Eu vim, e vi!

20181111_221459.jpgNeste aniversário de cem anos do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, praticamente ninguém mais que vivenciou o conflito está entre nós (os poucos centenários encontravam-se, no máximo, na primeira infância quando a Guerra acabou). Entretanto, a memória daquela geração de 1914-1918 deve permanecer viva nos corações e mentes de sua descendência, de modo que o sacrifício que foi feito jamais seja esquecido.

20181111_221547.jpgParis, assim como diversas cidades pelo mundo, celebrou o centenário do fim da Grande Guerra. Na manhã do domingo, 11/11/2018, um grande evento reuniu cerca de 80 Chefes de Estado no Arco do Triunfo: Markron, Trump, Putin, Merkel, Felipe VI… Estes e tantos outros vieram à capital francesa para prestar tributo aos que viveram e morreram durante aquele conflito.

Claro que, além dos líderes mundiais, a celebração se completou com milhares de homens e mulheres comuns, de diferentes raças e credos, que se aglomeraram perto das cercas colocadas para restringir a circulação dos transeuntes na Avenida mais famosa de Paris. O que foram fazer ali? Cada um tinha sua história, seu motivo para estar lá… E eu, que neste domingo fui uma dessas pessoas, também tinha os meus…

Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque queria presenciar esse momento único no coração da nação que, há cem anos, venceu a Guerra de 1914-1918 à custa de mais de 1 milhão de vidas… Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque a Grande Guerra sempre me fascinou, uma vez que pôs fim a uma era e deu início ao admirável mundo novo em que se transformaria o século XX. Decidi estar aqui para me unir em pensamento e pela minha presença física a todos os que entendem a importância da Grande Guerra. Enfim, se havia um lugar em que gostaria de estar no Centenário do Armistício era em Paris! Assim, eu vim! 

20181111_221404.jpgDaqui a muitos anos poderei dizer a meus netos que estive em Paris no Centenário do Armistício. Contarei o que vi. Contarei do dia frio e chuvoso, das ruas fechadas, da impecável organização para garantir a segurança daqueles que vieram celebrar a paz. Contarei que vi que nem de longe a cidade deveria estar como estivera há cem anos, com multidões pelas ruas em festa, mas que havia sim quem queria festejar a paz, cem anos depois… Contarei que vi que não houve desfile militar, o que me causou estranheza (não me convenço do argumento de que desfiles seriam incompatíveis com a celebração da paz…) e, de certo modo, frustração.

Daqui a muitos anos, poderei contar a meus netos que vim a Paris e ouvi os sinos de toda a cidade começaram a badalar exatamente às 11:00, pois há cem anos a Guerra acabou na décima-primeira hora, do décimo-primeiro dia, do décimo-primeiro mês… E contarei da dificuldade de descrever a emoção que preenchia o coração deste que, desde menino, era fascinado pela guerra, algo tão inerente à natureza humana…

Cinco gerações se passaram. Certamente, a história daqueles que viveram a hecatombe de 1914-1918 também passou despercebida a muitos dos que estavam hoje em Paris – no metrô, nos jardins e até na Avenida dos Campos Elíseos… Isso também vi. Enquanto ia em direção ao Arco do Triunfo, olhava para a diversidade de rostos que embelezam a capital francesa e me perguntava se essas pessoas tinham consciência de que dia seria hoje… Talvez não tivessem (não as culpo por isso, que fique claro…). Talvez estivessem mais preocupadas com sua guerra diária pela sobrevivência (poderia ser diferente? Não creio…)…

De toda maneira, eu tinha consciência do momento… Eu vim para ver. E sei que outros que estavam ali comigo nos Campos Elíseos também o tinham, é também vieram para ver…

E sempre que pensar na Guerra de 1914-1918, a partir de hoje poderei dizer que  eu vim, vi e, de alguma maneira, acabei me inserindo na história daquele conflito, na história daqueles pessoas.

Assim, quando algum dia me perguntarem o que estava fazendo em 11/11/2018, poderei dizer que, cem anos depois do Armistício, com a Paris, vi Paris, e entrei em comunhão com milhões de outros seres humanos, de ontem e de hoje, na capital francesa.

Sim! Vim a Paris para comungar, para me unir em pensamento àqueles que viveram e morreram há um século na Grande Guerra. E estive aqui para reunir impressões que só poderiam ser reunidas se aqui estivesse e se visse tudo que vi. E, diante do Arco do Triunfo, a alguns metros dos líderes de todo o mundo, prestei minha homenagem aos mais de 9 milhões de seres humanos que não viram o Armistício de 11/11/1918. E direi: “vim e vi”!

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Jamais Serão Esquecidos!!!

Lest forgetComo sempre faço todos os anos, relembro a importância da data de hoje. Há exatos 96 anos, na 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês de 1918, os sinos por toda a Europa começavam a badalar celebrando o fim de quatro anos de guerra, cujo saldo negativo fora de 10 milhões de mortos e outros tantos feridos, mutilados, incapacitados. Além das preciosas vidas perdidas e dos incalculáveis prejuízos materiais, a Grande Guerra que terminava provocara mudanças fundamentais na sociedade, no quadro político e econômico internacional e, acima de tudo, da maneira de ver o mundo dos homens e mulheres de então.

A I Guerra Mundial afetou toda uma geração nos cinco continentes. Vale lembrar de países como o Canadá, tão distante do continente europeu, mas que, com uma população de 10 milhões à época, mobilizou 1,5 dos seus nacionais para o esforço de guerra, deixando para sempre nos campos de batalha da Europa cerca de 65 mil homens entre 17 e 45 anos, que foram lutar uma guerra que muitos diziam que não era deles…

Lest forget2Como sempre faço todos os anos, relembro que a Grande Guerra é um divisor de águas na História da humanidade. O mundo mudou completamente naqueles quatro anos e, a partir dali, mudaria muito mais. Bastante do que vivemos hoje encontra origem no conflito de cem anos passados…

Como sempre faço todos os anos, relembro dos milhões que se sacrificaram nos campos de batalha da Grande Guerra, dos civis que pereceram no conflito, das famílias afetadas por aqueles acontecimentos. E é a eles que rendo homenagem. Como se está a dizer hoje por todo o planeta, “jamais serão esquecidos!”!

Em homenagem a todos que viveram a Grande Guerra e que morreram naquele conflito, reproduzo aqui o Ato da Lembrança (The Act of Remembrance), um trecho do poema “For the Fallen” de Laurence Binyon, escrito em 1914, e muito usado no Dia da Lembrança (Remembrance Day), comemorado nos países da Comunidade Britânica das Nações, para lembrar os veteranos e os que tombaram defendendo seu país (for the King and the Empire). Aprendi sobre ele quando vivia no Canadá, onde a data é muito significativa. 

The Act of Remembrance

They shall grow not old,
as we that are left grow old:
Age shall not weary them,
nor the years condemn.
At the going down of the sun
and in the morning
We will remember them.

O Ato da Lembrança

Eles  não envelhecerão
Como nós envelhecemos
Eles jamais ficarão cansados
Nem o tempo os condenará
E quando o sol se puser
E ao amanhecer
Nós lembraremos deles.

Nós lembraremos deles! 

Remembrance-Sunday

Lembranças da Grande Guerra

Ainda por ocasião das homenagens a todos que lutaram e morreram na Grande Guerra, encerrada a 11/11/1918, segue uma carta de um soldado estadunidense que estava em Paris naquele dia que seria chamado por alguns de “o maior dia da história”. Impressionante como , quase um século após o fim do conflito, as lembranças do armistício estão vivas e emocianam.

A Letter Home From A U.S. Serviceman in Paris, 11 November 1918

11 November 1918

Dear Folks:

Arrived here last night, and was on the street today when the armistice with Germany was signed.  Anyone who was not here can never be told, or imagine the happiness of the people here.  They cheered and cried and laughed and then started all over again.

Immediately a parade was started on the Rue De Italiennes and has been going on ever since. In the parade were hundreds of thousands of soldiers from the U.S., England, Canada, France, Australia, Italy and the colonies.  Each soldier had his arms full of French girls, some crying, others laughing; each girl had to kiss every soldier before she would let him pass. Continuar lendo

A importância do 11/11

É surpreendente a quantidade de baboseiras que as pessoas falam sobre o 11-11-2011! Abertura de portais, emanações das mais diferentes forças, momento para se conectar com outros planos e com seres tão etéreos quanto a imaginação possa conceber… Tudo isso dentro de uma gigantesca onda de esoterismo fashion, fútil e perdido! Isso me faz lembrar as palavras de Albert Einstein (este sim um místico de fato, apesar de poucos conhecerem essa faceta do gênio), que dizia que só acreditava em duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana… mas que não tinha certeza quanto à infinitude do universo!… E o pior é o incentivo dos meios de comunicação a todo esse besteirol pseudo-esotérico!

O dia 11/11 sem dúvida deve ser lembrado, só que por outro motivo. Essa data, nunca esquecida em muitas partes do globo, evoca a lembrança do 11/11/1918, quando começou a vigorar o armistício que pôs fim ao maior de todos os conflitos pelos quais a humanidade havia passado até então: a I Guerra Mundial, também chamada de “A Grande Guerra”. Foram cerca de 10 milhões de soldados mortos de diferentes nacionalidades, religiões, convicções políticas, e outros 7 milhões de civis, além de milhões de feridos e inválidos. Nações civilizadas que se digladiaram e mostraram sua face mais bárbara. Colheitas perdidas em campos onde o que cresceu durante anos foram apenas as papoulas que brotavam da terra onde se encontravam os corpos dos milhares que caíram por força de bombas, tiros ou baionetas… Cidades inteiras destruídas. Impérios que se esfacelaram. Enfim, um mundo que mudou tão intensamente em quatro tenebrosos anos como nunca se pudera prever! E as seqüelas se prolongaram para muito além daquele novembro de 1918, chegando mesmo a nossos dias. Com a Grande Guerra, acabou uma era e outra teve início.

O 11/11 é uma data especial, uma data que deve ser sempre lembrada em tributo daqueles milhões de seres humanos que sacrificaram sua juventude e a própria vida nos campos de batalha da Europa e do mundo. E ao final deste dia, que se possa dedicar alguns minutos de reflexão e meditação por todos que pereceram nas diversas guerras dos últimos 100 anos.

Segue um artigo de Jamal Khokhar, Embaixador do Canadá no Brasil, publicado hoje no Correio Braziliense, sobre o Dia da Lembrança.  

Dia da Lembrança

Jamal Khokhar, Embaixador do Canadá no Brasil

Hoje é um dia significativo para o Brasil e o Canadá, assim como para os outros países junto aos quais continuamos a lutar para defender a paz e a liberdade. No Canadá, o Dia da Lembrança surgiu como forma de comemorar o fim das duas guerras mundiais e de batalhas travadas desde então. É um dia para prestar homenagem a todos aqueles que lutaram para defender nossos ideais e, ao fazê-lo, pagaram com a própria vida. Valorizar os sacrifícios feitos por dezenas de milhares de cidadãos corajosos nos faz lembrar o custo da democracia.

Ambos os países participaram da Segunda Guerra Mundial — em que o Brasil foi o Continuar lendo