Leningrado, Dia 1 (Operação Outubro Vermelho) – Bônus

Estou aprendendo a editar vídeos. Assim, resolvi fazer este ensaio com um piloto sobre o primeiro dia na capital da Rússia Imperial, São Petersburgo. Fica como bônus pelo atraso na publicação desta quinta, hehehe. Ainda há falhas na edição, mas, repito, estou aprendendo – e, como digo a meus filhos, é errando que se aprende! Espero que gostem!

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Leningrado (Operação Outubro Vermelho)

depositphotos_107401748-stock-photo-saint-petersburg-on-the-mapTudo pronto para o início da primeira fase da Operação Outubro Vermelho! Desembarcaria em Lening…, em São Petersburgo!  O mais natural seria chegar à Rússia por Moscou, mas nosso planejamento envolvia ingressar no país por sua antiga capital, e que fora o epicentro da queda da monarquia e do golpe bolchevique de outubro de 1917.

Inconscientemente, via-me indo para Leningrado. Afinal, esse era o nome que conhecia desde a infância, época em que a humanidade se dividia entre o bloco socialista (comunista, para ser mais preciso), dirigido pela União Soviética, e o mundo livre (nós!), liderado pelos Estados Unidos. Para mim, portanto, aquela bela cidade banhada pelo Rio Neva ainda estava registrada em minha mente como Leningrado, “a cidade de Lênin” – só indo lá mesmo para alterar essa percepção!

Fundada em 1703, por Pedro I, o Grande, como parte do processo de “ocidentalização” da Rússia, São Petersburgo seria a capital do Império dos Czares até 1918 (os bolcheviques transferiram a capital para Moscou temendo a ofensiva alemã, em março daquele ano – vale lembrar que ainda estava em curso a Grande Guerra). De fato, seu aspecto ocidental – que em nada deixa a desejar às mais belas cidades da Itália, França ou Alemanha – seria a forte marca da “Capital do Norte”.

No que concerne ao nome da cidade, com a Grande Guerra, em 1914, o Czar decidiu mudar para Petrogrado (denominação mais “russa” – “grad” é um termo tradicional no idioma para “cidade”). Em 1924, após a morte do facínora que liderou a insurgência bolchevique, Petrogrado recebeu novo nome, Leningrado. Com o fim da União Soviética, em 1991, a cidade voltou a chamar-se São Petersburgo. Curiosidades: o aeroporto ainda mantém o código IATA como “LED”; e a cidade está no Oblast (nome das divisões administrativas, algo como província ou estado federado) de Leningrado.

Mas vamos à Operação Outubro Vermelho! Decolei de Brasília para Guarulhos (SP) – pois a capital federal do Brasil tem menos de meia dúzia de voos com destinos internacionais -, onde encontrei Adriana e Gustavo.  Ali no aeroporto, gosto de comer no Olive Garden, que fica bem perto do embarque internacional (a comida é boa, pode-se passar o tempo, e o preço… preço de aeroporto, né? Prepare-se…). Nossa conexão foi por Londres e chegamos a São Petersburgo (LED) no final da tarde!

Tentemos descrever a emoção! Pisando em solo sov…, russo! Que bacana! Íamos conhecer a Terra dos Czares! O coração acelera. Viagem longa… cansado… Mas estava lá! E que bacana ver tudo escrito em russo! E os avisos em cirílico! Sim, estávamos mesmo na Rússia!

Fui tenso para a imigração (sempre fico tenso na imigração, pois a maior autoridade do universo é o oficial de imigração! Se ele encrencar com você, pode até não deixar que entre no país, mandá-lo de volta ou mantê-lo detido por horas!).  Como seria na Rússia? Lembro que, no passado, a guarda de fronteira ficava a cargo do KGB, e que nem todo lugar é como no Canadá, onde o oficial de imigração lhe recebe com um sorriso, um bom dia e um “bem-vindo ao Canadá!” – isso quando, com uma simpatia sincera, não lhe pergunta sobre o Brasil, como está a situação política e a economia (asseguro que já aconteceu comigo, e é por isso que gosto demais do Canadá!)…

Procedimentos de imigração rápidos e descomplicados, tanto para mim quanto para Gustavo e Adriana, que passaram por outro guichê. Troquei com o guarda de fronteira duas ou três palavras antes do carimbo no meu passaporte. A Rússia já me acolhia bem! E isso era um ótimo sinal! Primeira etapa (imigração) concluída sem problemas!

Já com as malas em mãos (tudo certo também), saímos e lá no portão já estava nosso receptivo! (Excelente serviço contratado pela Tchayka!). Entramos os três em uma van. Já estava um pouco frio (lembre-se de levar gorro, luvas, cachecol e casacão – você vai precisar). E seguimos para o hotel, tendo as primeiras impressões da segunda maior cidade do maior país do mundo. Nos arredores, muitos prédios ao estilo soviético – com o qual estou familiarizado por viver em Brasília. Parecia uma viagem no tempo, e eu ficava imaginando quem seriam as pessoas que moravam naqueles blocos de apartamentos dos anos sessenta, como viviam, qual seria sua história… Gosto de gente, e as histórias de gente me fascinam!

Chegando ao hotel, outra grata surpresa: localização excelente! Nosso hotel, o Park Inn by Radisson, está em na Avenida Nevsky, provavelmente a mais importante (ou pelo menos uma das mais históricas) da cidade! Fica defronte a Moskovsky Vokzal (a estação de onde, como diz o próprio nome, partem os trens para Moscou – só por curiosidade, nos tempos pré-soviéticos, a estação se chamava Nikolaevsky, em homenagem ao Czar Nicolau I).

Se a localização é excelente para quem gosta de caminhar (muita coisa pode, e deve, ser feita a pé em São Petersburgo), o Park Inn também é próximo à estação do metrô. Trata-se de um hotel moderno com excelentes quartos – eu gostei. Recepção simpática, mesmo quando pedem seu passaporte para fazer uma cópia de algumas páginas – não estranhe, é assim mesmo na Rússia, por razões de segurança; só recomendo que você espere até que o recepcionista lhe devolva o passaporte em vez de deixar para pegar depois (eu faço assim, separo-me o mínimo possível de meu passaporte).

Outro ponto forte do Park Inn: o restaurante é um restaurante típico de comida… alemã! Isso mesmo! É o Paulaner Restaurant, onde servem também um café da manhã dos melhores que já experimentei. Enfim, a escolha da Tchayka para a hospedagem em São Petersburgo foi nota dez! E só seria superada pela do hotel em Moscou (sobre o qual falarei em outro post)!

Devidamente alojados, fomos descansar… Que nada! Descansar é para os fracos! Fomos é explorar o entorno! Sempre faço isso, e Adriana e Gustavo, como excelente companhia que são, foram juntos na etapa do reconhecimento!

Cidade linda! Lembra muito as ruas Paris, só que banhadas por canais (já chamaram São Petersburgo de Veneza do Oriente). Prédios no estilo neoclássico, com poucos andares… a gente se sente rapidamente voltando no tempo, e começa a imaginar como era aquela bela cidade na virada do século XIX para o XX! Na Avenida Nevsky, muitas lojas, casas de câmbio e bancos – ali andamos um pouco, comparando os preços, e acabamos trocando nossos dólares por rublos em um banco (no final do dia!). Depois, fomos comprar um cartão pré-pago, também na Nevsky, para ter acesso à internet.

20171031_193539Já disse aqui que a internet e a telefonia em geral na Rússia são baratas. Graças às dicas da Olga, pagamos cerca de 450 rublos (uns 25 reais) por internet ilimitada e 60 minutos (acho) de ligação local para duas semanas! E, repito, funcionou que foi uma beleza! Afinal, o país tem uma enorme cobertura satelital, investe em ciência e tecnologia, e as comunicações são ótimas – se o Governo sabe de tudo o que você está fazendo graças àquele chip, isso não é problema meu… ao menos funciona (ao contrário de outros lugares). E fomos bater perna!

Caminhamos na noite de São Petersburgo! Pela Avenida Nevsky, muitas lojas, prédios belíssimos, luzes em toda parte! Já começava a decoração de Natal, o que fazia ainda mais bonita aquela que era a grande rua do comércio desde os tempos dos czares! Quanta coisa não tinha acontecido ali! Quantos episódios marcantes aqueles prédios não haviam testemunhado!  De passeios matinais da aristocracia russa da belle époque às passeatas de protesto contra o governo e aos combates entre forças do czar e os revoltosos, passando pela terrível fome do inverno de 1918, pelo colapso da cidade nos 1000 dias do cerco de Leningrado durante a Segunda Mundial e chegando-se à transformação da cidade com o fim do comunismo! Muita história, muita vida! E caminhamos, caminhamos, caminhamos!

Paramos em uma lojinha de souvenires (como tantas outras que há ali) e então, outra surpresa: atendeu-nos, em um português quase perfeito, Kristina Rafaelovna, uma jovem russa, bonita, simpática e apaixonada pelo Brasil! Conversamos muito, sempre impressionados com seu excelente português. No final, compramos alguns presentes e Kristina nos indicou um restaurante georgiano, o ChaCha! E assim lá fomos para nossa primeira refeição em solo russo! E foi espetacular!

20171031_202943.jpgVoltamos para casa contentes e satisfeitos, bem alimentados, com fotos tiradas, goiabas na bolsa (“goiaba” é meu nome carinhoso para essas lembrancinhas), e realizados com nossas primeiras horas naquela maravilhosa cidade! Claro, antes de voltar para o hotel, descobri minha primeira livraria na Rússia! Mas isso será tratado no post da próxima quinta…

Na próxima semana, também vou contar mais sobre o ChaCha, e sobre como foi a experiência de testar minhas habilidades em russo no restaurante. Até lá!

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O Cogumelo

Foi há 74 anos. 4 anos de guerra para uns. Um único avião. 350 mil pessoas. Uma bomba. 100 mil almas instantaneamente pulverizadas. Um cogumelo. Uma guerra terminada. E o mundo nunca mais seria o mesmo…

Os alemães haviam assinado a rendição incondicional a 8 de maio (9 para os soviéticos). E a Europa via seus destinos serem decididos pelos três grandes em uma mansão na cidade de Potsdam (futuramente publicarei sobre minha visita ao local da Conferência de Potsdam, ocorrida – a Conferência, não minha visita – em julho de 1945). Mas o conflito continuava no Pacífico, pois o Império do Sol Nascente insistia em não se render… Quanto tempo mais os japoneses resistiriam? Quantas semanas para o desembarque dos JI americanos nas principais ilhas japonesas? Quantos morreriam nos combates contra o valoroso povo japonês?

O Presidente Harry Truman deu a seus colegas em Potsdam uma previsão: não haveria desembarque, o Japão se renderia em breve e a guerra logo acabaria. Afinal, em alguns dias o mundo testemunharia a nova arma desenvolvida pelo Projeto Manhattan e que colocaria a humanidade em uma nova era, a era do átomo. Essa arma poria fim à guerra e o Japão se renderia. 

Assim, às 8:15 da manhã daquele 6 de agosto, os cidadãos de Hiroshima encontraram seu destino: do único avião que fora avistado, o Enola Gay, apenas uma bomba foi lançada. Então, um clarão imenso, capaz de ser visto do continente, foi seguido de um enorme estrondo e de uma explosão, cuja onda de choque destruiu praticamente tudo em um raio de 12 quilômetros do epicentro (por sinal, a bomba explodiu sobre um hospital – mais de 90% dos médicos e enfermeiros da cidade morreram). Cerca de 100 mil pessoas desapareceram de imediato. Outras tantas morreriam nos minutos, horas e dias seguintes. Destruição, fogo, calor inimaginável, dor, sofrimento… Nunca a palavra “inferno” se mostrara tão compreensível… Hiroshima não existia mais. O Japão sofria seu golpe definitivo.

Dois dias depois, a 8 de agosto, a União Soviética declara guerra ao Império Japonês (sim, até então os soviéticos haviam se poupado de uma frente no Extremo Oriente). As Kurilas foram invadidas. E logo viria a revanche pela derrota de 1905.

O golpe de misericórdia contra o Japão ocorreria no dia 9 de agosto. Uma segunda bomba atômica seria lançada sobre Nagazaki. Mais 80 mil mortos. E a esperada rendição japonesa. O maior conflito da história da humanidade acabaria oficialmente no dia 2 de setembro de 1945, exatos seis anos e um dia após a invasão da Polônia pelos alemães.

Indubitavelmente, a Bomba de Hiroshima pôs fim à Segunda Guerra Mundial. Indubitavelmente, a Bomba de Hiroshima evitou o desembarque norte-americano no território japonês e o prolongamento da guerra por meses. Indubitavelmente, a Bomba de Hiroshima mostrou ao mundo quem tinha uma nova arma, quem dominava o átomo e quem daria as cartas a partir de então.

E entramos em uma nova era. E nunca mais poderia acontecer uma guerra como a que terminara de acabar. ninguém ousaria enfrentar aquela nação que dominava o átomo. A paz estaria duradoura assegurada… ou não…

Neste 6 de agosto, um minuto de silêncio deve ser feito em memória dos milhares de homens, mulheres e crianças que foram sacrificados para que se tivesse a paz. E hoje, sete décadas depois, na Hiroshima reconstruída, aquele povo orgulhoso celebra sua capacidade de literalmente renascer das cinzas, e de mostrar ao mundo que, no fnal, os japoneses venceram.

“Now I am become Death, the destroyer of worlds.” (Robert Oppenheimer, quoted from the Bhagavad Gita)

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Operação Outubro Vermelho – A decisão de avançar!

Sempre quis conhecer a Rússia (grande novidade para quem é um apaixonado pelas relações internacionais!). Afinal, o maior país do mundo, história, cultura, caleidoscópio de povos fascinantes… Uma potência nuclear e uma nação que viveu incomensuráveis transformações em cem anos… Além disso, oportunidade para treinar meu russo (comecei a estudar o idioma nos anos 1990, na Embaixada da Federação da Rússia em Brasília, apesar de ter esquecido tudo), e, para completar, terra de Putin (gosto de Putin; Putin é KGB). Assim, se havia um país que estava na minha lista de destinos, esse seria a Rússia.

20171102_152829Minha ideia de visitar a Rússia ganhara força em 2015, por ocasião dos 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial (ou, como dizem os russos, da “Grande Guerra Patriótica”). Havia preparado todo um planejamento para estar em Moscou em 9 de maio, data da assinatura da rendição incondicional alemã, em Berlim, 1945 (haviam assinado a rendição em 7 de maio, em Reims, França, mas sem a presença soviética, e então Stálin fez uma singela interferência para que outro documento fosse firmado para ter efeito a partir das 23:00 de 08/05, na Capital do Reich, e já 09/05 em Moscou). Meu objetivo, portanto, era vivenciar o clima de Moscou durante os festejos do Dia da Vitória. Iria também a São Petersburgo (Leningrado), a Kursk (onde se deu a maior batalha de tanques da história), e a Volgagrado (a antiga Stalingrado)…

Por razões alheias à minha vontade, essa primeira incursão em solo soviét…, digo, russo, foi abortada – meu 8 de maio de 2015 foi em Brasília, participando de uma cerimônia de última hora no Palácio do Planalto, e na qual a impressão que se tinha é que a então presidente da república estava tremendamente desconfortável com o evento… Mas a vontade de viajar para o país dos Romanov só aumentava, e eu já tinha feito contato com o Sérgio Delduque, da Tchayka (já falei dele por aqui), e tinha a expectativa de organizar uma viagem à terra de Tolstoi num futuro próximo…

Passou um ano, acabou o (des)governo Dilma (amém!), um segundo ano, e, em 2017, recebi um e-mail de Sérgio informando que eles estavam a organizar uma excursão especial à Rússia, por ocasião do centenário da (famigerada) revolução de outubro de 1917 (o “famigerada” é por minha conta, pois Sérgio, profissional elegante e isento que é, nunca usaria esse termo – mas, como a história é minha, eu conto como quiser, né?). O momento seria interessantíssimo, pois o país vivia um clima de revisão do passado soviético, preparava-se para as eleições presidenciais do ano seguinte (que fariam com que Putin se tornasse o governante com mais tempo no poder desde os czares) e, de quebra, vivia a fase preparatória para a Copa do Mundo de Futebol de 2018! Essa eu não perderia!

20171106_193039Foi questão de alguns dias para acertar tudo com a Tchayka… A única reticência é que eu iria em um grupo (o que para mim é estranho, pois costumo viajar sozinho), com pessoas completamente desconhecidas. Que tipo de gente se interessaria em ir à Rússia por ocasião do centenário da (nefasta) Revolução Bolchevique? Será que eu, conservador na política, liberal na economia, monarquista convicto, acabaria muito destoante do grupo? Resolvi então consultar alguns amigos para ver se alguém se interessava – aqui de Brasília, o silêncio foi absoluto.

Se o pessoal de Brasília não pôde me acompanhar, quão grata não foi a surpresa quando um casal amigo de Santos resolveu me acompanhar nessa empreitada! Gustavo e Adriana são dois queridos amigos que fiz quando viajamos juntos para a Normandia, em junho de 2014 (certamente serão dedicados vários posts aqui à viagem à Normandia, mas o que ficou de mais marcante daquele passeio foram os amigos que fiz, um grupo fantástico e singular, com quem convivo até hoje!). E, conforme veremos nas publicações seguintes, esses dois companheiros de viagem foram responsáveis por vários momentos inesquecíveis naquele fascinante país – certamente não teria sido a mesma coisa sem eles!

Muito bem! Passagem comprada, pacote ajustado com alguns dias a mais em São Petersburgo (antes do grupo chegar) e em Moscou (depois que acabasse a programação proposta pela Tchayka), inclusive com a companhia de Adriana e Gustavo, agora era começar os meus preparativos… Sim, porque, para ir para a Rússia, ainda mais pela primeira vez, eu teria que me preparar! Nó próximo post, tratarei desses preparativos…

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A volta dos Romanov

Conversando hoje pela manhã com um dos meus estimados 15 (quinze) leitores, esse amigo comentou sobre o interesse de sua filha e de alguns colegas lá no trabalho sobre a história da família Romanov (que governou a Rússia durante pouco mais de 300 anos), particularmente sobre o último Czar, Nicolau II, brutalmente assassinado junto com sua família há 101 anos. Coincidentemente, vi na Gazeta Russa agora há pouco uma matéria a respeito do aumento do interesse dos russos na monarquia. 

De fato, o artigo assinala que Nicolau II é mais popular entre seus compatriotas que Lênin e Stálin, e  que 8% dos russos querem o retorno da monarquia; 19% não são contra, mas depende de quem seria coroado, e 66% dos russos são categoricamente contra o retorno do regime monárquico – o que não surpreende, depois de 70 anos de comunismo e três décadas de recuperação daquele estrago… Mas esses 27% simpáticos à causa monárquica chamaram-me a atenção para um fato: os Romanov não foram totalmente aniquilados!

Niclau e Alexei

O Czar e seu filho, Alexei, também brutalmente executado em 17 de julho de 1918, pouco antes de completar 14 anos.

Ainda que a volta da monarquia no país com maior dimensão territorial do planeta seja uma possibilidade muito remota, a Rússia pós-soviética é marcada pela reabilitação do último Czar (que acabou canonizado em 2000 pela Igreja Ortodoxa), e pelo aumento do debate sobre o período imperial e a tragédia que foram os anos sob o comunismo. São poucos os que têm saudade da URSS (constatei isso quando estive no país em 2017 e nas conversas com os nativos), e muita gente vê os Romanov com um misto de curiosidade e simpatia.

Joanisval e Nicolau

O Czar Nicolau II e eu. E tem um mala discursando lá atrás…

Em novembro de 2017, na cidade de São Petersburgo, a capital fundada por um dos maiores Romanov, Pedro I, pude participar da Festa da Luz, um evento ao ar livre em que se projetavam imagens da história do país como referência aos acontecimentos de 1917, no novo feriado russo chamado Dia da Unidade Nacional (já que não se comemora mais a revolução bolchevique). A apresentação mostrava o amor de Nicolau por Alexandra, seu zelo para com os filhos, a beleza da Rússia monárquica, a Grande Guerra e crise que culminou na abdicação do Czar e no Governo Provisório, sucedido pelas conspirações que levaram ao “golpe de outubro”, que é como os russos passaram a chamar o que muitos por aqui ainda denominam saudosamente (ao estilo Neymar, “saudade do que nunca vivemos”) de “revolução russa de 1917”. Sim, parece geral a percepção de que o governo bolchevique conduzido pelo famigerado Vladimir Ilyich Ulyanov et caterva trouxe grandes males e muito mais prejuízos à Rússia e ao seu povo que benefícios, entre eles o totalitarismo stalinista. Confesso que isso muito me alegrou.

Assim, Nicolau II e sua família repousam hoje na Catedral de São Pedro e São Paulo, na antiga capital imperial, e sua memória é cultuada por pessoas das mais distintas origens e classes sociais. Como acontece nas monarquias, de ontem e de hoje, as figuras do soberano e de seus familiares, os símbolos e tradições do império, e a ideia de uma época mais charmosa e feliz permeiam o imaginário de muitos russos quando se fala “nos tempos do Czar” – tempos esses, repito, não vividos por praticamente mais ninguém ali depois de um século.

Se os Romanov voltarão um dia a governar aquele fascinante país, ou mesmo se a Rússia terá novamente um regime monárquico, é muito difícil dizer. Entretanto, o que parece uma certeza é que os russos não querem mais nem cogitar o retorno do comunismo, que se dissolveu há quase trinta anos, apodrecido nas suas ideologias de corrupção, cupidez e violência…

Nicolau e Joanisval

Joanisval e Nicolau

Compartilho aqui com meus leitores um episódio que aconteceu comigo enquanto visitava São Petersburgo por ocasião do centenário dos acontecimentos de outubro/novembro de 1917… Estava eu com um grupo de brasileiros, que haviam ido à Rússia para “comemorar a Revolução de Russa e a vitória do comunismo”. Minha curiosidade, registre-se bem, era eminentemente histórica – afinal, queria vivenciar a Rússia cem anos depois daqueles episódios que lançaram o país no caos!

Não preciso dizer que a maioria do grupo era de esquerda, comunistas e socialistas brasileiros – deveriam ser os únicos que estavam ali a glorificar os feitos do senhor Lênin et caterva. Também não preciso dizer que meu relacionamento com uma parte deles restringia-se apenas à convivência em alguns passeios e a um formal “bom dia” ou “boa tarde” quando nos encontrávamos (pois Dona Conceição me educou bem). Ao contrário das pessoas com quem estive na Normandia, em 2014, nos 70 anos do Dia D (que se tornaram bons amigos, com quem me relaciono até hoje, inclusive por conversas diárias nas redes sociais), daqueles de Leningrado (ops!) e Moscou foram poucos de quem mesmo guardei os nomes…

Mas vamos ao episódio. Estávamos a visitar o Cruzador Aurora, que, em outubro de 1917, teria dado os primeiros tiros para desencadear o golpe bolchevique e a derrubada do Governo Provisório de Kerenski. Fundeado às margens do Rio Neva, na belíssima São Petersburgo, esse navio é hoje um museu em memória da Revolução Russa. Costumeiramente, viajo com uma Bandeira Imperial do Brasil e gosto de fazer retratos com nosso Pavilhão Auriverde. Qual não foi minha surpresa ao ver que um dos nossos colegas de excursão teve a brilhante ideia de levar consigo uma bandeira soviética (sim, a tradicional, vermelha com a foice e o martelo), e quis posar para uma foto com ela no navio!

Fiquei a observar. Quando o sujeito abriu a bandeira, um marinheiro que fazia guarda ali veio em sua direção. O brasileiro achou que o rapaz iria posar com ele (como o fizeram muitos dos russos conosco naqueles dias, numa demonstração cristalina de que são um povo simpático, agradável e nada frio). Vejo os dois tentanto um diálogo impossível. Seguem-se os minutos. O cidadão fica bravo com o marinheiro. O jovem russo mostra-se irredutível nas suas determinações. A bandeira é então colada de volta na mochila, sem que o retrato fosse tirado (eu e um casal amigo tiramos várias fotos com bandeiras no navio…).

Pouco tempo depois, nosso comunista tupiniquim vem em minha direção. Foi creio que a segunda das duas vezes que troquei algumas palavras com ele em dez dias. Olha para mim, com ar frustrado, e balbucia, esperando minha solidariedade (de classe, certamente):

– Acredita que “o soldadinho ali” não me deixou tirar foto com a bandeira? Para você ver, tem “coxinha” em tudo que é lugar!

Ao que minha resposta é automática:

– Não é isso, meu caro. É que aqui eles viveram o comunismo, e têm plena consciência dos males que os comunistas causaram a este país e a seu povo!

O sujeito fica estático cinco segundos (certamente processando a resposta em sua mente patológica), dá meia-volta e vai embora rangendo os dentes (para minha satisfação, não nos falamos mais por toda a viagem). E eu fiquei ali, apreciando a paisagem do Neva já em congelamento, sentindo a brisa fria no rosto, e gargalhando interiormente, lembrando de Nicolau II e feliz comigo mesmo por ter dado minha parcela de contribuição ao povo russo em sua revisão da História e, claro, na reabilitação dos Romanov…

Para a reportagem sobre a percepção russa acerca de Nicolau II, clique aqui (e sim, está em português).

E a seguir um vídeo com um pouco da Festa da Luz, que gravei em 2017. Está também lá no meu canal no Youtube, que você acessa clicando aqui

Em tempo: a agência de turismo que me levou à Rússia foi a Tchayka (hoje operando sob o nome de Rota da Seda). Recomendo muito! Profissionalismo, seriedade e eficiência. Para acessar o site deles, clique aqui. E recomendo falar com o Sérgio Delduque lá – certeza de bom atendimento!

(Atenção! Não estou ganhando nem um centavo de jabá do pessoal da Tchayka. Recomendo porque realmente gostei muito do serviço deles!)

Data triste, há 101 anos…

Na madrugada de 17 de julho de 1918 ocorria um dos episódios mais nefastos do século XX e da História da Rússia: em Ekaterinburgo, nos Urais, o Czar Nicolau II, sua bela família e mais quatro pessoas que acompanhavam o último Imperador da Rússia no exílio, foram brutalmente assassinados por revolucionários bolcheviques a mando do facínora Lênin.
Não cabe aqui assinalar o quão deploráveis foram aqueles acontecimentos, nem a maneira como as vítimas foram arrancadas de duas camas e massacrados a sangue frio em nome da Revolução.
A data de hoje é para lembrar da tragédia dos Romanov e orar pelas suas almas.
E que o comunismo desapareça da História, pois só trouxe dor, tristeza e sofrimento a milhões de seres humanos…

Não se esqueça do meu blindado!

Estamos em abril, mas já quero aproveitar para ajudar os amigos que desejem me presentar no meu aniversário (8 de dezembro, anote aí!) ou no Natal (25 de dezembro, para quem não sabe!): já escolhi o que quero, e é simples de conseguir!

Quero um tanque de guerra russo, tudo bem? Existe na terra de Putin (gosto de Putin! Putin é KGB) uma “Associação de Veículos para Todos os Terrenos”, por meio da qual se pode adquirir veículos militares (como um tanque!). Para o site da Associação, clique aqui (está em russo, tudo bem?).

T-34 – coisa munita!

Assim, com quaisquer 200 mil dólares você pode adquirir um belíssimo T-34, o mais famoso blindado soviético da II Guerra Mundial (ou, se quiser usar o termo russo, da Grande Guerra Patriótica)!

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A descrição no site do T-34 é muito bacana, mais ou menos assim:

Modelo lendário T-34: características e vantagens de um tanque médio. O modelo T-34 pode ser chamado de lenda – é o tanque mais massivo da Segunda Guerra Mundial, que desempenhou um papel crucial em muitas batalhas. Ele começou a produção em massa em 1940, e até meados de 1944 foi o principal tanque do Exército Vermelho. Ao longo da história, a URSS produziu mais de 80 mil desses tanques, alguns dos quais chegaram aos nossos tempos. O tanque modelo T-34 é de interesse para colecionadores e amantes de veículos blindados históricos. Se desejar, você pode obter um carro lendário em boas condições: em movimento, customizado, mas tendo passado por um processo de desmilitarização.

Caso você, meu caro leitor e amigo, queira me presentear com alguns veículos mais modernos (se puder escolher, prefiro o T-34, que já foi muito testado inclusive contra Panzer), pode escolher um T-72 ou um T-80, ao precinho camarada – entendeu o trocadilho? – de 350 a 500 mil dólares! O que são alguns mil dólares para fazer o Joanisval feliz?

20171111_160001Faço um pequeno alerta: não compre munição! Os módulos de munição são removidos de todos esses blindados, de modo que o canhão de 125 mm não vai funcionar (o que, realmente, é uma pena!)… Tudo bem, cavalo dado…

Finalmente, e como sou boa pessoa, posso até arcar com o frete do bichinho! Só não me mande pelo correio porque ele pode desaparecer no caminho (como a grande maioria das encomendas que a gente ainda insiste em mandar!).

Então, quer fazer este ser humano feliz? Não se esqueça do meu blindado!

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Cuidado com o que pede…

Para sair um pouco da temática do Brexit (ih! falei!), segue notícia que me chamou a atenção: a Ministra da Defesa da Alemanha pede aos russos que informem aos ocidentais sobre suas tropas (Uahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha! Desculpem…).

Não sei se a Senhora Ministra falou com Frau Merkel (gosto de Frau Merkel) sobre o assunto antes de fazer a declaração. Só acho que isso pode ser interpretado por Moscou como provocação… E talvez os russos resolvam informar aos alemães que podem se deslocar para Oeste se for da vontade de Berlim (há 25 anos eles estavam lá, né?)… E os poloneses começam a se preocupar…

De toda maneira, quando se trata com Putin, acho que é bom tomar cuidado com o que se pede… Vai que ele resolve atender! Acompanhemos os desdobramentos e vejamos a reação de Putin. Gosto de Putin. Putin é KGB.

A Ministra de Defesa alemã, Ursula von der Leyen, com soldados da infantaria depois dos exercícios militares na parte sul da Alemanha, em 23 de março, 2016

Alemanha quer informação sobre o número de tropas russas

Ursula von der Leyen, a ministra da Defesa alemã, pediu que Moscou divulgasse as deslocações e o número de suas tropas.

© SPUTNIK/ ALEKSANDR KRYAZHEV, 26/06/2016

“Seria razoável se a OTAN e a Rússia, no âmbito da OSCE, informassem uma a outra sobre o movimento e o número de suas tropas. Por parte da OTAN, que é uma aliança exclusivamente defensiva, a proposta foi feita há muito tempo”, disse a ministra em uma entrevista ao Bild am Sonntag.

 

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Canhões de Agosto

xadrezComo disse, devo publicar periodicamente uma vez por semana aqui em Frumentarius. E a última semana (a primeira de agosto) foi marcada por algumas efemérides importantes. A primeira delas, no dia 1º de agosto, marca a data em que a Alemanha declarou guerra à Rússia, em 1914, dando início à I Guerra Mundial para os alemães. Esse era um movimento importante no jogo de xadrez da política européia, e vinha na sequência da declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia (28 de julho), com o bombardeio de Belgrado (no dia seguinte), e a mobilização das tropas russas para socorrer seu aliado eslavo do sul (também no dia 29/07). Com a mobilização russa, a Alemanha apresentou um ultimato a São Petersburgo para que a suspendesse. Diante da recusa do Czar, no dia 1º de agosto, veio a declaração de guerra. Abria-se a frente oriental para os germânicos.

explosao-canhao-belgicaMas os alemães esperavam não ter que combater em dois fronts. Para isso, tinham que neutralizar a França antes que os russos conseguissem efetivamente entrar no conflito. Em 2 de agosto, as tropas do Kaiser entraram em Luxemburgo, e Berlim, em cumprimento ao Plano Schlieffen, solicitou ao Rei da Bélgica (então um país neutro) que autorizasse os alemães a atravessar aquele reino para atacar o território francês. A resposta do soberano belga foi “eu governo uma nação, não uma estrada”. Os alemães, então, invadiram e atravessaram a Bélgica no dia 4 de agosto. No dia anterior, Berlim declarara guerra a Paris.

trenche_wwi (1)Diante da invasão da Bélgica, a Grã-Bretanha, então garante da neutralidade belga, viu-se obrigada a declarar guerra à Alemanha (04/08). Em uma semana, os sinos silenciaram. Seriam substituídos pelos canhões de agosto, que continuariam a troar por longos e penosos quatro anos, com dezenas de milhões de mortos, destruição de campos e cidades, dor, desespero, morte… e o fim de uma era.

A memória daqueles canhões de agosto deve sempre permanecer viva nos corações e mentes dos homens. A carnificina ali começada jamais poderá ser esquecida, sob pena de ser repetida. Afinal, a estupidez humana é infinita.

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Cooperação Sino-Russa e a Paz Mundial

china-russiaGosto do bom humor dos russos, sobretudo da maneira como eles falam ao mundo! A notícia de hoje do Sputnik News que resolvi compartilhar me fez lembrar aquelas clássicas do Pravda ou do Izvestia da época da Guerra Fria: “China: cooperação naval com Rússia contribui para estabilidade mundial”. O mais interessante é que a manchete reproduz a declaração oficial de Pequim sobre a aproximação entre o Urso e o Dragão!

Há razões para se ficar atento a essa aproximação entre chineses e russos? Bom, eu ficaria de olho, sobretudo porque se trata de cooperação na área militar e em um momento que Moscou vê antagonistas em Washington e Bruxelas e que Pequim se incomoda com Tóquio estabelecer a possibilidade de emprego de suas forças armadas fora do território japonês. Chineses e russos se aproximaram há 65 anos e essa relação gerou incômodos para o Ocidente. Foi preciso alguém brilhante como Kissinger para descosturar essa aliança (além da conjuntura da época). Não sei se temos um Kissinger hoje. Não sei se os ocidentais sabem lidar com os russos e com Putin em particular (salvo por Frau Merkel… Frau Merkel sabe… gosto de Frau Merkel!). E a China… bem, a China é sempre muito complexa…

2014111908561510513A OTAN deve colocar as barbas de molho? Sempre. Putin, acuado pelo embargo ocidental, pressionado pela crise econômica (com desvalorização significativa do do rublo), e com situações tensas com países vizinhos, pode tentar manobras que seriam impensáveis para os analistas internacionais do lado de cá, que raciocinam sob a perspectiva de quem vive e se forma no regime democrático. Quanto aos chineses… os chineses estão lá, jogando o seu jogo e com a experiência milenar de lidar com os bárbaros.

O que estou tentando assinalar é a preocupação que se deve ter no Ocidente se ocorrer realmente uma aproximação entre russos e chineses no campo militar. Uma coisa é certa: a paz mundial não será garantida pela aproximação entre russos e chineses, mas pela maneira como esses lidam com sua próprias idiossincrasias e com os interesses dos ocidentais. Tenho receio de toda “aproximação para garantia da paz mundial” nos termos apresentados por russos e chineses. Até porque a paz mundial é tão frágil quanto uma casca de ovo…

Segue a matéria da Sputnik News. 

China: cooperação naval com Rússia contribui para estabilidade mundial

“A cooperação naval entre Rússia e China é uma contribuição para paz e a estabilidade na região e no mundo inteiro”, disse um representante do ministério da Defesa chinês à agência Sputnik.

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