28. Gente Feliz! (25/11/2014)

Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
Johann Wolfgang von Goethe

Não existe coisa melhor do que partilhar felicidade e estar em um ambiente de gente feliz. E nunca conheci gente mais alegre e animada que os colegas de meu primeiro emprego como assalariado: o de professor de francês no Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho, o CIL! Inesquecíveis os momentos ali passados e a gente singular que lá conheci!

Fui convidado para lecionar no CIL por minha primeira professora de francês, Neusa, que se tornara diretora da escola. Apesar de pertencer à Fundação Educacional do Distrito Federal, no CIL havia professores sob contrato temporário, em razão da escassez de docentes qualificados. Isso, juntamente com uma estrutura moderna e equipamentos de idiomas adequados (graças às contribuições da Associação de Pais e Mestres, às mensalidades pagas pela comunidade que ali cursava inglês, francês e espanhol, e a uma excelente gestão desses recursos), fazia do CIL de Sobradinho um centro de excelência no ensino de idiomas na região (eu mesmo comecei ali meus estudos de francês). Foi minha primeira experiência, portanto, em sala de aula. E realmente adorava aquilo!

Mas o que mais encantava no CIL era o ambiente de trabalho! Alunos interessados (pois se tratava de atividade optativa para a maioria dos provenientes de escola pública e para todos da comunidade que se matriculavam), funcionários simpáticos e atenciosos. E, o melhor de tudo, colegas divertidíssimos! Era gente inteligente e com afinidade de interesses – afinal, todos gostavam de estudar idiomas estrangeiros e de viajar e conhecer o mundo. Se professor costuma ser criatura animada, professor de idiomas supera qualquer coisa! Ao menos no CIL era assim!

Gente Feliz

Tivemos momentos hilários dentro e fora da escola. A sala dos professores era uma festa só! E a hora do intervalo sempre com piadas, brincadeiras, distribuição de sorrisos. Tínhamos uma escala para o lanche do dia. Então, todo dia alguém trazia algo diferente (mesmo que fosse pão com requeijão e refrigerante, já era muito bom pela oportunidade de partilhar a refeição). Brincadeira o tempo todo em um ambiente saudável e harmonioso! Diversão garantida, sem se perder o profissionalismo e a dedicação à docência!

Felizmente, acabei me enturmando rápido! Não tinha como ser diferente. Éramos quatro os professores de francês: Neusa, a diretora, Sheila, que havia sido minha professora (excelente, por sinal) de Português na 5ª série, Eric, profissional extremamente competente e com quem estudara quando aluno de francês, e eu! Assim, com todos os colegas da área tinha vínculos anteriores. E o restante do pessoal, totalmente acolhedor! Lembro-me de que uma das práticas que instituí foi escrever “a frase do dia”, sempre uma mensagem que colocava no quadro para animar o povo. Coloquei hoje uma foto de minha despedida, onde está escrito no canto superior direito a última frase que deixei: “Eu voltarei!” – vejam quem é o autor!

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A festa continuava fora da escola. Final de ano, fazíamos uma confraternização. E era divertidíssimo! Boa comida, excelentes conversas, gaiatice, troca de presentes, e muita, muita alegria e descontração! Até o mais rabugento se tornava divertido! Lembro, ainda, que Eric pegava o violão (aprendeu sozinho a tocar) e sempre nos brindava com belas canções! Éramos um grupo integrado e unido (claro que, naturalmente, havia um ou outro ponto fora da curva, mas isso faz parte da vida em sociedade…)! No final das contas, éramos uma grande família.

Tive que deixar o CIL porque a Fundação Educacional passou a exigir que os docentes tivessem cursado disciplinas de didática na faculdade. Recordo-me de duas delas, cujas siglas me chamaram a atenção: FUDA (Fundamentos da Didática ou algo assim) e ESTRUFUNC (Estrutura e Funcionamento do Ensino). Assim, uma vez que não tinha FUDA nem ESTRUFUNC, não estava mais habilitado para lecionar nas escolas públicas do DF! Paciência! Foi ótimo enquanto durou e “o importante é que emoções eu vivi!”.

Em meu período no Centro de Línguas, fiz bons amigos entre alunos, funcionários e professores. E confirmei minha convicção de que alegria e felicidade são duas coisas que, quanto mais distribuímos, mais temos!

Faltam 13 dias para meu aniversário de 40 anos. Nesta data, quero deixar meu fraterno abraço a todos os amigos do Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho e desejar-lhes muita alegria e felicidade! Vocês também foram muito importantes nestas primeiras 4 décadas!

PS: Aproveito para registrar que 25/11 é a data de nascimento de Harvey Spencer Lewis, um dos grandes místicos da primeira metade do século XX, e primeiro Imperator da Ordem Rosacruz, AMORC, para seu segundo ciclo nas Américas. Minha saudação calorosa a todos os fratres e sorores da R+C!

27. Fomos tão jovens! (24/11/2014)

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
Mateus 6: 26

Aos 20 anos, concluí a graduação em Relações Internacionais. Formei-me em julho de 1995, seis meses antes de minha turma. Consegui a proeza de cumprir 188 créditos em três anos e meio, 24 a mais do que os exigidos para o curso à época (164 créditos).

Éramos doze formandos dos cursos de Relações Internacionais e Ciência Política, dos quais dez mulheres (viva!). Apesar de não ser minha turma original, os formandos eram todos colegas e alguns bons amigos – o currículo dos cursos da Universidade de Brasília nos permitia um trânsito em vários semestres, de modo que era usual fazermos disciplinas com colegas de semestres anteriores e posteriores aos nossos.

Um fato marcante da formatura é que fui escolhido para orador da turma. Preparei um discurso para ser lembrado, buscando referência a nossa formação, à importância das Relações Internacionais e da Ciência Política, aos valores que nos foram ensinados, aos amigos que fizemos. Busquei sair do lugar comum dos discursos de formatura. E deu certo! O discurso foi marcante, muita gente chorando, emoções afloradas. Foi minha primeira e feliz experiência falando para mais de uma centena de pessoas! Cerca de quinze anos depois, recuperaria muito do que disse a meus colegas formandos em um discurso aos bacharéis da primeira turma em Relações Internacionais que me honrou com o convite para padrinho. As mesmas palavras tiveram impacto semelhante. Afinal, como certa vez me ensinou um Mestre rosacruz, “o que passa não é”.

Encerrava minha primeira graduação com muitos sonhos e poucas perspectivas. Apesar do excelente histórico acadêmico, dos programas de iniciação científica, e da disposição para trabalhar, naquela primeira metade da última década do século XX a procura por profissionais de Relações Internacionais no Brasil era praticamente inexistente. Poucos conheciam a graduação e as competências do profissional de Rel (como nós da UNB conhecíamos o curso), e eram raríssimas as ofertas de trabalho, tanto no setor público quanto na iniciativa privada, para um “bacharel em Relações Internacionais”. A maior parte de nós acabaria não trabalhando na área…

Formatura de Rel

Quanto a mim, esperava fazer uma grande viagem após o curso. Meus pais haviam-me convencido a não trabalhar durante a graduação e fazer o curso intensamente para concluir logo. Foi-me feita uma promessa de que seria por eles agraciado com essa sonhada viagem, por meio da qual poderia adquirir alguma experiência no exterior. Naturalmente, a viagem ficou só na promessa – não culpo meus pais, eles não tinham recurso para me ajudar com aquilo; fui ingênuo e bobo acreditando naquele sonho que, de fato, não se poderia concretizar dadas as minhas condições econômico-financeiras… mais uma lição dolorosamente aprendida! Que bom! Afinal, o que não mata, fortalece. E minha vontade de atuar no plano internacional só aumentaria.

Os meses que se seguiram à formatura não foram fáceis. Estava agora com um diploma de um curso superior muito exclusivo e de uma das mais renomadas universidades do País. Adiantou-me pouco. Entrava para as estatísticas do desemprego. Como ainda vivia com meus pais, não tinha muitas contas a pagar, e busquei diferentes maneiras de ganhar dinheiro: dava aulas particulares de francês, fui auxiliar de pesquisa do Professor Amado Cervo (uma sumidade na nossa área), com quem aprendi muito, fazia algumas traduções, e trabalhei como representante comercial de software de contabilidade – época divertida, quando rodei o Distrito Federal tentando vender software para todos os escritórios de contabilidade da região (gastei quase toda a sola de meu único par de sapatos)! Consegui algum êxito, o que me ajudava a pagar minha segunda graduação em Direito, no Ceub (hoje, Uniceub). Também busquei prestar alguns concursos públicos, experiência que contarei em outra oportunidade destas crônicas dos meus 40 anos.

Ao final do ano de 1995, resolvi tentar o Mestrado em Relações Internacionais da UnB. Pretendia continuar a carreira acadêmica, já tinha experiência em pesquisa científica (fora bolsista em um programa do Departamento de Economia, sob orientação de Flávio Rabelo Versiani, expoente na História Econômica do Brasil, trabalhara com Amado Cervo, e fui o terceiro aluno da história do curso de Relações Internacionais a fazer uma monografia de final de curso – que, à época, era optativa). Ademais, inscrevia-me para uma pós-graduação na instituição onde havia cursado a graduação e concluído com louvor o curso no próprio Departamento de Relações Internacionais. Continuaria estudando em minha Alma Mater!

Meu projeto de pesquisa para o Mestrado, lembro bem, era sobre “possibilidades de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central no início do século XXI, e o risco do acirramento da presença estadunidense na região”. A temática, portanto, envolvia a essência das Relações Internacionais (a guerra e a paz). Fiz as provas, sendo nelas aprovado. Faltava apenas a entrevista em que discutiriam meu projeto. Grandes expectativas. E mais uma frustração adviria…

Na entrevista, os membros da banca me questionaram sobre o projeto. Era 1995, e os temas comuns de pesquisa eram meio ambiente, direitos humanos, a recém-criada Organização Mundial do Comércio e o liberalismo nas relações internacionais, Mercosul e integração regional. Guerra, Geopolítica (assunto proscrito à época) e Segurança Internacional estavam fora de cogitação aqui no Brasil. E ouvi de um dos membros da banca que “seria inconcebível uma hipótese de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central no início do século XXI, ainda mais com uma intervenção armada dos Estados Unidos!” (isso mesmo que vocês leram… nunca me esqueci daquelas palavras). Recordo que o professor Argemiro Procópio argumentou com veemência em meu favor – nunca fora aluno dele, mas acho que percebeu que eu tinha potencial. A banca, ao contrário, não achava minha pesquisa pertinente… Afinal, como alguém poderia imaginar uma situação como aquela no século XXI, que estava por chegar em um ambiente internacional globalizado e de pós-Guerra Fria? Resumo da ópera: não fui aceito no Programa.

Confesso que fiquei muito frustrado à época. A impressão que tinha era de que todo o esforço na graduação, com excelentes notas ao longo do curso, com atividades extracurriculares e muito estudo, de nada me adiantaram. Relações Internacionais não me serviria para nada mesmo, acreditava eu! Nunca havia comentado sobre isso com alguém, mas me senti mal com o episódio…

Não obstante, o Sol sempre nasce no dia seguinte… Continuaria tocando a vida… E aprenderia com o episódio, simples assim! Nós rosacruzes sabemos que nada acontece por acaso, e o que era meu já me estava reservado. Em 1997, acabaria sendo aceito no Mestrado em História da UnB, linha de pesquisa de História das Relações Internacionais… Minha dissertação seria sobre o Tribunal de Nuremberg, tema absolutamente inédito na academia brasileira. Concluiria o mestrado com louvor, aqui assinalando minha gratidão à mui querida orientadora, Professora Albene Menezes (germanófila e historiadora de tremenda competência, uma orientadora e interlocutora sensacional, e uma grande amiga!), ao Professor Antônio Augusto Cançado Trindade (à época magistrado da Corte Interamericana de Direitos Humanos e hoje o juiz brasileiro na Corte Internacional de Justiça), que acabou se tornando uma espécie de coorientador e fundamental para a qualidade de nossa pesquisa, e aos estimados professores Rossini Corrêa e Amado Cervo, presentes ao longo do Mestrado e na banca final. Foi um trabalho muito interessante e daria origem a meu primeiro livro, “Tribunal de Nuremberg, 1945-1946: a Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional” (Rio de Janeiro: Editora Renovar, 1ª edição, 2001, 2ª edição, 2004), com prefácio de Cançado Trindade, e primeira obra escrita por um lusófono sobre o maior julgamento da história. O livro renderia bons frutos e me faria conhecido nesse campo do Direito Internacional dos Conflitos Armados. Enfim, há males que vêm para o bem…

Depois do Mestrado, continuaria a vida acadêmica com quatro especializações (em Inteligência de Estado, em Direito Militar, em História Militar, e em Integração Econômica e Direito Internacional Fiscal), e o Doutorado (este sim no Departamento de Relações Internacionais, quando fui aprovado em primeiro lugar no concurso de admissão… outros tempos!). E o menino que alcançara a maioridade civil antecipadamente (o Código Civil da época estabelecia a possibilidade em razão de conclusão de curso superior), concluiria um Doutorado, o primeiro da família (pelo lado de papai e pelo de mamãe) a fazê-lo! O tema do Doutorado? Atividade de Inteligência – nunca deixaria o campo da Segurança Nacional e da Defesa… Em tempo: minha gratidão ao meu orientador, que se tornou um bom amigo, Professor Eduardo Viola, aos professores George Felipe de Lima Dantas e Eiti Sato, e aos queridos amigos Paulo Roberto de Almeida e Carmen Lícia Palazzo – todos de extrema importância naquele processo de amadurecimento como pesquisador.

Essas histórias da graduação e pós-graduação que compartilho com os amigos, faltando 14 dias para o meu aniversário de 40 anos, têm por objetivo, além de registrar minhas impressões pessoais sobre as primeiras décadas de vida (estou gostando disso!), ilustrar como a vida muitas vezes nos coloca em situações difíceis e frustrantes, mas que são fundamentais para que cresçamos, em um processo evolutivo que não permite retrocesso. O segredo, ao menos assim tenho aprendido, é nunca desanimar, perseverar nos objetivos, e seguir adiante, consciente de que, se não deu certo, é porque não era para ser…

Importante, ainda, buscar no Mestre Interior inspiração para fazer as escolhas adequadas, e no D’us do coração, no D’us da compreensão de cada um, a força e a confiança para continuar a jornada, com a certeza de que Ele não nos desampara! – ensinamentos rosacruzes que têm que ser vividos! Como disse o Mestre Jesus, “buscai primeiro o reino de D’us e a sua justiça… e tudo mais vos será acrescentado”. Acredito nisso.

Hoje compartilho as fotos de minha primeira formatura, em julho de 1995. Há uma com os que se formaram comigo. Mas fiz questão de colocar também duas fotografias da festa de formatura de minha turma de ingresso na faculdade (minha turma de fato), realizada seis meses depois – em uma delas é possível ver os três valetes juntos!

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Turma de Rel 1-92

26. Pelo Mundo (23/11/2014)

Navigare necesse; vivere non est necesse!
Pompeu

Faltam 15 dias para que eu complete 40 anos! E, direto das terras ludovicenses, escrevo sobre uma das minhas grandes paixões na vida: viajar! Pouca coisa me dá mais prazer do que sair pelo mundo a conhecer novos lugares, gente de diferentes matizes, culturas peculiares! Viajar é preciso!

Conheço pessoas que não gostam de viajar. Dizem não ter paciência para arrumar mala, sair do conforto do lar, pegar avião… Argumentam que preferem ficar em casa, conhecendo o mundo pela televisão, por meio de um livro ou recorrendo à internet… E tudo é motivo para não viajar: o destino é muito frio ou muito quente; agitado demais ou tremendamente monótono; longe ou muito perto… Não importa, sempre encontrarão um motivo para não fazer as malas e sair batendo perna por aí! Eu não as condeno! Mas comigo é o contrário.

Não sei de onde vem meu interesse por viajar. Talvez de mamãe, que sempre que tem oportunidade se lança ao mundo – bom lembrar que, numa dessas, ela veio para Brasília, conheceu papai, e o restante da história vocês já conhecem. Seu Jacob, por sua vez, é enraizado em casa, prefere o conforto do lar à surpresa de outros lugares… Pode ser de mamãe mesmo! Mas, claro, alguns diriam que tem a ver com o fato de ser eu sagitariano, ou com o mais íntimo de minha personalidade, ou com vidas passadas. Não sei de nada… só sei mesmo é que gosto disso!

Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo, conhecer outras terras, gente diferente, visitar lugares históricos, mergulhar em outras culturas! E queria fazê-lo viajando! Como não tínhamos dinheiro para isso, comecei a aprender pelos livros, revistas, tv, e decidi que me esforçaria para conseguir um emprego que me possibilitasse essas experiências. Pensei em ser comissário de bordo, jornalista, ou em trabalhar em algum organismo internacional… Daí minha opção por Relações Internacionais. Estava convicto de que, como internacionalista, meu mercado de trabalho seria o mundo, e minha profissão me levaria aos mais distantes locais do globo!

Claro que, devido às limitações financeiras, passei todo o curso de Relações Internacionais sem conhecer terras estrangeiras, restringindo-me a viajar algumas poucas vezes pelo Brasil mesmo. Naquela época, passagem de avião era coisa caríssima, carro eu não tinha, e aí ia de ônibus mesmo. Entretanto, por mais que gostasse de rodar pelo Brasil (e continuo adorando fazê-lo, pois nosso País é fantástico e diversificado), queria mesmo era me lançar ao mundo!

Só fui conseguir o que queria quando comecei a trabalhar. Então, a serviço ou nas férias, minha alegria era arrumar as malas e entrar em um avião para conhecer novas terras! E é o que tenho feito nos últimos 15 anos! Entre os lugares que já visitei estão Canadá, Chile e Alemanha (três países muito queridos, com os quais tenho uma relação bem especial, e onde já estive diversas vezes), Suécia (D’us abençoe o Reino da Suécia), Noruega (quando vivi o atentado de Oslo, pois estava em um hotel na rua atrás do local da explosão, no dia do ataque), Finlândia, Estônia (grandes experiências nesses dois países), França e Grã-Bretanha (dispensam qualquer comentário!), Bélgica (chocolate, cerveja, sede da União Europeia e da OTAN, campos de batalha), Portugal (nossas origens, nosso DNA!), Polônia (ah, Cracóvia!), República Tcheca (Praga é única!), Espanha (comprei uma espada em Toledo!), Argentina (alfajores, livrarias e boa gente!), Paraguai (conheci o Lago Azul de Ypacaraí – que de azul nada tinha), Peru (senti-me em casa entre os nativos!), Colômbia (só na fronteira), Falklands (que me desculpem os hermanos, mas é isso mesmo!), e, naturalmente, Estados Unidos (cujo nome já é múltiplo). Detalhe: quando gosto de um lugar, tenho por hábito voltar mais vezes. E a cada nova chegada, novos locais encontro para explorar: assim acontece, entre outros, com o Canadá, com minha querida Alemanha, com a Suécia, a França, e a Grã-Bretanha… Se gosto, volto! Por que não?

No meu Brasil, fico feliz em já ter passado por 21 das 27 capitais, e por outras cidades em pontos distantes. Em minhas atividades profissionais, tive a imensa satisfação de conhecer nossa preciosa Amazônia, visitar pelotões de fronteira, ir a rincões pouco conhecidos deste País continental! E me agrada tanto estar na megalópole paulistana quanto na pequena Clevelândia! O Brasil é lindo, e sua gente maravilhosa!

Indescritível a sensação de chegar em um lugar novo! Visões, sons e odores diferentes, locais a explorar, sabores pitorescos, gente diferente com quem conversar! Boas experiências, más experiências… Aprendizado intensivo, mesmo porque costumo viajar sozinho.

Prefiro viajar sozinho: faço meus horários e meus roteiros, tiro minhas centenas de fotos (sempre com meu tripé), passo o tempo que quiser em um determinado local… E, o melhor de tudo, acabo conhecendo gente fantástica. Nunca estamos sós quando viajamos sozinhos!

Definitivamente, tenho o bicho carpinteiro viajador. Sou econômico no dia-a-dia. Emprego meus recursos em viagens (excelentes investimentos!). Tenho uma malinha pronta em casa, e estou sempre disposto a pegar a estrada (não literalmente, pois não gosto de dirigir, e aprecio mesmo é a sensação de estar nas nuvens). Havendo a oportunidade, viajo!

Inspiro-me em um amigo, Gilberto Guerzoni. Solteiro, sem filhos, bom salário, Guerzoni usa seus 30 dias de férias por ano para rodar o mundo. Já conheceu mais de 150 países, da Groenlândia à Antártica, das florestas do Peru à savana africana, esteve em Galápagos e no Vietnã, na Austrália e em Kosovo, foi mesmo até Chernobyl. Esse é meu amigo, que preenche todas as folhas do passaporte muito rapidamente. Claro que estou longe de alcançar Guerzoni, mas pretendo continuar meus próximos quarenta anos viajando! Navegar é preciso!

25. Los tres Valetes (22/11/2014)

Mais vale ter amigos que tesouros acumulados.
Provérbio russo

O que leva determinadas pessoas, entre as mais de 7,5 bilhões que povoam o planeta, a se encontrarem com outras especificamente, e tornarem-se grandes amigos? Os místicos sabem que o acaso não existe, daí minha plena convicção de que cada ser humano que cruza meu caminho não o faz aleatoriamente e que nos encontramos (ou reencontramos) porque somos parceiros de caminhada e nos ajudaremos (consciente ou inconsciente) a aprender algo na vida. Dessa maneira, há aqueles que aparecem, juntam-se a nós na jornada por um tempo, e depois somem de maneira indeterminada (ao menos para os que não conhecemos os desígnios do Criador). Outros amigos permanecem sempre conosco, independentemente de estarem fisicamente ao nosso lado, e nossos caminhos se cruzam com frequência. Convém ter em mente que as duas categorias de pessoas são relevantes em nossa vida.

Hoje, a 16 dias do aniversário, e ainda escrevendo sobre a primeira Graduação, dedico a crônica dos meus 40 anos a duas figuras ímpares que conheci ao chegar à Universidade de Brasília para cursar Relações Internacionais: Mario Jorge e Maurício. Formaríamos um triunvirato, unidos para começar a caminhada naquela fase importante de nossa vida. Viveríamos situações inusitadas, dentro e fora da UnB.

Tínhamos praticamente a mesma idade. Maurício era alguns meses mais velho, e Mário o mais novo. Vínhamos de origens bastante distintas, mas, por alguma razão que a razão desconhece, descobriríamos muitas coisas em comum que acabariam nos aproximando. Nos anos que se seguiriam, estaríamos juntos para apoiar e criticar um ao outro, vivenciando situações como os porres de um (enquanto os outros dois não bebiam – claro que não contarei de quem foi), as namoradas (e o fim de namoros), a tomada (com estratégia) do Centro Acadêmico (em uma eleição vitoriosa sobre a chapa da situação), as festas, a pressão dos estudos e as inúmeras disciplinas, uma viagem a Cabo Frio, meus primeiros momentos aprendendo a dirigir (com o quase acidente na Brasília amarela), e a formação de “Los tres Valetes”.

Mário, o Mariozinho, conheceria logo na pré-matrícula. Lembro como se fosse hoje: chegando para conversar com o coordenador do curso e escolher as disciplinas, topei com ele e outro colega nosso, o Bruno, pois os dois já se conheciam do Colégio Militar de Brasília. Começamos a conversar e dali surgiu uma grande amizade. Mariozinho, cabeça de piloto, era o mais racional dos três valetes, vinha de uma família de militares (o bisavô foi um general importante do período militar, que alcançara a presidência da república) e chegou a ingressar na Academia da Força Aérea. Muito inteligente e centrado, fizemos várias disciplinas juntos, tínhamos identidade ideológica (estávamos entre os poucos que se declaravam mais à direita – bem à direita, diga-se de passagem – naquele mar de cultura esquerdista), e compartilhávamos muitos pontos de vista. Certa vez, decidimos cursar Cálculo I como disciplina optativa e lideramos um movimento de vários colegas de Relações Internacionais a essa empreitada insana – ao menos para a maioria de nós, que mal conhecia as operações básicas. Resultado: ao final do semestre, só o Mário, sua namorada – nossa colega de curso –, e eu concluímos a disciplina. Para mim foi gratificante, pois consegui cursar Cálculo, concluir a disciplina com êxito e confirmar, definitivamente, minha total incompetência para a Ciência Pitagórica!

Outro episódio que ficou na memória ocorreu quando eu e Mário compramos um pequeno dicionário de russo (um exemplar para cada) na livraria da UnB. Começamos a estudar o cirílico e a aprender algumas palavras. Passamos a escrever em cirílico. Sentávamo-nos no fundão da sala nas aulas mais chatas e ficávamos jogando forca em russo. Coisas de gente de Relações Internacionais…

Lá pelo meio do curso, Mário começou a cursar Direito em outra faculdade. Iria se tornar um competente advogado, depois de passar algum tempo como piloto privado (sim, porque sempre foi fascinado por aviação), até que prestaria concurso para juiz aqui no Distrito Federal. Hoje, meu amigo é magistrado – e fico feliz com isso, pois sei que o Poder Judiciário do DF conta com um juiz altamente competente e, acima de tudo, absolutamente íntegro. Em tempo: foi Mário o grande responsável, junto com meu pai, a me instigar a cursar Direito. Devo a eles essa decisão fundamental para minha vida. Continuamos a nos encontrar com frequência para longos almoços ou degustações de cerveja juntamente com outro amigo e irmão dos tempos da universidade (o quarto elemento do trio), meu caríssimo Ricardo Nery. O que posso dizer de Mariozinho é que ele foi um irmão que encontrei na universidade.

O segundo dos três valetes, Maurício, era filho de um servidor do Banco Central (não lembro o que fazia sua mãe). Maurício era um sujeito que tinha o coração duas vezes maior do que ele. Amigo de toda hora, era o emotivo do grupo, brincalhão, permanentemente sorridente. Era aquele amigo que sempre tinha uma boa piada para contar, ou uma mensagem reconfortante quando estávamos chateados com alguma coisa. Não ligava muito para política estudantil e era bem mais moderado que Mário e eu. Mas estava junto se precisássemos dele! Lembro que, depois da vitória em uma difícil eleição para o Centro Acadêmico de Relações Internacionais (em uma chapa construída por Mário – o tesoureiro – e eu – vice-presidente –, mas da qual Maurício não participou diretamente), tivemos que mudar as instalações do CA. E quem carregou os armários, livros e toda a parafernália de um lado para outro fomos eu, Mário… e Maurício! Parece uma história boba, mas foi marcante o peso daqueles armários, só superado pelo dos desafios que tivemos que enfrentar em nossa gestão.

Maurício foi quem me ajudou muito quando estava aprendendo a dirigir. Dava-me dicas de como conduzir um veículo – detesto dirigir – e se aventurava a bordo de uma Brasília amarela que meu pai tinha e com a qual comecei a dar minhas primeiras voltas de carro. A Brasília, primeiro carro que papai comprara na vida, alguns dias antes do Plano Collor, era mais velha que nós, mas servia bem a nosso propósito. Certa vez, Maurício e Mário foram comigo para a zona rural de Sobradinho (no antigo polo de Cinema e Vídeo), para que eu, ainda com a carteira de motorista recém-tirada, pudesse treinar um pouco com o carro. Mário vestido com macacão de piloto, com uma câmera na mão. Comecei a dirigir na estrada de piçarra. Despenhadeiros de um lado e do outro (sim, porque Sobradinho é uma região serrana aqui no DF). Segue para cá, segue para lá. Em determinado momento, perdi o controle da direção. A Brasília rodou conosco. Meu Anjo da Guarda, sempre atento, segurou o veículo. Depois de umas voltas, a Brasília parou na beira de um precipício. Aquela tinha sido por pouco. Claro que foi tudo filmado. Mas a imagem que melhor ficou foi na memória: nós três dentro do carro, girando em alta velocidade e parando à beira do precipício. Foi tenso, mas divertido. E, prova inconteste de amizade, mesmo depois desse evento inusitado, os dois ainda continuaram me dando aulas de direção…

Também viajamos juntos. Fomos os três passar uns dias em Cabo Frio. Aproveitamos bastante, vivemos situações singulares e nos divertimos muito. Paro por aqui. O que aconteceu em Cabo Frio fica em Cabo Frio, hehehehe!

E por que “los tres valetes”? Outra boa história… Já para o fim do curso, descobrimos que sabíamos cantar. Não tocávamos nenhum instrumento, a não ser nossos dedos que estalávamos, mas conseguíamos cantar bem à capela. Cantávamos nos intervalos das aulas, na hora do almoço, sempre que tínhamos um tempinho em meio à correria do final do curso. E até que fazíamos algum sucesso – sobretudo quando vinha algum professor de dentro da sala de aula pedir para que nós, nos corredores da FA, parássemos de cantar! E cantávamos de tudo: Tom Jobim, Vinícius, Beatles, MPB em geral… Quando não sabíamos a letra (e geralmente conhecíamos pouco), íamos à la Ray Conniff… Eu, geralmente, fazia a primeira voz, e Mário e Maurício acompanhavam. Éramos “Los tres valetes”: Maurício, o valete de copas, Mário, o de ouro, e eu, o de espada (ninguém queria o valete de paus!). E nos divertimos bastante! Chegamos até a cogitar cantar na formatura!

Como todo ciclo, nosso período de faculdade acabou. Eu me formei um semestre antes de Mário e Maurício – adiantei meu curso e o concluí em três anos e meio. Acabaríamos nos separando, cada um seguindo seu rumo. Maurício já saía empregado na Embaixada da Argentina e, praticamente, casado. Mário continuaria seu curso de Direito, e passaria um tempo como piloto, rodando o mundo em jatinhos. E eu, bem, eu, com um diploma de bacharel em Relações Internacionais e sem qualquer perspectiva profissional, buscaria um rumo na vida… E “los tres valetes” chegava a seu fim.

Como disse, ainda continuo em constante contato com Mariozinho. Nossa amizade permanece mais firme do que nunca. Perdi completamente o contato com o caríssimo Maurício. Tentei encontrá-lo nas redes sociais e pela internet, sem sucesso. Espero, sinceramente, conseguir reencontrar esse bom amigo nos próximos 40 anos. E, quem sabe, possamos relançar nas paradas “los tres valetes”!

[Em tempo: no meu aniversário de 40 anos, restabeleci o contato com o querido amigo Maurício! Coloco aqui uma foto nossa, com 25 anos e alguns quilos de diferença. O próximo passo é a volta de “los tres valetes” ao mundo da música!]

Los tres valetes

24. Universidade (21/11/2014)

A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento.
Platão

Tinha acabado de completar 17 anos. A notícia da aprovação para o concorrido curso de Relações Internacionais ainda não fora plenamente assimilada. Afinal, começava uma nova e importante fase de minha vida: tornava-me universitário!

Pré-matrícula: chegávamos perdidos, éramos calouros. Gente diferente. Escolha de disciplinas. Pilhas de papel com ofertas de cursos. E o primeiro contato com os novos colegas.

Nossa turma era pequena, 23 calouros de diferentes pontos do país – como só havia Relações Internacionais na Universidade de Brasília e na Estácio de Sá, até meados da década de 1990 afluíam para a UnB estudantes interessados em se tornar internacionalistas (nem sabíamos que era assim que viríamos a ser chamados). E tínhamos os colegas estrangeiros, estudantes de todos os continentes – afinal, estávamos em um curso de Relações Internacionais!

Disciplinas: Introdução às Relações Internacionais, Ciência Política, Direito, Economia… Tínhamos muito a aprender, muito o que escolher. O curso, tremendamente interessante, ensinar-nos-ia a sobre a paz e a guerra, a influência das ideologias nos destinos da humanidade, o papel da Política entre as nações, a importância da Economia (“A Economia, estúpido!”), o Direito das Gentes… Aprenderíamos sobre as quase duas centenas de países, seríamos instados a analisar as condutas dos atores internacionais, a entender as “forças profundas”. Compreenderíamos o valor da História e os dilemas da Teoria… E acabaríamos descobrindo que o mundo é uma pequena e complexa aldeia, que os homens, apesar de suas diferenças, pertencem todos ao gênero humano, e que, no fim das contas, são ricamente iguais. Tudo isso aprenderíamos em Relações Internacionais. O curso nos traz um grande cabedal cultural e nos faz singulares.

Entretanto, as melhores memórias da universidade são as de fora da sala de aula. As festas, os encontros e as conversas na FA, as tardes e noites na biblioteca (e os cochilos nas caixas onde deveríamos estudar os volumosos conteúdos para as complexas provas), o almoço no Bandejão (com salitre, suco e gelatina de laranja, de vermelho, de verde…)… Episódios e momentos inesquecíveis, lembrados com clareza ainda hoje, duas décadas depois.

Obviamente, disso tudo, o que melhor guardamos em nosso coração foram as pessoas que conhecemos e os amigos que fizemos. Sim! Fiz boas e perenes amizades, algumas delas que se mantêm fortes e inabaláveis duas décadas depois. Alunos, professores, funcionários, colegas e amigos do Brasil e de outros países! Muito bom quando encontro pelo globo os amigos da UnB, com as consequentes alegres lembranças daqueles tempos que não voltam mais!

E, a 17 dias de meu aniversário, essas lembranças confirmam que o mais importante legado dos tempos da universidade foram os amigos que fizemos. Meu abraço carinhoso a todas aquelas pessoas que contribuíram com sua presença em nossa caminhada!

Unb

23. Idiomas (20/11/2014)

Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória.
Charles Baudelaire

Ser é comunicar-se. Ou, como diria o filósofo, “quem não se comunica, se trumbica”! Apesar da Matemática, juntamente com a Música, serem consideradas as formas mais universais de linguagem, nunca aprendi a última e não tenho qualquer pendor para os números (sou um disléxico matemático – eu me atrapalho até contando de 1 a 10). Entretanto, o que me faltava de domínio da linguagem de Pitágoras, foi-me compensado pela Providência com a afinidade com idiomas.

Primeiramente, nosso vernáculo! Sou um apaixonado pela Língua Portuguesa, com sua sonoridade encantadora, mais dura na terra de Pessoa e mais doce e suave na de Machado. A última flor do Lácio é de uma riqueza que seduz e seus meandros encantam a todo aquele que dela desfruta. Sim, porque falar português é um privilégio! Orgulho-me de ser nativo desse idioma presente em todos os continentes, que une povos e culturas das mais distintas sob a herança da linguagem lusitana. “Minha pátria é minha língua”, dizia Pessoa (por sinal, um frater rosacruz), e estou plenamente de acordo. Viva a Língua Portuguesa!

Claro que minha paixão pela cidadania universal e pelo contato com outros povos e culturas só poderia ser plenamente vivida com o conhecimento dos idiomas dessas gentes! Quando se aprende uma nova língua, mergulha-se em nova cultura e se conhece outras sociedades. E, ao longo de minha vida, como autodidata ou na escola, dediquei-me a aprender sobre outros povos por meio do estudo de idiomas. Já fiz incursões, mais ou menos aprofundadas, por inglês, francês, espanhol, alemão, russo, árabe, hebraico e italiano. E o melhor de tudo é que, quanto mais línguas se aprende, mais fácil se torna o aprendizado de outras novas!

A língua de Shakespeare e a de Cervantes aprendi praticamente por conta própria, como autodidata. Considero o conhecimento delas fundamental para qualquer um que queira ampliar seus horizontes. São idiomas de trabalho, essenciais para a sobrevivência no mundo moderno.

Já o apaixonante idioma de Molière, comecei a estudá-lo no meu querido Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho, o CIL (exemplo de escola pública de excelência), no qual viria a ser professor de francês em meu primeiro emprego com carteira assinada. Segui então para a Aliança Francesa, onde concluí os últimos graus de estudos de língua e civilização francesas, tendo prestado exames e obtido os diplomas de terceiro ciclo fornecidos pela Universidade de Nancy.

A língua alemã acho belíssima. Comecei a estudá-la na universidade, parei um tempo, e depois voltei com aulas particulares. A afinidade com o idioma de Goethe está além de qualquer explicação materialista – alemão, sempre aprendi com o coração! Também idioma fascinante é o de Tolstói e Dostoievski! Minhas primeiras lições de russo, ao final da Guerra Fria, foram na própria Embaixada da Rússia. Oxalá possa algum dia ler esses clássicos no original.

Já estudei árabe e hebraico (línguas arcanas, que devem ser compreendidas), e tenho conhecimentos de italiano (que sempre achei belo, particularmente por suas reminiscências do Latim). Ainda me aprofundarei nesses e em outros idiomas, para poder falar com um maior número de pessoas em sua língua natal. Realizo-me chegando a um lugar e conseguindo conversar com os locais em seu próprio vernáculo. Alguns chamariam isso de “complexo de Indiana Jones”.

Não me prolongarei mais tratando de meu fascínio pelas distintas maneiras pelas quais as pessoas se comunicam em todo o globo. Faltando 18 dias para meu aniversário de 40 anos, o que posso dizer é que minhas primeiras quatro décadas de vida foram muito mais divertidas graças ao aprendizado de línguas estrangeiras e, por meio destas, à vivência de outras culturas e ao conhecimento de pessoas e histórias fascinantes!

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22. A Cruz e a Rosa (19/11/2011)

Per benedictionem Rosae Crucis, non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam!

 

alt-cruz-rosacruzHá acontecimentos significativamente marcantes ao longo da vida de uma pessoa: o nascimento dos filhos, o primeiro casamento (ou o último), a aquisição da casa própria, a conquista do almejado emprego, a viagem dos sonhos, o lançamento de um livro, a conclusão de um curso superior, a obtenção de um título acadêmico… Cito aqui apenas alguns que marcam positivamente e deixam boas e eternas lembranças na mente e no coração.

Entre os episódios marcantes destes primeiros 40 anos, há um que está, indubitavelmente, entre os mais significativos: foi quando, aos 17 anos, tive a felicidade de ingressar na Ordem Rosacruz, AMORC. Desde então, os ensinamentos rosacruzes foram essenciais em minha formação intelectual, profissional, espiritual e, sobretudo, como ser humano. A Ordem é tão importante para mim, e minha afiliação trouxe-me tantos benefícios, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuir todas as bênçãos recebidas.

Mas o que é, afinal, a Ordem Rosacruz? A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), define-se como “uma organização místico-filosófica mundial, não-religiosa, sem fins lucrativos, cultural, educacional e apolítica, destinada ao autoaperfeiçoamento do ser humano, visando o despertar de seus poderes interiores, para uma vida mais plena e integral”. Está aberta a todo buscador sincero, todo aquele que deseje conhecer melhor sobre si mesmo e sobre o Universo. Em seu website (www.amorc.org.br), a AMORC destaca que “a Ordem conserva um conjunto de técnicas milenares, mas sempre atualizadas, comprovadas pelo tempo e capazes de promover este despertar.” Para os céticos, a única coisa que posso dizer, é que os ensinamentos da Ordem têm sido essenciais para mim.

A AMORC está presente em todos os continentes, e existe formalmente há séculos, seguindo uma tradição que remonta a milênios. Ademais, importante assinalar que a “AMORC integra em seu quadro pessoas de todas as raças, idades, posições sociais e de ambos os sexos, em clima de perfeita liberdade de pensamento”, tendo como meta “guiar o ser humano rumo à sua própria liberdade interior, na comunhão consciente com o Universo, por meio do autoconhecimento”. Grandes personalidades de nossa história foram rosacruzes.

AMORCMas o que é a AMORC para mim? Bom, a Ordem é, primeiramente, uma grande escola, onde pude aprender (e continuo aprendendo), sobre as chamadas leis naturais, as relações entre o homem e a natureza, com os outros seres humanos, e com o Criador, em um processo de autoconhecimento fundamentado na tradição das grandes escolas iniciáticas do passado. Os rosacruzes se definem, antes de tudo, como estudantes. E, uma vez que a AMORC não doutrina, mas sim orienta, desde o início de nossos estudos nos é ensinado a sermos “um ponto de interrogação ambulante”, a questionar todo o conhecimento que nos é transmitido, inclusive os ensinamentos da própria Ordem, e a buscar a resposta, primeiro, em nós mesmos, ouvindo a voz de nosso Mestre Interior. E como essa Escola tem-me ensinado sobre a vida!

A Ordem Rosacruz não é uma Igreja, tampouco o rosacrucianismo uma religião. Nesse sentido, na AMORC encontramos pessoas dos diferentes credos e percepções da Divindade: católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas… É fantástico conviver com homens e mulheres de distintas crenças, o que nos permite conhecer melhor sobre as grandes religiões e os aspectos positivos de cada uma. A única coisa que a Ordem nos pede é que acreditemos em um D’us, não importando como O chamemos ou O compreendamos. É por isso que, em nossas orações, os rosacruzes invocam “o D’us de seu coração, o D’us de sua compreensão”. Assim, apesar de não ser uma religião, minha amada Ordem é para mim um lar espiritual.

Outro aspecto marcante da Ordem Rosacruz é que, para mim, ela tornou-se uma segunda família. Ali conheci pessoas, homens e mulheres, de diferentes percepções sobre o mundo e sobre a vida, mas com inúmeros e significativos pontos em comum: a busca do conhecimento, o sentimento de fraternidade, o desejo de crescer espiritualmente e trabalhar pelo bem de toda a humanidade. De fato, é interessante como ali encontramos pessoas que parece que conhecemos há muito tempo, com quem nos identificamos automaticamente, como se já tivéssemos nos relacionado em outros tempos. Vejo nos rosacruzes meus irmãos e irmãs, e na Ordem encontrei grandes amigos, alguns fundamentais no meu desenvolvimento como ser humano e que estiveram presentes em momentos felizes, mas também em situações dolorosas, quando pude encontrar, entre os rosacruzes, o acolhimento que necessitava. São, portanto, minha família, minha grande família.

Nesta vida, meus vínculos com a Ordem Rosacruz, AMORC, são antigos, anteriores ao ingresso formal na organização. Explico: papai é rosacruz desde os anos sessenta. Nasci, portanto, em um lar rosacruz. Cresci sob a influência da Rosa e da Cruz, presente em minha vida já na mais tenra infância. E os laços com o rosacrucianismo são tão fortes e tão profundos, que não consigo me vislumbrar sem a Rosacruz. O rosacrucianismo é parte de mim, fui moldado rosacruz e pretendo continuar rosacruz até o fim dos meus dias (e depois dele).

Faltando 19 dias para meu aniversário, em um dia 19, queria declarar meu amor incondicional à Ordem Rosacruz, e a ela dedicar essas palavras, agradecendo ao Criador pela oportunidade de me levar a conhecer muito cedo o rosacrucianismo. E, repito, foram tantos os benefícios, tanto aprendizado, tantas as bênçãos alcançadas sob os auspícios da Rosa e da Cruz, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuí-los à AMORC. Assim, tento retribuir vivendo como rosacruz, pondo em prática os ensinamentos da Ordem e ajudando aos que necessitam.

Hoje, portanto, agradeço ao D’us do meu coração, ao D’us da minha compreensão, pela luz rosacruz em minha vida!

Além da gratidão, o outro motivo do texto de hoje foi para que meus amigos conheçam este aspecto tão influente em minha personalidade nestas primeiras 4 décadas. Saibam que têm como amigo um estudante que ora e trabalha sob os auspícios da Rosa+Cruz, pela glória de D’us e pelo bem da humanidade.

Avental R+C

21. Nova escola, novos desafios (18/11/2014)

Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.
Sócrates

Em razão do episódio frustrante ocorrido na Católica (vide texto de 17/11/2014), resolvi mudar de colégio para cursar o terceiro ano do Segundo Grau (“hoje Ensino Médio”). Após analisar algumas instituições, a escolha recaiu sobre o Colégio Leonardo da Vinci, tido como um dos melhores de Brasília. E, claro, com a nova escola, novos desafios.

O primeiro desafio no novo colégio era de ordem logística. O Leonardo situava-se na Asa Sul e eu morava em Sobradinho (para quem não é de Brasília, uma de nossas cidades-satélites)… e eu pegava ônibus. Utilizando-me dos modernos recursos do Googlemaps, pude verificar que a distância era algo em torno de 30 km e que, atualmente, a rota que eu fazia leva aproximadamente 1 hora e 30 minutos. Uma vez que minha aula começava às 7h10 da manhã, e que passava um ônibus a cada hora, associando-se a isso outros cálculos cabalísticos, para não chegar atrasado à escola eu tinha que pegar o ônibus nº 512 que passava pela minha parada às 5h38 da matina. Aqueles que me conhecem já imaginam a dramática situação!

Sou um animal notívago (sempre o fui!)! Durmo, normalmente, às 2h da manhã (para acordar, se possível, por volta das 8h). No meu último ano de ensino médio, eu tinha que estar na parada de ônibus às 5h35 no máximo, pois se perdesse o 512 das 5h38, chegaria bastante atrasado na escola! Com isso, tinha que acordar, normalmente, lá pelas 4h40 da manhã para tomar banho, vestir-me, fazer meu dejejum e sair correndo para o ponto! Desespero! Angústia! Sofrimento!

Alguns leitores devem estar dizendo “ah! mas eu acordo às 5 da manhã para malhar!”! Não tenho culpa se esses seres têm pacto com o Capiroto! Sim, porque não é de D’us acordar antes das galinhas (e eu levantava antes do galo cantar!), sobretudo para “malhar”! Ainda vou encontrar em algum artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que é violação grave fazer uma pessoa acordar a essa hora! Se não existir o artigo, deveria. E quando vinha o horário de verão, a coisa degringolava de vez! Para mim era terrível!

Penei bastante acordando de madrugada para ir ao colégio. Claro que logo desenvolvi técnicas para ganhar mais tempo na cama… coisas do tipo tomar banho em exatos 2 minutos e meio, deixar a roupa pronta para entrar nela pela manhã, tomar somente um copo de leite com Nescau de café-da-manhã (impensável sentar à mesa para um dejejum prolongado e frugal!). E fui vivendo. Naquela época, assim como Scarlet O’Hara, diante dos campos incendiados de Tara, disse que “nunca mais passarei fome nesta vida!”, eu também, ao concluir meu terceiro ano do Segundo Grau, olhei para a parada de ônibus e, de punho fechado, disse: “nunca mais passarei sono nessa vida!” (ou coisa parecida)…

A parada de ônibus e o próprio 512 constituíam um caso à parte e dariam muito boas histórias. Afinal, éramos as mesmas pessoas que pegavam o ônibus naquele horário: basicamente, estudantes e trabalhadores que tinham que estar cedo no emprego. Depois de um tempo, todo mundo já se conhecia. E eu, com minha dificuldade de me relacionar com as pessoas, logo já estava amigo e falando com todos na parada. Lembro-me de uma senhora gorducha que era empregada doméstica no Plano Piloto – divertidíssima, conversávamos sempre! Também havia, como tomávamos o ônibus já lotado e íamos em pé, as boas almas que se ofereciam para levar nossas (pesadas) mochilas no colo. No final das contas, virávamos uma comunidade no coletivo, unida pelo mesmo sofrimento no 512 das 5h38! Foi nessa época que desenvolvi algumas técnicas de sobrevivência (muito comuns em adolescentes que pegam ônibus em tais situações), com destaque para a de dormir em pé em um veículo em movimento – e, o melhor, sem perder o ponto, pois, se não acordasse, o pessoal do ônibus me acordava! Dentro daquela ideia de fazer do limão uma limonada, digo que era divertido!

Ah! E o colégio novo? O Leonardo era bem diferente da Católica. Muito maior em termos de turmas e alunos, com um horário a mais de aula, professores muito exigentes (e competentes, em sua maioria), tinha por objetivo central fazer com que seus alunos fossem aprovados no vestibular (a Católica se preocupava mais com a formação do estudante). E enfrentei ali grandes desafios, estudando pela manhã e à tarde, sob um sistema bem mais exaustivo que o dos anos anteriores (agradeço sempre por isso, pois assim fui preparado para o vestibular). Não foi fácil, mas consegui me manter entres os melhores alunos (em que pese minha total incompetência em Matemática).

Claro que as melhores lembranças do Leonardo foram os amigos. Certamente não eram tantos como os da Católica, mas na nova escola também fiz boas amizades que perduram até hoje! Eram várias turmas de 3º ano. Intrigante é que fiz amigos mais de outras turmas que da minha própria.

De todos os amigos do Leonardo da Vinci, registro meu abraço especial ao estimado Bruss. Bruss Rebouças Coelho Lima era seu nome. Um dos “nerds” de sua classe, sujeito simples, muito inteligente, espiritualista, culto e brincalhão, logo se tornou um bom amigo – alguém a quem, sem pestanejar, entregaria um filho para padrinho. Conversávamos sobre guerra e geopolítica, espiritualidade e problemas brasileiros. Era um conselheiro e um “grilo falante”. Tínhamos origens parecidas e opiniões coincidentes. E a amizade estendeu-se para as famílias – seus pais eram do Maranhão e do Ceará.

O amigo Bruss queria ser biólogo. E, no mesmo vestibular em que passei para Relações Internacionais, ele foi aprovado para Biologia na UnB. Continuaríamos nossa amizade na universidade e ambos seguiríamos carreira acadêmica. Acabamos perdendo o contato quando Bruss foi para a Alemanha fazer seu doutorado em neurociência, ali permanecendo e constituindo família (sua esposa, também cientista). Sempre que ele vinha por aqui, nos encontrávamos e botávamos o papo em dia. Também tinha notícia do amigo por meio de sua irmã, Biana, que continuava morando em Brasília. Bruss foi (é) um estimado irmão para mim!

Graças aos desafios que me foram impostos na nova escola, pude concluir um Ensino Médio de qualidade e prestar vestibular na Universidade de Brasília. Minha escolha, Relações Internacionais (curso que, à época, na área de Ciências Humanas, só era menos concorrido que Direito). Fui aprovado e, ao final de 1991, enquanto a União Soviética desaparecia, eu me preparava para virar estudante da área do conhecimento que buscava explicar o fenômeno da guerra e da paz, e porque nações desaparecem! Mas essa é outra história…

Faltam 20 dias para meus 40 anos. Vislumbrando como foi meu segundo grau, o saldo é mais que positivo! Os melhores dividendos foram, nesta ordem, os amigos que fiz, as experiências que vivenciei, e o conhecimento que adquiri. Tive excelentes momentos tanto na Católica quanto no Leonardo. E aquilo tudo foi realmente muito enriquecedor para o garoto de cidade-satélite, ainda bastante adolescente, que entrava em outro mundo… Enfim, cresci sobremaneira em três intensos anos!

Deixo hoje meu abraço aos colegas do Leonardo da Vinci. E a foto é de Bruss e Biana quando, muitos anos depois, meu amigo esteve de férias no Brasil e foi lá em casa. Velhos compadres se encontravam e parecia que havíamos nos falado, pela última vez, no dia anterior!

Bruss e Biana

20. O Segundo Grau e a primeira grande frustração (17/11/2014)

Não deixe as frustrações dominarem você, domine-as. Faça dos erros uma oportunidade para crescer. Na vida, erra quem não sabe lidar com seus fracassos.
Augusto Cury

A passagem do Primeiro para o Segundo Grau (hoje chamado de Ensino Médio) foi um momento importante para mim. Afinal, saia eu de uma escola pública (meu querido Centro de Ensino 03 de Sobradinho), a 7 minutos a pé lá de casa, para uma escola grande do Plano Piloto, em outra cidade, com pessoas desconhecidas de um ambiente social, econômico e cultural bem distinto do meu. Ademais, por ter adiantado dois anos na escola, iria começar meu primeiro ano do segundo grau com recém-completos 14 anos – criança de tudo! Mas meus pais acreditavam que a melhor preparação deveria ocorrer em uma escola do Plano Piloto… e lá fui eu estudar no Centro Educacional Católica de Brasília!

Por que a Católica? A resposta é pragmática: primeiro, porque meus pais tinham um amigo cujo filho já estudava lá (iria para o terceiro ano) e eu poderia ir de carona com eles para o colégio (evitava pegar ônibus na ida, portanto); em segundo lugar, e mais importante, porque fiz provas admissionais e ganhei uma bolsa de estudos para aquela escola (meus pais teriam grande dificuldade de pagar o colégio se não fosse assim). E lá fui eu (acho que já disse isso)!

Confesso que o começo foi assustador. Fisicamente, a Católica era um prédio grandioso! Três andares, grandes corredores, um pátio gigantesco! Afinal, a estrutura era de uma instituição de ensino superior – onde funcionava nossa escola durante o dia, à noite era a tradicional Faculdade Católica de Brasília (que depois seria transferida para a cidade de Taguatinga, em um campus enorme e se tornaria a primeira universidade privada do Distrito Federal). E eu, que vinha de uma pequena escola de cidade satélite (com, se não me engano, cinco pavilhões), sentia-me miudinho naquela instituição… algo parecido com o pobre lavrador que entra em uma catedral medieval…

Também não conhecia ninguém na minha sala. E aí as preocupações de todo adolescente recém-chegado em um grupo afloravam: “será que seria aceito? Como seriam os colegas? Mas e as nossas diferenças econômicas e sociais? Permaneceria isolado o resto da minha existência?” Felizmente, a relação com a turma superou minhas expectativas: o pessoal era simpático, amigo e logo estava integrado ao grupo! De fato, era um dos mais novos e mais baixinhos da turma, de modo que acabei, creio, sendo acolhido quase que como mascote… E dali surgiram boas amizades!

Claro que a época de segundo grau deixa saudades! As brincadeiras (e as brigas) em sala de aula, os professores, com suas peculiaridades (e como a turma aprontava com os professores!), as provas terríveis! E o que dizer dos passeios em grupo!?! (Uma vez fomos a uma caverna em Minas Gerais, com o Cleiton, professor de Matemática, mas sem equipamentos apropriados… nunca me esquecerei de nós entrando naquele buraco e depois tentado sair da caverna, sem uma percepção clara do perigo que corríamos). E havia os apelidos, as conversas durante o intervalo, os grupos que se formavam, as paixões platônicas (sempre fui tímido), as amizades eternas (enquanto durassem). Tinha também a “volta olímpica” que fazia, já no segundo ano, algumas vezes com meu amigo Delano Ferraz, cumprimentando e falando com todo mundo do colégio na hora do recreio! Enfim, até que nos divertíamos!

Fiquei dois anos na Católica. Em meados do segundo ano, uma situação tremendamente desconfortável me levou a decidir pela saída da instituição. Fui buscar essa história lá no passado, e a desenterrei para compartilhar com os amigos, pois foi uma grande frustração. Naqueles dias, a Católica foi chamada a enviar um de seus alunos para um programa promovido por uma das agências da Organização das Nações Unidas pelo continente americano[1]… Era uma viagem com tudo pago por diversos países, oportunidade única para o agraciado. A escolha do aluno se basearia no histórico acadêmico e nas notas… Sem dúvida, algo fascinante!

Para minha surpresa, fui selecionado! A alegria foi imensa! Afinal, o esforço pessoal era recompensado! E, para um garoto de família simples, que nunca teria qualquer condição de fazer uma viagem como aquela, era algo realmente inimaginável e grandioso! A turma, até onde me lembro, ficou contente com a escolha de meu nome! Era querido pelos colegas e alguns conheciam minha situação. Seria a viagem da minha vida!

A vida, porém, prega peças. Algumas semanas antes da partida, fui chamado à direção para conversar. Nunca esquecerei o episódio: secamente, em sem grandes justificativas, informaram-me que não seria eu mais quem iria participar do programa, mas um outro colega de minha turma. Ainda dói quando lembro disso, pois me senti preterido, destratado, desprezado pela escola de que tanto gostava! Sentia-me um lixo! E o pior, a decisão fora sem qualquer justificativa. Depois descobriria que o garoto era filho de uma autoridade… O único sentimento que me preenchia: frustração. Chorei, fiquei muito triste, deprimido mesmo. E aquela foi minha primeira grande decepção na vida.

Tentando recordar o episódio (e, muitos anos depois, conversando com alguns colegas da época), lembro que houve gente em minha turma que, quando soube do que ocorrera, ficou revoltada com a situação. A sensação de injustiça imperou nos colegas de sala, adolescentes que, como eu, não entendiam o significado da palavra desigualdade… Para piorar a situação, o garoto, Henrique era seu nome (sei o nome completo, mas não há necessidade de contá-lo), a quem até considerava um amigo, não era muito querido da turma, pois se mostrava pedante e rude algumas vezes.

Dentre os professores, houve quem me defendesse e reclamasse contra a injustiça. Outros, porém, decepcionaram-me, trabalhando nos bastidores pelo “rearranjo” em favor do Henrique. Isso certamente contribuiu para minha decisão de ir embora. No final das contas, o colega acabou viajando e participando do programa. Depois desse episódio, perdi completamente a vontade de permanecer na Católica.

Acho que esse foi o acontecimento que mais me deixou marcas do meu Segundo Grau. Para uma criança (e eu era uma criança), foi algo tremendamente frustrante essa primeira lição de injustiça. Hoje percebo que foi útil para meu aprendizado e para o valor que dou ao mérito e às pessoas pelo que são, e não por seus vínculos familiares ou por terem bons “padrinhos”. Nesse sentido, tomei consciência de que, por vir de família simples e ser “pagão” (não ter padrinhos influentes), teria que lutar para vencer na vida e que só poderia contar comigo mesmo para isso. E, se a vida é feita de injustiças, paciência! Faria do limão uma limonada, sempre!

Nunca havia comentado essa história com ninguém além de umas três ou quatro pessoas que, por serem meus colegas da época, vivenciaram meu sofrimento. Nem em casa se sabia da dimensão completa do episódio. Afinal, sempre fui muito reservado com meus sentimentos. Entretanto, faltando 21 dias para meu aniversário, achei por bem compartilhar o episódio nestas crônicas dos meus 40 anos. O melhor de tudo é que esses acontecimentos são, definitivamente, passado.

O que não é passado do meu período na Católica são as experiências de vida e, sobretudo, as amizades que cultivei naquele colégio. Sim! Fiz realmente bons amigos, que tive a mui feliz oportunidade de reencontrar aqui pelas redes sociais, depois de mais de 20 anos! A acepção de que o tempo é relativo pode ser fortemente confirmada em virtude da amizade! Não importa quanto tempo passe, quando se tem bons amigos, esse tempo, realmente, não tem qualquer importância.

Quero deixar aqui meu abraço fraterno aos colegas e amigos que fiz na Católica! Saibam que vocês foram tremendamente importantes para aquele garoto que descobria o mundo! Obrigado mesmo! Estão na minha memória e no meu coração, como parte expressiva dos meus primeiros quarenta anos de vida!

PS: só consegui colocar esta foto. Postarei outras em nosso grupo fechado da Católica.

[1] Depois, minha amiga Milene Martins dos Reis, ao ler meu texto, informou-me que não se tratava de um programa da ONU, mas sim era promovido pela Embaixada da Espanha. Chamava-se “Aventura 92”, e ocorria em comemoração aos 500 anos do descobrimento da América.

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19. Primos (16/11/2014)

A cousin is a little bit of childhood that can never be lost.
Marion C. Garrety

 

Para a maioria das pessoas, a convivência com os primos é algo rotineiro. Nas grandes famílias, é muito comum que primos se reconheçam como irmãos nascidos do ventre de outra mãe. Laços estreitos são estabelecidos e, em alguns casos, até matrimônios acabam acontecendo, o que pode garantir mais coesão nos vínculos familiares. Afinal, o clã se preserva na união entre seus membros.

Claro que os primos também podem estar associados a situações não tão agradáveis. Se houvesse estatísticas a respeito, certamente o primo, depois do cunhado, seria aquela referência complicada da família. Todo mundo tem um primo, próximo ou distante, que já se meteu em alguma confusão, que fez algo de errado, ou sobre o qual se tem alguma história inusitada para contar… Claro que é sempre com um primo que essas coisas ocorrem… E assim se constroem as anedotas familiares!

Sempre que penso em primos, não consigo deixar de lembrar das casas reais europeias… Fascinante como as grandes famílias nobres da Europa são compostas por primos, descendentes de um ancestral comum ou fruto dos casamentos dinásticos. Certa feita, só por curiosidade e para passar o tempo, fiz as correlações genealógicas entres os monarcas europeus do início do século XX, antes da Grande Guerra (tá, não é uma coisa que muita gente faça para passar o tempo… fazer o quê?!?)… Interessante como, graças à descendência da Rainha Victoria (a “grande mãe” das casas reais da Europa), todos eram primos! Jorge V, da Grã-Bretanha, e o Kaiser Guilherme II, da Alemanha, eram primos próximos, que, por sua vez, também tinham laços de parentesco com o Czar Nicolau II, da Rússia (há uma foto de George V e Nicolau II que mostra a semelhança entre os dois), cuja esposa, Alexandra, também era prima dos três (e fora disputada por Nicolau e George na juventude, dizem)! Por isso me encanta o lema da Casa de Habsburgo, da qual nosso soberano Pedro II era descendente direto: “Bella gerant alii; tu, felix Austria, nube” (“que outros guerreiem enquanto tu, feliz Áustria, celebras casamentos”). Pelo matrimônio, os Habsburgos se mantiveram como a principal Casa europeia durante séculos. (Fim das curiosidades monárquicas)

Eu, particularmente, e apesar de provir de família nordestina, nunca tive a felicidade de conviver de perto com meus primos. Havia a distância espacial e temporal que nos afastava! Afinal, tanto papai quanto mamãe viviam praticamente sem família aqui em Brasília. Daí que meu contato com tios e primos só se dava quando viajava para o Nordeste! Ainda em termos espaciais, nunca fui ter na infância com os primos do interior do Ceará, porque papai não retornara à caatinga de onde viera no início dos anos cinquenta. Assim, só houve contato durante minhas duas primeiras décadas de vida com a família de mamãe (à exceção de uma breve incursão feita aos oito anos ao Rio de Janeiro, onde visitei os irmãos de Seu Jacob que lá viviam).

De toda maneira, ao menos uma vez por ano ia para a casa de meus avós e de meus tios no Maranhão. Lá podia encontrar meus primos, que eram muitos, e aproveitar um pouco desses vínculos de sangue. E como gostava disso! Mas aí vinha a limitação temporal: eu era sempre o mais novo dos netos de Seu Sother e Dona Sidoca, o que muitas vezes atrapalhava as brincadeiras com os primos e primas. Vivia sempre sob a perspectiva do menorzinho do grupo, com os ônus e bônus desse posto. À medida que crescíamos, essa distância diminuía, mas o limite espacial se reforçava… O tempo passou, cada um seguiu sua vida, e hoje continuamos distantes fisicamente, mas mantendo bons contatos pela Internet. E viva as redes sociais!

Faltando 22 dias para meu aniversário, deixo meu abraço carinhoso a todos os primos e primas que, mesmo distantes fisicamente, têm um espaço reservado no coração. Afinal, sangue é sangue!

Seguem algumas fotos da tenra infância em companhia dos primos e primos no Maranhão. Eu sou o pequenininho no centro de uma das fotos e emburrado em outra. Pequeno, mas bravo!

18. Quando o Brasil foi Grande (15/11/2014)

O Império do Brasil é a associação Política de todos os Cidadãos Brasileiros. Eles formam uma Nação livre, e independente, que não admite com qualquer outra laço algum de união, ou federação, que se oponha à sua Independência.
Constituição do Império do Brasil, art. 1º.

 

GrifoNeste 15 de novembro, data que considero o dia da infâmia, e faltando 23 dias para meu aniversário, gostaria de compartilhar com os amigos algumas de minhas razões de ser monarquista convicto.

Preliminarmente, convém registrar que não estou aqui a fazer proselitismo. Não quero convencer ninguém de que o regime monárquico é a melhor opção (apesar da profunda convicção de que o seja). Só o que desejo é expor minhas razões. Sou monarquista desde que me entendo por gente, e poderei dizer a meus netos que meu primeiro voto foi no parlamentarismo monárquico, por ocasião do plebiscito de 1993. Àquela época votei com convicção e segurança – foi o voto mais valioso e valorizado que já coloquei na urna.

Outra coisa: espero que este texto ajude ao menos a remover alguns preconceitos para com a alternativa monárquica. É irritante as pessoas acharem que somos monarquistas por excentricidade ou anacronismo. Incomoda a crítica a esse modelo quando é feita sem nenhum conhecimento do assunto, sob o único argumento (imbecil, desculpem a honestidade) de que “monarquia é coisa do passado” ou de que “o modelo republicano é mais democrático”. Para esses, já respondo que a maior parte da população de países como o Reino Unido, Japão, Suécia, Noruega, Holanda, Bélgica, Dinamarca (que, junto com Canadá, Austrália e Nova Zelândia constituem democracias modernas e desenvolvidas sob um regime monárquico) não pensa assim. Antes de criticarem a monarquia, as pessoas deveriam se informar mais…

Moeda ImperioMuito bem! Perguntam a razão de eu ser monarquista. Repito, não tenho qualquer interesse personalista na causa monárquica. Só vim a conhecer alguém da Casa Imperial do Brasil este ano de 2014, quando me concedeu a Providência grata oportunidade de encontrar Dom Bertrand de Orléans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, com quem tive uma excelente conversa! Não estou formalmente vinculado a qualquer organização monarquista (o que não significa que não o farei oportunamente). Sou monarquista, primeiro, porque creio que uma boa democracia se desenvolve em regimes parlamentaristas e que, no Parlamentarismo, entendo que o melhor modelo é o monárquico, não o republicano. Repúblicas parlamentaristas são imperfeitas e o Presidente nunca consegue representar a totalidade da nação como o Chefe de Estado deve fazer (vide o recente caso alemão, quando o Presidente teve que renunciar acusado de corrupção).

Ademais, parece-me que o único lugar onde o Presidencialismo realmente deu certo foi nos EUA, onde eles criaram o modelo, e no qual a instituição “presidência” é sagrada. Por aqui pela América Latina, o que se viu foram republiquetas instáveis, com caudilhos lutando pelo poder, golpes de Estado e instabilidade político-institucional marcada por aspirantes vorazes a ditador ou megalômanos que chegavam ao palácio presidencial sem estar realmente preparados para ocupar a posição de primeiro mandatário.

Outra razão pela qual sou monarquista é que acho que à época do Império tínhamos instituições mais sólidas e valores mais consistentes. A figura do monarca ajuda nisso – por mais que pessoalmente ele possa ser cheio de imperfeições (caso contrário, não seria humano), como figura pública é um símbolo nacional, com valores que devem ser exaltados, servindo de exemplo à população. O povo precisa de heróis, o povo precisa de referenciais, e um soberano é muito útil para compor positivamente esse imaginário. Ademais, aquela foi uma época em que o Brasil, com todos os seus problemas de desenvolvimento e atraso social, tinha uma Economia estável, um regime com liberdade de imprensa, grandes estadistas na vida pública, e era respeitado no concerto das nações, isso muito se devendo aos soberanos que aqui reinaram. Foi uma época, realmente, em que o Brasil era grande!

Antes que venham os comentários pacóvios: monarquias são menos suscetíveis à corrupção que repúblicas, a começar pelo próprio Chefe de Estado. Um monarca não precisa roubar do erário. Afinal, se o fizesse, estaria tirando do próprio bolso e não faria o menor sentido degradar um patrimônio que ele iria deixar para seus filhos. E se roubasse, qual seria o sentido? Onde, quando e como gastaria o butim? Presidentes, por outro lado, têm que fazer seu pé de meia, para quando deixarem o poder…

A monarquia, ao contrário do pensam alguns, é muito mais barata que uma República. Saibam que a Presidência de um país como o Brasil gasta muito mais que qualquer Casa Real. E, ainda que as despesas fossem mais altas para manter uma família real (melhor manter uma família permanentemente que várias famílias de presidentes por sucessivos anos), alguém já pensou no custo do presidencialismo em termos de gastos com campanhas eleitorais periódicas? Quanto dinheiro público não é gasto a cada quatro anos somente com as eleições presidenciais?

Não quero, repito, convencer ninguém para minha causa. Escrevi este texto porque quero compartilhar com meus amigos, nestas Crônicas dos meus 40 anos, essa característica político-ideológica que para muitos me é tão marcante. Se você não gostar do que escrevi, paciência, não perca seu tempo tentando desconstruir meu discurso. Escrevo para aqueles que, ao menos, tenham um mínimo de discernimento e sensatez para considerar opiniões divergentes das suas, e que não sejam obtusos a ponto de simplesmente se fechar a qualquer argumento que não tenham facilidade de compreender ou que pensem ser contrário a sua maneira de ver o mundo.

Monarquia é sinônimo de estabilidade. Refiro-me a monarquias constitucionais, que fique bem claro. É instituição moderna (ao contrário do que muitos pensam) e tem aspectos muito positivos.

Este quase quarentão (eita, está chegando) pode afirmar com toda convicção que prefere ser súdito do Império do Brasil a cidadão desta (ou de qualquer outra) república… Viva o Império do Brasil! Pela restauração!

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17. Revistas (14/11/2014)

A paixão da leitura é a mais inocente, aprazível e a menos dispendiosa.
Marquês de Maricá

Uma das boas lembranças de infância era minha coleção de revistas em quadrinhos. Não gosto do termo gibi, acho feio. Por isso, uso revistas ou revistinhas.Turma da Mônica

Mamãe conta que, desde muito pequenos, ela nos estimulava a ler trazendo-nos revistas em quadrinhos: Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas (sempre fui fã incondicional do Tio Patinhas) e, naturalmente, os quadrinhos da Turma da Mônica. Com isso, já pequenininho estava a iniciar-me no maravilhoso mundo da leitura – e agradeço a Walt Disney e a Maurício de Sousa por isso!

As revistas em quadrinhos, portanto, fizeram parte de minha infância. E, claro, comecei a colecioná-las. Tinha centenas, e as organizava meticulosamente em uma pequena estante no meu quarto (detalhe: minha filha Victoria reproduz o mesmo comportamento). Era muito feliz com meus quadrinhos!

Pré-adolescente, descobri o mundo mágico das revistas de super-heróis: os termos “DC” e “Marvel” passaram a ser bastante familiares. E mergulhava naqueles universos fascinantes, aprofundando-me nos mitos de nossa geração, expressos e renovados nos quadrinhos de super-heróis: Batman, Super-Homem, Lanterna Verde, Liga da Justiça… Capitão América, Thor, Homem-Aranha (não gostava do Homem-Aranha), X-Men. Alguém já deve ter feito estudos sobre a mitologia dos quadrinhos de super-heróis e o quanto estes influenciam o imaginário das novas gerações desde meados do século XX.

Crise nas infinitas terrasÀ exceção dos X-Men, nunca gostei muito do universo Marvel. Minha simpatia esteve sempre com a Detective Comics (DC). E me divertia com os épicos que, vez por outra, surgiam nesses quadrinhos. Abro parêntesis para o comentário que só os nerds e fanáticos entenderão: a melhor série que li foi, em meados dos anos 80, “Crise nas Infinitas Terras”, que reorganizava todo universo DC, no qual havia mundos paralelos com “gêmeos” dos heróis dos nossos. Fantástico! (Fecha parêntesis e cessam os comentários nerd).

Assim, minha infância e adolescência foram muito agradáveis com os quadrinhos. Quando entrei no Segundo Grau (Ensino Médio de hoje), paulatinamente parei de lê-los… Nada traumático, apenas uma fase que acabava, perdi o interesse. Simples assim.

Hoje, ao contrário de muitos da minha geração, não tenho mais qualquer contato ou relação com revistas em quadrinhos. Ficam, porém, as ótimas lembranças desses tempos que não voltam mais.

Tio PatinhasDeixo também a recomendação aos pais: está aí uma excelente maneira de estimular a leitura dos filhos. Na casa de Dona Conceição e de Seu Jacob deu certo. Com Victoria e João também. Meus pequenos estão sempre lendo, estimulando o cérebro e aprendendo. E começaram com as revistinhas da Turma da Mônica. Fica a dica.

Neste 24° dia que antecede as comemorações de meus 40 anos (não são 40 décadas não! Nunca fui bom com números!), posto aqui a foto da Banca do Seu João, que ficava em frente à Administração de Sobradinho, onde meus pais tinham conta, e que muito frequentei. Passava lá quase todo dia para pegar revistas e conversar com Seu João! Bons tempos!

Salvo engano, depois que Seu João faleceu, a banca fechou. Eu realmente gostava dali. Minhas orações e lembrança hoje a meu amigo jornaleiro!

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16. Mães (13/11/2014)

MÃE…
São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
Confessam mesmo os ateus
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!

Mário Quintana

Há pessoas no mundo que nascem órfãs. Outras têm o privilégio de ter mais de uma mãe. Eu, felizmente, estou no segundo grupo. A 25 dias de comemorar minhas quatro décadas neste mundo, gostaria de apresentar a pessoa que me criou, que cuidou de mim enquanto minha mãe trabalha o dia inteiro e estudava à noite: a Rosa.

Roseni Alves da Silva é seu nome, mas todos a conhecem como Rosa. Maranhense, veio ainda mocinha para ajudar mamãe aqui em Brasília, em especial na criação de seu pequeno rebento (eu!). E fez um ótimo trabalho!

Incorporada rapidamente à família, Rosa cuidava de mim como de um filho. Conhecia os remédios e os telefones dos médicos (e me levava ao consultório, se necessário), fazia minha comida (cozinheira de mão cheia!), e me tratava com todo carinho e atenção!

Rosa era como uma segunda mãe para mim. Quantas vezes não comemorei meu aniversário com um bolinho caseiro, desses de caixa, feito por ela (com uns palitos de fósforo que serviam de vela)!?!? Quantas vezes, quando me machucava, era ela que me pegava nos braços, acalmava-me e passava remédio nos meus ferimentos? Quantas vezes ela não me levou para passear?

Rosa chegou menina lá em casa, cresceu, apaixonou-se, casou. Não foi feliz no casamento, mas teve quatro filhos, dos quais o único menino, o segundo filho, Eduardo, seria criado junto conosco, sendo afilhado de meus pais. Apesar de um período complicado na adolescência, Eduardo amadureceu, endireitou-se, entrou para a faculdade, formou-se, já concluiu Mestrado em Educação e hoje é professor. Por certo é motivo muito orgulho a sua mãe!

Devo muito a Rosa. E agradeço a ela publicamente no dia de hoje. Fica minha homenagem a todas aquelas pessoas que cuidam de nossa casa e de nossos filhos como se fossem delas! Vocês são tremendamente importantes!

Taí uma foto antiga, na qual eu, jovem de tudo, estou entre Dona Conceição e a Rosa. Só para registro: minha mãe preta não mudou nada todos esses anos!

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15. A Escola (12/11/2014)

Tenha em mente que tudo que você aprende na escola é trabalho de muitas gerações. Tudo isso é posto em sua mão como sua herança para que você a receba, honre-a, acrescente a ela e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos.
Albert Einstein

Agradeço muito ao Criador pela oportunidade de ter ingressado muito cedo na escola. Quando penso nas dificuldades de meu pai, que só conseguiu começar sua alfabetização aos 25 anos (e, digo isso com imenso orgulho) e, mesmo assim, concluiu, vitoriosamente e com muito esforço, dois cursos superiores, (Administração e Direito), e nas de mamãe, que conta como era complicado dispor de caderno, lápis e borracha em sua infância pobre no Nordeste (tendo ela também concluído Pedagogia, Estudos Sociais e Letras), vejo que a vida sempre foi muito complacente para comigo, que já com quatro, cinco anos, adentrava as portas do Instituto São José de Sobradinho e começava minha formação escolar.

Diante da história de vida de meus pais, e considerando que há milhões de pessoas neste imenso Brasil que não têm acesso a uma educação de qualidade, como crianças que tentam estudar em condições absolutamente precárias, sempre busquei valorizar ao máximo a oportunidade que me era dada pela Providência Divina de estudar e aprender. Vejo a escola como um lugar sagrado e os professores como sacerdotes que têm o mais nobre ofício de levar o conhecimento a outras pessoas. Daí meu entendimento de que a melhor forma de retribuir esta benção seria exatamente tornando-me o melhor aluno que minhas capacidades cognitivas permitissem. Minha forma de agradecer, portanto, era sendo um bom aluno.

Sim, sempre fui um bom aluno. Gostava de estudar. Tinha prazer em aprender coisas novas, em descobrir sobre o mundo. E, à medida que crescia, consolidava-se em minha mente e em meu coração a ideia de que só por meio do estudo e do conhecimento é que conseguiria alcançar os objetivos na vida. Junto com o exemplo de Seu Jacob e Dona Conceição (que sempre vi trabalhando e estudando), quando cheguei à terrível fase da adolescência, mais uma situação mostrava-se imperativa para me levar a estudar com esmero e tentar fazer o melhor que pudesse… Contarei aqui, pela primeira vez, nas próximas linhas, a outra grande razão que me impulsionava a estudar muito…

Sou o filho mais velho de uma família de classe média-baixa, que dependia basicamente do salário de meus pais, sem ajuda de mais ninguém. Quando nasci, papai tinha 42 anos. Cedo tomei consciência (e isso se me mostrava muito claro) de que talvez não o tivesse conosco por muito tempo. Portanto, tinha que crescer logo, arranjar um emprego, e garantir meu sustento próprio e, se necessário, o de minha mãe e irmãs mais novas. Não tinha padrinhos ricos ou influentes. Só podia contar comigo mesmo na adversidade (assim como ocorrera com meu pai). E me esforçaria sobremaneira para vencer e estar pronto, caso meu pai faltasse! Felizmente, Seu Jacob continua forte como um touro!

Nunca fiquei de recuperação, tampouco fui reprovado. Naturalmente, meus conceitos mais baixos no boletim eram em Educação Física. Em compensação era bom em Português, gostava de Geografia e era completamente fascinado por História. Como nunca compreendi Matemática (apesar de ter sobrevivido a ela), no Ensino Médio (que à época era chamado Segundo Grau ou Científico), fiz um teste vocacional, que comprovou o que eu já sabia: meu caminho era o das Ciências Humanas! Ótimo, as Humanidades estavam em meu futuro! E por aí seguiria!

Aos 16 anos, concluí o Ensino Médio. Ato contínuo, prestei o temível vestibular da Universidade de Brasília (naquela época durava quatro dias, não havia PAS, ENEM, nem formas de diluir o desespero dos estudantes de Segundo Grau em seu rito de passagem) para o então segundo curso mais concorrido da área de Humanas: Relações Internacionais. Era difícil, visto por muitos como um curso de elite, mas era o que queria.

Lembro como se fosse hoje quando lá em casa abrimos o jornal (não havia internet, e o resultado era divulgado cedo nos jornais impressos de Brasília), e vimos o meu nome entre os aprovados: mamãe chorava e, com um terço na mão, agradecia a D’us, e eu, aliviado, não conseguia acreditar que tivera êxito no primeiro vestibular, apenas com meu estudo doméstico (a velha fórmula horas/bunda/cadeira), pois meus pais não tinham como pagar cursinho pré-vestibular (nunca fiz pré-vestibular). Como prêmio pela vitória, fomos almoçar fora, em um restaurante self-service ali perto de casa (e, confesso, a comida estava especialmente saborosa!)!

Relações Internacionais era o que eu queria desde cedo! Futuramente, contarei um pouco da minha vida na universidade. Na mesma ocasião em que fui aprovado para Relações Internacionais, também passei para Jornalismo, no CEUB, hoje UniCeub (onde meus pais estudaram e onde eu próprio viria a me formar em Direito), mas acabei não me matriculando no curso, pois achei que ficaria muito pesado para um garoto de recém-completos 17 anos, morando longe e dependendo de ônibus, estudar o dia inteiro Relações Internacionais e à noite Jornalismo – ademais, meus pais enfrentariam dificuldades para pagar a faculdade particular. O interesse pelo Jornalismo permanece… quem sabe um dia…

Faltando 26 dias para celebrar meus 40 anos, gostaria de deixar minha homenagem aos responsáveis pelas minhas vitórias: meus professores. Da primeira professora primária a meu orientador no Doutorado, cada um dos meus mestres teve um papel único e relevante em minha formação. A eles serei eternamente grato e, lecionando, tento continuar portando a chama sagrada. Sim, porque no templo sagrado da sala de aula, a chama do conhecimento deve permanecer sempre acesa, pois é a transmissão do saber que nos faz mais singulares e humanos.

Hoje coloco duas fotos de 1980, quando de minha “formatura” do Jardim da Infância. Costumo dizer que, dentre os mestres, os primeiros professores costumam ter maior importância, pois se hoje sei ler e escrever, é porque tive uma professora primária que me ensinou a fazê-lo. Meu agradecimento especial a todas as “tias” do Primário!

A história dos vencidos

Como ontem foi a celebração dos 101 do Armistício de 1918, e hoje é nosso dia do livro aqui em Frumentarius, indico uma obra excelente que li faz pouco: The Vanquished, de Robert Gerwarth (New York: FSG Books, 2016). Muito bem escrito e com uma profusão de histórias, o livro narra como ficou a Europa (e sua gente) no imediato pós-guerra. A pergunta central do autor é: “Que razões fizeram com que a I Guerra Mundial continuasse mesmo após seu término oficial?”

Pouca gente se dá conta disso, mas as guerras continuam mesmo depois do fim oficial das hostilidades. No que concerne à Grande Guerra, mais alguns milhões de seres humanos morreram ou tiveram sua vida destruída após o 11/11/1918. Vale lembrar que a Guerra continuou na Europa Oriental e no Oriente Próximo, com conflitos localizados e guerras civis, das quais a principal referência foi a Guerra Civil Russa. O massacre continuou, portanto, pela década de 1920 adentro. 

Tenho-me interessado pela história do imediato pós-guerra, seja no final da Grande Guerra, seja no período que imediatamente se seguiu ao 8 de maio de 1945. Recomendo muito o livro. 

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Convite – Posse na Academia de Letras

É com imensa satisfação que convido meus leitores e amigos para nossa posse na Cadeira de nº 30, que tem por Patrono José Bonifácio, da Academia de Letras do Brasil/Distrito Federal (ALB-DF). 

O evento será nesta terça, dia 12 de novembro de 2019, às 18:00, no Parlamundi da LBV (SGAS Quadra 915 Lote 75/76, Auditório Tom Jobim, Brasília-DF). Será uma honra encontrar os amigos!

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Nunca serão esquecidos!

A noite de 11/11 já chegou, mas ainda há tempo de registrar aqui a importância desta data. Afinal, foi às 11:00 do dia 11 de novembro (11/11) de 1918 que entrou em vigor o armistício que pôs termo à I Guerra Mundial. Após quatro anos de conflito, a Grande Guerra já havia ceifado mais de 10 milhões de vidas, com toda uma geração sacrificada nas trincheiras da Europa, nas florestas da África, nos mares do globo.

Como já o sabem meus leitores, meu interesse pelo fenômeno da guerra é significativo, remontando a mais tenra infância. E, dentre todos os grandes conflitos humanos, a I Guerra Mundial é, indiscutivelmente, um dos mais marcantes, seja pelo romantismo que a caracterizou, pelos efeitos que causou (que nos influenciam até nossos dias), seja pela memória daqueles que lutaram e morreram no maior conflito que até então a humanidade conhecera.

Não tenho qualquer expectativa de fazer entender meus sentimentos com relação àquele conflito tão distante no tempo e no espaço. Afinal, são meus sentimentos, moldados não sei onde nem de que maneira. O que posso dizer é que hoje minhas preces serão para aquela geração que viveu a Grande Guerra. Meu respeito é por aqueles jovens que saíram de suas casas para combater pela pátria, mesmo sem saber direito contra quem e por quais razões matar ou morrer. Minha deferência para com tudo que significou aquele conflito, o qual para sempre mudou a História da humanidade.

E aquela gente sempre será lembrada! E seus feitos e suas histórias ainda ecoarão por muitas gerações! Que essa memória permaneça viva em nossas mentes e em nossos corações!

Remembrance-Sunday

Para quem tiver interesse em mais posts sobre a Grande Guerra ou sobre o Armistício de 11/11/1918, é só procurar aqui nas categorias Guerra e I Guerra Mundial. Pode procurar, ainda, digitando palavras como “Armistício”, “Flandres” e “Grande Guerra”.

14. O menino e a Guerra (11/11/2014)

Si vis pacem, para bellum.
Brocado latino

Hoje é 11/11/2014, e faltam 27 dias para meus 40 anos! Por mais estranho que possa parecer, o dia 11/11 é uma data sempre muito importante para mim… Afinal, foi na 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês do ano de 1918, que chegou ao fim a I Guerra Mundial, a Grande Guerra.

O menino e a guerra1Você deve estar se perguntando qual a razão dessa data ter algum significado para mim. De fato, ela nem é conhecida, tampouco lembrada, por 99,99% dos brasileiros! Por que alguém que nasceu e cresceu no Brasil, país sem tradição republicana de envolvimento em conflitos armados, se interessaria por polemologia (do grego, polémikus, conflito – o estudo dos conflitos)? O que tenho eu a ver com isso? Sinceramente, não sei… a única coisa que sei é que a guerra sempre me fascinou e o interesse pelos conflitos armados esteve junto de mim desde muito cedo…

Não tenho qualquer parente militar… De fato, talvez o parente mais próximo meu que tenha chegado perto da caserna deve ter sido algum primo que fez tiro de guerra no interior do Maranhão. Meu pai nunca teve qualquer interesse em assuntos militares, guerra ou história dos grandes confrontos bélicos. Nem filmes de guerra papai costumava ver. Durante toda a infância e juventude, estive inserido em instituições civis, jamais cursei escola militar e fui dispensado do serviço militar obrigatório por excesso de contingente. Apesar disso tudo, é inerente a minha pessoa essa fixação pelos grandes conflitos.

O menino e a guerra2Interessante que, na tenra infância, já lembro de brincar com meus soldados de plástico. Ah! Como gostava dos meus soldadinhos de uma única cor! Alemães azuis, japoneses amarelos, americanos verdes. Tinha também os soldados do Velho Oeste, com alguns de branco (que logo associava aos confederados se quisesse brincar de Guerra de Secessão), os azuis (da 7ª Cavalaria), e os vermelhos (índios que, normalmente, estavam em maior número e levavam a melhor). E tardes inteiras se passavam em batalhas constantes!

Geralmente, brincava só comigo mesmo… Meus pais não me permitiam brincar na rua com os outros meninos (não os culpo nem tenho qualquer queixa por isso!). Sobrava-me, então, divertir-me sozinho, brincando de guerra com meus soldados. E como gostava de comandar os exércitos! Sob meu comando, exércitos em lados distintos se digladiavam nas minhas brincadeiras infantis! E de nada mais precisava para ser feliz!

Qualquer brinquedo que ganhava, virava logo uma peça militar para as campanhas da infância… Se me davam um carrinho, obviamente ele se transformava em uma viatura. Minha madrinha costurava saquinhos de arroz, que eu usava como barricada para proteger minhas tropas. Era um aviãozinho que ganhei de aniversário? Não, uma aeronave de combate.

A falta de recursos financeiros e a criatividade faziam com que sucata e papelão fossem reciclados em brinquedos (nada comparado aos ossinhos de boi e os gravetos que papai usava como brinquedo em sua paupérrima e curtíssima infância – lembro que meu pai começou, de fato, a trabalhar com 5, isso, cinco anos de idade, ajudando na lavoura). Caixas de papelão viravam edifícios e casas, onde se escondiam soldados para trocar tiros com o inimigo. Barquinhos de papel só tinham razão de ser se fossem buques de guerra, com canhões de palito de fósforo, inclusive. E até potinhos de iogurte colados transformavam-se em “robôs-soldados” quando a brincadeira envolvia a guerra do futuro.

O menino e a guerra3Na minha infância, qualquer aviãozinho de papel virava uma aeronave de combate. E, com 7, 8 anos, já fazia esquadrilhas de cores e tamanhos distintos e, inconscientemente, reproduzia formações que depois viria a descobrir que existiram realmente durante as guerras mundiais: pequenos caças escoltando bombardeios. Não me pergunte de onde tirava essas ideias!

Nas poucas vezes em que estava com outras crianças, as brincadeiras descambavam para reprodução de batalhas. Uma casa em construção, por exemplo, era cenário perfeito para formarmos dois “times” e fantasiarmos um combate à la Stalingrado. Futebol, bola de gude ou pipa? Não tinha paciência para isso não…

Sempre me fascinaram os filmes e séries de guerra (posso assegurar, com relativa tranquilidade, que já vi a maioria produzida no Ocidente). Livros de história militar logo começaram a ocupar minhas estantes – conhecimento esse que, com imenso prazer, adquiria sobre as guerras da História, com ênfase nos dois grandes conflitos do século XX e na Guerra Civil americana.

O menino e a guerra6De armamentos entendo pouco. O que me fascinava mesmo era a estratégia, a maneira como os generais dispunham suas tropas, as grandes batalhas e, sobretudo, os efeitos da guerra sobre as pessoas… Sim, porque é na guerra que a condição humana chega aos extremos da perversidade e da benevolência, do egoísmo e da generosidade, do desprezo pelo outro e do sacrifício mais nobre, da traição e da mais canina fidelidade. Na guerra, as pessoas se revelam, e se transformam. E, qualquer um que tenha o infortúnio de viver a guerra, nunca mais será o mesmo! Minha fascinação pela guerra talvez repouse no fato de que ela parece ser uma condição essencial da natureza humana, e algo sempre presente desde que os primeiros homens caminharam sobre a terra!

Sempre fui um menino completamente aficionado pela guerra. Os cínicos ou os mais críticos dirão que é certamente porque não a vivi na pele. Para estes, sempre lembro de Sir John Keegan, provavelmente o maior historiador militar do século XX, falecido em 2012 aos 78 anos, que, em um de seus livros sobre a guerra, queixava-se de pertencer a uma geração que não mais convivia com o fenômeno que tanto o fascinava.

Haverá outros que se ofenderão com esse meu interesse na guerra. Mas o que posso fazer? Estou relatando o que sei e como me sinto! Não tenho culpa se é mais comum aqui no Brasil se interessar por futebol, ou por novela, ou pela vida dos outros. Eu, honrosa exceção, sempre fui fascinado pelo fenômeno da guerra! E isso é um aspecto importante dessas minhas primeiras quatro décadas encarnado neste plano!

Assim, aquele menino que brincava com soldadinhos de plástico cresceu, especializou-se em História Militar como hobby, coleciona (e assiste com frequência) filmes de guerra, tem prazer em ouvir marchas militares (mas não só elas, claro!), e está sempre a adquirir novos livros sobre os conflitos armados (muitos dos quais só espera ler na velhice – ou numa outra encarnação). Também se tornou especialista em Segurança Nacional e Defesa, trabalha com temas que envolvem diretamente as Forças Armadas, tem muitos amigos militares. E, quando viaja, o menino não visita estádios ou vai a teatros ou shopping centers (ou só a shopping centers). Quando viaja, o menino que cresceu busca encontrar e conversar com pessoas que viveram guerras, conhecer museus militares, campos de batalha e cemitérios onde repousam combatentes, para que possa render homenagem àqueles que sacrificaram o que tinham de mais precioso por uma causa, àqueles para os quais o tempo parou, àqueles que conservarão a eterna juventude, àqueles que sempre serão lembrados.

Para as crônicas de meus 40 anos, tinha que registrar essa característica que me é peculiar: o interesse pela guerra, desde pequenino, e sem qualquer justificativa ambiental, familiar, ou mesmo racional. Certamente os místicos têm explicação para isso. Mas essa é outra história…

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13. Vovô, o campo de batalha, e a Santa Isabel (10/11/2014)

A coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais.
Provérbios 17:6

Apesar do pouco que passamos juntos, Vovô Sother foi muito marcante em minha vida. “Seu Sota” lia muito (apesar de, como disse ontem, não ter concluído o ginasial), o que fazia dele homem de vasta cultura, sendo conhecido e respeitado na cidade de Caxias. Para mim, era aquele senhor muito magro e de cabelo absolutamente branco, de quem eu gostava de estar perto, pois sempre tinha algo para me ensinar sobre a vida.

Na minha infância, adorava quando, nas férias, viajava para Caxias para a casa de meus avós. Ali brincava em um imenso quintal, com uma grande mangueira ao centro, imponente e em cuja sombra repousava à tarde depois do almoço, degustando seu fruto como sobremesa! Corria pelo jardim cuidado por vovó, dormia em rede (coisa que não consigo fazer hoje), onde também balançava tanto, imaginando ser um piloto de guerra a bombardear as cidades inimigas, que uma vez caí e ralei as costas de um jeito que carrego a cicatriz do tombo até hoje! Bebia litros de Guaraná Jesus (sonho cor-de-rosa!!!), que meu avô comprava pouco antes de nossa chegada, e, repito, adorava ficar perto do velho Sother.

Também me divertia passeando pela cidade de minha mãe, onde ocorreram as batalhas da Balaiada. Ainda muito, muito pequeno, a felicidade era plena quando vovô me levava para o alto do Morro do Alecrim, onde havia ruínas do que fora uma construção bombardeada durante os combates e a praça com a estátua do Duque de Caxias, ladeada por dois canhões usados no conflito. Interessante o quanto gostava, desde a mais tenra infância, de locais de batalha e de temas relacionados à guerra – meus brinquedos sempre foram soldados de plástico, e todo carrinho que ganhava logo virava, de alguma maneira, um veículo militar requisitado pelas tropas…

Porém, o lugar mais marcante de Caxias depois da casa de meus avós era a Santa Isabel, um pequeno sítio comprado por Seu Sother e nomeado em homenagem a vovó Sidoca (cujo nome de nascimento era, de fato, Isabel). Ali, sempre me lembrarei da casa ao centro (pequena e simples, mas que para mim era gigante e um lugar a ser explorado, com baús que me reservavam tesouros históricos, e com peças antigas – como uma espada e algumas espingardas – pregadas às paredes!). E, diante da casa, a pitombeira! Ah, a pitombeira! Quem nunca teve o privilégio de experimentar pitomba não compreenderá o prazer de ficar embaixo da árvore e degustar aquela fruta pequena e suculenta. Sou aficionado por pitomba (talvez porque me remonte à infância no sítio)! Havia, ainda, o pomar em que se destacavam as diversas mangueiras, e uma área com muitas plantas, arbustos e árvores que, para mim, era a “mata” a ser explorada.

Ia muito com vovô a Santa Isabel. E adorava quando ele me entregava um pequeno facão e um cantil e me levava para desbravar a “selva”, onde minha imaginação me alçava à condição de grande explorador de uma floresta inóspita e desconhecida. O melhor de tudo, acompanhado de meu avô, que sempre tinha muito a me ensinar.

Aspecto interessante de vovô é que ele, na infância, vivera com os índios no Maranhão. Apesar de loiro e branco, aprendera muito com o povo da floresta (para usar o jargão do momento), a quem muito respeitava. Conhecia plantas e animais, sabia fazer pintura de guerra com urucum, e sempre tinha um ensinamento indígena a transmitir quando nos embrenhávamos pelas trilhas da mata da Santa Isabel, abrindo caminho a facão entre os arbustos! Essas experiências, de quando era bem pequeno, ficaram marcadas na memória e no coração.

Sinto muita saudade do velho Sother. As crianças deveriam poder passar mais tempo com seus avós, que não poderiam partir tão cedo. Hoje, faltando 28 dias para meu aniversário de 40 anos, enquanto escrevo este texto me veem lágrimas aos olhos junto com a memória das últimas imagens de vovô: estava eu sentado no chão de piso quadriculado, brincando com meus soldados, próximo a sua cadeira de balanço, e ele alegre a conversar com meus pais sobre um livro de troças em forma de poesia, de onde destacara uma quadrinha, da qual, mesmo com meus oito ou nove anos, talvez menos, ouvi uma vez e nunca esqueci, pois associo o poeminha diretamente à imagem sorridente de meu avô:

Chegava o compadre a reclamar com o outro sobre os desmandes da vida. Depois de perguntado sobre o porquê de estar aborrecido, respondeu sobre sua lida:

– Ora, cumpadi! Há quatro coisas no mundo que atormentam um cristão: uma mulher ciumenta, um menino chorão, uma casa que goteja e um burro topão!

Ao que o outro compadre retruca:

– Meu cumpadi, não se incomode com isso! Para tudo tem solução: o menino, a gente acalenta; a casa, a gente retelha; o burro se apara os cascos; tudo isso se arremedeia!

– Mas cumpadi, pergunta o aborrecido, e a mulher ciumenta?

– Ah, cumpadi! O diabo da mulher ciumenta, a gente só resolve na peia!

Troça simples e de um humor até questionável nos atuais tempos do politicamente correto, mas meu avô tirara de um livro seu. Nunca esqueci dessa historinha, que foi a última que ouvi do pai de mamãe. Algum tempo depois, aos oitenta anos bem vividos, um câncer de pulmão o levaria – Seu Sother fumava muito, e seu último pedido, antes de falecer, foi por um cigarro…

Agradeço sempre ao criador por ter colocado o velho Sother, ainda que por pouco tempo, em minha vida. Ele permanece em minha memória e em meu coração.

As fotos de hoje foram tiradas em Santa Isabel. Devo estar com uns quatro ou cinco anos nelas. Na primeira, encontro-me na mata, escondido entre os arbustos, como um guerreiro de selva! Já na segunda, no tanque de água que para mim era uma grande piscina, praticava as técnicas de mergulhador de combate! Ser criança é sempre muito bom!

Santa Isabel

12. Meus avós (09/11/2014)

Uma geração contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos.
Salmos, 145:4

20141101_193013-3-1-1Faltam 29 dias para meu aniversário!!! Na sequência das crônicas de meus quarenta anos, o texto de hoje é dedicado a meus avós.

Avós são fundamentais na vida de qualquer criança. Quando se tem a oportunidade de ter os quatro junto, a felicidade é certa.

Tive pouco contato com meus avós. Os paternos não conheci. O pai de meu pai, José Jacob Gonçalves nasceu em 1864 (ano em que o Paraguai atacou o Império do Brasil, iniciando a maior guerra que a América do Sul já vivenciou). Sim, meu avô paterno é da segunda metade do século XIX e papai é o penúltimo filho de seu segundo casamento. Minha avó paterna, Dona Carminda, também não conheci, pois faleceu nos anos cinquenta (bom lembrar que, quando nasci, papai já tinha 42 anos). O que sei sobre eles é que meu avô era lavrador e vovó cuidava da casa. Sertanejo, analfabeto, Seu José Jacob deixou para os filhos dois grandes legados: a honra (pois sem ela um homem não é homem); e longevidade (sim, porque vovô viveu até quase cem anos, e tenho tios e tias que alcançaram um século de vida). De Dona Carminda, por sua vez, a lembrança que meu pai nos conta era de uma mulher de fibra que amou e criou seus filhos com dignidade. Gostaria de tê-los conhecido.

Da parte de mamãe, pude conhecer, ainda que brevemente, meus avós: Sother e Isabel (Sidoca). A lembrança que tenho de Vovô Sother é de um homem sério, inteligentíssimo (apesar de não ter completado o ginasial, lia muito, e tinha um vasto conhecimento das coisas do mundo).

Vovô Sother sempre foi o patriarca de um clã que, como disse, rendeu muitos bons frutos. Ao fechar os olhos e pensar no meu avô, vem-me à cabeça ele sentado em uma cadeira de balanço, cabelos completamente brancos, e um livro ou um jornal nas mãos. Como eu era o mais novo dos netos, sentia com ele um vínculo muito forte.

Já de vovó Sidoca, creio que nascida em 1912, típica avó, gordinha, simpática e uma cozinheira de mão cheia, a recordação que tenho é de um grande sorriso, e de amor e carinho incondicionais! Pena que a conheci pouco, pois faleceu quando eu tinha uns cinco ou seis anos, vítima do diabetes. Vovô partiria algum tempo depois, deixando uma saudade e um vazio nos sete filhos, nas dezenas de netos, e naquele garotinho em particular que adorava quando chegavam as férias e podia ir a Caxias encontrar o avô, que era uma grande referência.

Não tenho muito mais o que dizer de meus antepassados. Mas o que sei é que sinto muito orgulho de trazer comigo essa herança genética de homens e mulheres fortes, honrados e amorosos. É fascinante pensar que cada ser humano é o resultado de milhares e milhares de anos de evolução e carrega consigo no DNA um legado de homens e mulheres que remonta o início dos tempos. Há que se honrar os antepassados! E a melhor maneira de fazê-lo, creio eu, é preservando a memória dos que o antecederam conduzindo-se com a retidão que justifique honre toda a corrente que veio antes.

Já filosofei muito! Fotos de Vovô Sother e Vovó Sidoca.

Em tempo: amo o nome de meu avô! Sother, em grego, significa Salvador. Acho tremendamente forte e significativo. Queria muito ter dado a meu filho o nome de João Sother, mas a mãe o vetou…

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