41. Quarentão! (08/12/2014)

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.
Charles Chaplin

Cheguei aos 40! Confesso que a sensação ainda é muito complexa para ser descrita… Foram anos de caminhada que, espero, seja apenas um terço desta senda (sim, se puder optar, desejo viver bem até, pelo menos, 120 anos!).

Vejamos o que o Universo me reserva daqui para frente! Do que recebi até hoje, só tenho que agradecer! As histórias do porvir, espero que sejam muitas, serão contadas a partir de agora, e estou ansioso em conhecer as pessoas que cruzarão meu caminho, os lugares por onde passarei, as experiências que vivenciarei!

Obrigado, querido leitor, por me acompanhar nessa jornada de quarenta dias das Crônicas dos meus 40 anos! Oxalá ainda tenhamos muito o que contar, novas narrativas que chegarão nas Crônicas dos meus 50, dos meus 60, dos meus 80! Que possamos ainda ter muito o que conversar! Que possamos viver o presente a cada dia, lembrar com um sorriso do passado, e construir um grande futuro, o nosso futuro!

Você agora me conhece um pouco mais. Fiquei, realmente, surpreso e feliz com o retorno dos amigos acerca do que escrevia ao longo das últimas semanas! Busquei abrir meu coração e contar episódios da minha vida, falar sobre pessoas marcantes, compartilhar momentos e emoções com os amigos. Que minhas experiências lhe tenham agradado, e que o que vivi possa lhe ajudar a entender um pouco as oportunidades que surgirão em sua vida, a superar seus obstáculos e a vencer seus desafios!

E, como hoje é meu aniversário, vou pedir-lhe, querido leitor, um presente! Afinal, sempre gostei de ganhar presentes, não é? Então, por favor, preste atenção!

Como presente de meus quarenta anos, peço que você, querido leitor, nunca desista de seus sonhos, tenha certeza de que você é o senhor de seu futuro e, acima de tudo, lembre-se sempre de agradecer pelas bençãos do Criador! E, como agradecimento, retribua presenteando a alguém, seja com um sorriso, seja com um abraço, seja com um conselho ou uma palavra amiga! É isso que gostaria de você hoje!

Receba, junto com minha gratidão e meu pedido, meu abraço fraterno, um grande abraço a você e a todos que acompanharam as Crônicas dos meus 40 anos. E vamos a mais quarenta!

Eu

40. Gente de Bem (07/12/2014)

Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles gostam.
Platão

Neste último dia que antecede meu aniversário de quarenta anos, gostaria de dedicar a derradeira crônica a algo que me foi muito marcante em 2014: a decisão pela carreira política.

Aqueles que me conhecem desde priscas eras sabem que sempre mantive grande paixão pela política. Apesar de não me engajar diretamente em nenhum partido ou movimento, já muito jovem tinha interesse pela forma como eram conduzidos os caminhos do País. Porém, uma vez que devia trabalhar para vencer na vida, deixei adormecida a vontade de me envolver mais efetivamente com a nobre arte.

Foi apenas agora, com quase 40 anos, e já estabelecido profissionalmente, mais maduro e estabilizado, e diante da situação enlameada em que se encontra o País e da escassez de líderes, de gente comprometida com o interesse público, de gente de bem na Política (não disse que não existe gente séria nesse ramo; disse que estão escassos), decidi que era chegada a hora de arregaçar as mangas, mostrar a cara e tentar fazer alguma coisa pelo futuro de nossos filhos. Candidatei-me a deputado federal, aqui pelo DF.

Como também é do conhecimento de muitos, acabei renunciando, após cerca de um mês de campanha. O que posso dizer sobre os motivos, além do que já assinalei em minha carta aberta de renúncia, é que não aceitei proposta que me foi feita para me desviar dos objetivos. Seu Jacob e Dona Conceição ensinaram-me que valores e princípios não são negociáveis. Por isso, para não começar errado, preferi adiar o projeto político.

Campanha1

Que fique claro que só adiamos nosso projeto de atuar na esfera política (por um Brasil melhor, mais justo e perfeito)! Como disse meu amigo Leonardo Gadelha (ele próprio da estirpe de bons políticos), uma vez inoculado pelo vírus da Política, não há cura ou antídoto. E, no tempo de campanha e pré-campanha, acabei contaminado por esse bem!

Da experiência deste ano, tirei muito aprendizado. Conheci um pouco dos meandros da política no DF, vi algo do tabuleiro e da maneira como as peças são dispostas. Circulei muito pelo Distrito Federal, e observei o quanto estamos carentes de bons políticos, de gente honrada que esteja disposta a trabalhar pelos outros, e a colocar o interesse público acima do particular. Amadureci. Saí diferente do que era quando entrei.

Mas, indubitavelmente, o melhor desse período foi a possibilidade de conhecer pessoas, reencontrar amigos e reunir um grupo maravilho de cidadãos para discutir sobre os problemas do DF e do Brasil e nos ajudar a tentar mudar nossa terra para melhor. Foi, verdadeiramente, uma experiência gratificante, enriquecedora. Muito bom conseguir reunir gente de bem em torno de uma causa! Muito bom saber que há gente como a gente, mais do que se imagina, interessada em um Brasil mais igualitário, democrático, livre da corrupção e do assistencialismo que mantém milhões sob a égide de grupos com interesses pouco republicanos.

Campanha3Repito que não desistimos dessa caminhada. Apenas seguramos um pouco o passo. Não sei se serei candidato em 2018. Ainda estou sem partido e muito pode acontecer nos próximos anos. Porém, a equipe que nos apoiou continua unida e desejosa de fazer algo, e a ela já se juntaram mais pessoas de bem. Se não for na política partidária, estaremos presentes e prontos, atuando em outras esferas, para contribuir por uma sociedade melhor.

Neste último dia antes de meu aniversário, nesta última crônica dos meus quarenta anos, quero agradecer a todos que me apoiaram, diretamente compondo nossa grande equipe, divulgando nossa candidatura, ou mesmo votando em nós e acreditando em nosso projeto, porque vocês fizeram a diferença! Sinceramente, muito obrigado por confiarem que podemos fazer algo distinto do que está aí, que podemos trabalhar por um Brasil melhor, e com mais gente de bem na política. Meu fraternal abraço a todos que estiveram conosco nessa caminhada!

[Nota: em 2018, decidi não me candidatar. O resultado das urnas, de toda maneira, trouxe uma nova esperança. Oxalá os eleitos em 2018 possam conduzir o País para um novo rumo, combatendo a corrupção, reconstruindo o País e contribuindo para um Brasil melhor!]

Campanha2Campanha4

 

39. Sonhos, títulos e livros (06/12/2014)

O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã.
Leonardo da Vinci

De que adianta ter conhecimento e não-lo transmitir? O conhecimento é como o sorriso, seus efeitos são muito maiores se compartilhados. Faltando 2 dias para meu aniversário, resolvi dividir com os amigos alguns aspectos de minha formação acadêmica e das obras que escrevi.

Os rosacruzes ensinam tradicionalmente que qualquer criação no mundo material deve começar com um projeto nos planos mental e espiritual. Em outras palavras, conquistas de hoje são sonhos de ontem realizados – ao menos para quem realmente tem conquistas, pois há pessoas que conseguem viver passivas, aguardando tudo cair em suas mãos (em geral, são acomodadas e, ainda que a Providência lhes traga grandes riquezas, não dão o devido valor e permanecem com um vazio que não conseguem preencher).

Sempre tive que batalhar para alcançar o que desejava. Nunca me acomodei. Mas todas as vitórias se forjaram, primeiro, em sonhos que ansiava realizar. Sim! Sonhar é bom e tem efeitos muito positivos. E, a melhor maneira de fazer os sonhos realidade é trabalhando para torná-los concretos e, isso aprendi também com os rosacruzes, construir no plano mental os alicerces para as realizações, o que é feito por meio da técnica milenar da visualização. A fórmula é: sonhar, visualizar, trabalhar, realizar (ou saber, ousar, querer e calar, diriam os sábios).

Nos primeiros 40 anos de vida, concluí um Mestrado, um Doutorado, quatro Especializações e duas Graduações. Publiquei alguns livros. Busquei difundir conhecimento. E todos esses projetos nasceram de sonhos que, com visualização, planejamento, e muito esforço e dedicação, tornaram-se realidade.

Tenho sede de conhecimento. Desde cedo, busco ampliar meus horizontes e obter mais e mais informações sobre o mundo e as pessoas. Por isso gosto de estudar. Daí as duas graduações, as especializações, o mestrado e o doutorado. E não pretendo parar por aí. Só pararei de estudar e de buscar conhecimento quando passar pela maior e mais certa experiência de todos os seres vivos: a Grande Iniciação. E quanto mais conhecimento obtiver, mais pretendo difundi-lo, seja por meio de aulas, palestras, artigos ou livros.

Livros1

Não fiz um Mestrado só por fazer. Não me contentaria com mais uma dissertação acadêmica esquecida nas prateleiras de um repositório na universidade. Ingressei no mestrado com uma proposta de estudo sobre integração latino-americana. Claro que logo mudei meu tema: decidi tratar de um assunto sobre o qual nenhum outro lusófono já havia tratado em um trabalho de pós-graduação: o Julgamento de Nuremberg.

Poderia passar horas dissertando sobre Nuremberg (pouparei o leitor disso, fique tranquilo). O que me levou a estudar o caso, a ir aos autos (42 volumes em francês, que encontrei na Biblioteca do Superior Tribunal Militar, em Brasília), transportar-me para a sala de audiências daquela corte, naqueles onze meses de 1945 e 1946, foi a vontade de conhecer sobre a natureza humana, sobre a história do maior conflito de todos os tempos, e sobre o julgamento dos acusados de crimes de guerra, crimes contra a paz e contra a humanidade. E tive uma experiência tremendamente fascinante, envolvente. Éramos eu e os réus, juízes, promotores e testemunhas de Nuremberg.

Após três anos de intenso trabalho e uma Dissertação de mais de 300 páginas, fui aprovado pela banca examinadora e obtive o título de Mestre em História (lembrando que História é uma grande paixão). Interessante que a outorga do título, feita na hora pela Presidente da Banca (minha orientadora e amiga, Albene Menezes) teve efeitos de um gesto final de uma iniciação, como se a espada do conhecimento estive colocada sobre minha cabeça. Esse momento, no Mestrado, foi mais importante que qualquer outro título futuro, e jamais me esquecerei dele.

Como o título de Mestre, estava habilitado a lecionar no ensino superior. Foi o que fiz. E pude difundir conhecimento. E ali começou a trajetória como professor universitário, que nunca abandonei, pois, como já disse em outra crônica, aprendemos muito dando aula e com nossos alunos.

Mas não consigo ficar quieto. Por ser inédito, achava que o tema de minha Dissertação poderia dar um bom livro. Fiz algumas adaptações, apresentei a editoras de Brasília e de outras cidades. Algumas não deram resposta, outras retornaram dizendo que não tinham interesse, e uma, daqui de Brasília, deixou-me em banho-maria por vários meses para, no final, retornar dizendo que não valeria a pena publicar meu livro. Essas repostas seriam suficientes para fazer desistir a muita gente, mas não a mim. Continuei tentando. Meu sonho era publicar um livro sobre o Julgamento de Nuremberg.

Foi quando recebi uma carta de uma editora de médio porte do Rio de Janeiro, a Renovar, interessada em publicar a obra. Aceitei a proposta. Passados alguns meses, saiu a primeira edição, cujo lançamento foi em setembro de 2001: “Tribunal de Nuremberg, 1945-1946: a Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional”. Apesar de muito específico, o livro rendeu uma segunda edição, em 2004. E o nome do filho de Seu Jacob e Dona Conceição ficou associado definitivamente ao Julgamento de Nuremberg aqui no Brasil.

O primeiro livro trouxe grandes satisfações, não em termos de direitos autorais, mas de difusão de nossas reflexões e projeção de nosso trabalho. Também conseguiu alcançar o público em geral, o que me deixou tremendamente feliz. Afinal, busco escrever de maneira simples, pois me alegro quando descubro que meu texto é compreendido por “não-iniciados”. Isso me realiza. E aqui conto um episódio que me deixou muito feliz: certa feita, encontrei meu amigo Erick Vidigal, com sua filha de 15, 16 anos, lá no Ceub (a faculdade onde Erick e eu lecionávamos). Qual não foi o regozijo quando me disse que ela havia lido o “Tribunal de Nuremberg”, gostado, e tinha alguns comentários a fazer sobre o caso! Ganhei o dia!

O Tribunal de Nuremberg encontra-se esgotado. Desde 2006, a Editora não me presta contas sobre as vendas ou a situação do livro. Tentei inúmeros contatos, sem sucesso. Isso me decepcionou muito com uma editora que reputava séria. Pretendo atualizar o livro e buscar outro editor que queira republicá-lo. Quem sabe não o consigo com quarenta anos!

Quando se acaba um mestrado, ainda mais como foi o meu, a sensação é de que você vai embora da universidade e deseja nunca mais passar por lá. Isso é perfeitamente normal e aconteceu comigo. Mas a sede de continuar os estudos, o sonho de progredir academicamente, e a ânsia por conhecimento me fizeram voltar, em 2004, para um programa de doutorado. A proposta inicial da tese era sobre o Brasil e questões de Defesa na América do Sul – coincidentemente, um certo professor da UnB a quem mostrei minha proposta de trabalho, algum tempo depois, montou um projeto de pesquisa em termos muito parecidos, com o qual conseguiu alguns recursos, inclusive de fundações estrangeiras (ali conheci mais uma faceta da canalhice acadêmica!). Mas acabei mudando para um assunto que me apraz ainda mais que Defesa: Inteligência.

Foram quatro anos de doutorado, com uma pesquisa aprofundada que rendeu uma Tese de cerca de 800 páginas (fora os anexos, que entreguei em CD) sobre os sistemas de inteligência no Brasil e no Canadá e seus mecanismos de controle – outro assunto inédito no País. Ao final de seis horas de banca examinadora, fui aprovado e recebi o título de Doutor em Relações Internacionais. Mais um sonho realizado! Era o primeiro com mestrado dos dois lados da família, e também o primeiro com doutorado. E, o melhor de tudo, conhecia mais sobre Inteligência ao final do doutorado do que quando ingressara nele!

Li uma vez que não adianta ter doutorado e não dar bom dia ao porteiro. Concordo plenamente! Mesmo com todo o esforço para gerar a tese, posso assegurar que um título de Doutor não faz ninguém melhor que outra pessoa. E se tentarem afirmar de forma diferente, estão mentindo. Não adquiri superpoderes, não fiquei mais inteligente, e continuo com os mesmos anseios e necessidades de todo ser humano. Por isso, quando um idiota pernóstico vier tripudiar sobre alguém se dizendo melhor porque é “Doutor nisso ou naquilo”, tenha a absoluta certeza de que a maior característica dessa pessoa, e que a diferencia de você, é que ela é “um idiota pernóstico”.

De toda maneira, o doutorado me permitiu alçar voos mais altos e obter certo reconhecimento no meio acadêmico e na comunidade de inteligência. E, como não poderia deixar o conhecimento apodrecendo como água parada, tenho buscado publicar com constância sobre o assunto, com destaque para os dois livros “Atividade de Inteligência e Legislação Correlata” (já na terceira edição) e “Políticos e Espiões: o controle da Atividade de Inteligência” (caminhando para a segunda). Daí advieram palestras, cursos e artigos… E pude contribuir para difundir o conhecimento sobre um tema tão hermético.

Enfim, nestes primeiros quarenta anos, busquei adquirir o máximo de conhecimento que consegui. E, sob a proteção do Criador, pude compartilhar com muita gente esse conhecimento, o que me deixa bastante realizado. Pretendo continuar estudando, lecionando, escrevendo, palestrando, adquirindo e difundindo conhecimento. Sou feliz assim. E pretendo fazer muito mais nos próximos quarenta anos.

Em tempo: seguem algumas fotos de lançamentos de meus livros, oportunidade sempre muito agradável de encontrar os amigos!

[Em 2019, o Atividade de Inteligência encontrava-se na 6ª edição, o Políticos e Espiões na 2ª, havia publicado outro livro, Terrorismo: conhecimento e combate, em parceria com meu amigo Marcus Reis, e não parei de escrever…]

Livros2

236-baixa-resolucao

38. Pequeno grande homem (05/12/2014)

Vossos filhos não são vossos filhos. 
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 
Pois assim como ele ama a flecha que voa, 
Ama também o arco que permanece estável.
Gibran Khalil Gibran

 

Os místicos sabem que, pelas leis cármicas, uma família é brindada com filhos essenciais para seu aprendizado. Certas escolas ensinam que a personalidade-alma escolhe o lugar e a família em que pretende encarnar. Assim, cada filho é uma benção, uma oportunidade de crescimento para os pais, e um ser para com o qual se deve ter toda responsabilidade. Não é à toa que os chamamos de “presentes de D’us”.

Fui abençoado com o nascimento dele, com sua escolha de nascer no seio de minha família. E ele veio e se mostrou como o ser humano mais maravilhoso que conheci em toda minha existência. É inteligente, amigo, companheiro, alegre, sábio, responsável e nobre. Impressiona quantas qualidades podem se acumular em uma criatura tão jovem e pequena.

Desde bem criança, já demonstrava uma preocupação com o outro que falta a muitos adultos. Sua sensibilidade para com a dor e o sofrimento alheios surpreendem. Sempre alegre e paciente, percebi nele também equilíbrio e senso de responsabilidade pouco comuns entre os da sua idade. E é de uma bondade cativante – não por acaso, seu nome em hebraico significa “D’us é bondoso”.

Também é um sujeito que gosta de gente. Ainda bem pequenininho, falava com todo mundo e tinha usualmente um elogio que deixava a pessoa completamente seduzida. É popular entre os colegas. Relaciona-se bem com todos. Lembro-me quando foi escolhido, com 4 ou 5 anos, para representar São José no Auto de Natal de sua turminha da escola. Sorrio sempre que me recordo da imagem do “meu São José” chegando em Belém, puxando Nossa Senhora em um cavalinho de madeira, e saudando a todos que assistiam à apresentação, enquanto caminhava pelo palco: “Oi, tudo bem?”, “Como vai?”, tchauzinho para cá, tchauzinho para lá, representou de maneira pouco usual o São José bíblico.

Teria sido também sua popularidade a causa de uma namoradinha da escola – tinha duas, conta ele (de nomes iguais para evitar confusão, creio) – ter decidido não querer mais nada com ele. “Ela disse que eu falo com todo mundo e por isso não quer mais saber de mim! Tudo bem.”, comenta com uma tranquilidade que só é possível aos justos e de coração puro.

Claro, como toda criança, adora brincar. Sempre gostou de máquinas, desde bem pequenininho: carros, naves, aviões, transformers. E monta coisas com lego que eu jamais conseguiria (e que, de fato, ainda hoje me são impossíveis). Já disse que quer ser cientista quando crescer, trabalhar na NASA (“na NASA, papai, não na BRASA”), para projetar foguetes e, em suas próprias palavras, “módulos espaciais”. Quando pergunto se quer ser astronauta, responde de pronto: “não, astronauta não. Quero ser projetista de sondas espaciais”. Esse é meu garoto.

Meu garoto já é um grande homem. E meu amor por ele é incondicional, assim como o respeito que tenho por este ser de grande luminosidade. Os filhos deveriam aprender com os pais, mas sou eu que aprendo a cada dia com ele. Teria ainda muitos episódios para contar aqui, mas deixo para outra ocasião.

Faltam palavras, então serei sucinto e encerro agora. Só o que posso dizer é que nunca vi ninguém com espírito tão elevado. A 3 dias de meus 40 anos, posso assegurar, incontestavelmente, que ele é a maior benção de minha vida. Agradeço ao Criador por me permitir ser o pai dessa grande alma.

Joao1

 

37. A mulher da minha vida (04/12/2014)

Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você.

Roberto Carlos

Este e o próximo texto são os mais difíceis de escrever. Afinal, como expressar em palavras o que sinto por duas pessoas que são a razão da minha existência? Vou começar com ela, a pequena notável, aquela que, em questões de segundos, fez minha vida nesta encarnação mudar para sempre.

Lembro, como se fosse hoje, do dia em que ela nasceu. Havíamos passado o sábado resolvendo coisas em Brasília, passeando com a sogra. Algumas reclamações de dor. A mãe queria tomar um Buscopan. Não deixei. Continuamos passeando. À noite, as dores tornaram-se mais intensas e fomos para o hospital. O trabalho de parto prosseguiria até a manhã de domingo.

Fomos para o centro cirúrgico. O parto seria normal – e realmente foi. E eu junto – não perderia aquele momento por nada. Pude, assim, testemunhar o milagre do nascimento: dor, choro, grito, esforço, alívio, alegria… imensa alegria! Experiência única e universal pela qual todos já passamos. Continuidade da espécie. Linhagem que se mantém. E, naquele instante em que ela chegava para a Luz, tudo mudou em nossa vida!

O nascimento dela foi marcante. Quando a vi, a emoção preencheu todo meu ser. Segurei as lágrimas – tinha que ser forte (só viria a chorar e a voltar a dormir dois dias depois, quando as levei para casa – aí desabaria e poderia me entregar ao caleidoscópio de emoções que só um filho recém-nascido pode causar em um pai). O médico me concedeu uma grande honra: cortei o cordão umbilical. Naquele momento, eu a separava fisicamente de sua mãe e a apresentava ao mundo. E ela passava para meus braços: frágil, doce, bela. Felicidade é a palavra!

Desde então, minha vida realmente mudou. Só quem é pai sabe o que é amar incondicionalmente alguém a ponto de não pensar, nem por um segundo, se tiver que dar a vida pela pessoa amada. Minha pequena, minha menina, meu tesouro precioso. Impossível expressar em palavras o amor paterno.

E cresce a cada dia. Como todo filho, consegue me tirar do sério em vários momentos. Mas também consegue me fazer imensamente alegre com um simples sorriso, um gesto, uma palavra. Orgulham-me sua genialidade e suas conquistas. Em 2014, tenho que compartilhar, foram uma Medalha de Ouro na Olimpíada Nacional de Robótica e uma de bronze na Olimpíada Nacional de Astronomia. E aí o pai desaba!

Claro que há as conquistas do dia a dia! As primeiras palavras (não pararia mais de falar), os primeiros passos… A fralda suja no quadradinho com cocô espalhado – e eu sozinho, dando banho, trocando a fralda e limpado o estrago. O primeiro dia na escola – pais tensos, preocupados, e a criatura vira e diz, com ar soberano: “Podem me deixar aqui que sigo sozinha, tá?” – independência aos 3, 4 anos… Momentos únicos que nos fazem entender o sentido da vida…

Ela me lembra muito a Mafalda, de Quino. Extremamente crítica, gosta de, desde os 8, 9 anos, discutir política, protestar contra abusos do governo, defender os oprimidos. Lê intensamente e gosta de conhecer sobre tudo. Sua paixão, expressa já na mais tenra infância, são os animais – conhece tudo sobre eles, inclusive sobre os extintos há milênios. Quer ser bióloga, isso já dizia desde muito cedo. Mas acho que poderia ser uma ótima advogada, pelo senso crítico, conduta contestadora e vontade de defender os necessitados. No final das contas, a decisão será dela.

Às vezes, é difícil percebê-la como uma criança, dada à maneira crítica e escorreita como se expressa. Parece uma pequena adulta nos gestos, no palavreado e nas reflexões. Aí tenho que estar atento para me lembrar que é apenas uma menina, uma pré-adolescente, uma flor ainda por desabrochar. Claro que é, e sempre será, para este pai, uma menina, a minha menina.

Não escreverei mais nada sobre ela. Faltando 4 dias para completar 40 anos, o que posso dizer é que ela, junto com o irmão, são o grande motivo para meus esforços por um futuro melhor, em casa, no trabalho e na vida pública. Digo, ainda, que ela chegou e, sem a mínima noção disso, arrebatou meu coração, conquistou-me de imediato, e é, e será sempre, a grande mulher da minha vida. Obrigado, filha, por ser o que você é, e por me fazer pai!

 

IMG_1855

36. Senado (03/12/2014)

SPQR
Iniciais de SENATUS POPULUSQUE ROMANUS
inscritas nos estandartes das legiões

Estava trabalhando muito feliz na ABIN. Agradava-me o emprego, a atividade e o setor onde me encontrava. Porém, algo inusitado aconteceu: fui transferido para um setor tremendamente interessante, mas com um problema – um chefe que começou a me perseguir profissionalmente.

Hoje isso seria chamado de assédio moral. À época, porém, era só um idiota atazanando a vida de outro. Acho que o sujeito se sentiu inseguro em seu cargo e ameaçado pela minha pessoa (apesar de ter a idade para ser meu pai e ser oficial superior da reserva, portanto, com mais de trinta anos de vida profissional). E passou a implicar comigo – e eu não era o primeiro, pois outros colegas já haviam passado por momentos difíceis com aquele chefe e deixado o setor. Vi que a situação começava a prejudicar minha saúde física e mental. Chegava a ter taquicardia do tanto que o homem implicava comigo. Tinha que fazer alguma coisa.

Conto essa história porque ela acabou se mostrando uma excelente oportunidade de aprendizado e crescimento. De tanto o chefe me assediar moralmente, tomei duas decisões: iria sair do setor de que tanto gostava; e não ficaria mais um ano na ABIN. Aquilo foi bom, no final das contas, porque me motivou a dar um passo maior.

Pedi para mudar de setor. Fui para outro, onde me receberam muito bem. Todos os chefes, ao contrário do anterior, eram de carreira, analistas de informações, colegas que virariam amigos. Entretanto, o ex-chefe continuaria me incomodando da pior forma possível: deu-me uma nota baixa na avaliação periódica profissional, o que reduziu meu salário (que já não era muito) em cerca de 20% por seis meses. Tive que recorrer e, felizmente, consegui reverter o processo administrativamente. Mas o estrago fora grande e minha decisão tomada.

A Providência Divina colocou então o concurso do Senado em meu caminho. O cargo: Consultor Legislativo. Era um concurso que ocorria a cada dez anos e, por razões que só os místicos entendem, coincidiu de ser aquele o momento para um novo certame. Número de vagas para minha área (Relações Exteriores e Defesa Nacional): 1 (uma). Ia fazer e tentar obter êxito.

Não tinha muito tempo para estudar para o concurso. Trabalhava na ABIN o dia todo e à noite dava aula na faculdade (fazia 20 horas lá, todas as noites da semana, portanto). Chegava em casa às 23h e aí tirava umas duas horas para tentar cumprir o programa previsto no edital – acho que foi daí que consolidei a prática de dormir muito tarde.

Nos fins de semana, ia à biblioteca da UnB para estudar e tentar apreender o conteúdo de Matemática para o concurso. Aqui faço referência a meu querido amigo Carlos Tomé, à época analista legislativo da Câmara dos Deputados, engenheiro de formação, professor por vocação, que conseguiu me ensinar, da obscura Ciência Pitagórica, o que precisava para o concurso. Devo, de certo modo, minha aprovação ao Tomé. Foi ele o responsável por me fazer entender um pouco a Matemática. Nunca vou esquecer a ajuda do amigo. Sim, sempre aparecem anjos no caminho…

Pouco antes dos exames, tirei alguns dias de férias: concentrei-me totalmente na matéria e fui fazer a prova. No local do certame, encontrei alguns amigos, professores, e também uma gente danada de besta – lembro-me de uma menina comentando na sala que “aquela vaga já era dela, pois estava muito preparada e acabara de chegar de um mestrado na Europa”… outro rapaz virou para o fiscal e disse, com arrogância: “olha, pode entregar as provas que os portões já fecharam e quero fazer logo a minha para ficar em primeiro lugar”. E eu, quieto, fui resolvendo as questões.

Sai o gabarito da primeira fase. Tomé me telefona e vamos conferir os resultados (ele havia feito para a área de Meio Ambiente). Depois de fazer alguns cálculos, Tomé me diz: “olha, acho que você está na segunda fase”… E confere a própria prova: “Eita, véi! Eu também!”. E fomos felizes para a próxima etapa do concurso.

Fazemos as provas escritas. Sai o resultado e Tomé me liga: “Estou com a pontuação do pessoal aqui… vamos ver como você ficou!”. Confere os pontos e me dá a notícia, eufórico: “Velho, você está em primeiro!”. Confere a dele: “Eita! E eu também!”. Enquanto descrevo aqui o episódio, meu peito se enche de emoção e olhos ficam mareados: Caramba! Estava em primeiro lugar no concurso do Senado! Ia mudar de emprego!

O concurso continuou com as provas de títulos. E o resultado final: éramos os primeiros colocados em Relações Exteriores e Defesa Nacional e em Meio Ambiente. Algum tempo depois, tomaríamos posse. E começaria uma nova fase de nossa vida!

O Senado, a Câmara Alta do Parlamento, carrega uma história cujos primórdios estão na Roma antiga. As legiões lutavam pelo Senado e pelo povo de Roma. Em muitos países a Casa revisora do processo legislativo, o Senado é visto como importante para garantir o equilíbrio democrático. No glorioso Império do Brasil, o Senado representava, juntamente com o Imperador, a Tradição, e servia para equilibrar as forças da nação e impedir que os representantes diretos do povo, na Assembleia, abusassem de suas prerrogativas e ameaçassem o regime democrático. Grandes estadistas passaram pelo Senado nestes 180 anos.

Já tenho mais de uma década no Parlamento. Aprendi muito e, como tem que ser, fiz amigos para toda a vida aqui. É uma experiência gratificante poder trabalhar ajudando a escrever as leis que mudarão os destinos do País. Conhece-se muita gente interessante – e muita gente não tão interessante também. Mas o saldo é sempre positivo. Gosto da Casa em que trabalho e me esforço para ali prestar o melhor serviço.

Claro que sinto saudade do Executivo. Deixei grandes amigos na ABIN. Conheci muita gente boa, tinha ótimos colegas e, à exceção daquele único cretino que me perseguiu, excelentes chefes. Saí da Agência de cabeça erguida e deixando as portas abertas… como deve ser.

Agradeço diariamente ao Criador pelo emprego que tenho. Agradeço diariamente pelos amigos verdadeiros que fiz no Senado. E, faltando 5 dias para meu aniversário, deixo a eles meu fraternal abraço! Obrigado mesmo, a cada pessoa do e no Poder Legislativo que caminha comigo nesta jornada!

Em tempo: coloquei uma foto de uma reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal, onde estou na bancada com meu estimado Presidente (sempre Presidente) Fernando Collor, outra de minha mesa de trabalho e uma terceira dos queridos amigos da Consultoria Legislativa do Senado.

Senado

 

35. Casamento (02/12/2014)

Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?
Renato Russo

Em todas as sociedades, há três momentos marcantes na vida privada de uma pessoa: o nascimento, a morte e “aquele-evento-em-que-alguém-se-une-a-outra-pessoa-para-constituírem-uma-vida-a-dois” (o que em alguns lugares recebe o nome casamento).

Não importa a forma como se dê o matrimônio, o que vale é que costuma ser uma transição importante para qualquer ser vivo. Até aqueles que se dizem celibatários, como os religiosos, acabam assinalando que “se casaram” com a fé, com o Cristo ou com a Igreja.

Ao contrário do que apregoam certas religiões e tenta impor a sociedade, casamento, regra geral, não é para sempre. Claro que há exceções, casais que permanecem juntos por décadas. Entretanto, o mais natural, parece-me, é que uma pessoa tenha mais de um casamento ao longo da vida… Afinal, somos humanos, não pinguins ou araras. E, se considerarmos que se encarna várias vezes neste plano, seria no mínimo estranho e antinatural que duas pessoas permanecessem ligadas uma à outra por toda a eternidade. Exatamente por isso o casamento deve ser vivido a cada dia, e o amor vivido em plenitude para que, como diria o poeta, seja eterno enquanto dure…

Casei-me muito cedo. Tinha acabado de completar 26 anos (casei-me dia 16/12). Foi um momento importante, pois estava a constituir minha própria família. Não que esperasse um dia me casar (homem nenhum espera), mas aconteceu. E com uma pessoa muito especial e que viria a me dar dois grandes tesouros.

Não vou contar aqui sobre minha vida amorosa, as mulheres que amei, as decepções e alegrias que tive ao longo dos meus quarenta anos de existência. A única coisa que direi é que sempre fui muito tímido e que isso, associado ao fato de que a natureza não me brindou com “sexy appeal”, fazia de mim um sujeito nada atraente, o que me frustrava sobremaneira. Para piorar as coisas, era sempre o mais jovem do grupo de amigos, e as meninas tinham atração por caras mais velhos, mais fortes, mais ricos. Tímido, novinho demais, feio e sem dinheiro no bolso… características faziam de mim a última opção no jogo do amor. Paciência! Se não tinha remédio, remediado estava…

Foi aí que conheci aquela que viria a ser minha esposa. Não sei o que ela viu em mim, mas começamos uma amizade. Éramos colegas de faculdade. Ambos fazíamos a segunda graduação. Gostávamos de livros e tínhamos outros pontos em comum. A amizade acabou se tornando namoro. Passamos momentos bem agradáveis. Ela me incentivava a tocar os estudos e a fazer concurso. E festejou quando passei nas provas para a Polícia e para a ABIN. Como diria Renato Russo, “e comemoramos juntos, e também brigamos juntos muitas vezes depois”…

Quando já estava empregado, no meu segundo ano na Inteligência, recebi um telefonema em minha sala. Objetivamente, o diálogo foi o seguinte: “olha, já marquei o casamento, tá? Será 16 de dezembro” – fim do “diálogo”. Aí vi que a corda estava no pescoço e que nenhum treinamento de combate (nem mesmo sobrevivência na selva) me tiraria daquela situação… Casei então.

Foi uma cerimônia dupla, ocorrida em dois momentos. O primeiro dia, na Igreja Católica, com valor civil – evento simples, mas bem elegante, como era a noiva (o padre errou meu nome, claro – tive que corrigi-lo), seguido de um almoço para alguns convidados. No segundo dia, um domingo ensolarado (como fora o do meu nascimento), a cerimônia de casamento rosacruz, no belíssimo templo da Loja Rosacruz Brasília. Estávamos casados e felizes.

Viajamos para o Rio de Janeiro na lua de mel – mesmo porque não tínhamos dinheiro para nada mais ousado. Fomos a Petrópolis – sim, porque já era monarquista à época. Depois começamos a vida juntos. Passados três anos, viria nossa primeira filha.

Sinceramente, não sei o que ela viu em mim. Só sei que teve todo o mérito de acreditar no meu potencial, “e me comprar na baixa”. Tinha outras opções? Certamente. Mas preferiu este daqui… E vivemos anos felizes, apesar das dificuldades e das diferenças que foram surgindo paulatinamente.

A 6 dias dos meus 40 anos, gostaria de deixar meu beijo carinhoso para aquela que me comprou na baixa, me jogou para o alto, mostrou-se companheira de primeira hora, sorriu comigo, brigou (muito) comigo, e me deu os tesouros mais preciosos que um homem pode ter na vida: meus filhos! E a vida segue!

Casamento4

34. Secret Agent Man (01/12/2014)

A Inteligência é um apanágio dos nobres. Confiada a outros, desmorona.
Walter Nicolai (1873-1934),

Chefe do Serviço de Inteligência da Alemanha
 durante I Guerra Mundial

Faltam 7 dias para meus 40 anos! E, certamente, nestas crônicas sobre as primeiras 4 décadas da presente encarnação, lugar de destaque é o da minha passagem pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). O tempo em que fiquei naquela Casa aprendi muito, amadureci profissionalmente, fiz grandes e sinceros amigos, fui inteiramente contaminado pelo vírus da Inteligência (entenda-se aqui informações)! E descobri que, uma vez com esse maravilhoso vírus na corrente sanguínea, impossível se dissociar dele!

Ingressei no “Serviço” (como alguns ainda o chamam) por concurso público. Apesar das críticas, no Brasil, felizmente, deve-se prestar concurso para se ingressar na ABIN. Que bom, pois se não fosse assim, jamais teria me tornado analista de informações – hoje oficial de inteligência! Quando me perguntam sobre concurso para a inteligência, muitas vezes em tom jocoso, rebato logo assinalando que a obrigatoriedade do concurso público foi uma das grandes conquistas da Constituição de 1988, e que não conheço carreira pública, civil ou militar, em que se ingresse de maneira distinta à da via meritocrática. Entendo que concurso para a ABIN é algo tremendamente válido, e deve ser mantido, pelo bem da democracia e do próprio serviço de inteligência. Claro que, fundamental, é que haja critérios adequados e bem estabelecidos para o referido processo seletivo.

Por óbvio, não contarei aqui o que fazia no serviço secreto. Mas o que posso destacar do período é que fiz descobertas muito interessantes. Primeiramente, descobri que Inteligência e democracia são plenamente compatíveis – não existe democracia no mundo que possa prescindir de seus sistemas de inteligência, uma vez que esses têm grande importância no assessoramento do processo decisório e na proteção ao conhecimento precioso.

Também aprendi que a nossa é a segunda profissão mais antiga do mundo. A atividade de inteligência surge com a necessidade dos primeiros chefes tribais de conhecer sobre as outras comunidades, de saber quantos guerreiros tinha a tribo vizinha, se eram caçadores ou coletores, quantas mulheres havia naquela comunidade. Esteve presente nos últimos 20 mil anos da história da humanidade e, acredito sinceramente, enquanto houver seres humanos sobre a face da terra, haverá serviços de inteligência. Portanto, é importante que pessoas, grupos, organizações e governos aceitem essa realidade.

Aprendi, ainda, o quanto a inteligência é importante para prevenir contra ameaças e identificar oportunidades. E descobri, entre a comunidade de inteligência brasileira (tanto na ABIN quanto em outras organizações que tive a oportunidade de conhecer), profissionais altamente competentes, qualificados e, acima de tudo, comprometidos com os interesses nacionais e com a defesa do Estado e da sociedade. Sim! Ao contrário do que tentam apregoar os críticos de nossa comunidade de inteligência (que o fazem por desconhecimento, preconceito, ou mesmo má-fé), nos nossos serviços secretos a grande maioria dos profissionais é composta de mulheres e homens bons, de caráter, éticos, apaixonados pelo que fazem, enfim, servidores públicos com “s” maiúsculo. Respeito imensamente esses profissionais, tenho grandes amigos na comunidade de inteligência, repito, e almejo vê-los mais valorizados tanto pela sociedade quanto pelas autoridades públicas – seus “clientes” principais.

Nos meus primeiros quarenta anos de existência, a experiência no serviço de inteligência serviu para que me apaixonasse por esse campo da atividade humana, e para que dedicasse minha vida profissional e acadêmica a conhecer melhor esse fantástico universo. Ainda tenho muito o que aprender sobre Inteligência, e pretendo dedicar minhas próximas quatro décadas a esse fim. É um campo fascinante, sedutor, e rico em lições para a vida!

Deixo meu abraço fraterno a todos da comunidade de inteligência. Dia 7 de dezembro, véspera de meu aniversário, é o dia do profissional de inteligência. A própria Lei nº 9.883, de 1999, que institui o Sistema Brasileiro de Inteligência e cria a ABIN, foi publicada no Diário Oficial da União no dia de meu aniversário.

Espero, sinceramente, que nos próximos anos, nossas autoridades públicas e o conjunto da sociedade brasileira passem a valorizar mais essa atividade tão imprescindível para o Estado, a sociedade e a democracia, bem como a seus profissionais, os abnegados homens e mulheres que operam no silêncio!

Abin

32. Seu Olavo e Dona Marieta (29/11/2014)

Cânone 872. Ao batizando, enquanto possível, seja dado um padrinho, a quem cabe acompanhar o batizando adulto na iniciação cristã e, junto com os pais, apresentar ao batismo o batizando criança. Cabe também a ele ajudar que o batizado leve uma vida de acordo com o batismo e cumpra com fidelidade as obrigações inerentes.
Código de Direito Canônico

Se na vida pública e profissional nunca tive padrinhos, o batismo católico me abençoou com duas pessoas muito amadas: Seu Olavo e Dona Marieta, meu padrinho e minha madrinha.

Padrinhos são de grande importância na vida de qualquer pessoa. Devem ser escolhidos com muito carinho e atenção. Afinal, são eles que, na ausência dos pais, assumem a missão dos genitores junto ao afilhado. Extrapolando-se as determinações canônicas, os padrinhos são os pais substitutos, os pais em duplicidade. Isso deve ser considerado na escolha dos padrinhos, pois eles também transmitem valores e são responsáveis pela formação da pessoa.

Eu tive a felicidade e ter Seu Olavo e Dona Marieta como padrinhos. Minha madrinha é irmã mais velha de mamãe. Vivem em Caxias, mas sempre me senti muito próximo de ambos – a Santa Kabalah ensina que a distância entre pessoas não se mede por critérios espaciais, mas sim pela afinidade de pensamento e, se pudéssemos desenvolver essa ideia, pelos valores e pelas crenças comuns. Então, mesmo a quase dois mil quilômetros de distância, meus padrinhos estiveram próximos a mim nessas quatro décadas.

Seu Olavo, nascido no Ceará (como meu pai), foi ainda muito jovem ganhar a vida em Caxias/MA. Lá conheceu minha madrinha, casaram-se e tiveram uma bela prole de cinco filhos, acrescida por sobrinhos que foram criados como filhos após o falecimento de meu tio Walter e sua esposa Irene, em um acidente de carro nos anos setenta. Aí está uma primeira lição que me ensinaram: o amor incondicional e o carinho, sem qualquer diferenciação, com que criaram seus filhos naturais e adotivos.

Sempre vi meu padrinho trabalhando, e duro, para sustentar a família. Nunca o vi se queixando da labuta… Ao contrário, o bom-humor de Seu Olavo é singular: continuamente tem uma tirada interessante, um comentário apropriado para algo que veja na TV ou no quotidiano. É um excelente observador das pessoas e de seu comportamento. Meu padrinho, de fato, é um homem sábio, e o admiro muito pela maneira como ele vem encarando a vida nestes 83 anos e três pontes de safena. Sim! 83 anos! Mas transmite uma vitalidade de garoto – talvez pela paz interior e pela alegria com que encare a vida.

Sobre Dona Marieta, o que primeiro posso dizer é que ela é, sem qualquer sombra de dúvida, minha segunda mãe (que, junto com Dona Conceição e a Rosa, formam um triunvirato materno, certamente benção de Nossa Senhora)! Minha madrinha é também uma grande referência para mim: coração gigante, carinho incondicional, uma mulher forte, sábia e muito trabalhadora. Interessante sobre Dona Marieta é que ela também trabalhava fora de casa, como funcionária dos Correios (coisa pouco usual para uma mulher de sua geração). Mas entre as melhores recordações que tenho de minha querida madrinha estão os sábios conselhos, as orações diárias por mim, a caridade com que cuida dos pobres em Caxias, e o amor incondicional a seu afilhado.

Batalhando muito, meu padrinho e minha madrinha criaram seus filhos e netos, e tiveram uma descendência feliz. A casa deles está sempre cheia de gente: filhos, netos, bisnetos, amigos, agregados, afilhados. A mesa, posta todo o tempo, e as portas da casa abertas para acolher quem necessite de conforto – é como as antigas “casas do caminho”, que acolhiam todos os peregrinos cansados em busca de conforto físico e espiritual.

Tenho muito orgulho de ser afilhado de Seu Olavo e Dona Marieta. Certamente, esses meus primeiros quarenta anos de vida foram mais especiais porque os tenho como padrinhos. A nove dias de meu aniversário, meu beijo carinhoso a meu amado pai e a minha amada mãe em duplicidade!

20190121_090234

23. Idiomas (20/11/2014)

Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória.
Charles Baudelaire

Ser é comunicar-se. Ou, como diria o filósofo, “quem não se comunica, se trumbica”! Apesar da Matemática, juntamente com a Música, serem consideradas as formas mais universais de linguagem, nunca aprendi a última e não tenho qualquer pendor para os números (sou um disléxico matemático – eu me atrapalho até contando de 1 a 10). Entretanto, o que me faltava de domínio da linguagem de Pitágoras, foi-me compensado pela Providência com a afinidade com idiomas.

Primeiramente, nosso vernáculo! Sou um apaixonado pela Língua Portuguesa, com sua sonoridade encantadora, mais dura na terra de Pessoa e mais doce e suave na de Machado. A última flor do Lácio é de uma riqueza que seduz e seus meandros encantam a todo aquele que dela desfruta. Sim, porque falar português é um privilégio! Orgulho-me de ser nativo desse idioma presente em todos os continentes, que une povos e culturas das mais distintas sob a herança da linguagem lusitana. “Minha pátria é minha língua”, dizia Pessoa (por sinal, um frater rosacruz), e estou plenamente de acordo. Viva a Língua Portuguesa!

Claro que minha paixão pela cidadania universal e pelo contato com outros povos e culturas só poderia ser plenamente vivida com o conhecimento dos idiomas dessas gentes! Quando se aprende uma nova língua, mergulha-se em nova cultura e se conhece outras sociedades. E, ao longo de minha vida, como autodidata ou na escola, dediquei-me a aprender sobre outros povos por meio do estudo de idiomas. Já fiz incursões, mais ou menos aprofundadas, por inglês, francês, espanhol, alemão, russo, árabe, hebraico e italiano. E o melhor de tudo é que, quanto mais línguas se aprende, mais fácil se torna o aprendizado de outras novas!

A língua de Shakespeare e a de Cervantes aprendi praticamente por conta própria, como autodidata. Considero o conhecimento delas fundamental para qualquer um que queira ampliar seus horizontes. São idiomas de trabalho, essenciais para a sobrevivência no mundo moderno.

Já o apaixonante idioma de Molière, comecei a estudá-lo no meu querido Centro Interescolar de Línguas de Sobradinho, o CIL (exemplo de escola pública de excelência), no qual viria a ser professor de francês em meu primeiro emprego com carteira assinada. Segui então para a Aliança Francesa, onde concluí os últimos graus de estudos de língua e civilização francesas, tendo prestado exames e obtido os diplomas de terceiro ciclo fornecidos pela Universidade de Nancy.

A língua alemã acho belíssima. Comecei a estudá-la na universidade, parei um tempo, e depois voltei com aulas particulares. A afinidade com o idioma de Goethe está além de qualquer explicação materialista – alemão, sempre aprendi com o coração! Também idioma fascinante é o de Tolstói e Dostoievski! Minhas primeiras lições de russo, ao final da Guerra Fria, foram na própria Embaixada da Rússia. Oxalá possa algum dia ler esses clássicos no original.

Já estudei árabe e hebraico (línguas arcanas, que devem ser compreendidas), e tenho conhecimentos de italiano (que sempre achei belo, particularmente por suas reminiscências do Latim). Ainda me aprofundarei nesses e em outros idiomas, para poder falar com um maior número de pessoas em sua língua natal. Realizo-me chegando a um lugar e conseguindo conversar com os locais em seu próprio vernáculo. Alguns chamariam isso de “complexo de Indiana Jones”.

Não me prolongarei mais tratando de meu fascínio pelas distintas maneiras pelas quais as pessoas se comunicam em todo o globo. Faltando 18 dias para meu aniversário de 40 anos, o que posso dizer é que minhas primeiras quatro décadas de vida foram muito mais divertidas graças ao aprendizado de línguas estrangeiras e, por meio destas, à vivência de outras culturas e ao conhecimento de pessoas e histórias fascinantes!

20191102_232207

22. A Cruz e a Rosa (19/11/2011)

Per benedictionem Rosae Crucis, non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam!

 

alt-cruz-rosacruzHá acontecimentos significativamente marcantes ao longo da vida de uma pessoa: o nascimento dos filhos, o primeiro casamento (ou o último), a aquisição da casa própria, a conquista do almejado emprego, a viagem dos sonhos, o lançamento de um livro, a conclusão de um curso superior, a obtenção de um título acadêmico… Cito aqui apenas alguns que marcam positivamente e deixam boas e eternas lembranças na mente e no coração.

Entre os episódios marcantes destes primeiros 40 anos, há um que está, indubitavelmente, entre os mais significativos: foi quando, aos 17 anos, tive a felicidade de ingressar na Ordem Rosacruz, AMORC. Desde então, os ensinamentos rosacruzes foram essenciais em minha formação intelectual, profissional, espiritual e, sobretudo, como ser humano. A Ordem é tão importante para mim, e minha afiliação trouxe-me tantos benefícios, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuir todas as bênçãos recebidas.

Mas o que é, afinal, a Ordem Rosacruz? A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), define-se como “uma organização místico-filosófica mundial, não-religiosa, sem fins lucrativos, cultural, educacional e apolítica, destinada ao autoaperfeiçoamento do ser humano, visando o despertar de seus poderes interiores, para uma vida mais plena e integral”. Está aberta a todo buscador sincero, todo aquele que deseje conhecer melhor sobre si mesmo e sobre o Universo. Em seu website (www.amorc.org.br), a AMORC destaca que “a Ordem conserva um conjunto de técnicas milenares, mas sempre atualizadas, comprovadas pelo tempo e capazes de promover este despertar.” Para os céticos, a única coisa que posso dizer, é que os ensinamentos da Ordem têm sido essenciais para mim.

A AMORC está presente em todos os continentes, e existe formalmente há séculos, seguindo uma tradição que remonta a milênios. Ademais, importante assinalar que a “AMORC integra em seu quadro pessoas de todas as raças, idades, posições sociais e de ambos os sexos, em clima de perfeita liberdade de pensamento”, tendo como meta “guiar o ser humano rumo à sua própria liberdade interior, na comunhão consciente com o Universo, por meio do autoconhecimento”. Grandes personalidades de nossa história foram rosacruzes.

AMORCMas o que é a AMORC para mim? Bom, a Ordem é, primeiramente, uma grande escola, onde pude aprender (e continuo aprendendo), sobre as chamadas leis naturais, as relações entre o homem e a natureza, com os outros seres humanos, e com o Criador, em um processo de autoconhecimento fundamentado na tradição das grandes escolas iniciáticas do passado. Os rosacruzes se definem, antes de tudo, como estudantes. E, uma vez que a AMORC não doutrina, mas sim orienta, desde o início de nossos estudos nos é ensinado a sermos “um ponto de interrogação ambulante”, a questionar todo o conhecimento que nos é transmitido, inclusive os ensinamentos da própria Ordem, e a buscar a resposta, primeiro, em nós mesmos, ouvindo a voz de nosso Mestre Interior. E como essa Escola tem-me ensinado sobre a vida!

A Ordem Rosacruz não é uma Igreja, tampouco o rosacrucianismo uma religião. Nesse sentido, na AMORC encontramos pessoas dos diferentes credos e percepções da Divindade: católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas… É fantástico conviver com homens e mulheres de distintas crenças, o que nos permite conhecer melhor sobre as grandes religiões e os aspectos positivos de cada uma. A única coisa que a Ordem nos pede é que acreditemos em um D’us, não importando como O chamemos ou O compreendamos. É por isso que, em nossas orações, os rosacruzes invocam “o D’us de seu coração, o D’us de sua compreensão”. Assim, apesar de não ser uma religião, minha amada Ordem é para mim um lar espiritual.

Outro aspecto marcante da Ordem Rosacruz é que, para mim, ela tornou-se uma segunda família. Ali conheci pessoas, homens e mulheres, de diferentes percepções sobre o mundo e sobre a vida, mas com inúmeros e significativos pontos em comum: a busca do conhecimento, o sentimento de fraternidade, o desejo de crescer espiritualmente e trabalhar pelo bem de toda a humanidade. De fato, é interessante como ali encontramos pessoas que parece que conhecemos há muito tempo, com quem nos identificamos automaticamente, como se já tivéssemos nos relacionado em outros tempos. Vejo nos rosacruzes meus irmãos e irmãs, e na Ordem encontrei grandes amigos, alguns fundamentais no meu desenvolvimento como ser humano e que estiveram presentes em momentos felizes, mas também em situações dolorosas, quando pude encontrar, entre os rosacruzes, o acolhimento que necessitava. São, portanto, minha família, minha grande família.

Nesta vida, meus vínculos com a Ordem Rosacruz, AMORC, são antigos, anteriores ao ingresso formal na organização. Explico: papai é rosacruz desde os anos sessenta. Nasci, portanto, em um lar rosacruz. Cresci sob a influência da Rosa e da Cruz, presente em minha vida já na mais tenra infância. E os laços com o rosacrucianismo são tão fortes e tão profundos, que não consigo me vislumbrar sem a Rosacruz. O rosacrucianismo é parte de mim, fui moldado rosacruz e pretendo continuar rosacruz até o fim dos meus dias (e depois dele).

Faltando 19 dias para meu aniversário, em um dia 19, queria declarar meu amor incondicional à Ordem Rosacruz, e a ela dedicar essas palavras, agradecendo ao Criador pela oportunidade de me levar a conhecer muito cedo o rosacrucianismo. E, repito, foram tantos os benefícios, tanto aprendizado, tantas as bênçãos alcançadas sob os auspícios da Rosa e da Cruz, que nada do que fizesse hoje seria suficiente para retribuí-los à AMORC. Assim, tento retribuir vivendo como rosacruz, pondo em prática os ensinamentos da Ordem e ajudando aos que necessitam.

Hoje, portanto, agradeço ao D’us do meu coração, ao D’us da minha compreensão, pela luz rosacruz em minha vida!

Além da gratidão, o outro motivo do texto de hoje foi para que meus amigos conheçam este aspecto tão influente em minha personalidade nestas primeiras 4 décadas. Saibam que têm como amigo um estudante que ora e trabalha sob os auspícios da Rosa+Cruz, pela glória de D’us e pelo bem da humanidade.

Avental R+C

21. Nova escola, novos desafios (18/11/2014)

Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.
Sócrates

Em razão do episódio frustrante ocorrido na Católica (vide texto de 17/11/2014), resolvi mudar de colégio para cursar o terceiro ano do Segundo Grau (“hoje Ensino Médio”). Após analisar algumas instituições, a escolha recaiu sobre o Colégio Leonardo da Vinci, tido como um dos melhores de Brasília. E, claro, com a nova escola, novos desafios.

O primeiro desafio no novo colégio era de ordem logística. O Leonardo situava-se na Asa Sul e eu morava em Sobradinho (para quem não é de Brasília, uma de nossas cidades-satélites)… e eu pegava ônibus. Utilizando-me dos modernos recursos do Googlemaps, pude verificar que a distância era algo em torno de 30 km e que, atualmente, a rota que eu fazia leva aproximadamente 1 hora e 30 minutos. Uma vez que minha aula começava às 7h10 da manhã, e que passava um ônibus a cada hora, associando-se a isso outros cálculos cabalísticos, para não chegar atrasado à escola eu tinha que pegar o ônibus nº 512 que passava pela minha parada às 5h38 da matina. Aqueles que me conhecem já imaginam a dramática situação!

Sou um animal notívago (sempre o fui!)! Durmo, normalmente, às 2h da manhã (para acordar, se possível, por volta das 8h). No meu último ano de ensino médio, eu tinha que estar na parada de ônibus às 5h35 no máximo, pois se perdesse o 512 das 5h38, chegaria bastante atrasado na escola! Com isso, tinha que acordar, normalmente, lá pelas 4h40 da manhã para tomar banho, vestir-me, fazer meu dejejum e sair correndo para o ponto! Desespero! Angústia! Sofrimento!

Alguns leitores devem estar dizendo “ah! mas eu acordo às 5 da manhã para malhar!”! Não tenho culpa se esses seres têm pacto com o Capiroto! Sim, porque não é de D’us acordar antes das galinhas (e eu levantava antes do galo cantar!), sobretudo para “malhar”! Ainda vou encontrar em algum artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que é violação grave fazer uma pessoa acordar a essa hora! Se não existir o artigo, deveria. E quando vinha o horário de verão, a coisa degringolava de vez! Para mim era terrível!

Penei bastante acordando de madrugada para ir ao colégio. Claro que logo desenvolvi técnicas para ganhar mais tempo na cama… coisas do tipo tomar banho em exatos 2 minutos e meio, deixar a roupa pronta para entrar nela pela manhã, tomar somente um copo de leite com Nescau de café-da-manhã (impensável sentar à mesa para um dejejum prolongado e frugal!). E fui vivendo. Naquela época, assim como Scarlet O’Hara, diante dos campos incendiados de Tara, disse que “nunca mais passarei fome nesta vida!”, eu também, ao concluir meu terceiro ano do Segundo Grau, olhei para a parada de ônibus e, de punho fechado, disse: “nunca mais passarei sono nessa vida!” (ou coisa parecida)…

A parada de ônibus e o próprio 512 constituíam um caso à parte e dariam muito boas histórias. Afinal, éramos as mesmas pessoas que pegavam o ônibus naquele horário: basicamente, estudantes e trabalhadores que tinham que estar cedo no emprego. Depois de um tempo, todo mundo já se conhecia. E eu, com minha dificuldade de me relacionar com as pessoas, logo já estava amigo e falando com todos na parada. Lembro-me de uma senhora gorducha que era empregada doméstica no Plano Piloto – divertidíssima, conversávamos sempre! Também havia, como tomávamos o ônibus já lotado e íamos em pé, as boas almas que se ofereciam para levar nossas (pesadas) mochilas no colo. No final das contas, virávamos uma comunidade no coletivo, unida pelo mesmo sofrimento no 512 das 5h38! Foi nessa época que desenvolvi algumas técnicas de sobrevivência (muito comuns em adolescentes que pegam ônibus em tais situações), com destaque para a de dormir em pé em um veículo em movimento – e, o melhor, sem perder o ponto, pois, se não acordasse, o pessoal do ônibus me acordava! Dentro daquela ideia de fazer do limão uma limonada, digo que era divertido!

Ah! E o colégio novo? O Leonardo era bem diferente da Católica. Muito maior em termos de turmas e alunos, com um horário a mais de aula, professores muito exigentes (e competentes, em sua maioria), tinha por objetivo central fazer com que seus alunos fossem aprovados no vestibular (a Católica se preocupava mais com a formação do estudante). E enfrentei ali grandes desafios, estudando pela manhã e à tarde, sob um sistema bem mais exaustivo que o dos anos anteriores (agradeço sempre por isso, pois assim fui preparado para o vestibular). Não foi fácil, mas consegui me manter entres os melhores alunos (em que pese minha total incompetência em Matemática).

Claro que as melhores lembranças do Leonardo foram os amigos. Certamente não eram tantos como os da Católica, mas na nova escola também fiz boas amizades que perduram até hoje! Eram várias turmas de 3º ano. Intrigante é que fiz amigos mais de outras turmas que da minha própria.

De todos os amigos do Leonardo da Vinci, registro meu abraço especial ao estimado Bruss. Bruss Rebouças Coelho Lima era seu nome. Um dos “nerds” de sua classe, sujeito simples, muito inteligente, espiritualista, culto e brincalhão, logo se tornou um bom amigo – alguém a quem, sem pestanejar, entregaria um filho para padrinho. Conversávamos sobre guerra e geopolítica, espiritualidade e problemas brasileiros. Era um conselheiro e um “grilo falante”. Tínhamos origens parecidas e opiniões coincidentes. E a amizade estendeu-se para as famílias – seus pais eram do Maranhão e do Ceará.

O amigo Bruss queria ser biólogo. E, no mesmo vestibular em que passei para Relações Internacionais, ele foi aprovado para Biologia na UnB. Continuaríamos nossa amizade na universidade e ambos seguiríamos carreira acadêmica. Acabamos perdendo o contato quando Bruss foi para a Alemanha fazer seu doutorado em neurociência, ali permanecendo e constituindo família (sua esposa, também cientista). Sempre que ele vinha por aqui, nos encontrávamos e botávamos o papo em dia. Também tinha notícia do amigo por meio de sua irmã, Biana, que continuava morando em Brasília. Bruss foi (é) um estimado irmão para mim!

Graças aos desafios que me foram impostos na nova escola, pude concluir um Ensino Médio de qualidade e prestar vestibular na Universidade de Brasília. Minha escolha, Relações Internacionais (curso que, à época, na área de Ciências Humanas, só era menos concorrido que Direito). Fui aprovado e, ao final de 1991, enquanto a União Soviética desaparecia, eu me preparava para virar estudante da área do conhecimento que buscava explicar o fenômeno da guerra e da paz, e porque nações desaparecem! Mas essa é outra história…

Faltam 20 dias para meus 40 anos. Vislumbrando como foi meu segundo grau, o saldo é mais que positivo! Os melhores dividendos foram, nesta ordem, os amigos que fiz, as experiências que vivenciei, e o conhecimento que adquiri. Tive excelentes momentos tanto na Católica quanto no Leonardo. E aquilo tudo foi realmente muito enriquecedor para o garoto de cidade-satélite, ainda bastante adolescente, que entrava em outro mundo… Enfim, cresci sobremaneira em três intensos anos!

Deixo hoje meu abraço aos colegas do Leonardo da Vinci. E a foto é de Bruss e Biana quando, muitos anos depois, meu amigo esteve de férias no Brasil e foi lá em casa. Velhos compadres se encontravam e parecia que havíamos nos falado, pela última vez, no dia anterior!

Bruss e Biana

19. Primos (16/11/2014)

A cousin is a little bit of childhood that can never be lost.
Marion C. Garrety

 

Para a maioria das pessoas, a convivência com os primos é algo rotineiro. Nas grandes famílias, é muito comum que primos se reconheçam como irmãos nascidos do ventre de outra mãe. Laços estreitos são estabelecidos e, em alguns casos, até matrimônios acabam acontecendo, o que pode garantir mais coesão nos vínculos familiares. Afinal, o clã se preserva na união entre seus membros.

Claro que os primos também podem estar associados a situações não tão agradáveis. Se houvesse estatísticas a respeito, certamente o primo, depois do cunhado, seria aquela referência complicada da família. Todo mundo tem um primo, próximo ou distante, que já se meteu em alguma confusão, que fez algo de errado, ou sobre o qual se tem alguma história inusitada para contar… Claro que é sempre com um primo que essas coisas ocorrem… E assim se constroem as anedotas familiares!

Sempre que penso em primos, não consigo deixar de lembrar das casas reais europeias… Fascinante como as grandes famílias nobres da Europa são compostas por primos, descendentes de um ancestral comum ou fruto dos casamentos dinásticos. Certa feita, só por curiosidade e para passar o tempo, fiz as correlações genealógicas entres os monarcas europeus do início do século XX, antes da Grande Guerra (tá, não é uma coisa que muita gente faça para passar o tempo… fazer o quê?!?)… Interessante como, graças à descendência da Rainha Victoria (a “grande mãe” das casas reais da Europa), todos eram primos! Jorge V, da Grã-Bretanha, e o Kaiser Guilherme II, da Alemanha, eram primos próximos, que, por sua vez, também tinham laços de parentesco com o Czar Nicolau II, da Rússia (há uma foto de George V e Nicolau II que mostra a semelhança entre os dois), cuja esposa, Alexandra, também era prima dos três (e fora disputada por Nicolau e George na juventude, dizem)! Por isso me encanta o lema da Casa de Habsburgo, da qual nosso soberano Pedro II era descendente direto: “Bella gerant alii; tu, felix Austria, nube” (“que outros guerreiem enquanto tu, feliz Áustria, celebras casamentos”). Pelo matrimônio, os Habsburgos se mantiveram como a principal Casa europeia durante séculos. (Fim das curiosidades monárquicas)

Eu, particularmente, e apesar de provir de família nordestina, nunca tive a felicidade de conviver de perto com meus primos. Havia a distância espacial e temporal que nos afastava! Afinal, tanto papai quanto mamãe viviam praticamente sem família aqui em Brasília. Daí que meu contato com tios e primos só se dava quando viajava para o Nordeste! Ainda em termos espaciais, nunca fui ter na infância com os primos do interior do Ceará, porque papai não retornara à caatinga de onde viera no início dos anos cinquenta. Assim, só houve contato durante minhas duas primeiras décadas de vida com a família de mamãe (à exceção de uma breve incursão feita aos oito anos ao Rio de Janeiro, onde visitei os irmãos de Seu Jacob que lá viviam).

De toda maneira, ao menos uma vez por ano ia para a casa de meus avós e de meus tios no Maranhão. Lá podia encontrar meus primos, que eram muitos, e aproveitar um pouco desses vínculos de sangue. E como gostava disso! Mas aí vinha a limitação temporal: eu era sempre o mais novo dos netos de Seu Sother e Dona Sidoca, o que muitas vezes atrapalhava as brincadeiras com os primos e primas. Vivia sempre sob a perspectiva do menorzinho do grupo, com os ônus e bônus desse posto. À medida que crescíamos, essa distância diminuía, mas o limite espacial se reforçava… O tempo passou, cada um seguiu sua vida, e hoje continuamos distantes fisicamente, mas mantendo bons contatos pela Internet. E viva as redes sociais!

Faltando 22 dias para meu aniversário, deixo meu abraço carinhoso a todos os primos e primas que, mesmo distantes fisicamente, têm um espaço reservado no coração. Afinal, sangue é sangue!

Seguem algumas fotos da tenra infância em companhia dos primos e primos no Maranhão. Eu sou o pequenininho no centro de uma das fotos e emburrado em outra. Pequeno, mas bravo!

18. Quando o Brasil foi Grande (15/11/2014)

O Império do Brasil é a associação Política de todos os Cidadãos Brasileiros. Eles formam uma Nação livre, e independente, que não admite com qualquer outra laço algum de união, ou federação, que se oponha à sua Independência.
Constituição do Império do Brasil, art. 1º.

 

GrifoNeste 15 de novembro, data que considero o dia da infâmia, e faltando 23 dias para meu aniversário, gostaria de compartilhar com os amigos algumas de minhas razões de ser monarquista convicto.

Preliminarmente, convém registrar que não estou aqui a fazer proselitismo. Não quero convencer ninguém de que o regime monárquico é a melhor opção (apesar da profunda convicção de que o seja). Só o que desejo é expor minhas razões. Sou monarquista desde que me entendo por gente, e poderei dizer a meus netos que meu primeiro voto foi no parlamentarismo monárquico, por ocasião do plebiscito de 1993. Àquela época votei com convicção e segurança – foi o voto mais valioso e valorizado que já coloquei na urna.

Outra coisa: espero que este texto ajude ao menos a remover alguns preconceitos para com a alternativa monárquica. É irritante as pessoas acharem que somos monarquistas por excentricidade ou anacronismo. Incomoda a crítica a esse modelo quando é feita sem nenhum conhecimento do assunto, sob o único argumento (imbecil, desculpem a honestidade) de que “monarquia é coisa do passado” ou de que “o modelo republicano é mais democrático”. Para esses, já respondo que a maior parte da população de países como o Reino Unido, Japão, Suécia, Noruega, Holanda, Bélgica, Dinamarca (que, junto com Canadá, Austrália e Nova Zelândia constituem democracias modernas e desenvolvidas sob um regime monárquico) não pensa assim. Antes de criticarem a monarquia, as pessoas deveriam se informar mais…

Moeda ImperioMuito bem! Perguntam a razão de eu ser monarquista. Repito, não tenho qualquer interesse personalista na causa monárquica. Só vim a conhecer alguém da Casa Imperial do Brasil este ano de 2014, quando me concedeu a Providência grata oportunidade de encontrar Dom Bertrand de Orléans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, com quem tive uma excelente conversa! Não estou formalmente vinculado a qualquer organização monarquista (o que não significa que não o farei oportunamente). Sou monarquista, primeiro, porque creio que uma boa democracia se desenvolve em regimes parlamentaristas e que, no Parlamentarismo, entendo que o melhor modelo é o monárquico, não o republicano. Repúblicas parlamentaristas são imperfeitas e o Presidente nunca consegue representar a totalidade da nação como o Chefe de Estado deve fazer (vide o recente caso alemão, quando o Presidente teve que renunciar acusado de corrupção).

Ademais, parece-me que o único lugar onde o Presidencialismo realmente deu certo foi nos EUA, onde eles criaram o modelo, e no qual a instituição “presidência” é sagrada. Por aqui pela América Latina, o que se viu foram republiquetas instáveis, com caudilhos lutando pelo poder, golpes de Estado e instabilidade político-institucional marcada por aspirantes vorazes a ditador ou megalômanos que chegavam ao palácio presidencial sem estar realmente preparados para ocupar a posição de primeiro mandatário.

Outra razão pela qual sou monarquista é que acho que à época do Império tínhamos instituições mais sólidas e valores mais consistentes. A figura do monarca ajuda nisso – por mais que pessoalmente ele possa ser cheio de imperfeições (caso contrário, não seria humano), como figura pública é um símbolo nacional, com valores que devem ser exaltados, servindo de exemplo à população. O povo precisa de heróis, o povo precisa de referenciais, e um soberano é muito útil para compor positivamente esse imaginário. Ademais, aquela foi uma época em que o Brasil, com todos os seus problemas de desenvolvimento e atraso social, tinha uma Economia estável, um regime com liberdade de imprensa, grandes estadistas na vida pública, e era respeitado no concerto das nações, isso muito se devendo aos soberanos que aqui reinaram. Foi uma época, realmente, em que o Brasil era grande!

Antes que venham os comentários pacóvios: monarquias são menos suscetíveis à corrupção que repúblicas, a começar pelo próprio Chefe de Estado. Um monarca não precisa roubar do erário. Afinal, se o fizesse, estaria tirando do próprio bolso e não faria o menor sentido degradar um patrimônio que ele iria deixar para seus filhos. E se roubasse, qual seria o sentido? Onde, quando e como gastaria o butim? Presidentes, por outro lado, têm que fazer seu pé de meia, para quando deixarem o poder…

A monarquia, ao contrário do pensam alguns, é muito mais barata que uma República. Saibam que a Presidência de um país como o Brasil gasta muito mais que qualquer Casa Real. E, ainda que as despesas fossem mais altas para manter uma família real (melhor manter uma família permanentemente que várias famílias de presidentes por sucessivos anos), alguém já pensou no custo do presidencialismo em termos de gastos com campanhas eleitorais periódicas? Quanto dinheiro público não é gasto a cada quatro anos somente com as eleições presidenciais?

Não quero, repito, convencer ninguém para minha causa. Escrevi este texto porque quero compartilhar com meus amigos, nestas Crônicas dos meus 40 anos, essa característica político-ideológica que para muitos me é tão marcante. Se você não gostar do que escrevi, paciência, não perca seu tempo tentando desconstruir meu discurso. Escrevo para aqueles que, ao menos, tenham um mínimo de discernimento e sensatez para considerar opiniões divergentes das suas, e que não sejam obtusos a ponto de simplesmente se fechar a qualquer argumento que não tenham facilidade de compreender ou que pensem ser contrário a sua maneira de ver o mundo.

Monarquia é sinônimo de estabilidade. Refiro-me a monarquias constitucionais, que fique bem claro. É instituição moderna (ao contrário do que muitos pensam) e tem aspectos muito positivos.

Este quase quarentão (eita, está chegando) pode afirmar com toda convicção que prefere ser súdito do Império do Brasil a cidadão desta (ou de qualquer outra) república… Viva o Império do Brasil! Pela restauração!

20180508_133917

17. Revistas (14/11/2014)

A paixão da leitura é a mais inocente, aprazível e a menos dispendiosa.
Marquês de Maricá

Uma das boas lembranças de infância era minha coleção de revistas em quadrinhos. Não gosto do termo gibi, acho feio. Por isso, uso revistas ou revistinhas.Turma da Mônica

Mamãe conta que, desde muito pequenos, ela nos estimulava a ler trazendo-nos revistas em quadrinhos: Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas (sempre fui fã incondicional do Tio Patinhas) e, naturalmente, os quadrinhos da Turma da Mônica. Com isso, já pequenininho estava a iniciar-me no maravilhoso mundo da leitura – e agradeço a Walt Disney e a Maurício de Sousa por isso!

As revistas em quadrinhos, portanto, fizeram parte de minha infância. E, claro, comecei a colecioná-las. Tinha centenas, e as organizava meticulosamente em uma pequena estante no meu quarto (detalhe: minha filha Victoria reproduz o mesmo comportamento). Era muito feliz com meus quadrinhos!

Pré-adolescente, descobri o mundo mágico das revistas de super-heróis: os termos “DC” e “Marvel” passaram a ser bastante familiares. E mergulhava naqueles universos fascinantes, aprofundando-me nos mitos de nossa geração, expressos e renovados nos quadrinhos de super-heróis: Batman, Super-Homem, Lanterna Verde, Liga da Justiça… Capitão América, Thor, Homem-Aranha (não gostava do Homem-Aranha), X-Men. Alguém já deve ter feito estudos sobre a mitologia dos quadrinhos de super-heróis e o quanto estes influenciam o imaginário das novas gerações desde meados do século XX.

Crise nas infinitas terrasÀ exceção dos X-Men, nunca gostei muito do universo Marvel. Minha simpatia esteve sempre com a Detective Comics (DC). E me divertia com os épicos que, vez por outra, surgiam nesses quadrinhos. Abro parêntesis para o comentário que só os nerds e fanáticos entenderão: a melhor série que li foi, em meados dos anos 80, “Crise nas Infinitas Terras”, que reorganizava todo universo DC, no qual havia mundos paralelos com “gêmeos” dos heróis dos nossos. Fantástico! (Fecha parêntesis e cessam os comentários nerd).

Assim, minha infância e adolescência foram muito agradáveis com os quadrinhos. Quando entrei no Segundo Grau (Ensino Médio de hoje), paulatinamente parei de lê-los… Nada traumático, apenas uma fase que acabava, perdi o interesse. Simples assim.

Hoje, ao contrário de muitos da minha geração, não tenho mais qualquer contato ou relação com revistas em quadrinhos. Ficam, porém, as ótimas lembranças desses tempos que não voltam mais.

Tio PatinhasDeixo também a recomendação aos pais: está aí uma excelente maneira de estimular a leitura dos filhos. Na casa de Dona Conceição e de Seu Jacob deu certo. Com Victoria e João também. Meus pequenos estão sempre lendo, estimulando o cérebro e aprendendo. E começaram com as revistinhas da Turma da Mônica. Fica a dica.

Neste 24° dia que antecede as comemorações de meus 40 anos (não são 40 décadas não! Nunca fui bom com números!), posto aqui a foto da Banca do Seu João, que ficava em frente à Administração de Sobradinho, onde meus pais tinham conta, e que muito frequentei. Passava lá quase todo dia para pegar revistas e conversar com Seu João! Bons tempos!

Salvo engano, depois que Seu João faleceu, a banca fechou. Eu realmente gostava dali. Minhas orações e lembrança hoje a meu amigo jornaleiro!

20141102_154235.jpg

16. Mães (13/11/2014)

MÃE…
São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
Confessam mesmo os ateus
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!

Mário Quintana

Há pessoas no mundo que nascem órfãs. Outras têm o privilégio de ter mais de uma mãe. Eu, felizmente, estou no segundo grupo. A 25 dias de comemorar minhas quatro décadas neste mundo, gostaria de apresentar a pessoa que me criou, que cuidou de mim enquanto minha mãe trabalha o dia inteiro e estudava à noite: a Rosa.

Roseni Alves da Silva é seu nome, mas todos a conhecem como Rosa. Maranhense, veio ainda mocinha para ajudar mamãe aqui em Brasília, em especial na criação de seu pequeno rebento (eu!). E fez um ótimo trabalho!

Incorporada rapidamente à família, Rosa cuidava de mim como de um filho. Conhecia os remédios e os telefones dos médicos (e me levava ao consultório, se necessário), fazia minha comida (cozinheira de mão cheia!), e me tratava com todo carinho e atenção!

Rosa era como uma segunda mãe para mim. Quantas vezes não comemorei meu aniversário com um bolinho caseiro, desses de caixa, feito por ela (com uns palitos de fósforo que serviam de vela)!?!? Quantas vezes, quando me machucava, era ela que me pegava nos braços, acalmava-me e passava remédio nos meus ferimentos? Quantas vezes ela não me levou para passear?

Rosa chegou menina lá em casa, cresceu, apaixonou-se, casou. Não foi feliz no casamento, mas teve quatro filhos, dos quais o único menino, o segundo filho, Eduardo, seria criado junto conosco, sendo afilhado de meus pais. Apesar de um período complicado na adolescência, Eduardo amadureceu, endireitou-se, entrou para a faculdade, formou-se, já concluiu Mestrado em Educação e hoje é professor. Por certo é motivo muito orgulho a sua mãe!

Devo muito a Rosa. E agradeço a ela publicamente no dia de hoje. Fica minha homenagem a todas aquelas pessoas que cuidam de nossa casa e de nossos filhos como se fossem delas! Vocês são tremendamente importantes!

Taí uma foto antiga, na qual eu, jovem de tudo, estou entre Dona Conceição e a Rosa. Só para registro: minha mãe preta não mudou nada todos esses anos!

20141102_161329

15. A Escola (12/11/2014)

Tenha em mente que tudo que você aprende na escola é trabalho de muitas gerações. Tudo isso é posto em sua mão como sua herança para que você a receba, honre-a, acrescente a ela e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos.
Albert Einstein

Agradeço muito ao Criador pela oportunidade de ter ingressado muito cedo na escola. Quando penso nas dificuldades de meu pai, que só conseguiu começar sua alfabetização aos 25 anos (e, digo isso com imenso orgulho) e, mesmo assim, concluiu, vitoriosamente e com muito esforço, dois cursos superiores, (Administração e Direito), e nas de mamãe, que conta como era complicado dispor de caderno, lápis e borracha em sua infância pobre no Nordeste (tendo ela também concluído Pedagogia, Estudos Sociais e Letras), vejo que a vida sempre foi muito complacente para comigo, que já com quatro, cinco anos, adentrava as portas do Instituto São José de Sobradinho e começava minha formação escolar.

Diante da história de vida de meus pais, e considerando que há milhões de pessoas neste imenso Brasil que não têm acesso a uma educação de qualidade, como crianças que tentam estudar em condições absolutamente precárias, sempre busquei valorizar ao máximo a oportunidade que me era dada pela Providência Divina de estudar e aprender. Vejo a escola como um lugar sagrado e os professores como sacerdotes que têm o mais nobre ofício de levar o conhecimento a outras pessoas. Daí meu entendimento de que a melhor forma de retribuir esta benção seria exatamente tornando-me o melhor aluno que minhas capacidades cognitivas permitissem. Minha forma de agradecer, portanto, era sendo um bom aluno.

Sim, sempre fui um bom aluno. Gostava de estudar. Tinha prazer em aprender coisas novas, em descobrir sobre o mundo. E, à medida que crescia, consolidava-se em minha mente e em meu coração a ideia de que só por meio do estudo e do conhecimento é que conseguiria alcançar os objetivos na vida. Junto com o exemplo de Seu Jacob e Dona Conceição (que sempre vi trabalhando e estudando), quando cheguei à terrível fase da adolescência, mais uma situação mostrava-se imperativa para me levar a estudar com esmero e tentar fazer o melhor que pudesse… Contarei aqui, pela primeira vez, nas próximas linhas, a outra grande razão que me impulsionava a estudar muito…

Sou o filho mais velho de uma família de classe média-baixa, que dependia basicamente do salário de meus pais, sem ajuda de mais ninguém. Quando nasci, papai tinha 42 anos. Cedo tomei consciência (e isso se me mostrava muito claro) de que talvez não o tivesse conosco por muito tempo. Portanto, tinha que crescer logo, arranjar um emprego, e garantir meu sustento próprio e, se necessário, o de minha mãe e irmãs mais novas. Não tinha padrinhos ricos ou influentes. Só podia contar comigo mesmo na adversidade (assim como ocorrera com meu pai). E me esforçaria sobremaneira para vencer e estar pronto, caso meu pai faltasse! Felizmente, Seu Jacob continua forte como um touro!

Nunca fiquei de recuperação, tampouco fui reprovado. Naturalmente, meus conceitos mais baixos no boletim eram em Educação Física. Em compensação era bom em Português, gostava de Geografia e era completamente fascinado por História. Como nunca compreendi Matemática (apesar de ter sobrevivido a ela), no Ensino Médio (que à época era chamado Segundo Grau ou Científico), fiz um teste vocacional, que comprovou o que eu já sabia: meu caminho era o das Ciências Humanas! Ótimo, as Humanidades estavam em meu futuro! E por aí seguiria!

Aos 16 anos, concluí o Ensino Médio. Ato contínuo, prestei o temível vestibular da Universidade de Brasília (naquela época durava quatro dias, não havia PAS, ENEM, nem formas de diluir o desespero dos estudantes de Segundo Grau em seu rito de passagem) para o então segundo curso mais concorrido da área de Humanas: Relações Internacionais. Era difícil, visto por muitos como um curso de elite, mas era o que queria.

Lembro como se fosse hoje quando lá em casa abrimos o jornal (não havia internet, e o resultado era divulgado cedo nos jornais impressos de Brasília), e vimos o meu nome entre os aprovados: mamãe chorava e, com um terço na mão, agradecia a D’us, e eu, aliviado, não conseguia acreditar que tivera êxito no primeiro vestibular, apenas com meu estudo doméstico (a velha fórmula horas/bunda/cadeira), pois meus pais não tinham como pagar cursinho pré-vestibular (nunca fiz pré-vestibular). Como prêmio pela vitória, fomos almoçar fora, em um restaurante self-service ali perto de casa (e, confesso, a comida estava especialmente saborosa!)!

Relações Internacionais era o que eu queria desde cedo! Futuramente, contarei um pouco da minha vida na universidade. Na mesma ocasião em que fui aprovado para Relações Internacionais, também passei para Jornalismo, no CEUB, hoje UniCeub (onde meus pais estudaram e onde eu próprio viria a me formar em Direito), mas acabei não me matriculando no curso, pois achei que ficaria muito pesado para um garoto de recém-completos 17 anos, morando longe e dependendo de ônibus, estudar o dia inteiro Relações Internacionais e à noite Jornalismo – ademais, meus pais enfrentariam dificuldades para pagar a faculdade particular. O interesse pelo Jornalismo permanece… quem sabe um dia…

Faltando 26 dias para celebrar meus 40 anos, gostaria de deixar minha homenagem aos responsáveis pelas minhas vitórias: meus professores. Da primeira professora primária a meu orientador no Doutorado, cada um dos meus mestres teve um papel único e relevante em minha formação. A eles serei eternamente grato e, lecionando, tento continuar portando a chama sagrada. Sim, porque no templo sagrado da sala de aula, a chama do conhecimento deve permanecer sempre acesa, pois é a transmissão do saber que nos faz mais singulares e humanos.

Hoje coloco duas fotos de 1980, quando de minha “formatura” do Jardim da Infância. Costumo dizer que, dentre os mestres, os primeiros professores costumam ter maior importância, pois se hoje sei ler e escrever, é porque tive uma professora primária que me ensinou a fazê-lo. Meu agradecimento especial a todas as “tias” do Primário!

14. O menino e a Guerra (11/11/2014)

Si vis pacem, para bellum.
Brocado latino

Hoje é 11/11/2014, e faltam 27 dias para meus 40 anos! Por mais estranho que possa parecer, o dia 11/11 é uma data sempre muito importante para mim… Afinal, foi na 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês do ano de 1918, que chegou ao fim a I Guerra Mundial, a Grande Guerra.

O menino e a guerra1Você deve estar se perguntando qual a razão dessa data ter algum significado para mim. De fato, ela nem é conhecida, tampouco lembrada, por 99,99% dos brasileiros! Por que alguém que nasceu e cresceu no Brasil, país sem tradição republicana de envolvimento em conflitos armados, se interessaria por polemologia (do grego, polémikus, conflito – o estudo dos conflitos)? O que tenho eu a ver com isso? Sinceramente, não sei… a única coisa que sei é que a guerra sempre me fascinou e o interesse pelos conflitos armados esteve junto de mim desde muito cedo…

Não tenho qualquer parente militar… De fato, talvez o parente mais próximo meu que tenha chegado perto da caserna deve ter sido algum primo que fez tiro de guerra no interior do Maranhão. Meu pai nunca teve qualquer interesse em assuntos militares, guerra ou história dos grandes confrontos bélicos. Nem filmes de guerra papai costumava ver. Durante toda a infância e juventude, estive inserido em instituições civis, jamais cursei escola militar e fui dispensado do serviço militar obrigatório por excesso de contingente. Apesar disso tudo, é inerente a minha pessoa essa fixação pelos grandes conflitos.

O menino e a guerra2Interessante que, na tenra infância, já lembro de brincar com meus soldados de plástico. Ah! Como gostava dos meus soldadinhos de uma única cor! Alemães azuis, japoneses amarelos, americanos verdes. Tinha também os soldados do Velho Oeste, com alguns de branco (que logo associava aos confederados se quisesse brincar de Guerra de Secessão), os azuis (da 7ª Cavalaria), e os vermelhos (índios que, normalmente, estavam em maior número e levavam a melhor). E tardes inteiras se passavam em batalhas constantes!

Geralmente, brincava só comigo mesmo… Meus pais não me permitiam brincar na rua com os outros meninos (não os culpo nem tenho qualquer queixa por isso!). Sobrava-me, então, divertir-me sozinho, brincando de guerra com meus soldados. E como gostava de comandar os exércitos! Sob meu comando, exércitos em lados distintos se digladiavam nas minhas brincadeiras infantis! E de nada mais precisava para ser feliz!

Qualquer brinquedo que ganhava, virava logo uma peça militar para as campanhas da infância… Se me davam um carrinho, obviamente ele se transformava em uma viatura. Minha madrinha costurava saquinhos de arroz, que eu usava como barricada para proteger minhas tropas. Era um aviãozinho que ganhei de aniversário? Não, uma aeronave de combate.

A falta de recursos financeiros e a criatividade faziam com que sucata e papelão fossem reciclados em brinquedos (nada comparado aos ossinhos de boi e os gravetos que papai usava como brinquedo em sua paupérrima e curtíssima infância – lembro que meu pai começou, de fato, a trabalhar com 5, isso, cinco anos de idade, ajudando na lavoura). Caixas de papelão viravam edifícios e casas, onde se escondiam soldados para trocar tiros com o inimigo. Barquinhos de papel só tinham razão de ser se fossem buques de guerra, com canhões de palito de fósforo, inclusive. E até potinhos de iogurte colados transformavam-se em “robôs-soldados” quando a brincadeira envolvia a guerra do futuro.

O menino e a guerra3Na minha infância, qualquer aviãozinho de papel virava uma aeronave de combate. E, com 7, 8 anos, já fazia esquadrilhas de cores e tamanhos distintos e, inconscientemente, reproduzia formações que depois viria a descobrir que existiram realmente durante as guerras mundiais: pequenos caças escoltando bombardeios. Não me pergunte de onde tirava essas ideias!

Nas poucas vezes em que estava com outras crianças, as brincadeiras descambavam para reprodução de batalhas. Uma casa em construção, por exemplo, era cenário perfeito para formarmos dois “times” e fantasiarmos um combate à la Stalingrado. Futebol, bola de gude ou pipa? Não tinha paciência para isso não…

Sempre me fascinaram os filmes e séries de guerra (posso assegurar, com relativa tranquilidade, que já vi a maioria produzida no Ocidente). Livros de história militar logo começaram a ocupar minhas estantes – conhecimento esse que, com imenso prazer, adquiria sobre as guerras da História, com ênfase nos dois grandes conflitos do século XX e na Guerra Civil americana.

O menino e a guerra6De armamentos entendo pouco. O que me fascinava mesmo era a estratégia, a maneira como os generais dispunham suas tropas, as grandes batalhas e, sobretudo, os efeitos da guerra sobre as pessoas… Sim, porque é na guerra que a condição humana chega aos extremos da perversidade e da benevolência, do egoísmo e da generosidade, do desprezo pelo outro e do sacrifício mais nobre, da traição e da mais canina fidelidade. Na guerra, as pessoas se revelam, e se transformam. E, qualquer um que tenha o infortúnio de viver a guerra, nunca mais será o mesmo! Minha fascinação pela guerra talvez repouse no fato de que ela parece ser uma condição essencial da natureza humana, e algo sempre presente desde que os primeiros homens caminharam sobre a terra!

Sempre fui um menino completamente aficionado pela guerra. Os cínicos ou os mais críticos dirão que é certamente porque não a vivi na pele. Para estes, sempre lembro de Sir John Keegan, provavelmente o maior historiador militar do século XX, falecido em 2012 aos 78 anos, que, em um de seus livros sobre a guerra, queixava-se de pertencer a uma geração que não mais convivia com o fenômeno que tanto o fascinava.

Haverá outros que se ofenderão com esse meu interesse na guerra. Mas o que posso fazer? Estou relatando o que sei e como me sinto! Não tenho culpa se é mais comum aqui no Brasil se interessar por futebol, ou por novela, ou pela vida dos outros. Eu, honrosa exceção, sempre fui fascinado pelo fenômeno da guerra! E isso é um aspecto importante dessas minhas primeiras quatro décadas encarnado neste plano!

Assim, aquele menino que brincava com soldadinhos de plástico cresceu, especializou-se em História Militar como hobby, coleciona (e assiste com frequência) filmes de guerra, tem prazer em ouvir marchas militares (mas não só elas, claro!), e está sempre a adquirir novos livros sobre os conflitos armados (muitos dos quais só espera ler na velhice – ou numa outra encarnação). Também se tornou especialista em Segurança Nacional e Defesa, trabalha com temas que envolvem diretamente as Forças Armadas, tem muitos amigos militares. E, quando viaja, o menino não visita estádios ou vai a teatros ou shopping centers (ou só a shopping centers). Quando viaja, o menino que cresceu busca encontrar e conversar com pessoas que viveram guerras, conhecer museus militares, campos de batalha e cemitérios onde repousam combatentes, para que possa render homenagem àqueles que sacrificaram o que tinham de mais precioso por uma causa, àqueles para os quais o tempo parou, àqueles que conservarão a eterna juventude, àqueles que sempre serão lembrados.

Para as crônicas de meus 40 anos, tinha que registrar essa característica que me é peculiar: o interesse pela guerra, desde pequenino, e sem qualquer justificativa ambiental, familiar, ou mesmo racional. Certamente os místicos têm explicação para isso. Mas essa é outra história…

20140606_114622

13. Vovô, o campo de batalha, e a Santa Isabel (10/11/2014)

A coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais.
Provérbios 17:6

Apesar do pouco que passamos juntos, Vovô Sother foi muito marcante em minha vida. “Seu Sota” lia muito (apesar de, como disse ontem, não ter concluído o ginasial), o que fazia dele homem de vasta cultura, sendo conhecido e respeitado na cidade de Caxias. Para mim, era aquele senhor muito magro e de cabelo absolutamente branco, de quem eu gostava de estar perto, pois sempre tinha algo para me ensinar sobre a vida.

Na minha infância, adorava quando, nas férias, viajava para Caxias para a casa de meus avós. Ali brincava em um imenso quintal, com uma grande mangueira ao centro, imponente e em cuja sombra repousava à tarde depois do almoço, degustando seu fruto como sobremesa! Corria pelo jardim cuidado por vovó, dormia em rede (coisa que não consigo fazer hoje), onde também balançava tanto, imaginando ser um piloto de guerra a bombardear as cidades inimigas, que uma vez caí e ralei as costas de um jeito que carrego a cicatriz do tombo até hoje! Bebia litros de Guaraná Jesus (sonho cor-de-rosa!!!), que meu avô comprava pouco antes de nossa chegada, e, repito, adorava ficar perto do velho Sother.

Também me divertia passeando pela cidade de minha mãe, onde ocorreram as batalhas da Balaiada. Ainda muito, muito pequeno, a felicidade era plena quando vovô me levava para o alto do Morro do Alecrim, onde havia ruínas do que fora uma construção bombardeada durante os combates e a praça com a estátua do Duque de Caxias, ladeada por dois canhões usados no conflito. Interessante o quanto gostava, desde a mais tenra infância, de locais de batalha e de temas relacionados à guerra – meus brinquedos sempre foram soldados de plástico, e todo carrinho que ganhava logo virava, de alguma maneira, um veículo militar requisitado pelas tropas…

Porém, o lugar mais marcante de Caxias depois da casa de meus avós era a Santa Isabel, um pequeno sítio comprado por Seu Sother e nomeado em homenagem a vovó Sidoca (cujo nome de nascimento era, de fato, Isabel). Ali, sempre me lembrarei da casa ao centro (pequena e simples, mas que para mim era gigante e um lugar a ser explorado, com baús que me reservavam tesouros históricos, e com peças antigas – como uma espada e algumas espingardas – pregadas às paredes!). E, diante da casa, a pitombeira! Ah, a pitombeira! Quem nunca teve o privilégio de experimentar pitomba não compreenderá o prazer de ficar embaixo da árvore e degustar aquela fruta pequena e suculenta. Sou aficionado por pitomba (talvez porque me remonte à infância no sítio)! Havia, ainda, o pomar em que se destacavam as diversas mangueiras, e uma área com muitas plantas, arbustos e árvores que, para mim, era a “mata” a ser explorada.

Ia muito com vovô a Santa Isabel. E adorava quando ele me entregava um pequeno facão e um cantil e me levava para desbravar a “selva”, onde minha imaginação me alçava à condição de grande explorador de uma floresta inóspita e desconhecida. O melhor de tudo, acompanhado de meu avô, que sempre tinha muito a me ensinar.

Aspecto interessante de vovô é que ele, na infância, vivera com os índios no Maranhão. Apesar de loiro e branco, aprendera muito com o povo da floresta (para usar o jargão do momento), a quem muito respeitava. Conhecia plantas e animais, sabia fazer pintura de guerra com urucum, e sempre tinha um ensinamento indígena a transmitir quando nos embrenhávamos pelas trilhas da mata da Santa Isabel, abrindo caminho a facão entre os arbustos! Essas experiências, de quando era bem pequeno, ficaram marcadas na memória e no coração.

Sinto muita saudade do velho Sother. As crianças deveriam poder passar mais tempo com seus avós, que não poderiam partir tão cedo. Hoje, faltando 28 dias para meu aniversário de 40 anos, enquanto escrevo este texto me veem lágrimas aos olhos junto com a memória das últimas imagens de vovô: estava eu sentado no chão de piso quadriculado, brincando com meus soldados, próximo a sua cadeira de balanço, e ele alegre a conversar com meus pais sobre um livro de troças em forma de poesia, de onde destacara uma quadrinha, da qual, mesmo com meus oito ou nove anos, talvez menos, ouvi uma vez e nunca esqueci, pois associo o poeminha diretamente à imagem sorridente de meu avô:

Chegava o compadre a reclamar com o outro sobre os desmandes da vida. Depois de perguntado sobre o porquê de estar aborrecido, respondeu sobre sua lida:

– Ora, cumpadi! Há quatro coisas no mundo que atormentam um cristão: uma mulher ciumenta, um menino chorão, uma casa que goteja e um burro topão!

Ao que o outro compadre retruca:

– Meu cumpadi, não se incomode com isso! Para tudo tem solução: o menino, a gente acalenta; a casa, a gente retelha; o burro se apara os cascos; tudo isso se arremedeia!

– Mas cumpadi, pergunta o aborrecido, e a mulher ciumenta?

– Ah, cumpadi! O diabo da mulher ciumenta, a gente só resolve na peia!

Troça simples e de um humor até questionável nos atuais tempos do politicamente correto, mas meu avô tirara de um livro seu. Nunca esqueci dessa historinha, que foi a última que ouvi do pai de mamãe. Algum tempo depois, aos oitenta anos bem vividos, um câncer de pulmão o levaria – Seu Sother fumava muito, e seu último pedido, antes de falecer, foi por um cigarro…

Agradeço sempre ao criador por ter colocado o velho Sother, ainda que por pouco tempo, em minha vida. Ele permanece em minha memória e em meu coração.

As fotos de hoje foram tiradas em Santa Isabel. Devo estar com uns quatro ou cinco anos nelas. Na primeira, encontro-me na mata, escondido entre os arbustos, como um guerreiro de selva! Já na segunda, no tanque de água que para mim era uma grande piscina, praticava as técnicas de mergulhador de combate! Ser criança é sempre muito bom!

Santa Isabel

12. Meus avós (09/11/2014)

Uma geração contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos.
Salmos, 145:4

20141101_193013-3-1-1Faltam 29 dias para meu aniversário!!! Na sequência das crônicas de meus quarenta anos, o texto de hoje é dedicado a meus avós.

Avós são fundamentais na vida de qualquer criança. Quando se tem a oportunidade de ter os quatro junto, a felicidade é certa.

Tive pouco contato com meus avós. Os paternos não conheci. O pai de meu pai, José Jacob Gonçalves nasceu em 1864 (ano em que o Paraguai atacou o Império do Brasil, iniciando a maior guerra que a América do Sul já vivenciou). Sim, meu avô paterno é da segunda metade do século XIX e papai é o penúltimo filho de seu segundo casamento. Minha avó paterna, Dona Carminda, também não conheci, pois faleceu nos anos cinquenta (bom lembrar que, quando nasci, papai já tinha 42 anos). O que sei sobre eles é que meu avô era lavrador e vovó cuidava da casa. Sertanejo, analfabeto, Seu José Jacob deixou para os filhos dois grandes legados: a honra (pois sem ela um homem não é homem); e longevidade (sim, porque vovô viveu até quase cem anos, e tenho tios e tias que alcançaram um século de vida). De Dona Carminda, por sua vez, a lembrança que meu pai nos conta era de uma mulher de fibra que amou e criou seus filhos com dignidade. Gostaria de tê-los conhecido.

Da parte de mamãe, pude conhecer, ainda que brevemente, meus avós: Sother e Isabel (Sidoca). A lembrança que tenho de Vovô Sother é de um homem sério, inteligentíssimo (apesar de não ter completado o ginasial, lia muito, e tinha um vasto conhecimento das coisas do mundo).

Vovô Sother sempre foi o patriarca de um clã que, como disse, rendeu muitos bons frutos. Ao fechar os olhos e pensar no meu avô, vem-me à cabeça ele sentado em uma cadeira de balanço, cabelos completamente brancos, e um livro ou um jornal nas mãos. Como eu era o mais novo dos netos, sentia com ele um vínculo muito forte.

Já de vovó Sidoca, creio que nascida em 1912, típica avó, gordinha, simpática e uma cozinheira de mão cheia, a recordação que tenho é de um grande sorriso, e de amor e carinho incondicionais! Pena que a conheci pouco, pois faleceu quando eu tinha uns cinco ou seis anos, vítima do diabetes. Vovô partiria algum tempo depois, deixando uma saudade e um vazio nos sete filhos, nas dezenas de netos, e naquele garotinho em particular que adorava quando chegavam as férias e podia ir a Caxias encontrar o avô, que era uma grande referência.

Não tenho muito mais o que dizer de meus antepassados. Mas o que sei é que sinto muito orgulho de trazer comigo essa herança genética de homens e mulheres fortes, honrados e amorosos. É fascinante pensar que cada ser humano é o resultado de milhares e milhares de anos de evolução e carrega consigo no DNA um legado de homens e mulheres que remonta o início dos tempos. Há que se honrar os antepassados! E a melhor maneira de fazê-lo, creio eu, é preservando a memória dos que o antecederam conduzindo-se com a retidão que justifique honre toda a corrente que veio antes.

Já filosofei muito! Fotos de Vovô Sother e Vovó Sidoca.

Em tempo: amo o nome de meu avô! Sother, em grego, significa Salvador. Acho tremendamente forte e significativo. Queria muito ter dado a meu filho o nome de João Sother, mas a mãe o vetou…

20141101_193036-1