muito preparada e acabara de chegar de um mestrado na Europa”… outro rapaz virou para o fiscal e disse, com arrogância: “olha, pode entregar as provas que os portões já fecharam e quero fazer logo a minha para ficar em primeiro lugar”. E eu, quieto, fui resolvendo as questões.

Sai o gabarito da primeira fase. Tomé me telefona e vamos conferir os resultados (ele havia feito para a área de Meio Ambiente). Depois de fazer alguns cálculos, Tomé me diz: “olha, acho que você está na segunda fase”… E confere a própria prova: “Eita, véi! Eu também!”. E fomos felizes para a próxima etapa do concurso.

Fazemos as provas escritas. Sai o resultado e Tomé me liga: “Estou com a pontuação do pessoal aqui… vamos ver como você ficou!”. Confere os pontos e me dá a notícia, eufórico: “Velho, você está em primeiro!”. Confere a dele: “Eita! E eu também!”. Enquanto descrevo aqui o episódio, meu peito se enche de emoção e olhos ficam mareados: Caramba! Estava em primeiro lugar no concurso do Senado! Ia mudar de emprego!

O concurso continuou com as provas de títulos. E o resultado final: éramos os primeiros colocados em Relações Exteriores e Defesa Nacional e em Meio Ambiente. Algum tempo depois, tomaríamos posse. E começaria uma nova fase de nossa vida!

O Senado, a Câmara Alta do Parlamento, carrega uma história cujos primórdios estão na Roma antiga. As legiões lutavam pelo Senado e pelo povo de Roma. Em muitos países a Casa revisora do processo legislativo, o Senado é visto como importante para garantir o equilíbrio democrático. No glorioso Império do Brasil, o Senado representava, juntamente com o Imperador, a Tradição, e servia para equilibrar as forças da nação e impedir que os representantes diretos do povo, na Assembleia, abusassem de suas prerrogativas e ameaçassem o regime democrático. Grandes estadistas passaram pelo Senado nestes 180 anos.

Já tenho mais de uma década no Parlamento. Aprendi muito e, como tem que ser, fiz amigos para toda a vida aqui. É uma experiência gratificante poder trabalhar ajudando a escrever as leis que mudarão os destinos do País. Conhece-se muita gente interessante – e muita gente não tão interessante também. Mas o saldo é sempre positivo. Gosto da Casa em que trabalho e me esforço para ali prestar o melhor serviço.

Claro que sinto saudade do Executivo. Deixei grandes amigos na ABIN. Conheci muita gente boa, tinha ótimos colegas e, à exceção daquele único cretino que me perseguiu, excelentes chefes. Saí da Agência de cabeça erguida e deixando as portas abertas… como deve ser.

Agradeço diariamente ao Criador pelo emprego que tenho. Agradeço diariamente pelos amigos verdadeiros que fiz no Senado. E, faltando 5 dias para meu aniversário, deixo a eles meu fraternal abraço! Obrigado mesmo, a cada pessoa do e no Poder Legislativo que caminha comigo nesta jornada!

Em tempo: coloquei uma foto de uma reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal, onde estou na bancada com meu estimado Presidente (sempre Presidente) Fernando Collor, outra de minha mesa de trabalho e uma terceira dos queridos amigos da Consultoria Legislativa do Senado.

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35. Casamento (02/12/2014)

Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?
Renato Russo

Em todas as sociedades, há três momentos marcantes na vida privada de uma pessoa: o nascimento, a morte e “aquele-evento-em-que-alguém-se-une-a-outra-pessoa-para-constituírem-uma-vida-a-dois” (o que em alguns lugares recebe o nome casamento).

Não importa a forma como se dê o matrimônio, o que vale é que costuma ser uma transição importante para qualquer ser vivo. Até aqueles que se dizem celibatários, como os religiosos, acabam assinalando que “se casaram” com a fé, com o Cristo ou com a Igreja.

Ao contrário do que apregoam certas religiões e tenta impor a sociedade, casamento, regra geral, não é para sempre. Claro que há exceções, casais que permanecem juntos por décadas. Entretanto, o mais natural, parece-me, é que uma pessoa tenha mais de um casamento ao longo da vida… Afinal, somos humanos, não pinguins ou araras. E, se considerarmos que se encarna várias vezes neste plano, seria no mínimo estranho e antinatural que duas pessoas permanecessem ligadas uma à outra por toda a eternidade. Exatamente por isso o casamento deve ser vivido a cada dia, e o amor vivido em plenitude para que, como diria o poeta, seja eterno enquanto dure…

Casei-me muito cedo. Tinha acabado de completar 26 anos (casei-me dia 16/12). Foi um momento importante, pois estava a constituir minha própria família. Não que esperasse um dia me casar (homem nenhum espera), mas aconteceu. E com uma pessoa muito especial e que viria a me dar dois grandes tesouros.

Não vou contar aqui sobre minha vida amorosa, as mulheres que amei, as decepções e alegrias que tive ao longo dos meus quarenta anos de existência. A única coisa que direi é que sempre fui muito tímido e que isso, associado ao fato de que a natureza não me brindou com “sexy appeal”, fazia de mim um sujeito nada atraente, o que me frustrava sobremaneira. Para piorar as coisas, era sempre o mais jovem do grupo de amigos, e as meninas tinham atração por caras mais velhos, mais fortes, mais ricos. Tímido, novinho demais, feio e sem dinheiro no bolso… características faziam de mim a última opção no jogo do amor. Paciência! Se não tinha remédio, remediado estava…

Foi aí que conheci aquela que viria a ser minha esposa. Não sei o que ela viu em mim, mas começamos uma amizade. Éramos colegas de faculdade. Ambos fazíamos a segunda graduação. Gostávamos de livros e tínhamos outros pontos em comum. A amizade acabou se tornando namoro. Passamos momentos bem agradáveis. Ela me incentivava a tocar os estudos e a fazer concurso. E festejou quando passei nas provas para a Polícia e para a ABIN. Como diria Renato Russo, “e comemoramos juntos, e também brigamos juntos muitas vezes depois”…

Quando já estava empregado, no meu segundo ano na Inteligência, recebi um telefonema em minha sala. Objetivamente, o diálogo foi o seguinte: “olha, já marquei o casamento, tá? Será 16 de dezembro” – fim do “diálogo”. Aí vi que a corda estava no pescoço e que nenhum treinamento de combate (nem mesmo sobrevivência na selva) me tiraria daquela situação… Casei então.

Foi uma cerimônia dupla, ocorrida em dois momentos. O primeiro dia, na Igreja Católica, com valor civil – evento simples, mas bem elegante, como era a noiva (o padre errou meu nome, claro – tive que corrigi-lo), seguido de um almoço para alguns convidados. No segundo dia, um domingo ensolarado (como fora o do meu nascimento), a cerimônia de casamento rosacruz, no belíssimo templo da Loja Rosacruz Brasília. Estávamos casados e felizes.

Viajamos para o Rio de Janeiro na lua de mel – mesmo porque não tínhamos dinheiro para nada mais ousado. Fomos a Petrópolis – sim, porque já era monarquista à época. Depois começamos a vida juntos. Passados três anos, viria nossa primeira filha.

Sinceramente, não sei o que ela viu em mim. Só sei que teve todo o mérito de acreditar no meu potencial, “e me comprar na baixa”. Tinha outras opções? Certamente. Mas preferiu este daqui… E vivemos anos felizes, apesar das dificuldades e das diferenças que foram surgindo paulatinamente.

A 6 dias dos meus 40 anos, gostaria de deixar meu beijo carinhoso para aquela que me comprou na baixa, me jogou para o alto, mostrou-se companheira de primeira hora, sorriu comigo, brigou (muito) comigo, e me deu os tesouros mais preciosos que um homem pode ter na vida: meus filhos! E a vida segue!

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34. Secret Agent Man (01/12/2014)

A Inteligência é um apanágio dos nobres. Confiada a outros, desmorona.
Walter Nicolai (1873-1934),

Chefe do Serviço de Inteligência da Alemanha
 durante I Guerra Mundial

Faltam 7 dias para meus 40 anos! E, certamente, nestas crônicas sobre as primeiras 4 décadas da presente encarnação, lugar de destaque é o da minha passagem pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). O tempo em que fiquei naquela Casa aprendi muito, amadureci profissionalmente, fiz grandes e sinceros amigos, fui inteiramente contaminado pelo vírus da Inteligência (entenda-se aqui informações)! E descobri que, uma vez com esse maravilhoso vírus na corrente sanguínea, impossível se dissociar dele!

Ingressei no “Serviço” (como alguns ainda o chamam) por concurso público. Apesar das críticas, no Brasil, felizmente, deve-se prestar concurso para se ingressar na ABIN. Que bom, pois se não fosse assim, jamais teria me tornado analista de informações – hoje oficial de inteligência! Quando me perguntam sobre concurso para a inteligência, muitas vezes em tom jocoso, rebato logo assinalando que a obrigatoriedade do concurso público foi uma das grandes conquistas da Constituição de 1988, e que não conheço carreira pública, civil ou militar, em que se ingresse de maneira distinta à da via meritocrática. Entendo que concurso para a ABIN é algo tremendamente válido, e deve ser mantido, pelo bem da democracia e do próprio serviço de inteligência. Claro que, fundamental, é que haja critérios adequados e bem estabelecidos para o referido processo seletivo.

Por óbvio, não contarei aqui o que fazia no serviço secreto. Mas o que posso destacar do período é que fiz descobertas muito interessantes. Primeiramente, descobri que Inteligência e democracia são plenamente compatíveis – não existe democracia no mundo que possa prescindir de seus sistemas de inteligência, uma vez que esses têm grande importância no assessoramento do processo decisório e na proteção ao conhecimento precioso.

Também aprendi que a nossa é a segunda profissão mais antiga do mundo. A atividade de inteligência surge com a necessidade dos primeiros chefes tribais de conhecer sobre as outras comunidades, de saber quantos guerreiros tinha a tribo vizinha, se eram caçadores ou coletores, quantas mulheres havia naquela comunidade. Esteve presente nos últimos 20 mil anos da história da humanidade e, acredito sinceramente, enquanto houver seres humanos sobre a face da terra, haverá serviços de inteligência. Portanto, é importante que pessoas, grupos, organizações e governos aceitem essa realidade.

Aprendi, ainda, o quanto a inteligência é importante para prevenir contra ameaças e identificar oportunidades. E descobri, entre a comunidade de inteligência brasileira (tanto na ABIN quanto em outras organizações que tive a oportunidade de conhecer), profissionais altamente competentes, qualificados e, acima de tudo, comprometidos com os interesses nacionais e com a defesa do Estado e da sociedade. Sim! Ao contrário do que tentam apregoar os críticos de nossa comunidade de inteligência (que o fazem por desconhecimento, preconceito, ou mesmo má-fé), nos nossos serviços secretos a grande maioria dos profissionais é composta de mulheres e homens bons, de caráter, éticos, apaixonados pelo que fazem, enfim, servidores públicos com “s” maiúsculo. Respeito imensamente esses profissionais, tenho grandes amigos na comunidade de inteligência, repito, e almejo vê-los mais valorizados tanto pela sociedade quanto pelas autoridades públicas – seus “clientes” principais.

Nos meus primeiros quarenta anos de existência, a experiência no serviço de inteligência serviu para que me apaixonasse por esse campo da atividade humana, e para que dedicasse minha vida profissional e acadêmica a conhecer melhor esse fantástico universo. Ainda tenho muito o que aprender sobre Inteligência, e pretendo dedicar minhas próximas quatro décadas a esse fim. É um campo fascinante, sedutor, e rico em lições para a vida!

Deixo meu abraço fraterno a todos da comunidade de inteligência. Dia 7 de dezembro, véspera de meu aniversário, é o dia do profissional de inteligência. A própria Lei nº 9.883, de 1999, que institui o Sistema Brasileiro de Inteligência e cria a ABIN, foi publicada no Diário Oficial da União no dia de meu aniversário.

Espero, sinceramente, que nos próximos anos, nossas autoridades públicas e o conjunto da sociedade brasileira passem a valorizar mais essa atividade tão imprescindível para o Estado, a sociedade e a democracia, bem como a seus profissionais, os abnegados homens e mulheres que operam no silêncio!

Abin

33. Atalaia eterna! (30/11/2014)

Em defesa da paz social, do direito da ordem, da lei… sempre, sempre eu serei policial, atalaia eterna eu serei!
Refrão do Hino da Polícia Civil do DF

Todo menino sonha em ser astronauta, jogador de futebol (eu não), piloto, policial… Não pude ser astronauta nem piloto, e não imaginava que um dia viria a me tornar policial. Só que a vida nos prega peças: meu primeiro emprego público efetivo foi exatamente como agente da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF)! E foi uma experiência muito gratificante.

O ano era 1998. Estava desempregado, desesperado. Buscava um concurso para todo e qualquer cargo público que aparecesse. Como disse em outro texto, se houvesse concurso para bailarino do teatro nacional ou para tratador de leões no zoológico faria a inscrição.

Surgiu, então, o edital para concurso de agente de polícia da PCDF. Vi o programa das disciplinas para as provas e percebi que teria chances. Estudei. Não tinha dinheiro para pagar cursinho, tendo que me virar por conta própria. E fui fazer as provas!

Passei na primeira fase, de provas escritas. O segundo passo eram as provas físicas. Aí a situação complicava. Afinal, nunca tive vocação para esportes. Mas a necessidade falava mais alto. E a disciplina imperou.

Uma prova que me preocupava era a corrida de 2.400 metros em 12 minutos (creio que era isso). Nunca havia corrido. Não tinha muito hábito nem de caminhar. Mas, naturalmente, precisava daquele emprego. Procurei meu Mestre D’Armas (estava afastado havia mais de um ano da esgrima) e Evandro me deu boas orientações de como começar a me preparar e ganhar condicionamento físico para correr. Ia fazer o que fosse necessário para superar essa barreira.

Se me perguntassem hoje se fiz aquilo, respondo que sim só porque fui eu mesmo quem fez! Eu, que nunca havia corrido na vida, agora saia duas vezes por dia, pela manhã e à tarde, para correr pelas ruas de Sobradinho por uma hora e meia! E corria! Corria como um louco, pois precisava vencer aquela batalha e alcançar um emprego público. Precisava de condicionamento. Cronometrava o tempo. Eita canseira! Run, Forrest, run!

Chegou o dia da prova física. O local, o Centro Olímpico da UnB. Era como um grande evento! Os candidatos eram chamados em grupo para correr, e lhes acompanhava uma torcida de amigos, familiares, namoradas. Fui como nasci, sozinho.

Chegou minha hora de fazer a prova. Tinha que correr os 2.400 metros em 12 minutos (“bobagem”, diriam alguns! Mas para mim seria impensável alguns meses antes). Se alcançasse a distância antes (o que também não era fácil, pois estava bem no limite durante os treinos), tinha que continuar ao menos caminhando até o final do circuito.

Deram a largada. Corro. Run, Forrest, run! Minha vida passa em ritmo acelerado! Primeira volta, segunda volta, terceira volta… perdi a conta… Tinha um fiscal contando (ainda bem!). Esbaforido. Falta fôlego. “Onde é que fui me meter?”, penso, bravo, comigo: Run, Forrest, run!

Mais uma volta. A língua completamente para fora da boca – vai chegar uns dois minutos na minha frente. O ar fica escasso. Continuo correndo. Não dá para intercalar com paradas para caminhar. As pessoas lá fora gritando e torcendo pelos seus entes queridos. E eu só – melhor assim, a vergonha seria só minha também. Continuo correndo.

Entro na última volta. Olho para o lado. A imagem que presencio fica gravada para sempre em minha mente: um gordinho, bem gordinho mesmo, que vinha correndo e, não sei como, continuava na prova, tropeça. A cena se passa em câmera lenta… vejo o gordinho com uma perna se entrelaçando na outra (nãaaaoooooo!)… o gordinho vai ao chão estabanado. Fica ali deitado, esbaforido, chorando. A prova acabava naquele instante para ele… e o concurso!

Eu continuo no páreo… É a última volta. Só mais um pouco! Run, Forrest, run! Os últimos metros e os derradeiros segundos se aproximam. Olho para o fiscal que me faz um sinal: consegui já os 2.400 metros! Basta agora só terminar o tempo continuando no circuito. Felicidade!

Acabou o tempo! Consegui! Não acreditava! Me dei um caloroso abraço (não tinha quem me abraçasse)! Respirei fundo. Mais uma etapa concluída. Orgulho de mim. Superei um obstáculo quase que intransponível para alguém desacostumado a exercícios físicos. Venci. Viriam o psicotécnico e a investigação sobre vida pregressa – nos quais seria aprovado sem problema. Viva eu!

Logo fui chamado para a Academia de Polícia. Época muito boa. Naqueles anos, a academia ficava em uma área distante, no final da Ceilândia (Finlândia, portanto), uma cidade satélite de Brasília. Mas eu iria onde fosse necessário, claro. Todo dia chegava cedo e ficava até o fim da tarde, quando voltava correndo para a faculdade, que cursava à noite.

O curso foi ótimo. As aulas, bem divertidas: Direito, Primeiros Socorros, Segurança Orgânica, Defesa Pessoal e, o melhor, Adestramento e Tiro! Eita que adorava atirar! Foi paixão à primeira vista com as armas! Gostei mesmo! Era melhor na técnica de saque rápido (na prova final de saque rápido, fiz 99 pontos em 100, contra 97 em tiro de precisão), mas o que importava mesmo era atirar. Realmente, foi inesquecível o tempo de academia.

Excelentes também foram os amigos, entre instrutores e colegas de concurso, que fiz na academia de polícia. Gente boa, de diferentes cantos do Brasil, com perspectivas distintas, mas com o objetivo de se tornar policiais, bons policiais. Minha turma em particular era divertidíssima! Ficamos unidos. Alguns dos amigos da academia tenho até hoje. Seguem fotos daqueles bons tempos!

Indescritível a felicidade quando tomei posse na PCDF. Era servidor público e policial! Meu primeiro emprego público! Salário garantido no fim do mês e um trabalho para lá de interessante. Identifiquei-me muito com a atividade de polícia. E entendo perfeitamente que, ao menos com quem está disposto a fazer uma carreira honesta e decente, a profissão de policial é como um sacerdócio – sem exageros!

Fui designado para a Delegacia do Meio Ambiente (DEMA). “Um lugar bem tranquilo”, diria meu caro leitor! Certamente mais que as delegacias regionais ou que algumas especializadas (como a de Roubos e Furtos ou a de Repressão a Entorpecentes). Certamente. O único problema é que quem investiga grilagem de terras no DF é a DEMA – esse é um grande problema na capital federal e era uma época em que o Governo estava pondo abaixo lotes e cercas em condomínios irregulares (onde depois íamos reunir provas e fazer ronda).

Aprendi bastante na PCDF. Cresci como pessoa e como profissional. Não cabe aqui contar os “causos” da época de polícia… Isso é conversa para um bom bar, com uma boa cerveja e bons amigos. Só digo que para mim foi extremamente importante a passagem por lá.

Só tenho boas lembranças de meus tempos de polícia. Fiquei pouquíssimo tempo porque, logo em seguida, fui chamado para o curso de formação da Agência Brasileira de Inteligência (pois passara nesse concurso também). Mas o período que fiquei ali aprendi muito e, acima de tudo, fiz boas amizades.

Faltam 8 dias para meu aniversário. E hoje lembro dos amigos que fiz na polícia, e de todos os policiais (civis, militares, rodoviários, federais) que combatem com bravura a criminalidade e que trabalham duro, muitas vezes com o sacrifício da vida, pela segurança dos cidadãos, nesta guerra diária em um país onde o policial é desprezado, a vítima é esquecida e o bandido vira herói. Isso me incomoda. Sonho com um Brasil em que o policial seja mais valorizado, e onde ser polícia seja entre as crianças um sonho maior que o de se tornar jogador de futebol…

PCDF

32. Seu Olavo e Dona Marieta (29/11/2014)

Cânone 872. Ao batizando, enquanto possível, seja dado um padrinho, a quem cabe acompanhar o batizando adulto na iniciação cristã e, junto com os pais, apresentar ao batismo o batizando criança. Cabe também a ele ajudar que o batizado leve uma vida de acordo com o batismo e cumpra com fidelidade as obrigações inerentes.
Código de Direito Canônico

Se na vida pública e profissional nunca tive padrinhos, o batismo católico me abençoou com duas pessoas muito amadas: Seu Olavo e Dona Marieta, meu padrinho e minha madrinha.

Padrinhos são de grande importância na vida de qualquer pessoa. Devem ser escolhidos com muito carinho e atenção. Afinal, são eles que, na ausência dos pais, assumem a missão dos genitores junto ao afilhado. Extrapolando-se as determinações canônicas, os padrinhos são os pais substitutos, os pais em duplicidade. Isso deve ser considerado na escolha dos padrinhos, pois eles também transmitem valores e são responsáveis pela formação da pessoa.

Eu tive a felicidade e ter Seu Olavo e Dona Marieta como padrinhos. Minha madrinha é irmã mais velha de mamãe. Vivem em Caxias, mas sempre me senti muito próximo de ambos – a Santa Kabalah ensina que a distância entre pessoas não se mede por critérios espaciais, mas sim pela afinidade de pensamento e, se pudéssemos desenvolver essa ideia, pelos valores e pelas crenças comuns. Então, mesmo a quase dois mil quilômetros de distância, meus padrinhos estiveram próximos a mim nessas quatro décadas.

Seu Olavo, nascido no Ceará (como meu pai), foi ainda muito jovem ganhar a vida em Caxias/MA. Lá conheceu minha madrinha, casaram-se e tiveram uma bela prole de cinco filhos, acrescida por sobrinhos que foram criados como filhos após o falecimento de meu tio Walter e sua esposa Irene, em um acidente de carro nos anos setenta. Aí está uma primeira lição que me ensinaram: o amor incondicional e o carinho, sem qualquer diferenciação, com que criaram seus filhos naturais e adotivos.

Sempre vi meu padrinho trabalhando, e duro, para sustentar a família. Nunca o vi se queixando da labuta… Ao contrário, o bom-humor de Seu Olavo é singular: continuamente tem uma tirada interessante, um comentário apropriado para algo que veja na TV ou no quotidiano. É um excelente observador das pessoas e de seu comportamento. Meu padrinho, de fato, é um homem sábio, e o admiro muito pela maneira como ele vem encarando a vida nestes 83 anos e três pontes de safena. Sim! 83 anos! Mas transmite uma vitalidade de garoto – talvez pela paz interior e pela alegria com que encare a vida.

Sobre Dona Marieta, o que primeiro posso dizer é que ela é, sem qualquer sombra de dúvida, minha segunda mãe (que, junto com Dona Conceição e a Rosa, formam um triunvirato materno, certamente benção de Nossa Senhora)! Minha madrinha é também uma grande referência para mim: coração gigante, carinho incondicional, uma mulher forte, sábia e muito trabalhadora. Interessante sobre Dona Marieta é que ela também trabalhava fora de casa, como funcionária dos Correios (coisa pouco usual para uma mulher de sua geração). Mas entre as melhores recordações que tenho de minha querida madrinha estão os sábios conselhos, as orações diárias por mim, a caridade com que cuida dos pobres em Caxias, e o amor incondicional a seu afilhado.

Batalhando muito, meu padrinho e minha madrinha criaram seus filhos e netos, e tiveram uma descendência feliz. A casa deles está sempre cheia de gente: filhos, netos, bisnetos, amigos, agregados, afilhados. A mesa, posta todo o tempo, e as portas da casa abertas para acolher quem necessite de conforto – é como as antigas “casas do caminho”, que acolhiam todos os peregrinos cansados em busca de conforto físico e espiritual.

Tenho muito orgulho de ser afilhado de Seu Olavo e Dona Marieta. Certamente, esses meus primeiros quarenta anos de vida foram mais especiais porque os tenho como padrinhos. A nove dias de meu aniversário, meu beijo carinhoso a meu amado pai e a minha amada mãe em duplicidade!

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31. Tocada à direita, ponto à esquerda (28/11/2014)

Sans le duel, on ferait de l’escrime tranquillement.
Jules Renard

Dorival Caymmi morreu com 94 anos. As tartarugas, se não forem devoradas por predadores ou vitimadas pela poluição dos oceanos, costumam viver mais de um século. Os atletas, entretanto, antes dos 30 já estão a fazer cirurgia ou em recuperação por alguma lesão fruto de suas atividades. E o coelho, bicho hiperativo, morre com 5 ou 6 anos (anos felizes, de prole numerosa, mas 5 ou 6 apenas). Isso me leva a concluir que esporte é prejudicial à saúde. O corolário é que nunca fui afeito a práticas desportivas.

Houve, porém, um esporte que pratiquei com gosto. Não foi futebol, pois, como já disse, corro em linhas e ângulos retos e meu sentido de autopreservação me impediria de ficar no gol levando bolada, razão pela qual também evitei vôlei, basquete, handball e todas essas práticas violentas que, ainda por cima, exigiam coordenação com uma equipe de pessoas sempre mais competentes que eu e que acabavam irritadas pela minha inabilidade na quadra ou em campo. Sobravam-me, assim, os esportes individuais e de baixa probabilidade de lesão, nos quais só dependeria de mim mesmo: natação, tiro e esgrima!

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Esporte fascinante é a esgrima. Prática aristocrática, elegante e exigente em termos físicos e mentais. De fato, além de carregar tradição, requer habilidade, concentração e preparo físico. Apesar de não ter preparo físico e habilidade, a concentração e a tradição levaram-me a procurar esse belíssimo esporte olímpico.

Eram meados da década de 1990. Não sei como, mas fui parar na Casa do Ceará, onde davam aulas de esgrima. O Mestre D’Armas, Evandro Oliveira, já havia passado pela Academia da Força Aérea, era um sujeito de grande talento e tentava trazer de volta o esporte tradicional, airoso e requintado para a capital federal. Além disso, Evandro era um sujeito de boa conversa e foi muito receptivo. Resultado: cheguei e fiquei.

Com poucos recursos, nosso grupo de esgrima se divertia bastante. Praticamente não tínhamos sala d’armas na Casa do Ceará. Montávamos as pistas e dividíamos o espaço com o pessoal da capoeira, que também praticava Jiu-Jitsu, e que chegava depois e devia achar no mínimo estranho aquele bando de malucos de branco batendo lâminas… Nosso tempo ia até eles precisarem do espaço para começar a aula. Éramos pontuais e disciplinados. E, claro, não era de bom alvitre contrariar o pessoal da capoeira, que também praticava Jiu-Jitsu.

O grupo da esgrima era bacana. Éramos poucos, mas nos divertíamos muito! Em média, tínhamos a mesma idade e gostávamos dos mesmos assuntos além da nobre arte. Alguns tinham um quê de “nerdismo” acima da média. Mas estava valendo! A maioria de nós não se preocupava em ganhar competições, tampouco em se profissionalizar. Queríamos nos divertir e jogar esgrima. Claro, grandes amizades também dali sairiam, algumas que perduram duas décadas depois.

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Não fiquei muito tempo na esgrima. Tive que me afastar por alguns meses, e acabei não voltando a praticar. O pessoal se mudou para a AABB, com uma boa sala d’armas, e depois tomou outros rumos. Evandro, merecidamente, alçou novos voos. Sua disciplina e extrema competência o levariam à posição de técnico de nossa seleção brasileira, o que nos orgulha a todos.

Também fazíamos bons churrascos, porque ninguém é de ferro. Seguem fotos do churrasco de 1997, em comemoração a nosso brassard amarelo. Foi na casa do Evandro. Sempre boas festas!

A 10 dias de meu aniversário, tomo consciência de que preciso praticar algum esporte por questão de saúde – é isso ou a morte lenta. Os coletivos estão fora de cogitação. Lutas, bem, não gosto de apanhar. Sobram a natação (está em meu planos), o tiro (que já pratiquei, mas que acaba sendo um pouco complicado neste país onde não deixam os cidadãos andarem armados, para a alegria dos vagabundos), e minha querida esgrima! Opa! Taí uma boa idéia!

Continuo fascinado pela esgrima. Continuo com bons amigos daqueles tempos. E tenho esperança de voltar a jogar – claro que apenas por diversão e para melhorar a saúde. Quem sabe em 2015, com 40 anos.

[Em tempo: em 2019, Evandro mudou-se com a família para os Estados Unidos, onde prepara novas gerações para o tradicional esporte. Eu, bem, ainda não voltei a praticar esgrima…]

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30. Direito e Ceub (27/11/2014)

A justiça sem a força é impotente, a força sem justiça é tirana.
Blaise Pascal

Concluí o curso de Relações Internacionais sem grandes perspectivas profissionais. Apesar de tremendamente interessante pelo currículo e excelente para a formação humanística, em termos práticos, Relações Internacionais se revelaria um grande fiasco. E lá estava eu, com 20 anos, um impoluto diploma por uma das melhores universidades do País e… desempregado! Não seria simples sair das estatísticas com um título de bacharel em algo pouco conhecido no Brasil. Tinha que fazer alguma coisa.

Em meu penúltimo semestre na UnB, talvez já instintivamente percebendo as dificuldades que adviriam nos próximos anos, resolvi prestar vestibular para Direito naquela que era considerada a melhor faculdade particular do DF: o então Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB). Não estava muito convicto de que gostaria de ser advogado, mas meu pai insistiu e fui fazer as provas. Fiz o vestibular e esqueci completamente do episódio – estava mais preocupado em concluir meu bacharelado em Rel (como nós na UnB chamamos Relações Internacionais).

Havia esquecido completamente do vestibular do CEUB. Afinal, não estudara para as provas e não pensava na carreira jurídica… Então, fizera os exames admissionais por fazer. Mas a boa surpresa chegaria de forma inusitada…

Estava em casa e um colega me telefonou. “Parabéns, cara!”, disse ele, “você passou para Direito!”. Ele vira meu nome na lista dos aprovados e perguntava se eu não iria fazer a matrícula, pois o prazo estava se encerrando. Naquela época não havia internet como hoje (estou falando de 1994!) e a divulgação dos resultados dava-se pelo jornal ou nas listas afixadas na faculdade – foi onde meu colega viu meu nome. Nesse sentido, uma vez que “Joanisval” não encontra homônimos no mundo civilizado, só poderia ser eu mesmo! E fiz a matrícula.

Não consegui aproveitar muito bem meu curso de Direito. Como já trazia algumas disciplinas da UnB, minha grade curricular no Ceub era sempre complicada… Estava usualmente em dois ou três semestres ao mesmo tempo. Ademais, tive que suspender o curso algumas vezes, pois não tinha dinheiro para pagar, ou estava concluindo meu Mestrado, ou com problemas pessoais. Enfim, levei cerca de 8 anos para concluir o curso de Direito, passei por três currículos distintos e nunca estive plenamente inserido em um semestre específico, com uma turma própria. Isso acabou sendo valioso, pois conheci muita gente na trajetória, e boas amizades foram ali moldadas – muitas da quais perduram até hoje.

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Mas foi no segundo semestre de 1996 que, retornando aos estudos, encontraria a “turma” que acabaria adotando como minha. O pessoal estava, creio, no quarto semestre. Gente muito simpática e aberta aos “novatos” que apareciam. Logo fiz amizades. Com eles seguiria mais ou menos até o fim do curso (que acabariam cerca de um ano e meio antes de mim) e faríamos juntos muitas disciplinas. Essa boa gente acabaria marcando minha vida – dali saíram meus grandes amigos do curso de Direito e aquela com quem viria a me casar e ser a mãe de meus filhos. Pois é! Conheci minha esposa na faculdade e cursamos Direito juntos. Isso por si já seria mais que suficiente para justificar minha passagem pelo Ceub, né?

Concluí o curso de Direito no final de 2001. Recuperando as memórias e refletindo sobre a segunda graduação, posso asseverar, sem qualquer sombra de dúvida, que a melhor coisa que fiz foi cursar Direito, e no Ceub!

Costumo recomendar Direito a todo mundo, inclusive como segunda graduação. Direito nos dá base sólida para a vida em sociedade e, apesar das dificuldades inerentes às carreiras jurídicas, é um curso que tem excelentes perspectivas profissionais. Pelo menos comigo foi assim. Graças ao Direito, tive a preparação necessária, por exemplo, para conseguir ser aprovado nos concursos que me levaram ao serviço público. E, associando os conhecimentos jurídicos à capacidade reflexiva e conhecimentos oriundos de Relações Internacionais, consegui, finalmente, boa formação acadêmica e prática. Devo, enfim, parte importante de meu êxito profissional ao curso de Direito.

Não me considero um profundo conhecedor das Ciências Jurídicas, pelo contrário. Como meu curso foi muito esparso, não aproveitei tanto as disciplinas e o conhecimento extremamente bem transmitido pelos meus mestres – muitos dos quais se tornaram grandes amigos! De Direito Civil, entendo pouco, pois meu Código ainda é o de 1916. Já sobre Direito Comercial, apesar das excelentes aulas do amigo Marcus Palomo, sei muito pouco. Com Trabalho e Previdenciário nunca tive muita afinidade. Processo Civil era extremamente complexo, e irritavam-me os recursos de natureza absolutamente protelatória – entretanto, gostava da parte prática e estratégica de processo civil e trabalhista. Tributário sempre foi bom para ganhar dinheiro, mas exige conhecimentos muito específicos, restritos a iniciados.

Gostava mesmo era de Direito Público. Penal e Processo Penal atraíam-me e cheguei mesmo a advogar um pouco nessa área – o problema era a clientela… Mas a afinidade mesmo foi por Direito Constitucional e Administrativo. A paixão, naturalmente, pelo Direito Internacional! E foi por aí que segui carreira, vindo mesmo a, como muita honra, lecionar na área…

Devo muito a meu curso de Direito e tenho um carinho extremo com o CEUB, hoje Uniceub. Se a UnB é minha Alma Mater, o Ceub é uma instituição constante em minha vida: é a faculdade onde meus pais estudaram, onde estudei, conheci a mãe de meus filhos, e onde me tornaria professor. Já ia ao Ceub quando criança, acompanhando papai às aulas de Direito. Adoro o lugar, que tem uma vibração distinta daquela da UnB (não melhor ou pior, distinta). Passei bons anos naqueles prédios e ali vivi grandes experiências. Fiz muitos amigos entre colegas, professores e alunos. O Ceub é, portanto, parte de mim.

Faltando 11 dias para meu aniversário, resolvi escrever sobre o Ceub (desculpem os mais novos, mas continuarei chamando o Uniceub de Ceub). Afinal, se parar para calcular, destes últimos 40 anos, ao menos metade deles estive no Ceub, na condição de aluno ou professor. Minhas primeiras aulas de Direito foram lá quando, repito, ainda criança ia acompanhar meu pai que ali estudava. Ali, meu primeiro professor de Direito foi o caríssimo [e saudoso] Antônio Guimarães Neto, a quem dedico uma parte especial desta crônica. Lembro das aulas de Direito Penal com o Professor Guimarães, as quais eu, uma criança de 8, 10 anos, assistia atento. Teria a felicidade de ser aluno do Professor Guimarães quando eu próprio cursava Direito, ocasião em que percebi que, mais do que nos ensinar sobre as Ciências Criminais, Guimarães nos orientava e nos formava como juristas, inclusive com sábios conselhos até de como se portar perante clientes, autoridades, pares e sociedade. Lições assimiladas e que permanecem vivas. Por coincidência, e sob aquela perspectiva de que a Providência sempre coloca pessoas fundamentais em nosso caminho, foi por intermédio do Professor Guimarães que comecei a lecionar no Ceub. Sim! Ele me convidou e me deu essa grande honra e satisfação! Ser-lhe-ei eternamente grato pela oportunidade!

Não tenho qualquer inclinação para poesia. Se tivesse e fosse possível fazer uma ode a uma instituição, o Ceub certamente estaria entre minhas escolhas. Difícil explicar o carinho que sinto por aquela casa. Só sei que é imenso. E hoje, cada vez que entro nas salas de aula do Bloco III do Ceub, é indescritível a satisfação e a emoção! Sim, porque cada aula ministrada é uma experiência única, geralmente de “recarga da bateria” após um dia de trabalho. E no Ceub essa sensação é ainda melhor! Afinal, leciono na instituição em que me graduei! E sigo com a missão de tentar transmitir, da melhor maneira possível, o conhecimento que tão bem me foi passado pelos mestres ali naqueles bancos. É muito bom ser docente do Ceub e fazer parte dessa cadeia de transmissão do saber jurídico, em que me preocupo não em formar “operadores do Direito” (termo que detesto), mas juristas.

Gosto de lecionar. Gosto do Ceub. Gosto de lecionar no Ceub. E encerro o texto de hoje agradecendo muito a todos que passaram pelo meu caminho ali naquela instituição tão querida! Minha gratidão a pessoas como Guimarães, Marcus Palomo, Rossini Corrêa, Any Ávila, Paulo Thompson, Sílvio Cirilo, Stefânia Viveiros, Flávio Salles, Túlio Arantes, Tarcísio de Carvalho Neto, Ademar Vasconcelos, e tantos outros que me ensinaram sobre o Direito. Minha gratidão a todos os meus alunos, pois com vocês nós aprendemos. Agradeço, ainda, a meus colegas e amigos que estiveram comigo durante os 8 anos e graduação e aqueles com quem hoje tenho a honra de partilhar a sala dos professores, a secretaria, o campus do Ceub. Enfim, meu muito obrigado aos mestres, aos alunos, aos colegas e aos amigos! E vamos adiante!

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29. Concursos e Anjos (26/11/2014)

A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei (…).
Constituição Federal de 1988, art. 37, II.

Sou pagão. Nunca tive padrinho que me indicasse para qualquer vaga ou emprego na estrutura do Estado ou na iniciativa privada. Em razão disso, assim que terminei minha graduação em Relações Internacionais e percebi que estava desesperadamente nas estatísticas do desemprego, comecei a cogitar a hipótese de me tornar servidor público.

Formei-me com 20 anos em Relações Internacionais. Naquela época, não tinha maturidade para encarar adequadamente o mercado de trabalho. Também não tive quem me orientasse a já me preparar, desde a faculdade, para a vida que se seguiria com um diploma de bacharel nas mãos, fosse me inscrevendo como trainee de alguma empresa, fosse estudando para um concurso público. Mas agora estava com o canudo, e deveria seguir a caminhada! Diante de mim parecia haver uma grande planície deserta, a qual tinha que atravessar se quisesse ser alguém… E o trajeto que surgia era como servidor do Estado.

Como muitos que optam pelos concursos públicos, comecei disperso e despreparado (tanto em termos de conteúdo exigido nas provas quanto no que diz respeito às técnicas para o êxito nesse tipo de certame). E fui fazendo de tudo, sem conseguir nada… Enquanto isso, trabalhava no que aparecia (de professor particular de francês a vendedor de software de contabilidade). Uma bolsa de auxiliar técnico de pesquisa me assegurava dois salários mínimos (salários mínimos da segunda metade da década de 1990, que fique claro), com os quais pagava a faculdade e outras despesas.

Não lembro quantos concursos fiz. Mas o primeiro de relevância foi para Gestor – Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental era o pomposo nome! Tampouco me lembro quando fiz as provas, mas deve ter sido entre 1996 e 1997. E dali viria mais um aprendizado…

As provas para o concurso de Gestor eram objetivas e subjetivas, feitas no mesmo dia, pela manhã e à tarde. Havia estudado, conhecia a matéria e sentia-me seguro. Respondi às provas objetivas e à questão subjetiva, que versava sobre matéria que me era familiar. Concluídas as avaliações, conferi o gabarito: estava muito bem classificado! Faltava apenas a correção da parte subjetiva! E aí veio a decepção!

O resultado da prova subjetiva jogou-me por terra. Fiz algo como 8,5 pontos em 90! Não acreditei! Tinha certeza da resposta e do que havia respondido! Não podia ser! Um amigo que estudava comigo, frater rosacruz e administrador de empresas experiente que resolvera deixar o setor privado para fazer concursos (viria a ser analista do Supremo Tribunal Federal e hoje já se encontra em fim de carreira naquela Corte), observou que havia algo estranho em minha nota. Parecia ser um erro no registro, de modo que se fosse inserido um determinado multiplicador que parecia faltar, minha nota iria a 85, colocando-me no pelotão de frente da classificação. Associado a isso estava o fato de que a minha resposta, disso me lembro, era na linha da pergunta. Assim, o importante era que eu visse fisicamente a prova!

Procurei a instituição promotora. Não me lembro qual era. Eles se negaram a fornecer o espelho de minha prova subjetiva (concursos dos anos noventa!). A solução, hoje o sei, era um mandado de segurança para que me fosse apresentado meu texto, simples assim. Cheguei a conversar com um advogado especializado, que também comentou ser estranho o fato de não me mostrarem a prova. Iria recorrer ao judiciário e já buscava maneiras de pagar o referido advogado para me representar. Foi aí que a coisa degringolou de vez.

Seu Jacob entrou no circuito. Disse que não admitia que eu pagasse um advogado com ele em casa! Papai iria entrar com a ação! O problema é que aquela não era a área de meu pai, voltado ao direito civil e ao trabalhista. Não lembro bem, mas acho que optou por uma ação ordinária sem liminar e não por um mandado de segurança. Não tivemos êxito, naturalmente. Fiquei muito, muito frustrado na ocasião. Havia realmente me preparado, mas parecia que aquele não deveria ser meu caminho! Mais um doloroso aprendizado!

Não culpo meu pai por aquele fracasso. Hoje, sei que ele fez o melhor que podia e tudo que sabia para me ajudar. Mas, à época, aquilo realmente me decepcionou muito. Aprendi na carne o que nos ensinam no curso de Direito: nunca advogue para a família! E tive que amargar mais um tempo estudando como um doido para concursos.

Em 1998, já estava obcecado por passar em um concurso, qualquer um. Na ocasião, encontrava-me deprimido, sem perspectivas profissionais, frustrado com o que acontecera nas provas para Gestor, e sob a permanente pressão do desemprego, morando na casa de meus pais e me sentindo um inútil. Sim, inútil é a palavra! 23 anos e sem emprego! Claro, cursava o Mestrado e tinha a bolsa de pesquisa, mas sabia que as duas situações eram passageiras e que precisava, verdadeiramente, de um emprego, um trabalho dignificante. A depressão aumentava, não tinha nem como pagar terapia ou cursinho preparatório.

Que fique registrado que minha namorada à época foi muito importante naquele processo – concursada do Poder Executivo, apoiava-me nos estudos, garimpava os editais de concursos e me instigava a fazer as provas e a não desistir. Foi, de fato, fundamental naquele momento. Não é à toa que acabaria me casando com ela.

Além da namorada, minha formação rosacruz foi essencial para me manter forte. Buscava por em prática os ensinamentos da Ordem e, com isso, conseguia forças no meu Mestre Interior e nas práticas de visualização e concentração tão conhecidas dos rosacruzes. Além disso, imprescindível foi o apoio, o braço amigo de alguns irmãos e irmãs rosacruzes, sempre presentes. Aqui minha lembrança de uma querida amiga que não está mais entre nós, e que me ajudou muito à época. Dedicarei uma das crônicas a esse anjo que passou pelo meu caminho. Com todo esse apoio, com esses anjos ao meu lado, só tinha que conter a ansiedade, pois o que era meu viria no momento certo.

Mas como era difícil conter a ansiedade! Precisava me tornar servidor público e faria qualquer concurso que aparecesse! Brinco que se houvesse concurso para bailarino do Teatro Nacional, para limpador de estrume do zoológico ou para domador júnior de leões, estaria fazendo… Sim, porque o que importava era trabalhar!

Foi também em 1998 que prestei concurso para diplomata. Afinal, era uma carreira que parecia natural para alguém de Relações Internacionais. Juntei dinheiro para me inscrever para as provas do Instituto Rio Branco e o fiz. Mas não sabia nada sobre os exames e as disciplinas requeridas. Cheguei a procurar alguns cursos preparatórios, consegui pagar aulas de inglês, mas foi só isso. Não tinha dinheiro! Então, a solução era me virar sozinho, comprando apostilas e tentando me preparar por conta própria. Mas a coisa não seria fácil.

Já disse que acredito em anjos que aparecem em nosso caminho. E, à época que me preparava para o Itamaraty, meus amigos Paulo Roberto de Almeida e Carmen Lícia Palazzo me indicaram um diplomata que dava aulas de português para o Itamaraty. Lá fui eu conversar com ele.

Seu nome era Wamberto Hudson de Almeida. Creio que, à época, era Conselheiro ou Ministro. Uma figura humana ímpar, Wamberto chegara há pouco do exterior. Havia se separado recentemente e parecia que tentava resolver algum problema com a filha que se afastara dele. Fumava muito. Era hipertenso e estava acima do peso – acho que o coração devia ser tão grande que não cabia no peito do meu amigo. Gostava de contar que, em sua trajetória como diplomata, geralmente era “sorteado” com postos que se tornavam complicados! Contou-me que, pouco depois que chegara ao Líbano, creio que ainda como Segundo Secretário, estourou a guerra civil, e foi ele quem ficou cuidando da embaixada brasileira em meio aos combates entre cristãos e muçulmanos (passara péssimos bocados em Beirute). Fora então mandado para outro posto no Oriente Médio: Iraque, se não me engano, e um pouco antes da guerra com o Irã estourar (acho que era isso). Haja preparo psicológico!

Quando o conheci, Wamberto chegara do Haiti, país mais pobre das Américas, onde vivera o golpe que derrubara Jean-Bertrand Aristide. Estava muito contente de voltar ao Brasil, e ao mesmo tempo desesperado porque haviam perdido sua mudança. E aí fumava mais e mais. E sorria. E brincava com a vida. Gostava de mostrar uma foto dele com a dançarina Carla Pérez (a famosa “Loira do Tchan” da época!), quando ela fora fazer um show em um posto onde ele estivera transitoriamente depois do Haiti. Esse era meu amigo Wamberto.

Logo surgiu uma boa amizade entre nós. Eu sempre disposto a ouvir as boas histórias de Wamberto, e a conversar sobre política externa e outros assuntos mais mundanos com meu amigo, mulherengo inveterado. E Wamberto, acho que simpatizando com minha situação, disse que me ajudaria me preparando em Português, e que eu lhe pagaria quando pudesse. E me ajudou muito! Ia a sua casa e lá recebia orientações de como fazer as provas, encontrava outros candidatos alunos seus, escrevia redações e as tinha corrigidas minuciosamente pelo meu querido amigo. Fui preparado por Wamberto e me sentia em condições de encarar os exames!

Vieram as provas. Fiz a primeira parte, objetiva, o tal do TPS. Creio que deve ter sido um dos primeiros, ainda elaborado pela própria Casa de Rio Branco. Passei nessa primeira fase, apesar de até hoje me questionar sobre como acertei algumas questões que julgava absolutamente inúteis para quem fosse trabalhar no serviço público (como um item inesquecível sobre o nome do precursor do surrealismo no cinema italiano!). Ia para a segunda fase, para a temida prova de Português, à época a disciplina que mais reprovava e que funcionava como um grande filtro, e para a de Inglês. Fiz os exames.

No dia marcado, fui conferir os resultados. Para minha feliz surpresa, obtive a segunda ou a terceira maior nota de Português do concurso! Devo isso, sem qualquer sombra de dúvida, ao apoio do amigo Wamberto! Seus ensinamentos foram fundamentais! Faltava conferir o resultado de Inglês!

A prova de inglês do Itamaraty não era simples. Acertadamente, exige-se que um diplomata domine o idioma de Shaw. Lembro que era uma redação, uma tradução e uma versão (ou algo assim). Textos pesados, ao menos para mim que não tinha educação formal em língua inglesa. Claro que o resultado não poderia ser outro: fui reprovado. Não alcancei a pontuação suficiente em inglês! Mais uma decepção – que só foi amenizada quando descobri que outros colegas, com mais conhecimentos daquele idioma que os meus, inclusive uma tradutora, foram reprovados. De toda maneira, perdi mais uma oportunidade de me tornar servidor público – só que, nesse caso, por reconhecida incompetência minha.

Foi a única vez que prestei concurso para o Itamaraty. Ainda naquele ano, seria aprovado em outros exames e deixaria de lado a alternativa da carreira diplomática. O que realmente ficou da situação toda foram o amadurecimento pela derrota e a amizade com Wamberto.

Nunca consegui pagar a meu amigo pelas aulas. Algum tempo depois, ainda naquele ano, veio me contar todo feliz que seria transferido para a África, para um país estabilizado no continente, uma democracia em construção. Agora tudo daria certo, pois era um posto para ele descansar e lidar com os traumas de guerra – sim, porque ele os tivera, e carregava no coração e na mente fortes chagas obtidas nos lugares em que servira ao Estado brasileiro. O país para onde iria meu amigo, se não me engano, era Guiné Bissau. E para lá foi ele!

Por essas peças que pregam o destino, quando Wamberto estava na Guiné Bissau, um golpe de Estado derrubou o presidente e teve início sangrenta guerra civil! Às vezes penso que Wamberto atraía essas coisas.

Pouco depois de voltar da África, meu amigo faleceu. Acho que foi de ataque cardíaco ou de complicações causadas pelo diabetes. Minhas orações estão sempre com aquela figura ímpar. Ainda hoje guardo uma imagem de São Francisco que comprara para ele – Wamberto colecionava imagens de São Francisco – e que não tive a oportunidade de lhe presentear, pois os outros anjos o chamaram de volta, para cumprir novas missões.

Eu continuaria estudando… Seria aprovado no primeiro concurso ainda em 1998, para Agente de Polícia da Polícia Civil do Distrito Federal (dedicarei uma crônica a minha querida PCDF). Em seguida, viria a aprovação para a Agência Brasileira de Inteligência (onde amadureci muito como profissional) e, por último, para o Senado.

Neste 12º dia que antecede meu aniversário de 40 anos, lembro como foram marcantes os exames públicos que me tornaram servidor do Estado. Não foram provações fáceis, mas, graças ao D’us de meu coração, ao Mestre Interior, aos anjos que apareceram no meu caminho sob a forma de homens e mulheres de bem, e a muita disciplina, estudo e vontade de alcançar os objetivos, venci!

Hoje, sirvo ao Estado e ao povo brasileiro. Levo muito a sério a ideia de ser “servidor público”. Não me vejo trabalhando na área privada ou como empreendedor. Gosto do que faço, orgulho-me de servir a meu país como agente estatal e me irrito sobremaneira com aqueles que menosprezam o serviço público, vilipendiam o Estado, ou não cumprem suas obrigações como servidores. E agradeço, diariamente, ao Criador, por essa benção e pelas graças alcançadas.

Concurso Público

28. Gente Feliz! (25/11/2014)

Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
Johann Wolfgang von Goethe

Não existe coisa melhor do que partilhar felicidade e estar em um ambiente de gente feliz. E nunca conheci gente mais alegre e animada que os colegas de meu primeiro emprego como assalariado: o de professor de francês no Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho, o CIL! Inesquecíveis os momentos ali passados e a gente singular que lá conheci!

Fui convidado para lecionar no CIL por minha primeira professora de francês, Neusa, que se tornara diretora da escola. Apesar de pertencer à Fundação Educacional do Distrito Federal, no CIL havia professores sob contrato temporário, em razão da escassez de docentes qualificados. Isso, juntamente com uma estrutura moderna e equipamentos de idiomas adequados (graças às contribuições da Associação de Pais e Mestres, às mensalidades pagas pela comunidade que ali cursava inglês, francês e espanhol, e a uma excelente gestão desses recursos), fazia do CIL de Sobradinho um centro de excelência no ensino de idiomas na região (eu mesmo comecei ali meus estudos de francês). Foi minha primeira experiência, portanto, em sala de aula. E realmente adorava aquilo!

Mas o que mais encantava no CIL era o ambiente de trabalho! Alunos interessados (pois se tratava de atividade optativa para a maioria dos provenientes de escola pública e para todos da comunidade que se matriculavam), funcionários simpáticos e atenciosos. E, o melhor de tudo, colegas divertidíssimos! Era gente inteligente e com afinidade de interesses – afinal, todos gostavam de estudar idiomas estrangeiros e de viajar e conhecer o mundo. Se professor costuma ser criatura animada, professor de idiomas supera qualquer coisa! Ao menos no CIL era assim!

Gente Feliz

Tivemos momentos hilários dentro e fora da escola. A sala dos professores era uma festa só! E a hora do intervalo sempre com piadas, brincadeiras, distribuição de sorrisos. Tínhamos uma escala para o lanche do dia. Então, todo dia alguém trazia algo diferente (mesmo que fosse pão com requeijão e refrigerante, já era muito bom pela oportunidade de partilhar a refeição). Brincadeira o tempo todo em um ambiente saudável e harmonioso! Diversão garantida, sem se perder o profissionalismo e a dedicação à docência!

Felizmente, acabei me enturmando rápido! Não tinha como ser diferente. Éramos quatro os professores de francês: Neusa, a diretora, Sheila, que havia sido minha professora (excelente, por sinal) de Português na 5ª série, Eric, profissional extremamente competente e com quem estudara quando aluno de francês, e eu! Assim, com todos os colegas da área tinha vínculos anteriores. E o restante do pessoal, totalmente acolhedor! Lembro-me de que uma das práticas que instituí foi escrever “a frase do dia”, sempre uma mensagem que colocava no quadro para animar o povo. Coloquei hoje uma foto de minha despedida, onde está escrito no canto superior direito a última frase que deixei: “Eu voltarei!” – vejam quem é o autor!

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A festa continuava fora da escola. Final de ano, fazíamos uma confraternização. E era divertidíssimo! Boa comida, excelentes conversas, gaiatice, troca de presentes, e muita, muita alegria e descontração! Até o mais rabugento se tornava divertido! Lembro, ainda, que Eric pegava o violão (aprendeu sozinho a tocar) e sempre nos brindava com belas canções! Éramos um grupo integrado e unido (claro que, naturalmente, havia um ou outro ponto fora da curva, mas isso faz parte da vida em sociedade…)! No final das contas, éramos uma grande família.

Tive que deixar o CIL porque a Fundação Educacional passou a exigir que os docentes tivessem cursado disciplinas de didática na faculdade. Recordo-me de duas delas, cujas siglas me chamaram a atenção: FUDA (Fundamentos da Didática ou algo assim) e ESTRUFUNC (Estrutura e Funcionamento do Ensino). Assim, uma vez que não tinha FUDA nem ESTRUFUNC, não estava mais habilitado para lecionar nas escolas públicas do DF! Paciência! Foi ótimo enquanto durou e “o importante é que emoções eu vivi!”.

Em meu período no Centro de Línguas, fiz bons amigos entre alunos, funcionários e professores. E confirmei minha convicção de que alegria e felicidade são duas coisas que, quanto mais distribuímos, mais temos!

Faltam 13 dias para meu aniversário de 40 anos. Nesta data, quero deixar meu fraterno abraço a todos os amigos do Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho e desejar-lhes muita alegria e felicidade! Vocês também foram muito importantes nestas primeiras 4 décadas!

PS: Aproveito para registrar que 25/11 é a data de nascimento de Harvey Spencer Lewis, um dos grandes místicos da primeira metade do século XX, e primeiro Imperator da Ordem Rosacruz, AMORC, para seu segundo ciclo nas Américas. Minha saudação calorosa a todos os fratres e sorores da R+C!

27. Fomos tão jovens! (24/11/2014)

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
Mateus 6: 26

Aos 20 anos, concluí a graduação em Relações Internacionais. Formei-me em julho de 1995, seis meses antes de minha turma. Consegui a proeza de cumprir 188 créditos em três anos e meio, 24 a mais do que os exigidos para o curso à época (164 créditos).

Éramos doze formandos dos cursos de Relações Internacionais e Ciência Política, dos quais dez mulheres (viva!). Apesar de não ser minha turma original, os formandos eram todos colegas e alguns bons amigos – o currículo dos cursos da Universidade de Brasília nos permitia um trânsito em vários semestres, de modo que era usual fazermos disciplinas com colegas de semestres anteriores e posteriores aos nossos.

Um fato marcante da formatura é que fui escolhido para orador da turma. Preparei um discurso para ser lembrado, buscando referência a nossa formação, à importância das Relações Internacionais e da Ciência Política, aos valores que nos foram ensinados, aos amigos que fizemos. Busquei sair do lugar comum dos discursos de formatura. E deu certo! O discurso foi marcante, muita gente chorando, emoções afloradas. Foi minha primeira e feliz experiência falando para mais de uma centena de pessoas! Cerca de quinze anos depois, recuperaria muito do que disse a meus colegas formandos em um discurso aos bacharéis da primeira turma em Relações Internacionais que me honrou com o convite para padrinho. As mesmas palavras tiveram impacto semelhante. Afinal, como certa vez me ensinou um Mestre rosacruz, “o que passa não é”.

Encerrava minha primeira graduação com muitos sonhos e poucas perspectivas. Apesar do excelente histórico acadêmico, dos programas de iniciação científica, e da disposição para trabalhar, naquela primeira metade da última década do século XX a procura por profissionais de Relações Internacionais no Brasil era praticamente inexistente. Poucos conheciam a graduação e as competências do profissional de Rel (como nós da UNB conhecíamos o curso), e eram raríssimas as ofertas de trabalho, tanto no setor público quanto na iniciativa privada, para um “bacharel em Relações Internacionais”. A maior parte de nós acabaria não trabalhando na área…

Formatura de Rel

Quanto a mim, esperava fazer uma grande viagem após o curso. Meus pais haviam-me convencido a não trabalhar durante a graduação e fazer o curso intensamente para concluir logo. Foi-me feita uma promessa de que seria por eles agraciado com essa sonhada viagem, por meio da qual poderia adquirir alguma experiência no exterior. Naturalmente, a viagem ficou só na promessa – não culpo meus pais, eles não tinham recurso para me ajudar com aquilo; fui ingênuo e bobo acreditando naquele sonho que, de fato, não se poderia concretizar dadas as minhas condições econômico-financeiras… mais uma lição dolorosamente aprendida! Que bom! Afinal, o que não mata, fortalece. E minha vontade de atuar no plano internacional só aumentaria.

Os meses que se seguiram à formatura não foram fáceis. Estava agora com um diploma de um curso superior muito exclusivo e de uma das mais renomadas universidades do País. Adiantou-me pouco. Entrava para as estatísticas do desemprego. Como ainda vivia com meus pais, não tinha muitas contas a pagar, e busquei diferentes maneiras de ganhar dinheiro: dava aulas particulares de francês, fui auxiliar de pesquisa do Professor Amado Cervo (uma sumidade na nossa área), com quem aprendi muito, fazia algumas traduções, e trabalhei como representante comercial de software de contabilidade – época divertida, quando rodei o Distrito Federal tentando vender software para todos os escritórios de contabilidade da região (gastei quase toda a sola de meu único par de sapatos)! Consegui algum êxito, o que me ajudava a pagar minha segunda graduação em Direito, no Ceub (hoje, Uniceub). Também busquei prestar alguns concursos públicos, experiência que contarei em outra oportunidade destas crônicas dos meus 40 anos.

Ao final do ano de 1995, resolvi tentar o Mestrado em Relações Internacionais da UnB. Pretendia continuar a carreira acadêmica, já tinha experiência em pesquisa científica (fora bolsista em um programa do Departamento de Economia, sob orientação de Flávio Rabelo Versiani, expoente na História Econômica do Brasil, trabalhara com Amado Cervo, e fui o terceiro aluno da história do curso de Relações Internacionais a fazer uma monografia de final de curso – que, à época, era optativa). Ademais, inscrevia-me para uma pós-graduação na instituição onde havia cursado a graduação e concluído com louvor o curso no próprio Departamento de Relações Internacionais. Continuaria estudando em minha Alma Mater!

Meu projeto de pesquisa para o Mestrado, lembro bem, era sobre “possibilidades de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central no início do século XXI, e o risco do acirramento da presença estadunidense na região”. A temática, portanto, envolvia a essência das Relações Internacionais (a guerra e a paz). Fiz as provas, sendo nelas aprovado. Faltava apenas a entrevista em que discutiriam meu projeto. Grandes expectativas. E mais uma frustração adviria…

Na entrevista, os membros da banca me questionaram sobre o projeto. Era 1995, e os temas comuns de pesquisa eram meio ambiente, direitos humanos, a recém-criada Organização Mundial do Comércio e o liberalismo nas relações internacionais, Mercosul e integração regional. Guerra, Geopolítica (assunto proscrito à época) e Segurança Internacional estavam fora de cogitação aqui no Brasil. E ouvi de um dos membros da banca que “seria inconcebível uma hipótese de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central no início do século XXI, ainda mais com uma intervenção armada dos Estados Unidos!” (isso mesmo que vocês leram… nunca me esqueci daquelas palavras). Recordo que o professor Argemiro Procópio argumentou com veemência em meu favor – nunca fora aluno dele, mas acho que percebeu que eu tinha potencial. A banca, ao contrário, não achava minha pesquisa pertinente… Afinal, como alguém poderia imaginar uma situação como aquela no século XXI, que estava por chegar em um ambiente internacional globalizado e de pós-Guerra Fria? Resumo da ópera: não fui aceito no Programa.

Confesso que fiquei muito frustrado à época. A impressão que tinha era de que todo o esforço na graduação, com excelentes notas ao longo do curso, com atividades extracurriculares e muito estudo, de nada me adiantaram. Relações Internacionais não me serviria para nada mesmo, acreditava eu! Nunca havia comentado sobre isso com alguém, mas me senti mal com o episódio…

Não obstante, o Sol sempre nasce no dia seguinte… Continuaria tocando a vida… E aprenderia com o episódio, simples assim! Nós rosacruzes sabemos que nada acontece por acaso, e o que era meu já me estava reservado. Em 1997, acabaria sendo aceito no Mestrado em História da UnB, linha de pesquisa de História das Relações Internacionais… Minha dissertação seria sobre o Tribunal de Nuremberg, tema absolutamente inédito na academia brasileira. Concluiria o mestrado com louvor, aqui assinalando minha gratidão à mui querida orientadora, Professora Albene Menezes (germanófila e historiadora de tremenda competência, uma orientadora e interlocutora sensacional, e uma grande amiga!), ao Professor Antônio Augusto Cançado Trindade (à época magistrado da Corte Interamericana de Direitos Humanos e hoje o juiz brasileiro na Corte Internacional de Justiça), que acabou se tornando uma espécie de coorientador e fundamental para a qualidade de nossa pesquisa, e aos estimados professores Rossini Corrêa e Amado Cervo, presentes ao longo do Mestrado e na banca final. Foi um trabalho muito interessante e daria origem a meu primeiro livro, “Tribunal de Nuremberg, 1945-1946: a Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional” (Rio de Janeiro: Editora Renovar, 1ª edição, 2001, 2ª edição, 2004), com prefácio de Cançado Trindade, e primeira obra escrita por um lusófono sobre o maior julgamento da história. O livro renderia bons frutos e me faria conhecido nesse campo do Direito Internacional dos Conflitos Armados. Enfim, há males que vêm para o bem…

Depois do Mestrado, continuaria a vida acadêmica com quatro especializações (em Inteligência de Estado, em Direito Militar, em História Militar, e em Integração Econômica e Direito Internacional Fiscal), e o Doutorado (este sim no Departamento de Relações Internacionais, quando fui aprovado em primeiro lugar no concurso de admissão… outros tempos!). E o menino que alcançara a maioridade civil antecipadamente (o Código Civil da época estabelecia a possibilidade em razão de conclusão de curso superior), concluiria um Doutorado, o primeiro da família (pelo lado de papai e pelo de mamãe) a fazê-lo! O tema do Doutorado? Atividade de Inteligência – nunca deixaria o campo da Segurança Nacional e da Defesa… Em tempo: minha gratidão ao meu orientador, que se tornou um bom amigo, Professor Eduardo Viola, aos professores George Felipe de Lima Dantas e Eiti Sato, e aos queridos amigos Paulo Roberto de Almeida e Carmen Lícia Palazzo – todos de extrema importância naquele processo de amadurecimento como pesquisador.

Essas histórias da graduação e pós-graduação que compartilho com os amigos, faltando 14 dias para o meu aniversário de 40 anos, têm por objetivo, além de registrar minhas impressões pessoais sobre as primeiras décadas de vida (estou gostando disso!), ilustrar como a vida muitas vezes nos coloca em situações difíceis e frustrantes, mas que são fundamentais para que cresçamos, em um processo evolutivo que não permite retrocesso. O segredo, ao menos assim tenho aprendido, é nunca desanimar, perseverar nos objetivos, e seguir adiante, consciente de que, se não deu certo, é porque não era para ser…

Importante, ainda, buscar no Mestre Interior inspiração para fazer as escolhas adequadas, e no D’us do coração, no D’us da compreensão de cada um, a força e a confiança para continuar a jornada, com a certeza de que Ele não nos desampara! – ensinamentos rosacruzes que têm que ser vividos! Como disse o Mestre Jesus, “buscai primeiro o reino de D’us e a sua justiça… e tudo mais vos será acrescentado”. Acredito nisso.

Hoje compartilho as fotos de minha primeira formatura, em julho de 1995. Há uma com os que se formaram comigo. Mas fiz questão de colocar também duas fotografias da festa de formatura de minha turma de ingresso na faculdade (minha turma de fato), realizada seis meses depois – em uma delas é possível ver os três valetes juntos!

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Turma de Rel 1-92

26. Pelo Mundo (23/11/2014)

Navigare necesse; vivere non est necesse!
Pompeu

Faltam 15 dias para que eu complete 40 anos! E, direto das terras ludovicenses, escrevo sobre uma das minhas grandes paixões na vida: viajar! Pouca coisa me dá mais prazer do que sair pelo mundo a conhecer novos lugares, gente de diferentes matizes, culturas peculiares! Viajar é preciso!

Conheço pessoas que não gostam de viajar. Dizem não ter paciência para arrumar mala, sair do conforto do lar, pegar avião… Argumentam que preferem ficar em casa, conhecendo o mundo pela televisão, por meio de um livro ou recorrendo à internet… E tudo é motivo para não viajar: o destino é muito frio ou muito quente; agitado demais ou tremendamente monótono; longe ou muito perto… Não importa, sempre encontrarão um motivo para não fazer as malas e sair batendo perna por aí! Eu não as condeno! Mas comigo é o contrário.

Não sei de onde vem meu interesse por viajar. Talvez de mamãe, que sempre que tem oportunidade se lança ao mundo – bom lembrar que, numa dessas, ela veio para Brasília, conheceu papai, e o restante da história vocês já conhecem. Seu Jacob, por sua vez, é enraizado em casa, prefere o conforto do lar à surpresa de outros lugares… Pode ser de mamãe mesmo! Mas, claro, alguns diriam que tem a ver com o fato de ser eu sagitariano, ou com o mais íntimo de minha personalidade, ou com vidas passadas. Não sei de nada… só sei mesmo é que gosto disso!

Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo, conhecer outras terras, gente diferente, visitar lugares históricos, mergulhar em outras culturas! E queria fazê-lo viajando! Como não tínhamos dinheiro para isso, comecei a aprender pelos livros, revistas, tv, e decidi que me esforçaria para conseguir um emprego que me possibilitasse essas experiências. Pensei em ser comissário de bordo, jornalista, ou em trabalhar em algum organismo internacional… Daí minha opção por Relações Internacionais. Estava convicto de que, como internacionalista, meu mercado de trabalho seria o mundo, e minha profissão me levaria aos mais distantes locais do globo!

Claro que, devido às limitações financeiras, passei todo o curso de Relações Internacionais sem conhecer terras estrangeiras, restringindo-me a viajar algumas poucas vezes pelo Brasil mesmo. Naquela época, passagem de avião era coisa caríssima, carro eu não tinha, e aí ia de ônibus mesmo. Entretanto, por mais que gostasse de rodar pelo Brasil (e continuo adorando fazê-lo, pois nosso País é fantástico e diversificado), queria mesmo era me lançar ao mundo!

Só fui conseguir o que queria quando comecei a trabalhar. Então, a serviço ou nas férias, minha alegria era arrumar as malas e entrar em um avião para conhecer novas terras! E é o que tenho feito nos últimos 15 anos! Entre os lugares que já visitei estão Canadá, Chile e Alemanha (três países muito queridos, com os quais tenho uma relação bem especial, e onde já estive diversas vezes), Suécia (D’us abençoe o Reino da Suécia), Noruega (quando vivi o atentado de Oslo, pois estava em um hotel na rua atrás do local da explosão, no dia do ataque), Finlândia, Estônia (grandes experiências nesses dois países), França e Grã-Bretanha (dispensam qualquer comentário!), Bélgica (chocolate, cerveja, sede da União Europeia e da OTAN, campos de batalha), Portugal (nossas origens, nosso DNA!), Polônia (ah, Cracóvia!), República Tcheca (Praga é única!), Espanha (comprei uma espada em Toledo!), Argentina (alfajores, livrarias e boa gente!), Paraguai (conheci o Lago Azul de Ypacaraí – que de azul nada tinha), Peru (senti-me em casa entre os nativos!), Colômbia (só na fronteira), Falklands (que me desculpem os hermanos, mas é isso mesmo!), e, naturalmente, Estados Unidos (cujo nome já é múltiplo). Detalhe: quando gosto de um lugar, tenho por hábito voltar mais vezes. E a cada nova chegada, novos locais encontro para explorar: assim acontece, entre outros, com o Canadá, com minha querida Alemanha, com a Suécia, a França, e a Grã-Bretanha… Se gosto, volto! Por que não?

No meu Brasil, fico feliz em já ter passado por 21 das 27 capitais, e por outras cidades em pontos distantes. Em minhas atividades profissionais, tive a imensa satisfação de conhecer nossa preciosa Amazônia, visitar pelotões de fronteira, ir a rincões pouco conhecidos deste País continental! E me agrada tanto estar na megalópole paulistana quanto na pequena Clevelândia! O Brasil é lindo, e sua gente maravilhosa!

Indescritível a sensação de chegar em um lugar novo! Visões, sons e odores diferentes, locais a explorar, sabores pitorescos, gente diferente com quem conversar! Boas experiências, más experiências… Aprendizado intensivo, mesmo porque costumo viajar sozinho.

Prefiro viajar sozinho: faço meus horários e meus roteiros, tiro minhas centenas de fotos (sempre com meu tripé), passo o tempo que quiser em um determinado local… E, o melhor de tudo, acabo conhecendo gente fantástica. Nunca estamos sós quando viajamos sozinhos!

Definitivamente, tenho o bicho carpinteiro viajador. Sou econômico no dia-a-dia. Emprego meus recursos em viagens (excelentes investimentos!). Tenho uma malinha pronta em casa, e estou sempre disposto a pegar a estrada (não literalmente, pois não gosto de dirigir, e aprecio mesmo é a sensação de estar nas nuvens). Havendo a oportunidade, viajo!

Inspiro-me em um amigo, Gilberto Guerzoni. Solteiro, sem filhos, bom salário, Guerzoni usa seus 30 dias de férias por ano para rodar o mundo. Já conheceu mais de 150 países, da Groenlândia à Antártica, das florestas do Peru à savana africana, esteve em Galápagos e no Vietnã, na Austrália e em Kosovo, foi mesmo até Chernobyl. Esse é meu amigo, que preenche todas as folhas do passaporte muito rapidamente. Claro que estou longe de alcançar Guerzoni, mas pretendo continuar meus próximos quarenta anos viajando! Navegar é preciso!

25. Los tres Valetes (22/11/2014)

Mais vale ter amigos que tesouros acumulados.
Provérbio russo

O que leva determinadas pessoas, entre as mais de 7,5 bilhões que povoam o planeta, a se encontrarem com outras especificamente, e tornarem-se grandes amigos? Os místicos sabem que o acaso não existe, daí minha plena convicção de que cada ser humano que cruza meu caminho não o faz aleatoriamente e que nos encontramos (ou reencontramos) porque somos parceiros de caminhada e nos ajudaremos (consciente ou inconsciente) a aprender algo na vida. Dessa maneira, há aqueles que aparecem, juntam-se a nós na jornada por um tempo, e depois somem de maneira indeterminada (ao menos para os que não conhecemos os desígnios do Criador). Outros amigos permanecem sempre conosco, independentemente de estarem fisicamente ao nosso lado, e nossos caminhos se cruzam com frequência. Convém ter em mente que as duas categorias de pessoas são relevantes em nossa vida.

Hoje, a 16 dias do aniversário, e ainda escrevendo sobre a primeira Graduação, dedico a crônica dos meus 40 anos a duas figuras ímpares que conheci ao chegar à Universidade de Brasília para cursar Relações Internacionais: Mario Jorge e Maurício. Formaríamos um triunvirato, unidos para começar a caminhada naquela fase importante de nossa vida. Viveríamos situações inusitadas, dentro e fora da UnB.

Tínhamos praticamente a mesma idade. Maurício era alguns meses mais velho, e Mário o mais novo. Vínhamos de origens bastante distintas, mas, por alguma razão que a razão desconhece, descobriríamos muitas coisas em comum que acabariam nos aproximando. Nos anos que se seguiriam, estaríamos juntos para apoiar e criticar um ao outro, vivenciando situações como os porres de um (enquanto os outros dois não bebiam – claro que não contarei de quem foi), as namoradas (e o fim de namoros), a tomada (com estratégia) do Centro Acadêmico (em uma eleição vitoriosa sobre a chapa da situação), as festas, a pressão dos estudos e as inúmeras disciplinas, uma viagem a Cabo Frio, meus primeiros momentos aprendendo a dirigir (com o quase acidente na Brasília amarela), e a formação de “Los tres Valetes”.

Mário, o Mariozinho, conheceria logo na pré-matrícula. Lembro como se fosse hoje: chegando para conversar com o coordenador do curso e escolher as disciplinas, topei com ele e outro colega nosso, o Bruno, pois os dois já se conheciam do Colégio Militar de Brasília. Começamos a conversar e dali surgiu uma grande amizade. Mariozinho, cabeça de piloto, era o mais racional dos três valetes, vinha de uma família de militares (o bisavô foi um general importante do período militar, que alcançara a presidência da república) e chegou a ingressar na Academia da Força Aérea. Muito inteligente e centrado, fizemos várias disciplinas juntos, tínhamos identidade ideológica (estávamos entre os poucos que se declaravam mais à direita – bem à direita, diga-se de passagem – naquele mar de cultura esquerdista), e compartilhávamos muitos pontos de vista. Certa vez, decidimos cursar Cálculo I como disciplina optativa e lideramos um movimento de vários colegas de Relações Internacionais a essa empreitada insana – ao menos para a maioria de nós, que mal conhecia as operações básicas. Resultado: ao final do semestre, só o Mário, sua namorada – nossa colega de curso –, e eu concluímos a disciplina. Para mim foi gratificante, pois consegui cursar Cálculo, concluir a disciplina com êxito e confirmar, definitivamente, minha total incompetência para a Ciência Pitagórica!

Outro episódio que ficou na memória ocorreu quando eu e Mário compramos um pequeno dicionário de russo (um exemplar para cada) na livraria da UnB. Começamos a estudar o cirílico e a aprender algumas palavras. Passamos a escrever em cirílico. Sentávamo-nos no fundão da sala nas aulas mais chatas e ficávamos jogando forca em russo. Coisas de gente de Relações Internacionais…

Lá pelo meio do curso, Mário começou a cursar Direito em outra faculdade. Iria se tornar um competente advogado, depois de passar algum tempo como piloto privado (sim, porque sempre foi fascinado por aviação), até que prestaria concurso para juiz aqui no Distrito Federal. Hoje, meu amigo é magistrado – e fico feliz com isso, pois sei que o Poder Judiciário do DF conta com um juiz altamente competente e, acima de tudo, absolutamente íntegro. Em tempo: foi Mário o grande responsável, junto com meu pai, a me instigar a cursar Direito. Devo a eles essa decisão fundamental para minha vida. Continuamos a nos encontrar com frequência para longos almoços ou degustações de cerveja juntamente com outro amigo e irmão dos tempos da universidade (o quarto elemento do trio), meu caríssimo Ricardo Nery. O que posso dizer de Mariozinho é que ele foi um irmão que encontrei na universidade.

O segundo dos três valetes, Maurício, era filho de um servidor do Banco Central (não lembro o que fazia sua mãe). Maurício era um sujeito que tinha o coração duas vezes maior do que ele. Amigo de toda hora, era o emotivo do grupo, brincalhão, permanentemente sorridente. Era aquele amigo que sempre tinha uma boa piada para contar, ou uma mensagem reconfortante quando estávamos chateados com alguma coisa. Não ligava muito para política estudantil e era bem mais moderado que Mário e eu. Mas estava junto se precisássemos dele! Lembro que, depois da vitória em uma difícil eleição para o Centro Acadêmico de Relações Internacionais (em uma chapa construída por Mário – o tesoureiro – e eu – vice-presidente –, mas da qual Maurício não participou diretamente), tivemos que mudar as instalações do CA. E quem carregou os armários, livros e toda a parafernália de um lado para outro fomos eu, Mário… e Maurício! Parece uma história boba, mas foi marcante o peso daqueles armários, só superado pelo dos desafios que tivemos que enfrentar em nossa gestão.

Maurício foi quem me ajudou muito quando estava aprendendo a dirigir. Dava-me dicas de como conduzir um veículo – detesto dirigir – e se aventurava a bordo de uma Brasília amarela que meu pai tinha e com a qual comecei a dar minhas primeiras voltas de carro. A Brasília, primeiro carro que papai comprara na vida, alguns dias antes do Plano Collor, era mais velha que nós, mas servia bem a nosso propósito. Certa vez, Maurício e Mário foram comigo para a zona rural de Sobradinho (no antigo polo de Cinema e Vídeo), para que eu, ainda com a carteira de motorista recém-tirada, pudesse treinar um pouco com o carro. Mário vestido com macacão de piloto, com uma câmera na mão. Comecei a dirigir na estrada de piçarra. Despenhadeiros de um lado e do outro (sim, porque Sobradinho é uma região serrana aqui no DF). Segue para cá, segue para lá. Em determinado momento, perdi o controle da direção. A Brasília rodou conosco. Meu Anjo da Guarda, sempre atento, segurou o veículo. Depois de umas voltas, a Brasília parou na beira de um precipício. Aquela tinha sido por pouco. Claro que foi tudo filmado. Mas a imagem que melhor ficou foi na memória: nós três dentro do carro, girando em alta velocidade e parando à beira do precipício. Foi tenso, mas divertido. E, prova inconteste de amizade, mesmo depois desse evento inusitado, os dois ainda continuaram me dando aulas de direção…

Também viajamos juntos. Fomos os três passar uns dias em Cabo Frio. Aproveitamos bastante, vivemos situações singulares e nos divertimos muito. Paro por aqui. O que aconteceu em Cabo Frio fica em Cabo Frio, hehehehe!

E por que “los tres valetes”? Outra boa história… Já para o fim do curso, descobrimos que sabíamos cantar. Não tocávamos nenhum instrumento, a não ser nossos dedos que estalávamos, mas conseguíamos cantar bem à capela. Cantávamos nos intervalos das aulas, na hora do almoço, sempre que tínhamos um tempinho em meio à correria do final do curso. E até que fazíamos algum sucesso – sobretudo quando vinha algum professor de dentro da sala de aula pedir para que nós, nos corredores da FA, parássemos de cantar! E cantávamos de tudo: Tom Jobim, Vinícius, Beatles, MPB em geral… Quando não sabíamos a letra (e geralmente conhecíamos pouco), íamos à la Ray Conniff… Eu, geralmente, fazia a primeira voz, e Mário e Maurício acompanhavam. Éramos “Los tres valetes”: Maurício, o valete de copas, Mário, o de ouro, e eu, o de espada (ninguém queria o valete de paus!). E nos divertimos bastante! Chegamos até a cogitar cantar na formatura!

Como todo ciclo, nosso período de faculdade acabou. Eu me formei um semestre antes de Mário e Maurício – adiantei meu curso e o concluí em três anos e meio. Acabaríamos nos separando, cada um seguindo seu rumo. Maurício já saía empregado na Embaixada da Argentina e, praticamente, casado. Mário continuaria seu curso de Direito, e passaria um tempo como piloto, rodando o mundo em jatinhos. E eu, bem, eu, com um diploma de bacharel em Relações Internacionais e sem qualquer perspectiva profissional, buscaria um rumo na vida… E “los tres valetes” chegava a seu fim.

Como disse, ainda continuo em constante contato com Mariozinho. Nossa amizade permanece mais firme do que nunca. Perdi completamente o contato com o caríssimo Maurício. Tentei encontrá-lo nas redes sociais e pela internet, sem sucesso. Espero, sinceramente, conseguir reencontrar esse bom amigo nos próximos 40 anos. E, quem sabe, possamos relançar nas paradas “los tres valetes”!

[Em tempo: no meu aniversário de 40 anos, restabeleci o contato com o querido amigo Maurício! Coloco aqui uma foto nossa, com 25 anos e alguns quilos de diferença. O próximo passo é a volta de “los tres valetes” ao mundo da música!]

Los tres valetes

24. Universidade (21/11/2014)

A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento.
Platão

Tinha acabado de completar 17 anos. A notícia da aprovação para o concorrido curso de Relações Internacionais ainda não fora plenamente assimilada. Afinal, começava uma nova e importante fase de minha vida: tornava-me universitário!

Pré-matrícula: chegávamos perdidos, éramos calouros. Gente diferente. Escolha de disciplinas. Pilhas de papel com ofertas de cursos. E o primeiro contato com os novos colegas.

Nossa turma era pequena, 23 calouros de diferentes pontos do país – como só havia Relações Internacionais na Universidade de Brasília e na Estácio de Sá, até meados da década de 1990 afluíam para a UnB estudantes interessados em se tornar internacionalistas (nem sabíamos que era assim que viríamos a ser chamados). E tínhamos os colegas estrangeiros, estudantes de todos os continentes – afinal, estávamos em um curso de Relações Internacionais!

Disciplinas: Introdução às Relações Internacionais, Ciência Política, Direito, Economia… Tínhamos muito a aprender, muito o que escolher. O curso, tremendamente interessante, ensinar-nos-ia a sobre a paz e a guerra, a influência das ideologias nos destinos da humanidade, o papel da Política entre as nações, a importância da Economia (“A Economia, estúpido!”), o Direito das Gentes… Aprenderíamos sobre as quase duas centenas de países, seríamos instados a analisar as condutas dos atores internacionais, a entender as “forças profundas”. Compreenderíamos o valor da História e os dilemas da Teoria… E acabaríamos descobrindo que o mundo é uma pequena e complexa aldeia, que os homens, apesar de suas diferenças, pertencem todos ao gênero humano, e que, no fim das contas, são ricamente iguais. Tudo isso aprenderíamos em Relações Internacionais. O curso nos traz um grande cabedal cultural e nos faz singulares.

Entretanto, as melhores memórias da universidade são as de fora da sala de aula. As festas, os encontros e as conversas na FA, as tardes e noites na biblioteca (e os cochilos nas caixas onde deveríamos estudar os volumosos conteúdos para as complexas provas), o almoço no Bandejão (com salitre, suco e gelatina de laranja, de vermelho, de verde…)… Episódios e momentos inesquecíveis, lembrados com clareza ainda hoje, duas décadas depois.

Obviamente, disso tudo, o que melhor guardamos em nosso coração foram as pessoas que conhecemos e os amigos que fizemos. Sim! Fiz boas e perenes amizades, algumas delas que se mantêm fortes e inabaláveis duas décadas depois. Alunos, professores, funcionários, colegas e amigos do Brasil e de outros países! Muito bom quando encontro pelo globo os amigos da UnB, com as consequentes alegres lembranças daqueles tempos que não voltam mais!

E, a 17 dias de meu aniversário, essas lembranças confirmam que o mais importante legado dos tempos da universidade foram os amigos que fizemos. Meu abraço carinhoso a todas aquelas pessoas que contribuíram com sua presença em nossa caminhada!

Unb

23. Idiomas (20/11/2014)

Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória.
Charles Baudelaire

Ser é comunicar-se. Ou, como diria o filósofo, “quem não se comunica, se trumbica”! Apesar da Matemática, juntamente com a Música, serem consideradas as formas mais universais de linguagem, nunca aprendi a última e não tenho qualquer pendor para os números (sou um disléxico matemático – eu me atrapalho até contando de 1 a 10). Entretanto, o que me faltava de domínio da linguagem de Pitágoras, foi-me compensado pela Providência com a afinidade com idiomas.

Primeiramente, nosso vernáculo! Sou um apaixonado pela Língua Portuguesa, com sua sonoridade encantadora, mais dura na terra de Pessoa e mais doce e suave na de Machado. A última flor do Lácio é de uma riqueza que seduz e seus meandros encantam a todo aquele que dela desfruta. Sim, porque falar português é um privilégio! Orgulho-me de ser nativo desse idioma presente em todos os continentes, que une povos e culturas das mais distintas sob a herança da linguagem lusitana. “Minha pátria é minha língua”, dizia Pessoa (por sinal, um frater rosacruz), e estou plenamente de acordo. Viva a Língua Portuguesa!

Claro que minha paixão pela cidadania universal e pelo contato com outros povos e culturas só poderia ser plenamente vivida com o conhecimento dos idiomas dessas gentes! Quando se aprende uma nova língua, mergulha-se em nova cultura e se conhece outras sociedades. E, ao longo de minha vida, como autodidata ou na escola, dediquei-me a aprender sobre outros povos por meio do estudo de idiomas. Já fiz incursões, mais ou menos aprofundadas, por inglês, francês, espanhol, alemão, russo, árabe, hebraico e italiano. E o melhor de tudo é que, quanto mais línguas se aprende, mais fácil se torna o aprendizado de outras novas!

A língua de Shakespeare e a de Cervantes aprendi praticamente por conta própria, como autodidata. Considero o conhecimento delas fundamental para qualquer um que queira ampliar seus horizontes. São idiomas de trabalho, essenciais para a sobrevivência no mundo moderno.

Já o apaixonante idioma de Molière, comecei a estudá-lo no meu querido Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho, o CIL (exemplo de escola pública de excelência), no qual viria a ser professor de francês em meu primeiro emprego com carteira assinada. Segui então para a Aliança Francesa, onde concluí os últimos graus de estudos de língua e civilização francesas, tendo prestado exames e obtido os diplomas de terceiro ciclo fornecidos pela Universidade de Nancy.

A língua alemã acho belíssima. Comecei a estudá-la na universidade, parei um tempo, e depois voltei com aulas particulares. A afinidade com o idioma de Goethe está além de qualquer explicação materialista – alemão, sempre aprendi com o coração! Também idioma fascinante é o de Tolstói e Dostoievski! Minhas primeiras lições de russo, ao final da Guerra Fria, foram na própria Embaixada da Rússia. Oxalá possa algum dia ler esses clássicos no original.

Já estudei árabe e hebraico (línguas arcanas, que devem ser compreendidas), e tenho conhecimentos de italiano (que sempre achei belo, particularmente por suas reminiscências do Latim). Ainda me aprofundarei nesses e em outros idiomas, para poder falar com um maior número de pessoas em sua língua natal. Realizo-me chegando a um lugar e conseguindo conversar com os locais em seu próprio vernáculo. Alguns chamariam isso de “complexo de Indiana Jones”.

Não me prolongarei mais tratando de meu fascínio pelas distintas maneiras pelas quais as pessoas se comunicam em todo o globo. Faltando 18 dias para meu aniversário de 40 anos, o que posso dizer é que minhas primeiras quatro décadas de vida foram muito mais divertidas graças ao aprendizado de línguas estrangeiras e, por meio destas, à vivência de outras culturas e ao conhecimento de pessoas e histórias fascinantes!

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22. A Cruz e a Rosa (19/11/2011)

Per benedictionem Rosae Crucis, non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam!

 

alt-cruz-rosacruzHá acontecimentos significativamente marcantes ao longo da vida de uma pessoa: o nascimento dos filhos, o primeiro casamento (ou o último), a aquisição da casa própria, a conquista do almejado emprego, a viagem dos sonhos, o lançamento de um livro, a conclusão de um curso superior, a obtenção de um título acadêmico… Cito aqui apenas alguns que marcam positivamente e deixam boas e eternas lembranças na mente e no coração.

Entre os episódios marcantes destes primeiros 40 anos, há um que está, indubitavelmente, entre os mais significativos: foi quando, aos 17 anos, tive a felicidade de ingressar na Ordem Rosacruz, AMORC. Desde então, os ensinamentos rosacruzes foram essenciais em minha formação intelectual, profissional, espiritual e, sobretudo, como ser humano. A Ordem é tão importante para mim, e minha afiliação trouxe-me tantos benefícios, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuir todas as bênçãos recebidas.

Mas o que é, afinal, a Ordem Rosacruz? A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), define-se como “uma organização místico-filosófica mundial, não-religiosa, sem fins lucrativos, cultural, educacional e apolítica, destinada ao autoaperfeiçoamento do ser humano, visando o despertar de seus poderes interiores, para uma vida mais plena e integral”. Está aberta a todo buscador sincero, todo aquele que deseje conhecer melhor sobre si mesmo e sobre o Universo. Em seu website (www.amorc.org.br), a AMORC destaca que “a Ordem conserva um conjunto de técnicas milenares, mas sempre atualizadas, comprovadas pelo tempo e capazes de promover este despertar.” Para os céticos, a única coisa que posso dizer, é que os ensinamentos da Ordem têm sido essenciais para mim.

A AMORC está presente em todos os continentes, e existe formalmente há séculos, seguindo uma tradição que remonta a milênios. Ademais, importante assinalar que a “AMORC integra em seu quadro pessoas de todas as raças, idades, posições sociais e de ambos os sexos, em clima de perfeita liberdade de pensamento”, tendo como meta “guiar o ser humano rumo à sua própria liberdade interior, na comunhão consciente com o Universo, por meio do autoconhecimento”. Grandes personalidades de nossa história foram rosacruzes.

AMORCMas o que é a AMORC para mim? Bom, a Ordem é, primeiramente, uma grande escola, onde pude aprender (e continuo aprendendo), sobre as chamadas leis naturais, as relações entre o homem e a natureza, com os outros seres humanos, e com o Criador, em um processo de autoconhecimento fundamentado na tradição das grandes escolas iniciáticas do passado. Os rosacruzes se definem, antes de tudo, como estudantes. E, uma vez que a AMORC não doutrina, mas sim orienta, desde o início de nossos estudos nos é ensinado a sermos “um ponto de interrogação ambulante”, a questionar todo o conhecimento que nos é transmitido, inclusive os ensinamentos da própria Ordem, e a buscar a resposta, primeiro, em nós mesmos, ouvindo a voz de nosso Mestre Interior. E como essa Escola tem-me ensinado sobre a vida!

A Ordem Rosacruz não é uma Igreja, tampouco o rosacrucianismo uma religião. Nesse sentido, na AMORC encontramos pessoas dos diferentes credos e percepções da Divindade: católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas… É fantástico conviver com homens e mulheres de distintas crenças, o que nos permite conhecer melhor sobre as grandes religiões e os aspectos positivos de cada uma. A única coisa que a Ordem nos pede é que acreditemos em um D’us, não importando como O chamemos ou O compreendamos. É por isso que, em nossas orações, os rosacruzes invocam “o D’us de seu coração, o D’us de sua compreensão”. Assim, apesar de não ser uma religião, minha amada Ordem é para mim um lar espiritual.

Outro aspecto marcante da Ordem Rosacruz é que, para mim, ela tornou-se uma segunda família. Ali conheci pessoas, homens e mulheres, de diferentes percepções sobre o mundo e sobre a vida, mas com inúmeros e significativos pontos em comum: a busca do conhecimento, o sentimento de fraternidade, o desejo de crescer espiritualmente e trabalhar pelo bem de toda a humanidade. De fato, é interessante como ali encontramos pessoas que parece que conhecemos há muito tempo, com quem nos identificamos automaticamente, como se já tivéssemos nos relacionado em outros tempos. Vejo nos rosacruzes meus irmãos e irmãs, e na Ordem encontrei grandes amigos, alguns fundamentais no meu desenvolvimento como ser humano e que estiveram presentes em momentos felizes, mas também em situações dolorosas, quando pude encontrar, entre os rosacruzes, o acolhimento que necessitava. São, portanto, minha família, minha grande família.

Nesta vida, meus vínculos com a Ordem Rosacruz, AMORC, são antigos, anteriores ao ingresso formal na organização. Explico: papai é rosacruz desde os anos sessenta. Nasci, portanto, em um lar rosacruz. Cresci sob a influência da Rosa e da Cruz, presente em minha vida já na mais tenra infância. E os laços com o rosacrucianismo são tão fortes e tão profundos, que não consigo me vislumbrar sem a Rosacruz. O rosacrucianismo é parte de mim, fui moldado rosacruz e pretendo continuar rosacruz até o fim dos meus dias (e depois dele).

Faltando 19 dias para meu aniversário, em um dia 19, queria declarar meu amor incondicional à Ordem Rosacruz, e a ela dedicar essas palavras, agradecendo ao Criador pela oportunidade de me levar a conhecer muito cedo o rosacrucianismo. E, repito, foram tantos os benefícios, tanto aprendizado, tantas as bênçãos alcançadas sob os auspícios da Rosa e da Cruz, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuí-los à AMORC. Assim, tento retribuir vivendo como rosacruz, pondo em prática os ensinamentos da Ordem e ajudando aos que necessitam.

Hoje, portanto, agradeço ao D’us do meu coração, ao D’us da minha compreensão, pela luz rosacruz em minha vida!

Além da gratidão, o outro motivo do texto de hoje foi para que meus amigos conheçam este aspecto tão influente em minha personalidade nestas primeiras 4 décadas. Saibam que têm como amigo um estudante que ora e trabalha sob os auspícios da Rosa+Cruz, pela glória de D’us e pelo bem da humanidade.

Avental R+C

21. Nova escola, novos desafios (18/11/2014)

Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.
Sócrates

Em razão do episódio frustrante ocorrido na Católica (vide texto de 17/11/2014), resolvi mudar de colégio para cursar o terceiro ano do Segundo Grau (“hoje Ensino Médio”). Após analisar algumas instituições, a escolha recaiu sobre o Colégio Leonardo da Vinci, tido como um dos melhores de Brasília. E, claro, com a nova escola, novos desafios.

O primeiro desafio no novo colégio era de ordem logística. O Leonardo situava-se na Asa Sul e eu morava em Sobradinho (para quem não é de Brasília, uma de nossas cidades-satélites)… e eu pegava ônibus. Utilizando-me dos modernos recursos do Googlemaps, pude verificar que a distância era algo em torno de 30 km e que, atualmente, a rota que eu fazia leva aproximadamente 1 hora e 30 minutos. Uma vez que minha aula começava às 7h10 da manhã, e que passava um ônibus a cada hora, associando-se a isso outros cálculos cabalísticos, para não chegar atrasado à escola eu tinha que pegar o ônibus nº 512 que passava pela minha parada às 5h38 da matina. Aqueles que me conhecem já imaginam a dramática situação!

Sou um animal notívago (sempre o fui!)! Durmo, normalmente, às 2h da manhã (para acordar, se possível, por volta das 8h). No meu último ano de ensino médio, eu tinha que estar na parada de ônibus às 5h35 no máximo, pois se perdesse o 512 das 5h38, chegaria bastante atrasado na escola! Com isso, tinha que acordar, normalmente, lá pelas 4h40 da manhã para tomar banho, vestir-me, fazer meu dejejum e sair correndo para o ponto! Desespero! Angústia! Sofrimento!

Alguns leitores devem estar dizendo “ah! mas eu acordo às 5 da manhã para malhar!”! Não tenho culpa se esses seres têm pacto com o Capiroto! Sim, porque não é de D’us acordar antes das galinhas (e eu levantava antes do galo cantar!), sobretudo para “malhar”! Ainda vou encontrar em algum artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que é violação grave fazer uma pessoa acordar a essa hora! Se não existir o artigo, deveria. E quando vinha o horário de verão, a coisa degringolava de vez! Para mim era terrível!

Penei bastante acordando de madrugada para ir ao colégio. Claro que logo desenvolvi técnicas para ganhar mais tempo na cama… coisas do tipo tomar banho em exatos 2 minutos e meio, deixar a roupa pronta para entrar nela pela manhã, tomar somente um copo de leite com Nescau de café-da-manhã (impensável sentar à mesa para um dejejum prolongado e frugal!). E fui vivendo. Naquela época, assim como Scarlet O’Hara, diante dos campos incendiados de Tara, disse que “nunca mais passarei fome nesta vida!”, eu também, ao concluir meu terceiro ano do Segundo Grau, olhei para a parada de ônibus e, de punho fechado, disse: “nunca mais passarei sono nessa vida!” (ou coisa parecida)…

A parada de ônibus e o próprio 512 constituíam um caso à parte e dariam muito boas histórias. Afinal, éramos as mesmas pessoas que pegavam o ônibus naquele horário: basicamente, estudantes e trabalhadores que tinham que estar cedo no emprego. Depois de um tempo, todo mundo já se conhecia. E eu, com minha dificuldade de me relacionar com as pessoas, logo já estava amigo e falando com todos na parada. Lembro-me de uma senhora gorducha que era empregada doméstica no Plano Piloto – divertidíssima, conversávamos sempre! Também havia, como tomávamos o ônibus já lotado e íamos em pé, as boas almas que se ofereciam para levar nossas (pesadas) mochilas no colo. No final das contas, virávamos uma comunidade no coletivo, unida pelo mesmo sofrimento no 512 das 5h38! Foi nessa época que desenvolvi algumas técnicas de sobrevivência (muito comuns em adolescentes que pegam ônibus em tais situações), com destaque para a de dormir em pé em um veículo em movimento – e, o melhor, sem perder o ponto, pois, se não acordasse, o pessoal do ônibus me acordava! Dentro daquela ideia de fazer do limão uma limonada, digo que era divertido!

Ah! E o colégio novo? O Leonardo era bem diferente da Católica. Muito maior em termos de turmas e alunos, com um horário a mais de aula, professores muito exigentes (e competentes, em sua maioria), tinha por objetivo central fazer com que seus alunos fossem aprovados no vestibular (a Católica se preocupava mais com a formação do estudante). E enfrentei ali grandes desafios, estudando pela manhã e à tarde, sob um sistema bem mais exaustivo que o dos anos anteriores (agradeço sempre por isso, pois assim fui preparado para o vestibular). Não foi fácil, mas consegui me manter entres os melhores alunos (em que pese minha total incompetência em Matemática).

Claro que as melhores lembranças do Leonardo foram os amigos. Certamente não eram tantos como os da Católica, mas na nova escola também fiz boas amizades que perduram até hoje! Eram várias turmas de 3º ano. Intrigante é que fiz amigos mais de outras turmas que da minha própria.

De todos os amigos do Leonardo da Vinci, registro meu abraço especial ao estimado Bruss. Bruss Rebouças Coelho Lima era seu nome. Um dos “nerds” de sua classe, sujeito simples, muito inteligente, espiritualista, culto e brincalhão, logo se tornou um bom amigo – alguém a quem, sem pestanejar, entregaria um filho para padrinho. Conversávamos sobre guerra e geopolítica, espiritualidade e problemas brasileiros. Era um conselheiro e um “grilo falante”. Tínhamos origens parecidas e opiniões coincidentes. E a amizade estendeu-se para as famílias – seus pais eram do Maranhão e do Ceará.

O amigo Bruss queria ser biólogo. E, no mesmo vestibular em que passei para Relações Internacionais, ele foi aprovado para Biologia na UnB. Continuaríamos nossa amizade na universidade e ambos seguiríamos carreira acadêmica. Acabamos perdendo o contato quando Bruss foi para a Alemanha fazer seu doutorado em neurociência, ali permanecendo e constituindo família (sua esposa, também cientista). Sempre que ele vinha por aqui, nos encontrávamos e botávamos o papo em dia. Também tinha notícia do amigo por meio de sua irmã, Biana, que continuava morando em Brasília. Bruss foi (é) um estimado irmão para mim!

Graças aos desafios que me foram impostos na nova escola, pude concluir um Ensino Médio de qualidade e prestar vestibular na Universidade de Brasília. Minha escolha, Relações Internacionais (curso que, à época, na área de Ciências Humanas, só era menos concorrido que Direito). Fui aprovado e, ao final de 1991, enquanto a União Soviética desaparecia, eu me preparava para virar estudante da área do conhecimento que buscava explicar o fenômeno da guerra e da paz, e porque nações desaparecem! Mas essa é outra história…

Faltam 20 dias para meus 40 anos. Vislumbrando como foi meu segundo grau, o saldo é mais que positivo! Os melhores dividendos foram, nesta ordem, os amigos que fiz, as experiências que vivenciei, e o conhecimento que adquiri. Tive excelentes momentos tanto na Católica quanto no Leonardo. E aquilo tudo foi realmente muito enriquecedor para o garoto de cidade-satélite, ainda bastante adolescente, que entrava em outro mundo… Enfim, cresci sobremaneira em três intensos anos!

Deixo hoje meu abraço aos colegas do Leonardo da Vinci. E a foto é de Bruss e Biana quando, muitos anos depois, meu amigo esteve de férias no Brasil e foi lá em casa. Velhos compadres se encontravam e parecia que havíamos nos falado, pela última vez, no dia anterior!

Bruss e Biana

20. O Segundo Grau e a primeira grande frustração (17/11/2014)

Não deixe as frustrações dominarem você, domine-as. Faça dos erros uma oportunidade para crescer. Na vida, erra quem não sabe lidar com seus fracassos.
Augusto Cury

A passagem do Primeiro para o Segundo Grau (hoje chamado de Ensino Médio) foi um momento importante para mim. Afinal, saia eu de uma escola pública (meu querido Centro de Ensino 03 de Sobradinho), a 7 minutos a pé lá de casa, para uma escola grande do Plano Piloto, em outra cidade, com pessoas desconhecidas de um ambiente social, econômico e cultural bem distinto do meu. Ademais, por ter adiantado dois anos na escola, iria começar meu primeiro ano do segundo grau com recém-completos 14 anos – criança de tudo! Mas meus pais acreditavam que a melhor preparação deveria ocorrer em uma escola do Plano Piloto… e lá fui eu estudar no Centro Educacional Católica de Brasília!

Por que a Católica? A resposta é pragmática: primeiro, porque meus pais tinham um amigo cujo filho já estudava lá (iria para o terceiro ano) e eu poderia ir de carona com eles para o colégio (evitava pegar ônibus na ida, portanto); em segundo lugar, e mais importante, porque fiz provas admissionais e ganhei uma bolsa de estudos para aquela escola (meus pais teriam grande dificuldade de pagar o colégio se não fosse assim). E lá fui eu (acho que já disse isso)!

Confesso que o começo foi assustador. Fisicamente, a Católica era um prédio grandioso! Três andares, grandes corredores, um pátio gigantesco! Afinal, a estrutura era de uma instituição de ensino superior – onde funcionava nossa escola durante o dia, à noite era a tradicional Faculdade Católica de Brasília (que depois seria transferida para a cidade de Taguatinga, em um campus enorme e se tornaria a primeira universidade privada do Distrito Federal). E eu, que vinha de uma pequena escola de cidade satélite (com, se não me engano, cinco pavilhões), sentia-me miudinho naquela instituição… algo parecido com o pobre lavrador que entra em uma catedral medieval…

Também não conhecia ninguém na minha sala. E aí as preocupações de todo adolescente recém-chegado em um grupo afloravam: “será que seria aceito? Como seriam os colegas? Mas e as nossas diferenças econômicas e sociais? Permaneceria isolado o resto da minha existência?” Felizmente, a relação com a turma superou minhas expectativas: o pessoal era simpático, amigo e logo estava integrado ao grupo! De fato, era um dos mais novos e mais baixinhos da turma, de modo que acabei, creio, sendo acolhido quase que como mascote… E dali surgiram boas amizades!

Claro que a época de segundo grau deixa saudades! As brincadeiras (e as brigas) em sala de aula, os professores, com suas peculiaridades (e como a turma aprontava com os professores!), as provas terríveis! E o que dizer dos passeios em grupo!?! (Uma vez fomos a uma caverna em Minas Gerais, com o Cleiton, professor de Matemática, mas sem equipamentos apropriados… nunca me esquecerei de nós entrando naquele buraco e depois tentado sair da caverna, sem uma percepção clara do perigo que corríamos). E havia os apelidos, as conversas durante o intervalo, os grupos que se formavam, as paixões platônicas (sempre fui tímido), as amizades eternas (enquanto durassem). Tinha também a “volta olímpica” que fazia, já no segundo ano, algumas vezes com meu amigo Delano Ferraz, cumprimentando e falando com todo mundo do colégio na hora do recreio! Enfim, até que nos divertíamos!

Fiquei dois anos na Católica. Em meados do segundo ano, uma situação tremendamente desconfortável me levou a decidir pela saída da instituição. Fui buscar essa história lá no passado, e a desenterrei para compartilhar com os amigos, pois foi uma grande frustração. Naqueles dias, a Católica foi chamada a enviar um de seus alunos para um programa promovido por uma das agências da Organização das Nações Unidas pelo continente americano[1]… Era uma viagem com tudo pago por diversos países, oportunidade única para o agraciado. A escolha do aluno se basearia no histórico acadêmico e nas notas… Sem dúvida, algo fascinante!

Para minha surpresa, fui selecionado! A alegria foi imensa! Afinal, o esforço pessoal era recompensado! E, para um garoto de família simples, que nunca teria qualquer condição de fazer uma viagem como aquela, era algo realmente inimaginável e grandioso! A turma, até onde me lembro, ficou contente com a escolha de meu nome! Era querido pelos colegas e alguns conheciam minha situação. Seria a viagem da minha vida!

A vida, porém, prega peças. Algumas semanas antes da partida, fui chamado à direção para conversar. Nunca esquecerei o episódio: secamente, em sem grandes justificativas, informaram-me que não seria eu mais quem iria participar do programa, mas um outro colega de minha turma. Ainda dói quando lembro disso, pois me senti preterido, destratado, desprezado pela escola de que tanto gostava! Sentia-me um lixo! E o pior, a decisão fora sem qualquer justificativa. Depois descobriria que o garoto era filho de uma autoridade… O único sentimento que me preenchia: frustração. Chorei, fiquei muito triste, deprimido mesmo. E aquela foi minha primeira grande decepção na vida.

Tentando recordar o episódio (e, muitos anos depois, conversando com alguns colegas da época), lembro que houve gente em minha turma que, quando soube do que ocorrera, ficou revoltada com a situação. A sensação de injustiça imperou nos colegas de sala, adolescentes que, como eu, não entendiam o significado da palavra desigualdade… Para piorar a situação, o garoto, Henrique era seu nome (sei o nome completo, mas não há necessidade de contá-lo), a quem até considerava um amigo, não era muito querido da turma, pois se mostrava pedante e rude algumas vezes.

Dentre os professores, houve quem me defendesse e reclamasse contra a injustiça. Outros, porém, decepcionaram-me, trabalhando nos bastidores pelo “rearranjo” em favor do Henrique. Isso certamente contribuiu para minha decisão de ir embora. No final das contas, o colega acabou viajando e participando do programa. Depois desse episódio, perdi completamente a vontade de permanecer na Católica.

Acho que esse foi o acontecimento que mais me deixou marcas do meu Segundo Grau. Para uma criança (e eu era uma criança), foi algo tremendamente frustrante essa primeira lição de injustiça. Hoje percebo que foi útil para meu aprendizado e para o valor que dou ao mérito e às pessoas pelo que são, e não por seus vínculos familiares ou por terem bons “padrinhos”. Nesse sentido, tomei consciência de que, por vir de família simples e ser “pagão” (não ter padrinhos influentes), teria que lutar para vencer na vida e que só poderia contar comigo mesmo para isso. E, se a vida é feita de injustiças, paciência! Faria do limão uma limonada, sempre!

Nunca havia comentado essa história com ninguém além de umas três ou quatro pessoas que, por serem meus colegas da época, vivenciaram meu sofrimento. Nem em casa se sabia da dimensão completa do episódio. Afinal, sempre fui muito reservado com meus sentimentos. Entretanto, faltando 21 dias para meu aniversário, achei por bem compartilhar o episódio nestas crônicas dos meus 40 anos. O melhor de tudo é que esses acontecimentos são, definitivamente, passado.

O que não é passado do meu período na Católica são as experiências de vida e, sobretudo, as amizades que cultivei naquele colégio. Sim! Fiz realmente bons amigos, que tive a mui feliz oportunidade de reencontrar aqui pelas redes sociais, depois de mais de 20 anos! A acepção de que o tempo é relativo pode ser fortemente confirmada em virtude da amizade! Não importa quanto tempo passe, quando se tem bons amigos, esse tempo, realmente, não tem qualquer importância.

Quero deixar aqui meu abraço fraterno aos colegas e amigos que fiz na Católica! Saibam que vocês foram tremendamente importantes para aquele garoto que descobria o mundo! Obrigado mesmo! Estão na minha memória e no meu coração, como parte expressiva dos meus primeiros quarenta anos de vida!

PS: só consegui colocar esta foto. Postarei outras em nosso grupo fechado da Católica.

[1] Depois, minha amiga Milene Martins dos Reis, ao ler meu texto, informou-me que não se tratava de um programa da ONU, mas sim era promovido pela Embaixada da Espanha. Chamava-se “Aventura 92”, e ocorria em comemoração aos 500 anos do descobrimento da América.

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