Maçonaria e Independência

Convido a todos para uma palestra que farei amanhã, intitulada “A Maçonaria e a Independência do Brasil – Construindo uma Nação“. Será às 20h00 desta segunda, 02/09/2019, no Templo Igualdade do Grande Oriente do Brasil (GOB), na 913 Sul (SGAS, Quadra 913, Conjunto H,  Brasília-DF). O evento, que ocorrerá por ocasião da Semana da Pátria, é aberto aos amigos e familiares dos maçons, pois se trata de Sessão Magna Pública. Segue o convite.

Vamos conversar um pouco sobre a influência da Maçonaria no processo de independência do Brasil e na construção de nossa nação. Afinal, os maçons, entre os quais José Bonifácio e o próprio Pedro I, foram decisivos no movimento que culminou no 7 de setembro de 1822.

Aguardo vocês lá! Agradeço a divulgação.

IMG-20190829-WA0025

E foram abertas as portas do Inferno…

Há exatos 80 anos, o mundo começava o mês de setembro com a mais tenebrosa de todas as notícias: às 4h45 (hora de Berlim) de 1º de setembro de 1939, o couraçado Schleswig-Holstein, da Kriegsmarine, abria fogo contra as defesas polonesas na cidade-livre de Dantzig (atual Gdansk), de população germânica desejosa de ser incorporada ao Terceiro Reich. Simultaneamente, e sem declaração formal de guerra, tropas alemãs atravessavam a fronteira, tendo à frente os 2.500 Panzer que varreriam as forças polonesas por onde passassem, abrindo caminho para a infantaria que logo chegaria para ocupar o terreno. Pelo ar, a Luftwaffe se encarregaria dos bombardeios de cidades importantes e da destruição da força aérea inimiga no solo. O conceito de Blitzkrieg, a guerra relâmpago (que teve como idealizador o general Heinz Guderian, um dos mais brilhantes militares de seu tempo,) era posto em prática. Tinha início o maior conflito que os seres humanos jamais vivenciaram. Tinha início a Segunda Guerra Mundial.

Algumas palavras sobre esse começo da Segunda Guerra Mundial… Primeiramente, cabe assinalar que o ataque à Polônia só foi possível, naquelas condições, em razão da “Política do Apaziguamento”, promovida por britânicos e franceses (com apoio da Itália Fascista), e da aliança entre o Terceiro Reich e a União Soviética de Stálin, consubstanciada em 23 de agosto (uma semana antes, portanto), por meio do Pacto Ribbentrop-Molotov. Sem essas duas situações, Hitler não teria ousado dar ensejo ao “Caso Branco” (codinome do plano para invasão e conquista da Polônia). 

Assim, de um lado havia a aquiescência de Lord Chamberlain (que, para ir à Alemanha, pela primeira vez entrara em um avião) e do Primeiro-Ministro francês Daladier (que liderava a coalizão de esquerda a qual governava a França naquela época). Clássica é a cena de Chamberlain que, ao retornar da Conferência de Munique (setembro de 1938), declara a seus concidadãos que “a paz estava salva!” – às custas da Tchecoslováquia, claro, que foi entregue a Hitler por decisão das grandes potências europeias. Veja as imagens a que me refiro:

Do outro lado, estava a aproximação entre os dois gigantes totalitários, a Alemanha nazista e a União Soviética stalinista. Em ambos os países, chegara-se ao ápice do totalitarismo (de direita e de esquerda), e muitos analistas da época acreditavam que o conflito entre as duas ditaduras era iminente, ocorrendo caso Hitler invadisse a última nação que separa o Reich do território soviético: a Polônia. Nesse sentido, defendo que havia mesmo o interesse de Reino Unido e França de que esse passo fosse dado pela Alemanha. Afinal, se a Polônia fosse invadida, certamente as duas Potências totalitárias se digladiariam, e as democracias ocidentais só precisariam assistir “de camarote” e esperar o enfraquecimento de ambas e a derrota, pelo menos, de uma delas…

A habilidade política dos alemães pôs termo às expectativas de Paris e Londres quando, para a surpresa de todos, o Ministro das Relações exteriores da Alemanha, Joachim von Ribbentrop, foi, na última semana de agosto, a Moscou. Lá celebrou, com seu colega soviético, Vyacheslav Molotov, o Tratado de Não Agressão entre a Alemanha e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na parte secreta daquele Tratado havia um acordo de partilha do território da Polônia entre soviéticos e alemães. Também era assegurado o reparte de outras regiões da Europa Oriental (garantindo-se que a Alemanha não entraria em conflito com a URSS, caso Moscou decidisse “recuperar” territórios que lhe seriam “de direito”, com herança da Rússia Czarista, ou seja, o que então constituía os Estados independentes da Estônia, Letônia e Lituânia, a Finlândia e partes da Romênia, além da própria Polônia). O Pacto Ribbentrop-Molotov selava, assim, o destino de várias nações europeias e, por que não, de toda a humanidade…

Não entrarei em detalhes táticos da invasão, nem de como a Polônia capitulou em menos de seis semanas. Tampouco cuidarei do fato de que, no dia 17 de setembro de 1939, foi a vez dos soviéticos adentrarem o território polonês (para “libertar” aquelas populações que ali viviam de uma invasão fascista que ainda não ocorrera), encontrando-se com seus “camaradas” alemães em Brest-Litovsk (em lembrança do tratado de 1918), onde apertaram as mãos. Tratarei menos ainda do “apoio” (pífio) dado aos poloneses por Reino Unido e França, que declararam guerra ao Reich três dias depois dos primeiros movimentos alemães, mas permaneceram praticamente inertes durante os meses seguintes (até a campanha alemã da primavera de 1940, voltada à Europa Ocidental), e silentes quando Stálin mandou o Exército Vermelho cruzar a fronteira com a Polônia…

Com a invasão de seu território pelos dois lados, e a derrota na campanha de setembro, a Polônia deixou de existir como Estado independente. Aquela nação, gloriosa de sua identidade e de suas tradições, viu-se subjugada, humilhada e forçada a servir aos dois senhores que repartiram o botim, e mostraram ao mundo seu poder. A seguir um documentário sobre o início da guerra.

Na Polônia ocupada pelos soviéticos, rapidamente o NKVD (antecessor do temido KGB) de Laurenti Beria tratou de executar cerca 7.000 civis e 15.000 oficiais poloneses, numa carnificina que teve no massacre de Katyn seu maior símbolo. A intelligentsia do país foi exterminada. Do lado alemão, além de perseguir a intelectualidade polonesa, a sanha nazista se voltou contra os 3,2 milhões de judeus que viviam plenamente integrados àquela sociedade: logo, professores universitários, profissionais liberais, comerciantes, funcionários públicos e trabalhadores das mais distintas áreas foram proibidos de exercer suas funções e obrigados a usar no peito ou no braço a Estrela de Davi. Depois viriam os guetos, os campos de concentração, as câmaras de gás, os crematórios, o extermínio.

 A Segunda Guerra Mundial começou, portanto, oficialmente, com o fim da Polônia como nação independente. Seis anos se passariam até que aquele povo fosse libertado do jugo alemão, para cair sob o controle soviético e o regime comunista. Foram seis anos de dor, sofrimento e morte, oitenta milhões de vidas perdidas, destruição total, perdas materiais e imateriais incalculáveis.

 O mundo realmente seria outro quando a Alemanha assinou a capitulação, em 8 de maio de 1945. A Guerra, que começara com a “questão polonesa”, tomara rumos inimagináveis. Para os poloneses, porém, sempre me lembrarei da história daqueles que, no dia que findaram as hostilidades na Europa, combatiam na Itália junto dos aliados e se desesperaram temendo retornar à pátria e cair nas mãos dos soviéticos, que ainda massacrariam centenas de milhares de poloneses étnicos no imediato pós-guerra. A sensação deveria ser de que os seis anos de guerra teriam sido em vão…

Indubitavelmente, a Polônia foi muito mais uma peça no jogo das grandes potências. Um jogo nocivo e caro, que custou milhões de vidas. Impossível esquecer das palavras de um judeu polonês, que conheci em Auschwitz, e que externou seu ressentimento com os “aliados” de Varsóvia por ocasião da guerra de 1939-1945: “O pior é que a guerra começou para nos libertar dos alemães e de Hitler”, disse ele, “mas nossos ‘salvadores’ acabaram a guerra nos entregando nas mãos dos soviéticos e de Stálin… Quem perdeu nisso tudo?”…

 Em tempo: fui o terceiro estudante de Relações Internacionais no Brasil a produzir uma monografia de final de curso, e isso lá em meados da década de 1990. O tema foi inusitado para aquele momento: “A Política Exterior do III Reich, 1933-1939”. Pretendo um dia trabalhar no arquivo e transformá-lo em livro. Pensei que poderia ser para os setenta anos do início da Guerra, depois para os oitenta… Quem sabe em comemoração aos 75 anos do fim do conflito, ou aos 85 do começo… Uma hora sai!

George e Nicky – razões de família versus imperativos de Estado

Dia desses, quando postei em minhas páginas no Facebook e no Twitter (siga-nos lá!) sobre um livro que tratava das Casas Reais Europeias, a foto da capa causou dúvida aos leitores. Quem era o casal real ali representado? Alguns amigos pensaram que eram Nicolau II e sua esposa Alexandra, os últimos Romanov a governar a Rússia. Surpreenderam-se quando disse que não eram eles… Mas quem seriam então?

A resposta: era uma foto de George V, do Reino Unido, e de sua esposa, Vitória Maria de Teck. “Mas como? Parece tanto com o Czar Nicolau II!”. Não se preocupe, essa confusão é mais comum do que se imagina…

Confundir George V e Nicolau II não é nada de absurdo. Os dois eram primos-irmãos (a mãe de Nicolau era irmã da mãe de George), e realmente se pareciam muito. Ambos os monarcas, assim como suas esposas, eram todos descendentes da Rainha Victoria (como a maioria absoluta dos soberanos europeus, diga-se de passagem).

41712mn

De fato, George e Nicky (como o Czar era chamado pelos parentes mais próximos) gostavam de brincar com essa grande semelhança. Não eram raras as vezes em que posavam para fotos vestindo os uniformes um do outro ou propositalmente confundiam aqueles que com eles se encontravam, pregando-se-lhes peças. Note-se que o soberano russo falava inglês sem sotaque e, sobretudo quando jovem, frequentava muito a corte britânica. A Czarina Alexandra (nascida Alice), por sua vez, era uma princesa alemã, mas passara grande parte da infância no Reino Unido, tornando-se muito próxima da avó materna, a Rainha Victoria.

Portanto, os dois soberanos eram bons amigos, desde a infância. Na juventude, conviveram bastante. Uma curiosidade: chegou-se a cogitar que a princesa Alice de Hesse iria se casar com George (o que, se tivesse acontecido, faria dela a futura esposa do Rei da Inglaterra). Entretanto, Alice apaixonou-se perdidamente por outro príncipe, seu primo Nicky, e “enfrentou” a própria avó (que gostou da impetuosidade da neta) e as “razões de Estado” para se casar com o amor de sua vida. Assim, Alice celebrou o matrimônio com Nicky, que se tornou Nicolau II, da Rússia, e ela própria alterou seu nome para Alexandra Feodorovna, vindo a ser a última Czarina. O casal Romanov teve cinco filhos (as Grão-Duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, e o Czarevich Alexei), seu amor perduraria por toda a vida e Nicolau e Alexandra seriam conhecidos como um dos casais mais apaixonados e verdadeiramente unidos entre as famílias aristocráticas de seu tempo.

Voltando a Nicolau e George, os primos, já soberanos da Rússia e do Reino Unido, respectivamente, veriam-se diante de um dos períodos mais trágicos e importantes da História: a I Guerra Mundial. Juntos, estariam à frente de seus Estados contra a Alemanha, na qual reinava seu outro primo, Guilherme II, também neto direto da Rainha Victoria. E a forma como lidaram com a dicotomia “razão de Estado” versus “razões de família” selaria o imbricado futuro de ambos e o destino de suas famílias e de seus tronos.

Não é exagero dizer que a Grande Guerra foi um conflito entre irmãos. Como consequência daqueles anos de morte, sofrimento e destruição, o Império Alemão ruiria, e Guilherme II se exilaria na Holanda, onde ficaria até o fim da vida, na década de 1940. George continuaria soberano do Reino Unido, país vitorioso da I Guerra Mundial, mas cuja decadência das décadas seguintes já dava os primeiros sinais. Quanto a Nicky, seria tragado pelos acontecimentos que o levariam à abdicação e consequente fim da monarquia na Rússia e dos trezentos anos de autocracia dos Romanov. Seu fim e o de sua amada família constituiriam um dos mais trágicos acontecimentos do século que se iniciava.

Após a abdicação, Nicolau Romanov, Alexandra e os filhos ficaram sob custódia do Governo Provisório. Visto como uma ameaça por aqueles que temiam a restauração monárquica, o antigo Soberano de Todas as Rússias tornou-se uma peça importante no tabuleiro político interno e seu destino uma questão de cunho internacional. Sua integridade e a de sua família estariam ameaçadas se permanecessem na Rússia, apesar das garantias do Governo Provisório de que ninguém tocaria no ex-Czar e nos seus. Começaram as negociações para que os Romanov partissem para o exílio, tendo como principal destino o Reino Unido. E aí começa o drama que mostrou a fraqueza de George e sua conduta reprovável, mas também a sua submissão às “razões de Estado” e a preocupação com a preservação da monarquia britânica.

Imediatamente após a abdicação, na primavera de 1917, o Governo Britânico chegou a oferecer asilo para o Czar e sua família. A pedido do Rei George, o Embaixador britânico em Petrogrado, George Buchanan, apresentou formalmente a oferta do Governo de Sua Majestade de abrigo para os Romanov no Reino Unido.

Entretanto, enquanto seguiam as negociações sobre o destino de Nicolau e família, aumentava a pressão do Gabinete de Sua Majestade contra o abrigo aos Romanov em solo britânico – o próprio Lloyd George, Premier do Reino Unido, era contrário a receber o “tirano” Nicolau em seu país de tradição liberal e democrática. A reação negativa da opinião pública crescia a cada dia, e havia argumentos de que a vinda dos Romanov para a Inglaterra poderia por em questão até a própria monarquia britânica.

George teve então que decidir sobre a acolhida de seus primos. Se as razões de sangue faziam-lhe querer ter seus familiares consigo, e garantir-lhes a segurança, os imperativos de Estado (ao menos era o que argumentavam os políticos) o impeliam a voltar atrás na proposta de asilo.

O monarca britânico decidiu. Aquela deve ter sido a mais difícil resolução de sua vida – como o fora a abdicação do primo Nicolau, alguns dias antes. Cedeu ao apelo dos políticos e lavou as mãos quanto ao destino de Nicky e sua família. Londres ordenou a Buchanan que voltasse atrás na oferta de asilo. E assim foi feito.

Tendo seu primo inglês dado-lhe as costas, Nicolau viu sua situação agravada nos meses seguintes. Tornou-se verdadeiro cativo do Governo Provisório. Com o golpe bolchevique de outubro de 1917, a desgraça se abateria definitivamente sobre aquela bela família. Levados como prisioneiros para a Sibéria, transportados às pressas de uma cidade a outra, em condições cada vez mais complexas e difíceis, Nicolau, Alexandra e os filhos enfrentariam seu trágico destino em julho de 1918, massacrados pelos algozes bolcheviques a mando do próprio Lênin. Triste fim para o último Czar.

Sempre me pergunto se a decisão de Nicolau em abdicar foi a mais acertada. Mesmo com sua situação como soberano tremendamente complicada, será que não deveria ter continuado no trono, e sido mais resoluto no trato dos problemas de Estado? Será que deveria ter escutado menos a sua amada Alexandra? Indiscutivelmente, a decisão de abdicar teve como fator preponderante a família: Nicolau sabia que Alexei, com sua hemofilia grave, jamais poderia se tornar o Czar. E acreditava sinceramente que, sem as responsabilidades de um monarca autocrático, poderia se dedicar plenamente a sua família e cuidar de maneira mais efetiva de seu filho doente. Abdicou em favor de seu irmão Mikhail, sem consultá-lo. E Mikhail, ele próprio, não quis o fardo de soberano, o que agravou a crise e provocou a queda da monarquia e o fim da dinastia dos Romanov à frente da Rússia.

George, por sua vez, optou pelos imperativos de Estado – os quais, certamente, também envolviam a preservação do trono. Difícil não associar a decisão abnegada de George V (que também, repito, pode ser entendida como submissão disciplinada e razoável aos interesses de Estado) ao triste destino dos Romanov (sobre o qual também a hesitação de Nicolau, especialmente no contexto de sua abdicação, teve forte influência). Se o Rei tivesse sido mais assertivo com seus ministros, ao menos a Czarina e as crianças poderiam ter sido salvas. Assim, a morte dos primos russos seria realmente indissociável da conduta claudicante do soberano britânico.

Por certo, George nunca se perdoou pelo que aconteceu a Nicolau, Alexandra e sua família. Nunca mais foi o mesmo depois daquilo. E levou para o túmulo a culpa, que, na verdade, era em parte do hesitante Nicky e dos facínoras bolcheviques, cujo ódio e a sofreguidão colocaram a Rússia no caos e conduziram o país a sete décadas de regime autoritário.

A história de George e Nicky é mais um drama entre os grandes dramas relacionados a um mundo romântico que desapareceu com a Guerra de 1914-1918. Passaram-se cem anos, mas essas histórias ainda nos comovem, marcam e emocionam. 

A volta dos Romanov

Conversando hoje pela manhã com um dos meus estimados 15 (quinze) leitores, esse amigo comentou sobre o interesse de sua filha e de alguns colegas lá no trabalho sobre a história da família Romanov (que governou a Rússia durante pouco mais de 300 anos), particularmente sobre o último Czar, Nicolau II, brutalmente assassinado junto com sua família há 101 anos. Coincidentemente, vi na Gazeta Russa agora há pouco uma matéria a respeito do aumento do interesse dos russos na monarquia. 

De fato, o artigo assinala que Nicolau II é mais popular entre seus compatriotas que Lênin e Stálin, e  que 8% dos russos querem o retorno da monarquia; 19% não são contra, mas depende de quem seria coroado, e 66% dos russos são categoricamente contra o retorno do regime monárquico – o que não surpreende, depois de 70 anos de comunismo e três décadas de recuperação daquele estrago… Mas esses 27% simpáticos à causa monárquica chamaram-me a atenção para um fato: os Romanov não foram totalmente aniquilados!

Niclau e Alexei

O Czar e seu filho, Alexei, também brutalmente executado em 17 de julho de 1918, pouco antes de completar 14 anos.

Ainda que a volta da monarquia no país com maior dimensão territorial do planeta seja uma possibilidade muito remota, a Rússia pós-soviética é marcada pela reabilitação do último Czar (que acabou canonizado em 2000 pela Igreja Ortodoxa), e pelo aumento do debate sobre o período imperial e a tragédia que foram os anos sob o comunismo. São poucos os que têm saudade da URSS (constatei isso quando estive no país em 2017 e nas conversas com os nativos), e muita gente vê os Romanov com um misto de curiosidade e simpatia.

Joanisval e Nicolau

O Czar Nicolau II e eu. E tem um mala discursando lá atrás…

Em novembro de 2017, na cidade de São Petersburgo, a capital fundada por um dos maiores Romanov, Pedro I, pude participar da Festa da Luz, um evento ao ar livre em que se projetavam imagens da história do país como referência aos acontecimentos de 1917, no novo feriado russo chamado Dia da Unidade Nacional (já que não se comemora mais a revolução bolchevique). A apresentação mostrava o amor de Nicolau por Alexandra, seu zelo para com os filhos, a beleza da Rússia monárquica, a Grande Guerra e crise que culminou na abdicação do Czar e no Governo Provisório, sucedido pelas conspirações que levaram ao “golpe de outubro”, que é como os russos passaram a chamar o que muitos por aqui ainda denominam saudosamente (ao estilo Neymar, “saudade do que nunca vivemos”) de “revolução russa de 1917”. Sim, parece geral a percepção de que o governo bolchevique conduzido pelo famigerado Vladimir Ilyich Ulyanov et caterva trouxe grandes males e muito mais prejuízos à Rússia e ao seu povo que benefícios, entre eles o totalitarismo stalinista. Confesso que isso muito me alegrou.

Assim, Nicolau II e sua família repousam hoje na Catedral de São Pedro e São Paulo, na antiga capital imperial, e sua memória é cultuada por pessoas das mais distintas origens e classes sociais. Como acontece nas monarquias, de ontem e de hoje, as figuras do soberano e de seus familiares, os símbolos e tradições do império, e a ideia de uma época mais charmosa e feliz permeiam o imaginário de muitos russos quando se fala “nos tempos do Czar” – tempos esses, repito, não vividos por praticamente mais ninguém ali depois de um século.

Se os Romanov voltarão um dia a governar aquele fascinante país, ou mesmo se a Rússia terá novamente um regime monárquico, é muito difícil dizer. Entretanto, o que parece uma certeza é que os russos não querem mais nem cogitar o retorno do comunismo, que se dissolveu há quase trinta anos, apodrecido nas suas ideologias de corrupção, cupidez e violência…

Nicolau e Joanisval

Joanisval e Nicolau

Compartilho aqui com meus leitores um episódio que aconteceu comigo enquanto visitava São Petersburgo por ocasião do centenário dos acontecimentos de outubro/novembro de 1917… Estava eu com um grupo de brasileiros, que haviam ido à Rússia para “comemorar a Revolução de Russa e a vitória do comunismo”. Minha curiosidade, registre-se bem, era eminentemente histórica – afinal, queria vivenciar a Rússia cem anos depois daqueles episódios que lançaram o país no caos!

Não preciso dizer que a maioria do grupo era de esquerda, comunistas e socialistas brasileiros – deveriam ser os únicos que estavam ali a glorificar os feitos do senhor Lênin et caterva. Também não preciso dizer que meu relacionamento com uma parte deles restringia-se apenas à convivência em alguns passeios e a um formal “bom dia” ou “boa tarde” quando nos encontrávamos (pois Dona Conceição me educou bem). Ao contrário das pessoas com quem estive na Normandia, em 2014, nos 70 anos do Dia D (que se tornaram bons amigos, com quem me relaciono até hoje, inclusive por conversas diárias nas redes sociais), daqueles de Leningrado (ops!) e Moscou foram poucos de quem mesmo guardei os nomes…

Mas vamos ao episódio. Estávamos a visitar o Cruzador Aurora, que, em outubro de 1917, teria dado os primeiros tiros para desencadear o golpe bolchevique e a derrubada do Governo Provisório de Kerenski. Fundeado às margens do Rio Neva, na belíssima São Petersburgo, esse navio é hoje um museu em memória da Revolução Russa. Costumeiramente, viajo com uma Bandeira Imperial do Brasil e gosto de fazer retratos com nosso Pavilhão Auriverde. Qual não foi minha surpresa ao ver que um dos nossos colegas de excursão teve a brilhante ideia de levar consigo uma bandeira soviética (sim, a tradicional, vermelha com a foice e o martelo), e quis posar para uma foto com ela no navio!

Fiquei a observar. Quando o sujeito abriu a bandeira, um marinheiro que fazia guarda ali veio em sua direção. O brasileiro achou que o rapaz iria posar com ele (como o fizeram muitos dos russos conosco naqueles dias, numa demonstração cristalina de que são um povo simpático, agradável e nada frio). Vejo os dois tentanto um diálogo impossível. Seguem-se os minutos. O cidadão fica bravo com o marinheiro. O jovem russo mostra-se irredutível nas suas determinações. A bandeira é então colada de volta na mochila, sem que o retrato fosse tirado (eu e um casal amigo tiramos várias fotos com bandeiras no navio…).

Pouco tempo depois, nosso comunista tupiniquim vem em minha direção. Foi creio que a segunda das duas vezes que troquei algumas palavras com ele em dez dias. Olha para mim, com ar frustrado, e balbucia, esperando minha solidariedade (de classe, certamente):

– Acredita que “o soldadinho ali” não me deixou tirar foto com a bandeira? Para você ver, tem “coxinha” em tudo que é lugar!

Ao que minha resposta é automática:

– Não é isso, meu caro. É que aqui eles viveram o comunismo, e têm plena consciência dos males que os comunistas causaram a este país e a seu povo!

O sujeito fica estático cinco segundos (certamente processando a resposta em sua mente patológica), dá meia-volta e vai embora rangendo os dentes (para minha satisfação, não nos falamos mais por toda a viagem). E eu fiquei ali, apreciando a paisagem do Neva já em congelamento, sentindo a brisa fria no rosto, e gargalhando interiormente, lembrando de Nicolau II e feliz comigo mesmo por ter dado minha parcela de contribuição ao povo russo em sua revisão da História e, claro, na reabilitação dos Romanov…

Para a reportagem sobre a percepção russa acerca de Nicolau II, clique aqui (e sim, está em português).

E a seguir um vídeo com um pouco da Festa da Luz, que gravei em 2017. Está também lá no meu canal no Youtube, que você acessa clicando aqui

Em tempo: a agência de turismo que me levou à Rússia foi a Tchayka (hoje operando sob o nome de Rota da Seda). Recomendo muito! Profissionalismo, seriedade e eficiência. Para acessar o site deles, clique aqui. E recomendo falar com o Sérgio Delduque lá – certeza de bom atendimento!

(Atenção! Não estou ganhando nem um centavo de jabá do pessoal da Tchayka. Recomendo porque realmente gostei muito do serviço deles!)

O que acontece quando a guerra acaba?

Muita gente acha que quando se declara o fim de uma guerra, tudo volta à paz imediatamente após a interrupção do conflito. Doce ilusão!
O término da I Guerra Mundial tem uma data precisa: os combates seriam suspensos à 11ª hora do 11° do 11° mês do 4° da guerra, ou seja, em 11/11/1918. Haveria paz no mundo a ser reconstruído…
Mas enquanto a matança cessava na frente ocidental, ao longo de toda a Europa Oriental e do Sudeste, a guerra continuou até, pelo menos, 1923, e milhões (isso mesmo, milhões) de pessoas perderam a vida em conflitos por território, étnicos ou em guerras civis.
Tenho me dedicado ao estudo desse período de imediato pós-guerra, seja a partir de 1918, seja a partir de 1945, e indicarei aqui algumas leituras interessantes.
Acabei de ler The Vanquished – How the First World War Failed to End, de Robert Gerwarth.
Trata-se de obra fascinante e muito bem escrita, que relata o drama dos povos da Europa do Leste, Balcãs, Oriente Médio, Itália, e, do que viria a ser a União Soviética no imediato pós-guerra.
O livro, além de uma análise política e histórica, traz relatos sobre pessoas comuns que viram seus destinos definidos por forças que lhes escapavam à compreensão, e suas vidas alteradas para sempre em razão de sua etnia, religião, nacionalidade ou, simplesmente, “por terem nascido ou vivido no lugar errado”…
Recomendo efusivamente. E em breve trarei outras sugestões nessa linha…

Não se esqueça do meu blindado!

Estamos em abril, mas já quero aproveitar para ajudar os amigos que desejem me presentar no meu aniversário (8 de dezembro, anote aí!) ou no Natal (25 de dezembro, para quem não sabe!): já escolhi o que quero, e é simples de conseguir!

Quero um tanque de guerra russo, tudo bem? Existe na terra de Putin (gosto de Putin! Putin é KGB) uma “Associação de Veículos para Todos os Terrenos”, por meio da qual se pode adquirir veículos militares (como um tanque!). Para o site da Associação, clique aqui (está em russo, tudo bem?).

T-34 – coisa munita!

Assim, com quaisquer 200 mil dólares você pode adquirir um belíssimo T-34, o mais famoso blindado soviético da II Guerra Mundial (ou, se quiser usar o termo russo, da Grande Guerra Patriótica)!

20171111_160156

A descrição no site do T-34 é muito bacana, mais ou menos assim:

Modelo lendário T-34: características e vantagens de um tanque médio. O modelo T-34 pode ser chamado de lenda – é o tanque mais massivo da Segunda Guerra Mundial, que desempenhou um papel crucial em muitas batalhas. Ele começou a produção em massa em 1940, e até meados de 1944 foi o principal tanque do Exército Vermelho. Ao longo da história, a URSS produziu mais de 80 mil desses tanques, alguns dos quais chegaram aos nossos tempos. O tanque modelo T-34 é de interesse para colecionadores e amantes de veículos blindados históricos. Se desejar, você pode obter um carro lendário em boas condições: em movimento, customizado, mas tendo passado por um processo de desmilitarização.

Caso você, meu caro leitor e amigo, queira me presentear com alguns veículos mais modernos (se puder escolher, prefiro o T-34, que já foi muito testado inclusive contra Panzer), pode escolher um T-72 ou um T-80, ao precinho camarada – entendeu o trocadilho? – de 350 a 500 mil dólares! O que são alguns mil dólares para fazer o Joanisval feliz?

20171111_160001Faço um pequeno alerta: não compre munição! Os módulos de munição são removidos de todos esses blindados, de modo que o canhão de 125 mm não vai funcionar (o que, realmente, é uma pena!)… Tudo bem, cavalo dado…

Finalmente, e como sou boa pessoa, posso até arcar com o frete do bichinho! Só não me mande pelo correio porque ele pode desaparecer no caminho (como a grande maioria das encomendas que a gente ainda insiste em mandar!).

Então, quer fazer este ser humano feliz? Não se esqueça do meu blindado!

20171101_145537

Príncipes soldados

Passados 100 anos da Grande Guerra, aquele período continua fascinando a muitos de nós, apesar de uma parcela significativa da população brasileira vergonhosamente não saber nada sobre o conflito. Como eu não sou de desistir de divulgar conhecimento, segue uma publicação que pode agradar os amantes de Clio…

Familia Imperial no Exilio

A Princesa Isabel e o Conde D’Eu com a família no exílio.

Em 2014, O Globo publicou uma matéria sobre os príncipes brasileiros que combateram na I Guerra Mundial. E o jornal destaca:

Pouca gente sabe, por exemplo, que, muito antes de o país enviar equipe médica, embarcações e alguns oficiais apenas na reta final do confronto, dois príncipes brasileiros atuaram na guerra e até morreram em consequência disso. Filhos da Princesa Isabel com o francês Conde D’Eu, os nobres D. Luís Maria e D. Antônio Gastão, netos do ex-imperador D. Pedro II, serviram ao lado do Império Britânico. [Aqui um comentário nosso: não existe “ex-Imperador”, caro jornalista. Uma vez Imperador, sempre Imperador!]

Chama a atenção o fato dos príncipes exilados (em razão do famigerado golpe de 15 de novembro de 1889), filhos do Conde D’Eu (com sangue francês que remonta a antes mesmo da França existir) não terem sido aceitos pela República Francesa (ah, sempre ela!) para combater em suas fileiras contra as Potências Centrais (pelas quais lutavam muitos de seus primos e onde eles mesmos haviam feito serviço militar).

Dom Luís de Orléans e Bragança

Dom Luís de Orléans e Bragança (1878-1920)

Assim, os Príncipes Dom Luís e Dom Antônio Gastão, netos de Dom Pedro II, nascidos no Brasil e, portanto, oriundos da família real brasileira, eram também franceses (descendiam dos reis da França), foram treinados pelos austríacos (também eram Habsburgos, como os Imperadores da Áustria-Hungria) e serviriam na guerra lutando junto com os britânicos. Situação inusitada, não?

O fato é que os príncipes combateram na Grande Guerra, e combateram com galhardia e coragem. Foram reconhecidos pelos seus pares como bravos soldados. E, como outros tantos milhões de jovens de sua geração, sofreriam diretamente os dissabores do conflito: nas trincheiras da França, Dom Luís contrairia uma doença que o levaria à morte logo depois do conflito, em 1920 (pouco antes do centenário da Independência, proclamada por seu bisavô). Já Dom Antônio, reconhecido por sua coragem, teria participado de batalhas aéreas (teria sua paixão pelo avião vindo da proximidade de sua família com o grande Santos Dumont?) e, em 29 de novembro de 1918 (portanto, alguns dias depois do armistício de 11 de novembro), sofreria um acidente de avião e viria a óbito.

Antonio
Dom Antônio Gastão de Orléans e Bragança (1881-1918)

Cabe destacar que ambos os príncipes-soldados, que mostraram sua bravura no maior confronto que o mundo já conhecera, morreram longe de sua terra natal. Exilados com o golpe de 1889, foram para o Oriente Eterno sem nunca mais ver o Brasil que tanto amavam… Duas décadas depois, a belíssima Canção do Expedicionário expressaria essa preocupação de todo aquele que combate por sua pátria: “não permita D’us que eu morra sem que volte para lá”.

Essa foi mais uma das histórias da Grande Guerra. Belíssima contribuição de nossos príncipes imperiais à liberdade, contribuição essa que deveria ser digna de respeito e gratidão por todos oa brasileiros.

Importante que saibamos, como brasileiros, que os filhos da (legítima) nobreza  brasileira, que aqueles homens que poderiam simplesmente nada ter feito enquanto milhões combatiam nas trincheiras, foram nobres também em sua decisão de lutar e dar a vida pela causa em que acreditavam. Pergunto-me quais filhos da nossa elite republicana de hoje se prestariam a tão altivo sacrifício…

(E ainda tem gente que me pergunta o porquê de eu ser monarquista…)

Para acessar a reportagem, clique aqui.

Os 195 anos da Constituição

imageDeixei passar uma importante efeméride da última semana de março… No último dia 25, celebramos os 195 da primeira (e única legítima) Constituição do Brasil: a Carta de 1824 do Império do Brasil!

Republicanos que me perdoem, mas a Constituição de 1824 é um primor! Carta liberal e muito avançada para sua época, funda realmente uma nação e, em sua simplicidade e abrangência, garante-se como documento político basilar de um país – talvez por isso tenha sido a mais longeva de nossas Constituições. Foram praticamente sete décadas, com apenas uma emenda – algo impensável para quem, nos dias atuais, acostumou-se com uma Lei fundamental que mais parece periódico, tantas as atualizações que possui…

As críticas e até eventuais comentários jocosos sobre nossa Carta de 1824 só se podem dever à má-fé ou à ignorância. Afinal, trata-se de texto bem escrito, e que cuida dos aspectos elementares de que deve cuidar uma Constituição: os fundamentos políticos do Império, a cidadania, os poderes constituídos, o processo legislativo, a administração e economia das províncias… Tudo encadeado com lógica e clareza. Para quem se interessa pelo assunto, recomendo a leitura da Constituição de 1824 em seu inteiro teor – é linda!

Detalhe importante: enquanto todas as outras constituições que a sucederam “fundam” o Brasil como “a união indissolúvel dos Estados, Distrito Federal” e, mais recentemente, dos “Municípios”, ou seja, de um Brasil formado por entes abstratos, a Carta de 1824 estabelece que o Brasil que constitui de uma associação de pessoas, de gente, de homens livres. Esse aspecto humano do Brasil está logo no art. 1º:

Art. 1. O IMPERIO do Brazil é a associação Politica de todos os Cidadãos Brazileiros. Elles formam uma Nação livre, e independente, que não admitte com qualquer outra laço algum de união, ou federação, que se opponha á sua Independencia.

Há outros aspectos interessantes, sobre os quais já comentei aqui em Frumentarius. Por exemplo, pondo a termo o discurso modernoso de que a Constituição de 1988, a “Carta Cidadã”, é pioneira e inovadora ao tratar de uma série de direitos e garantias individuais, recomendo a leitura do art. 179 da Constituição do Império, que trata da “inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade” e que “é garantida pela Constituição do Imperio”. Comento a esse respeito em A mais legítima das nossas constituições, post que você pode acessar clicando aqui.

Que um dia possamos ter de volta nossa norma fundadora! Assim sairemos desse atoleiro em que os republicanos nos colocaram desde 1889!

brasilimp1822-1889b

Breve história do nome Capitão-de-Mar-e-Guerra

platinamareguerraComo hoje é quarta-feira, e para manter a constância, resolvi publicar um texto que recebi de um grande amigo naval. Trata-se da explicação da origem do nome “Capitão-de-Mar-e-Guerra”, patente que na Marinha corresponde à de Coronel nas Forças de Terra e Ar. Vamos a ele então!

Breve história da origem do nome Capitão de Mar e Guerra.

Nos tempos das caravelas existiam duas entidades muito importantes a bordo: o piloto e o capitão. O primeiro responsável pela navegação segura do navio. Para tal, contava com o Mestre e os marinheiros para conduzir as fainas marinheiras,  principalmente as velas. O Capitão por sua vez era de formação militar e conduzia os soldados que guarneciam fuzis (daí fuzileiros navais), cuja função era atirar naqueles que quisessem abordar o navio e atirar  no piloto prejudicando a abordagem. A expressão Capitão significa “aquele que comanda”. Assim, o Piloto era o “Capitão do Mar “(expressão usada por muitas Marinhas para o posto equivalente a CMG). Já o outro era o “Capitão da Guerra” devido à sua formação militar.  Com o tempo um mesmo homem passou  a exercer as duas funções. Daí surgir o nome “Capitão-de-Mar-e-Guerra” na Marinha portuguesa. Mais tarde, o termo foi adotado nas Marinhas de língua portuguesa.

Minha homanagem aos amigos da Marinha do Brasil!

Mais uma data a ser lembrada…

O dia 23 de março de 2019 é uma data que merece ser lembrada. Hoje, após anos de combates, a coalização ocidental que opera na Síria anunciou a queda de Baghuz, último reduto da organização que ficou conhecida como “o Estado Islâmico”, ou Daesh – passei a usar o termo Daesh, pois amigos árabes me disseram ser mais adequado.

Com a tomada da cidade pelas “Forças Democráticas Sírias” (FDS) – ou os “rebeldes moderados” tão aclamados por alguns meios aqui no Ocidente -, o projeto de poder de criação de um califado pelo Daesh fracassou. Até esse ponto, entretanto, foram muitos anos de dor, sofrimento, morte… Foram anos de violência exarcebada e de radicalismo, anos de imposição do terror a centenas de milhares pessoas… Sempre vale lembrar que o Daesh, conhecido pela extrema violência, dominou um território do tamanho do Estado de Minas Gerais, promovendo barbaridades que chocariam até membros de outras organizações terroristas. Esses fatos, certamente devem ser lembrados.

AFP Photo

Capture d’écran de la chaîne kurde Ronahi TV montrant les Forces démocratiques syriennes levant leur drapeau au sommet d’un bâtiment du dernier bastion de Daesh. AFP PHOTO / HO / RONAHI TV

Não entrarei neste post nas questões geopolíticas relacionadas à débacle do Estado Islâmico. Deixarei isso para publicações futuras. Mas lembro que a situação na Síria ainda não está totalmente pacificada. Convém que isso seja lembrado.

Agora acabou! Ao menos acabou a dominação do Daesh sobre milhares de seres humanos (sírios, curdos, iraquianos) de uma das regiões mais ricas em história e cultura no planeta. Acabou o osbcurantismo imposto pelo fundamentalismo religioso. Acabaram os estupros, o uso de escravas sexuais e como serviçais, as execuções em praça pública (transmitidas pela internet), o emprego de crianças para promover atrocidades, a violência contra homossexuais… Será que acabou mesmo?

Dificilmente a violência terá acabado para as populações que estiveram sob o jugo do Daesh nos últimos anos. Certamente ela diminuirá, esparamos que bastante. Mas os traumas físicos e psicológicos desse período de terror, de violações indescritíveis à dignidade humana, ainda continuarão com aquelas pessoas pelo resto da vida. Elas precisarão de cuidados, muitos e constantes cuidados. De toda maneira, a bandeira negra do Daesh não mais tremula naquelas cidades. Isso é algo que deve ser lembrado.

Reuters

Syrian Democratic Forces (SDF) fighters ride atop military vehicles as they celebrate victory in Raqqa, Syria, October 17, 2017. REUTERS/Erik De Castro

O fim da dominação do Daesh na Síria e no Iraque não é, inobstante, o fim da organização terrorista. Ainda há milhares de combatentes espalhados pela região e, pior, emigrando (alguns de volta) às cidades da Europa e das Américas. Com isso, o perigo de uma guerra nas sombras, com ataques no coração da civilização ocidental, permanece. A hidra teve suas cabeças cortadas, mas a experiência ensina que elas nascerão novamente. Eis um aspecto do esfacelamento do Daesh que deve ser lembrado.

De toda maneira, a data de hoje tem sua simbologia. Representa o fim do terror e possibilidade de uma nova vida para, repito, centenas de milhares de pessoas. Por aqui, importante ficarmos atentos. Mas, pelo momento, cabe comemorar e orar pelos mortos e pelos que enterraram seus mortos.

Continuar lendo

O Babuíno da Grande Guerra

Jackie2A participação dos outros animais nos conflitos armados é tão antiga quanto a dos próprios humanos. Cavalos, cães, elefantes, falcões, pombos… Exércitos sempre recorreram a esses meios para alcançar a vitória nas batalhas! Pouca gente sabe, entretanto, que na I Guerra Mundial um inusitado combatente foi… um babuíno!

Jackie era o nome dele! E símio-soldado foi incorporado às forças do 3º Regimento de Infantaria Sul-Africano (Transvaal), que combateu junto das tropas britânicas nas trincheiras da Grande Guerra. Era o bichinho de estimação (coisa mais inusitada ainda!) de Albert Marr, sulafricano que, ao se apresentar como voluntário para ir combater na França, pediu a seus superiores para levar junto sua mascote! (Devia ser um tipo estranho também esse Albert!). Para a surpresa de todos, a autorização foi concedida, e lá foram  Albert, seu Regimento, e Jackie para o front. 

Foi assim que Jackie tornou-se a mascote oficial (se me permitem o trocadilho) do Regimento! Tinha uniforme completo, bolachas (badges) e até um quepe. Dizem que acompanhava a tropa nas marchas e aprendeu os comandos de ficar em pé, descansar e até a prestar continência (coisas que alguns esquerdopatas nunca aprenderiam a fazer por aqui cem anos depois)!

O babuíno participou de diversas batalhas no Norte da África e em solo Europeu durante três longos anos. Devido a sua visão e sua audição aguçadas, Jackie tinha condições de antecipar os ataques inimigos melhor que qualquer sentinela humana. Graças a isso, salvou muitas vidas em seu regimento. Continuar lendo

1314: o fim do começo

jacques.jpgOs 12 leitores de Frumentarius sabem que gosto de dedicar algumas postagens aqui a efemérides. Na próxima segunda, 18 de março, completar-se-ão 705 anos (isso, setecentos e cinco) da execução, em Paris, do último Grão-Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay. O evento marcaria o fim oficial daquela famosa Ordem de Cavalaria, a instituição mais rica do Ocidente depois da Igreja Católica, formada por monges guerreiros que protegiam os peregrinos e lutaram contra os muçulmanos pela Terra Santa, e contra todos os considerados inimigos da Cristandade. Além disso, foi graças aos Cavaleiros Templários que se desenvolveu o primeiro sistema bancário do Ocidente.

O patrimônio da Ordem do Templo incluía mosteiros, fortalezas, terras aráveis, moinhos além muito ouro e prata guardados nos cofres de suas sedes espalhadas pela Europa. Os templários tinham ainda seus próprios navios nos quais transportavam artigos de luxo do Oriente para a Europa (sedas e especiarias). Tamanha riqueza pode ter contribuído para a ruína dos Templários. Ao final do século XIII, contudo, o destino dos templários começou a mudar.
Joelza Ester Domingues, em Ensinar História

A execução na fogueira do Grão-Mestre punha fim a sete anos de perseguições, capitaneadas pelo Rei da França, Felipe IV, o Belo, e pelo Papa Clemente V (completamente subserviente ao monarca francês). Interessado nas riquezas dos Templários, Felipe IV iniciou um processo contra eles, acusando-os de heresia e de práticas condenáveis e de idolatria: negação da Cruz e do próprio Cristo, adoração a uma figura tida como demoníaca, sodomia…

execution-JacquesAssim, no dia 13 de outubro de 1307 (uma sexta-feira), todos os templários encontrados em território francês foram presos, entre eles o Grão-Mestre. Começavam sete anos de torturas e execuções, em que se buscava obter a confissão dos membros da Ordem por seus supostos crimes. A organização foi completamente debelada nos domínios de Felipe, mas a quando as forças do Rei chegaram à sede da Ordem em Paris, encontraram os cofres vazios: o tesouro dos templários havia desaparecido! O mesmo aconteceu em outros castelos e edifícios da Ordem. Ademais, a poderosa frota dos Templários, que durante séculos transportara pessoas e riquezas pelo Mediterrâneo e pela costa ocidental da Europa, estacionada no porto de La Rochelle, simplesmente sumira!

Quando os senescais do Rei foram para os castelos templários para cumprir a ordem de prisão encontraram muitos deles abandonados e a grande força naval que estava ancorada na base dos Templários no porto de La Rochelle havia simplesmente sumido assim como todo o tesouro templário.
David Hatcher Childress- (http://greyfalcon.us/), 
“A Frota Naval dos Cavaleiros Templários e seu Império Marítimo”
(Traduzido por  Thoth3126, in https://thoth3126.com.br/a-frota-naval-dos-cavaleiros-templarios-1/)

O processo dos templários durou, portanto, sete anos. Muitos cavaleiros foram torturados e executados, chegando-se, a 18 de março de 1814, à execução de Jacques de Molay, que resistira aos maus-tratos e morreu negando a culpa pelas acusações que lhe eram imputadas e à Ordem.

JacquesDeMolayRestingPlaceAntes de morrer, enquanto o fogo o consumia, Jacques de Molay lançou uma maldição contra seus algozes: “Eu vos amaldiçoo até a 13ª geração, e vos intimo a comparecer perante o Tribunal do Juiz de todos nós dentro de um ano para receberdes o vosso julgamento e o justo castigo!”. Quarenta e cinco dias depois, Clemente V morreria vítima de uma infecção intestinal. E em 29 de novembro de 1314 seria a vez de Felipe, que morreria de uma queda de cavalo durante uma caçada.

Não cabe aqui entrar em maiores detalhes nem sobre a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão, nem de seu último Grão-Mestre (deixo alguns links que podem ser interessantes para começar a conhecer mais). Entretanto, se foi extinta oficialmente por Clemente V, a Ordem continuou existindo em outros lugares da Europa, como na Inglaterra, na Escócia, na Catalunha e em Portugal (país, de fato, fundado por templários). Os reis daqueles lugares continuariam protegendo a Ordem e seus membros, sob o manto de novas organizações como a Ordem de Cristo portuguesa.

Também o fim dos templários em 1314 daria ensejo a uma série de histórias e lendas sobre aqueles monges guerreiros, seus tesouros, o conhecimento e o segredo que protegiam. E, no século XXI, a Ordem continua sendo objeto da curiosidade e da pesquisas por todo o globo. Seu legado jamais será extinto.

Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini tuo da gloriam…

Continuar lendo

Eu vim, e vi!

20181111_221459.jpgNeste aniversário de cem anos do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, praticamente ninguém mais que vivenciou o conflito está entre nós (os poucos centenários encontravam-se, no máximo, na primeira infância quando a Guerra acabou). Entretanto, a memória daquela geração de 1914-1918 deve permanecer viva nos corações e mentes de sua descendência, de modo que o sacrifício que foi feito jamais seja esquecido.

20181111_221547.jpgParis, assim como diversas cidades pelo mundo, celebrou o centenário do fim da Grande Guerra. Na manhã do domingo, 11/11/2018, um grande evento reuniu cerca de 80 Chefes de Estado no Arco do Triunfo: Markron, Trump, Putin, Merkel, Felipe VI… Estes e tantos outros vieram à capital francesa para prestar tributo aos que viveram e morreram durante aquele conflito.

Claro que, além dos líderes mundiais, a celebração se completou com milhares de homens e mulheres comuns, de diferentes raças e credos, que se aglomeraram perto das cercas colocadas para restringir a circulação dos transeuntes na Avenida mais famosa de Paris. O que foram fazer ali? Cada um tinha sua história, seu motivo para estar lá… E eu, que neste domingo fui uma dessas pessoas, também tinha os meus…

Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque queria presenciar esse momento único no coração da nação que, há cem anos, venceu a Guerra de 1914-1918 à custa de mais de 1 milhão de vidas… Decidi estar em Paris no Centenário do Armistício porque a Grande Guerra sempre me fascinou, uma vez que pôs fim a uma era e deu início ao admirável mundo novo em que se transformaria o século XX. Decidi estar aqui para me unir em pensamento e pela minha presença física a todos os que entendem a importância da Grande Guerra. Enfim, se havia um lugar em que gostaria de estar no Centenário do Armistício era em Paris! Assim, eu vim! 

20181111_221404.jpgDaqui a muitos anos poderei dizer a meus netos que estive em Paris no Centenário do Armistício. Contarei o que vi. Contarei do dia frio e chuvoso, das ruas fechadas, da impecável organização para garantir a segurança daqueles que vieram celebrar a paz. Contarei que vi que nem de longe a cidade deveria estar como estivera há cem anos, com multidões pelas ruas em festa, mas que havia sim quem queria festejar a paz, cem anos depois… Contarei que vi que não houve desfile militar, o que me causou estranheza (não me convenço do argumento de que desfiles seriam incompatíveis com a celebração da paz…) e, de certo modo, frustração.

Daqui a muitos anos, poderei contar a meus netos que vim a Paris e ouvi os sinos de toda a cidade começaram a badalar exatamente às 11:00, pois há cem anos a Guerra acabou na décima-primeira hora, do décimo-primeiro dia, do décimo-primeiro mês… E contarei da dificuldade de descrever a emoção que preenchia o coração deste que, desde menino, era fascinado pela guerra, algo tão inerente à natureza humana…

Cinco gerações se passaram. Certamente, a história daqueles que viveram a hecatombe de 1914-1918 também passou despercebida a muitos dos que estavam hoje em Paris – no metrô, nos jardins e até na Avenida dos Campos Elíseos… Isso também vi. Enquanto ia em direção ao Arco do Triunfo, olhava para a diversidade de rostos que embelezam a capital francesa e me perguntava se essas pessoas tinham consciência de que dia seria hoje… Talvez não tivessem (não as culpo por isso, que fique claro…). Talvez estivessem mais preocupadas com sua guerra diária pela sobrevivência (poderia ser diferente? Não creio…)…

De toda maneira, eu tinha consciência do momento… Eu vim para ver. E sei que outros que estavam ali comigo nos Campos Elíseos também o tinham, é também vieram para ver…

E sempre que pensar na Guerra de 1914-1918, a partir de hoje poderei dizer que  eu vim, vi e, de alguma maneira, acabei me inserindo na história daquele conflito, na história daqueles pessoas.

Assim, quando algum dia me perguntarem o que estava fazendo em 11/11/2018, poderei dizer que, cem anos depois do Armistício, com a Paris, vi Paris, e entrei em comunhão com milhões de outros seres humanos, de ontem e de hoje, na capital francesa.

Sim! Vim a Paris para comungar, para me unir em pensamento àqueles que viveram e morreram há um século na Grande Guerra. E estive aqui para reunir impressões que só poderiam ser reunidas se aqui estivesse e se visse tudo que vi. E, diante do Arco do Triunfo, a alguns metros dos líderes de todo o mundo, prestei minha homenagem aos mais de 9 milhões de seres humanos que não viram o Armistício de 11/11/1918. E direi: “vim e vi”!

20181111_125932

Segredos da Guerra

Notícia de maio, mas ainda está em tempo de divulgar: quase 30 mil documentos da Segunda Guerra Mundial de posse do Governo dos EUA foram desclassificados e estão disponíveis para consulta. Isso é um prato cheio para historiadores, sobretudo para aqueles que acreditamos que ainda há muito a se pesquisar, descobrir e escrever sobre aquele conflito que acabou há 71 anos… Mãos à obra, garimpeiros!

NSA Releases Thousands of WWII-era Documents to National Archives

More than 29,000 pages of declassified material related to the World War II-era Target Intelligence Committee (TICOM) are now publicly available following a recent transfer from the National Security Agency to the National Archives and Records Administration.

Enigma Gallery

It was NSA’s final transfer of its material related to TICOM, a joint project that began in 1944 between the United States and the United Kingdom. The now-famous “Monuments Men” searched for precious works of art that had been looted by the Nazis – with the goal of returning items to their rightful owners. In contrast, TICOM teams followed Allied armies into occupied areas of Western Europe to seize material and equipment Axis powers used for code-breaking and code-making, including the German Enigma cipher. The teams also tried to determine how successful the Germans had been in breaking Allied codes. Through these efforts, the United States and the United Kingdom aimed to read more of the encrypted communications of retreating Nazi armies and better protect their own information from German eavesdropping. 

The declassified material is housed at the Archives II facility in College Park, Md. More information about how to locate records held by the National Archives is available at https://catalog.archives.gov/id/5957379.

Information about the National Security Agency is available at www.nsa.gov.

Fonte: https://www.nsa.gov/news-features/news-stories/2016/nsa-releases-thousands-of-documents-to-nara.shtml

“O continente está isolado”

Illustration picture of postal ballot papers ahead of the June 23 referendum when voters will decide whether Britain will remain in the European UnionDeterminados acontecimentos nos dão a certeza de que estamos diante de um evento marcante da história da humanidade… Foi assim com o final das duas guerras mundiais, com a chegada do homem à Lua, com a queda do Muro de Berlim, com o discurso final de Gorbatchev no dia 25/12/1991 (seguido da extinção formal da União Soviética), com o início da circulação do Euro, com o 11 de setembro de 2001… Indubitavelmente, 24 de junho de 2016 também entra para a História como a data de mais um desses grandes eventos: o dia do resultado do plebiscito que decidiu que o Reino Unido (RU) deixará a União Européia (UE)…

Não pretendo aqui fazer qualquer grande digressão política, econômica, social, cultural, histórica, espacial, psicológica, sobrenatural no que concerne à saída dos britânicos do bloco europeu, nem sobre os impactos dessa saída para a UE ou para o próprio RU… Tampouco farei qualquer consideração sobre as consequências disso para o Brasil (haverá consequências para o Brasil, certamente). O que pretendo é dedicar algumas linhas a uma percepção inicial e bem pessoal desse evento marcante… Só divagações mesmo.

maxresdefaultComo internacionalista e alguém que vê com bons olhos o processo de integração europeu, fico triste com a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, com todos os seus problemas étnicos, políticos, econômicos, jurídicos, com todos os males causados por um sistema muito burocrático e que se tem mostrado desequilibrado, sob influência de idéias utópicas e imposições corporativas, a União Européia continua uma grande referência de êxito integração. É bonito ver as quatro liberalidades funcionando naquele continente tão diverso. É bonito ver como os europeus conseguiram superar uma situação de guerra fratricida e hoje (com todas suas idiossincrasias) se mostram mais unidos e integrados. Claro que sempre haverá quem assuma um maior protagonismo naquela grande família de nações, e haverá irmãos mais complicados e com problemas, uns mais ricos que outros, uns mais iguais que outros… Entretanto, a ideia de união permanece, em especial junto às novas gerações… E cada vez mais o sentimento de cidadania européia ganha espaço nesse processo evolutivo… “Unidos somos mais fortes”, é a ideia central do bloco.

160515065043_boris_johnson_640x360_getty_nocreditOs britânicos, porém, parecem não compartilhar dessa percepção de que é melhor uma Europa integrada. Não tirarei suas razões, e há argumentos fortes por parte daqueles que defendem a saída do Reino Unido do bloco… Afinal, a Grã-Bretanha se veria muito engessada pelas instituições, normas e políticas de Bruxelas… Assustam também, argumentam os defensores da saída do bloco, as responsabilidades e os custos de pertencer à União Européia… Nesse sentido, a segunda economia da Europa precisaria estar livre (como sempre esteve) para alçar vôos próprios, com independência e de acordo com seus interesses… Ademais, há a preocupação com o aumento da imigração na Grande Albion (ainda que cheguem/tenham chegado às ilhas britânicas muitos imigrantes altamente qualificados, fluentes em inglês e contributivos para a Economia do país, ao mesmo tempo em que são abertos aos britânicos cerca de três dezenas de países onde eles podem viver, trabalhar, construir o futuro)… Interessante que a alternativa de saída da UE ganhou em regiões com pouca presença de imigrantes… Continuar lendo

Canhões de Agosto

xadrezComo disse, devo publicar periodicamente uma vez por semana aqui em Frumentarius. E a última semana (a primeira de agosto) foi marcada por algumas efemérides importantes. A primeira delas, no dia 1º de agosto, marca a data em que a Alemanha declarou guerra à Rússia, em 1914, dando início à I Guerra Mundial para os alemães. Esse era um movimento importante no jogo de xadrez da política européia, e vinha na sequência da declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia (28 de julho), com o bombardeio de Belgrado (no dia seguinte), e a mobilização das tropas russas para socorrer seu aliado eslavo do sul (também no dia 29/07). Com a mobilização russa, a Alemanha apresentou um ultimato a São Petersburgo para que a suspendesse. Diante da recusa do Czar, no dia 1º de agosto, veio a declaração de guerra. Abria-se a frente oriental para os germânicos.

explosao-canhao-belgicaMas os alemães esperavam não ter que combater em dois fronts. Para isso, tinham que neutralizar a França antes que os russos conseguissem efetivamente entrar no conflito. Em 2 de agosto, as tropas do Kaiser entraram em Luxemburgo, e Berlim, em cumprimento ao Plano Schlieffen, solicitou ao Rei da Bélgica (então um país neutro) que autorizasse os alemães a atravessar aquele reino para atacar o território francês. A resposta do soberano belga foi “eu governo uma nação, não uma estrada”. Os alemães, então, invadiram e atravessaram a Bélgica no dia 4 de agosto. No dia anterior, Berlim declarara guerra a Paris.

trenche_wwi (1)Diante da invasão da Bélgica, a Grã-Bretanha, então garante da neutralidade belga, viu-se obrigada a declarar guerra à Alemanha (04/08). Em uma semana, os sinos silenciaram. Seriam substituídos pelos canhões de agosto, que continuariam a troar por longos e penosos quatro anos, com dezenas de milhões de mortos, destruição de campos e cidades, dor, desespero, morte… e o fim de uma era.

A memória daqueles canhões de agosto deve sempre permanecer viva nos corações e mentes dos homens. A carnificina ali começada jamais poderá ser esquecida, sob pena de ser repetida. Afinal, a estupidez humana é infinita.

786747875054211145

40 anos do fim da Guerra do Vitenã

Em 2015, o mundo celebra os 40 anos do fim da Guerra do Vietnã (sim, fim de guerra é coisa para ser celebrada). O conflito marcou os anos 60 e 70 do século XX, não só nos EUA e no Vietnã, mas em diversos lugares do planeta. É a marca de uma época, um período de profundas transformações culturais por todo o mundo (em especial no mundo livre, o lado de cá da Cortina de Ferro). Também é uma guerra marcada de significativo simbolismo, sobretudo por envolver uma Superpotência e um país considerado periférico, exemplo para qualquer estudante de polemologia como conflito assimétrico.

A derrota de fato na Guerra do Vietnã foi bastante traumática para os EUA. Era algo impensável para a maioria dos estrategistas em Washington. Seus reflexos alcançaram a doutrina de emprego das Forças Armadas estadunidenses nas décadas seguintes, afetando diretamente o planejamento das ações militares nas duas Guerras do Golfo.

A grande imagem que permanece da Guerra do Vietnã é de um conflito sem sentido, travado em um lugar distante do globo (ao menos para nós, ocidentais), movido por ideologia e interesses complexos, e um embate de um anão contra um gigante. Impossível não se fazer a associação à história de Davi e Golias, ainda mais porque o desfecho foi semelhante.

Segue o vídeo do programa Direito Sem Fronteiras, em que trato, junto com o Professor Rogério Lustosa, daquele conflito em que o pequeno humilhou o grande, e o forte se viu fraco. Isso com a sempre brilhante apresentação de Cadu Cunha! (Para variar, erraram meu nome nos créditos. Sei que ninguém ia notar se não chamasse a atenção para o caso, mas não resisti. Estou acostumado. Obrigado, papai!)

Os setenta anos da morte da Besta

hitler-Recorte-de-jornal-com-a-notícia-da-morte-de-HitlerO dia era 30 de abril. O ano, 1945. O local, Berlim, capital de uma nação completamente arrasada. De fato, a cidade em escombros testemunhara a ascensão e queda de um regime e de um país que, em 12 anos, saíra do caos da instabilidade política, econômica e social, tornara-se a nação mais poderosa da Europa, conquistara todo um continente, afrontara as grandes potências da época, matara milhões de seres humanos, tivera seu território invadido, ocupado e destruído, com perdas irreparáveis. E tudo isso, sob motivação da voz inigualável e do discurso de ódio de um homem, ao qual milhões de alemães chamariam de Líder.

Ele era naturalizado alemão (de fato, havia adquirido aquela nacionalidade apenas algumas semanas antes de chegar ao poder). Nascido na Áustria, filho do segundo casamento de um funcionário público de quinto escalão, órfão de pai ainda cedo, muito jovem se viu sozinho, vagando pelas ruas da Viena dos Habsburgos em busca de trabalho e de sucesso. Nada conseguiu em sua terra natal… Atravessou a fronteira e foi viver em Munique, onde permaneceu um excluído artista frustrado, sobrevivendo de bicos e fazendo crescer o ódio em seu coração.

129958-004-C9B8B89DTudo mudou com a Grande Guerra (ah, sempre a Grande Guerra!!!). Ele se alistou no regimento bávaro, e foi combater no front ocidental, lutando pelo Kaiser e pela pátria. Amadureceu muito naqueles quatro anos de terrível guerra, foi ferido em combate algumas vezes, tornou-se cabo, e ganhou a Cruz de Ferro de primeira classe, maior comenda do seu Exército, raramente concedida a não-oficiais. Nos estertores do conflito, sofreu um ataque de gás e caiu enfermo. Foi no hospital que soube da notícia da capitulação alemã. E chorou.

De volta à vida civil, não conseguia emprego. Acabou se infiltrando em um pequeno partido de trabalhadores e outras pessoas insatisfeitas com o resultado da Guerra. Era uma época de disputas ideológicas acirradas, de tentativas de revolução e golpe, de combates nas ruas, de hiperinflação, desemprego e miséria, de frustração pela derrota. Sua agremiação era apenas uma dentre as tantas que a Alemanha de Weimer viu florescer sob discursos radicais de direita e de esquerda. Porém, seria ali, reunido com alguns poucos nas cervejarias da capital bávara, que ele descobriria sua verdadeira vocação: não seria pintor ou arquiteto! Seria um homem público, um político, um líder.

Sob sua orientação direta, o partido ganhou novo nome e uma bandeira. A cruz gramada seria para sempre associada àquele homem, que a inseriu em um círculo branco sob fundo vermelho. Milhões jurariam fidelidade àquele pavilhão e a seu criador, e botas marchariam de norte a sul e de leste a oeste seguindo o símbolo e as idéias de ódio e superioridade racial, em busca do sonho de se tornarem senhores do mundo.

Em 12 anos, o pequeno partido se tornou poderoso e, no dia 30 de janeiro de 1933, o cabo austríaco, líder absoluto e inquestionável do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, seria convidado pelo velho Marechal Hindemburgo, outro herói de guerra, para se tornar o chefe de um novo governo, que levaria ao estabelecimento de um regime que não encontrou precedentes na história e que lançaria seu povo no meríodo mais rico e também mais obscuro até então.

O III Reich deveria durar 1000 anos. Durou apenas 12. Mas foram doze intensos anos, de progresso, desenvolvimento, recuperação do orgulho ferido…mas também de destruição, preconceito, ódio e morte. O que aconteceu naqueles anos tem sido objeto de estudo, reflexão e incompreensão nas últimas sete décadas, dando margem a obras nas mais diversas áreas sobre inexplicáveis 12 anos.

4144912_x720Agora, em 30 de abril de 1945, tudo se tornara ruínas: as idéias, as conquistas, o país. Berlim sobre os escombros, sob o fogo constante e o barulho ensurdecedor da artilharia soviética, e com tropas inimigas conquistando suas ruas, era o símbolo de toda a destruição causada por aquele homem e seus seguidores.

Para ele, tudo estava consumado. Seu projeto de domínio do planeta encontrava-se agora sob os escombros de uma cidade arrasada, de um povo acabado, de um país exaurido. Como último ato daquela tragédia épica, consciente de que sua existência não seria mais cabível no inferno que ele mesmo criara, decidiu abandonar sua gente e tirar a vida. E assim o fez, com tiro na cabeça. Acabava ali o vagabundo que se tornara o homem mais importante de seu tempo.

Em poucos dias, a guerra na Europa também chegou a termo. Mas as marcas deixadas nos 12 anos em que estivera no poder, jamais serão removidas. Sob sua voz forte e seu olhar hipnótico, o mundo foi posto de ponta-cabeça, com o sacrifício de 100 milhões de vidas em seis anos.

Nada mais precisa ser dito sobre ele, que será sempre lembrado como a encarnação do mal. Neste 30 de abril de 2015, celebra-se (e esta é a palavra) os 70 anos de sua morte. E que nunca mais outro como ele caminhe sobre a face da terra!

adolf-hitler

Os Poderes da Rainha

queenelizabethA principal publicação do dia em Frumentarius é dedicada àqueles que, sempre que digo que sou monarquista, soltam a pérola: “Para que sustentar um rei? Veja a Rainha da Inglaterra, ela não faz nada! Só é peça de decoração!”. Tenho duas reações quando ouço isso: apiedar-me da ignorância, e tentar explicar um pouco à pessoa (se estiver, claro, de boa fé) sobre a importância de um monarca… Afinal, nas monarquias constitucionais, o soberano tem atribuições fundamentais (e poderes) para garantir a estabilidade democrática, defender as instituições, e zelar pelo bem de seu povo. 

Exatamente por não se envolver com as querelas políticas ou com a forma com que o Governo conduz as políticas públicas, o monarca pode intervir sempre que a estabilidade do regime estiver ameaçada e que pessoas com intenções ruins resolvam tomar as rédeas da nação. Mais adiante escreverei um pouco mais sobre a relevância do monarca.

Outra coisa: ao contrário de um presidente, que nunca será o chefe da totalidade da nação (seja ele eleito diretamente, seja escolhido por um colegiado, sempre haverá os que nele não votaram e que, de fato, são-lhe oposição), o soberano está acima de quaisquer divisões políticas e sua relação com o povo é direta e sincera. Enquanto o presidente divide, o monarca reúne, aglutina os distintos interesses e perspectivas nacionais em sua pessoa.

Ademais, registro que, nas monarquias, o soberano sabe qual é seu papel como Chefe de Estado… e o cumpre. Em muitos regimes presidencialistas, o presidente ignora essas atribuições ou as despreza, com consequências danosas para o país. Lembro de um caso de certa governante que detesta tudo que seja relacionado a atribuições de relações exteriores e protocolares, por exemplo… Aí se fica, muitas vezes, apagando incêndios com nações amigas.

Por último, irrita-me profundamente o comentário, que considero de uma toleima profunda, segundo o qual “não vou sustentar uma família!”, referindo-se à família real. A esses mentecaptos, observo que, nos regimes presidencialistas, sustenta-se mais de uma família, pois todos os ex-presidentes têm pensões e, em alguns países, privilégios vitalícios que vão muito além do que é disponibilizado ao monarca e aos seus parentes de primeiro grau. Mas isso, repito, é assunto para outro momento.

Segue o texto interessante sobre os poderes da Rainha da Grã-Bretanha (entre outras nações). Aqueles que quiserem discutir monarquia comigo, por favor, ao menos leiam a matéria até o final.

queen-elizabeth-glasgow-visit-04-07-12-image-1-654146202

What exactly are The Queen’s powers?

4 October 2014 – 08:38pm

One of the greatest peculiarities of the British constitution is that of the Royal Prerogative. Powers which have established over time as those which The Queen holds as Sovereign, though now largely exercised by ministers, have never been definitively or fully listed… and there’s a reason for that. Because of the nature of the Royal Prerogative established mostly through Common Law – its exact scope and contents is something of an enigma, with no single document containing the powers the Sovereign holds.

medium_4642251150Attempts have been made to list the prerogative powers, though we still don’t know (and are unlikely ever to know) the full range of the prerogative powers The Queen holds.

We can easily list the powers used by Her Majesty regularly (or rather more often on her behalf), though there are many which have either fallen out of use completely (though remain available) and several crucial and significant powers which are able to be deployed in the event of a national emergency. Continuar lendo

Mais sobre a FEB…

PracinhasAinda em memória dos nossos valorosos Pracinhas, reproduzo aqui matéria muito interessante de Hélio Guerreiro, intitulada “Lista detalhada dos mortos da FEB na Campanha da Itália“, e publicada em 15 de julho 2012, no blog de Henrique de Moura Paula Pinto (O RESGATE FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA). A propósito, recomendo esse blog, que traz significativas contribuições à História da participação brasileira na II Guerra Mundial.

Tenho enorme respeito pelos nossos Pracinhas. Quando penso no que passaram aqueles homens na Itália, há setenta anos, além da reverência a esses heróis, vem a indignação pelo total e absoluto desconhecimento que os brasileiros têm sobre sua história. Revolta o desprezo com que esses veteranos têm sido tratados por nossas autoridades civis. Não se vê homenagem, não se vê referência nem reverência, não se vê um pronunciamento da Chefe de Estado por ocasião de datas muito simbólicas como o 21 de fevereiro ou o 8 de maio (diga-se de passagem, com tanto feriado ridículo que se tem no Brasil, irrita-me que o 8 de maio não seja uma data celebrada como o dia da lembrança). O Brasil é essa vergonha.

Para a matéria, clique aqui. Para o blog sobre a FEB, clique aqui.

Pracinhas_hoje

domingo, 15 de julho de 2012

LISTA DETALHADA DOS MORTOS DA F.E.B NA CAMPANHA DA ITÁLIA

“Deus empresta-nos o corpo para que possamos aqui no plano terrestre nossos
espíritos continuem evoluindo, já que o corpo, ou seja, o uniforme, a farda
que nosso espírito usa, morre, mas o espírito JAMAIS. Quis a sabedoria Divina
que esses heróis voltassem à Sua companhia dessa forma, morrendo nesse
conflito.”( O autor )
O exposto acima só faz reforçar as palavras do ex-combatente, Capitão da Reserva
Alfredo Bertolo Klass em entrevista a RCP TV do Paraná, quanto à afirmação de
um historiador cujo nome preferimos omitir, que diz que o corpo do sargento Max
Wollf Filho jamais teria sido encontrado, mas como ele ganhou a estigma de herói
e realmente o foi, vendeu-se a ideia dos restos mortais dele estar no Monumento
dos Pracinhas no Rio de Janeiro: Diz o capitão: “ O corpo não vale nada. Deus nos
empresta para nós vivermos, então, o corpo do Max eu não sei, mas o espírito dele
está vivo! Tenham certeza!”
A palavra “baixa”, militarmente falando, não significa apenas as mortes; ela engloba
também feridos, doentes, acidentados, extraviados, presos por indisciplina e porque
não dizer, as deserções.. Durante o período em que esteve em ação na Itália, as
mortes, por exemplo, não foram só em ação; muitos dos nossos praças e alguns
oficiais morreram vítimas de acidentes, sejam de veículos, ou durante a instrução da
tropa, inclusive alguns depois do cessar fogo na Itália já que a FEB também foi tropa
de ocupação em território italiano. Continuar lendo