Mobilização e “Atos de Guerra”

ukranian presidentHá muito não vivíamos momentos de tamanha tensão… O Primeiro-Ministro ucraniano declarou mobilização total de suas (frágeis) forças armadas. Disse, ainda, que considera as ações de Moscou uma “declaração de guerra” – termos fortes, ainda mais em um momento de tamanha crise… 

A Crimeia já está ocupada pelos russos, e as lideranças locais declaram-se sob a proteção de Moscou (isso lembrou-me muito a situação em Dantzig, em agosto de 1939). Para complicar mais, o novo comandante da força naval ucraniana, empossado há dois dias, acabou de manifestar lealdade à Rússia e criou-se a “frota da Crimeia” com as naus que estavam em Sebastopol (ao lado da frota russa do Mar Negro) – ontem, eu disse aqui que isso logo poderia acontecer.

_73313166_76e8d616-6be8-4613-9a31-741d2fd20c38No Ocidente, a OTAN repudia a ofensiva russa… mas, por enquanto, fica só em palavras. O problema é que logo a Aliança Atlântica pode-se ver obrigada a agir, com fundamento no acordo de segurança firmado com Kiev há alguns anos. Situação muito parecida com a de Grã-Bretanha e França com relação à Polônia às vésperas da II Guerra Mundial. O apaziguamento tem limites…

Da parte de Washington, John Kerry também usou termos fortes, sobretudo quando vindos de um Secretário de Estado: falou em “atos de agressão” dos russos, dando sinal de que os norte-americanos já estariam considerando a tradicional justificativa “moral” para agir ou para pressionar Moscou mais ainda. O Kremlin, por sua vez, permanece inabalável na defesa dos interesses russos em sua natural área de influência. Parecem tempos de Guerra Fria… Só que Obama não é Kennedy, e tampouco Putin é Krushev. As próximas horas serão decisivas.

ukraine-crisisMobilização, ameaças, segurança coletiva, alianças militares, intervenções militares, atos de guerra, declaração de guerra. Na condição de historiador, fica difícil saber em que época estamos.

Segue matéria muito interessante da Reuters sobre o desenrolar da crise…

Ukraine mobilizes after Putin’s ‘declaration of war’

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4:36pm EST
Reuters – By Natalia Zinets and Alissa de Carbonnel

KIEV/BALACLAVA, Ukraine (Reuters) – Ukraine mobilized for war on Sunday and Washington threatened to isolate Russia economically, after President Vladimir Putin declared he had the right to invade his neighbor in Moscow’s biggest confrontation with the West since the Cold War.

“This is not a threat: this is actually the declaration of war to my country,” Ukraine’s Prime Minister Arseny Yatseniuk said in English. Yatsenuik heads a pro-Western government that took power when the country’s Russia-backed president, Viktor Yanukovich, was ousted last week. Continuar lendo

Tambores de guerra

soldier russian crimeaPrimeiro-ministro da Criméia solicita proteção a Moscou. Soldados russos disfarçados de soldados russos estão em território ucraniano e ocupam posições-chave. O Senado russo já autorizou Putin a uma ação militar na Ucrânia. Kiev decreta mobilização geral das Forças Armadas. Ocidentais esbravejam, criticam o Kremlin, instam Putin a conter-se, mas estão realmente preocupados em não atiçar tanto o Urso que se movimenta em seu território, buscando a presa em sua área de caça (ou, como diriam os internacionalistas, em sua zona de influência)….

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Não estou dizendo que haverá guerra. Afinal, em pleno século XXI, em território europeu e envolvendo grandes potências – inclusive potências nucleares -, um conflito assim poderia ser realmente de consequências extremamente desastrosas não só para europeus, russos ou estadunidenses… Não estou dizendo que haverá guerra, pois o que se vê agora são as peças dispostas em um grande tabuleiro, com jogadores/oponentes habilidosos, experientes e pragmáticos – como deve ser.

Não estou dizendo que haverá guerra. Essa não seria a saída racional da crise. Entretanto, a História ensina que em situações de significativa tensão – e a presente é uma delas – por mais racionalmente que se opere, podem acontecer variáveis inesperadas e eventos secundários, de menor importância no grande jogo, mas que funcionam como estopim para um conflito. Sim, há sempre os insignificantes acontecimentos que podem servir de estopins, de gatilhos para o pior. O deus da guerra é muito habilidoso nesses assuntos e vela por seus filhos…

bandeiras rasgadas ucrania russiaNão estou dizendo que haverá guerra. Porém, como já comentei aqui em Frumentarius, o clima está muito semelhante àquele das semanas que antecederam a invasão da Polônia pela Alemanha, em 1º de setembro de 1939: interesses de grandes potências em xeque, territórios ameaçados, um país menor no meio do jogo, feras mostrando os dentes, mobilização de tropas, trocas de advertências… E isso aconteceu há 75 anos… Ademais, com as coincidências que fazem do mundo um lugar fascinante, 2014 é o ano do centenário do início da I Guerra Mundial, a Grande Guerra – que começou, por sinal, com um evento secundário…

O clima no planeta está tenso. No Brasil, é Carnaval. Ziriguidum…

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Autoridades da Crimeia pedem a Putin que garanta a paz

Voz da Rússia, 01MAR2014 – http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_03_01/autoridades-da-crimeia-pedem-a-putin-garantir-paz-7438/

Serguei Aksenov, primeiro-ministro da Crimeia, emitiu na manhã deste sábado uma declaração urgente. Ele apela ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, pedindo assistência para assegurar a paz e a estabilidade no território da república autônoma. Continuar lendo

Começou!

interventionSeriam dois mil homens ocupando pontos estratégicos na Criméia: Simferopol, a capital regional e Sebastopol, onde está a frota ucraniana e a frota russa do Mar Negro. Obviamente são forças russas. Acompanhando ansiosamente a reação do Ocidente…

E, para quem quiser ver um trecho do discurso de Yanukovich, clique aqui. Interessante os termos que parecem vindos direto da União Soviética…

Armed men seize two airports in Ukraine’s Crimea, Yanukovich reappears

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4:13pm EST

Reuters, 28FEB2014 – By Alissa de Carbonnel and Alessandra Prentice

SIMFEROPOL, Ukraine (Reuters) – Armed men took control of two airports in the Crimea region on Friday in what the new Ukrainian leadership described as an invasion by Moscow’s forces, and ousted President Viktor Yanukovich surfaced in Russia after a week on the run.

Yanukovich said Russia should use all means at its disposal to stop the chaos in Ukraine as tension rose on the Black Sea peninsula of Crimea, the only region with an ethnic Russian majority and the last major bastion of resistance to the overthrow of the Moscow-backed leader.

Acting President Oleksander Turchinov accused Russia of open aggression and said Moscow was following a scenario simliar to the one before it went to war with fellow former Soviet republic Georgia in 2008. Continuar lendo

Ucrânia: o pior ainda não passou…

158772077Os amigos têm-me perguntado sobre minha percepção do que se passa na Ucrânia. Reitero minhas preocupações do post anterior. A crise ainda não acabou…

O país está cada vez mais dividido, pois parece que se organiza uma resistência ao novo governo no Leste do país, de maioria étnica russa. O próprio Yanukovich, abrigado na Rússia, continua se dizendo o legítimo governante da Ucrânia. “Sim”, alguns diriam, “mas é assim que faria qualquer líder deposto em semelhantes circunstâncias”. O problema é que ele fez esse pronunciamento a partir da Rússia. Daí vamos às reflexões:

yanukovich1) Yanucovich, apesar de caído, não está morto. E pode contar com apoio de parte da população e de grupos do Leste da Ucrânia em uma eventual resistência à nova ordem. Nesse caso, é de se esperar que Moscou não fique quieto assistindo…

2) Sim, Moscou pode intervir. Exercícios militares são feitos na fronteira. Tropas estão mobilizadas. E não se deve descartar a hipótese de intervenção militar à velha moda do que acontecia à época do Pacto de Varsóvia – mesmo porque, se a Ucrânia não é como a Geórgia, tampouco é como a Hungria ou a Tchecoslováquia. O país era parte do Império Soviético até 1991. O que estou tentando dizer é que, com a Ucrânia, a situação é mais sensível, os interesses russos são significativos e a coisa pode piorar.

3) Ainda que não haja intervenção militar direta de Moscou, naturalmente o Kremlin o fará não-oficialmente, seja usando seu pessoal de forças especiais, seu aparato de inteligência, sua capacidade de influência na região, ou tudo isso ao mesmo tempo agora! Repito, a Ucrânia era parte do Império Soviético até 1991 e, para algumas lideranças em Moscou (ou na própria Ucrânia), nunca deveria ter deixado de sê-lo.

Sleeve_Insignia_of_the_Russian_Black_Sea_Fleet.svg4) E tem a Criméia… alguém em sã consciência acredita realmente que os russos abririam mão da Criméia? É uma das áreas mais estratégicas para o país! A propósito, no momento em que escrevo, já há tropas russas ocupando Sebastopol e Simferopol… Isso para não falar da frota do Mar Negro… Um amigo que chegou recentemente da Ucrânia mostrou-me as fotos da disposição das frotas russa e ucraniana em Sebastopol – as duas ficam juntas, os navios são semelhantes, pertenciam à frota soviética até 1991… De fato, é só trocar a bandeira e ocupar os navios.

5) Um desfecho pacífico (digo, sem um conflito internacional envolvendo ocidentais e russos) pode ser a fragmentação da Ucrânia… o país pode acabar dividido… Só não creio que será tranquila essa secessão como foi a Revolução de Veludo na Tchecoslováquia, há duas décadas. Sangue correrá,  o país ficará ainda mais fragilizado e o futuro é tenebroso…

839-i7BBd.AuSt.556) Tenho lá minhas dúvidas sobre a reação ocidental quando a coisa esquentar mais e os russos entrarem definitivamente no jogo. Será que a União Européia e os Estados Unidos vão realmente intervir em favor da Ucrânia? Nesse jogo, Putin parece mais seguro e os ocidentais bem hesitantes…

Enquanto escrevo, a situação me faz lembrar o que aconteceu em setembro de 1939, na Europa Oriental… com a invasão da Polônia pelos alemães, em 1 de setembro, os ocidentais, que haviam procrastinado a reação à Alemanha mas empenharam seu apoio a Varsóvia, tiveram que entrar em guerra contra Hitler em socorro desesperado aos poloneses (ou, mais precisamente, à sua própria honra)… Inimaginável uma guerra nos moldes daquela de 1939-1945… Inimaginável europeus ocidentais (ou norte-americanos) entrando em conflito com os russos por causa de um povo e um território que (na visão de muita gente, pertence mesmo aos russos)… Inimaginável uma nova Guerra Fria… Inimaginável?

Bom, se a história realmente se repetir, lembro que em 2014 completa-se um século do desencadeamento do maior conflito armado até então: a I Guerra Mundial… Um século, duas guerras mundiais, uma Guerra Fria se passaram. Será que as lições foram aprendidas?

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Inverno Eslavo

UKRAINE_Muita gente tem-me perguntado sobre a crise na Ucrânia. Não sou especialista na região, e tampouco tenho-me aprofundado nesse interessante tema. Porém, como aqui se busca “pensar um pouco de tudo”, vamos a algumas reflexões de um curioso:

1) A situação é grave, muito mais grave do aquilo que chega aqui pela mídia generalizada. Kiev virou realmente um campo de batalha, um campo de batalha na cidade que simbolicamente é o berço do mundo eslavo; um campo de batalha em um país europeu, quando muitos europeus acreditavam que isso só poderia acontecer na periferia do mundo civilizado. “Ok”, podem dizer os mais cínicos, “mas a Ucrânia não seria assim tão européia…” É exatamente esse um dos aspectos centrais dos dilemas daquele povo, e tem gente morrendo por isso.

Ucrania22) Muita gente está morrendo em Kiev por ocasião dos protestos, começados há alguns meses e agravados agora. O uso do gerúndio aqui foi proposital: pessoas continuam sendo alvejadas nas ruas, hospitais lotados de feridos, filhos que não voltam para casa, famílias que perdem o pai… Se os brasileiros se chocam tanto com a violência dos protestos por aqui, deveriam ter mais consciência de que as mortes na capital ucraniana, em razão dos confrontos e das manifestações,  chegam a centenas.

3) Sim, a Ucrânia é um país dividido. Sempre foi. Metade da população fala russo, vem de uma cultura eminentemente russa, tem vínculos estreitos com a Rússia, e não se ofenderia em ver seu país tornando-se mais uma das repúblicas da Federação comandada a partir de Moscou. Uma outra parte é de ucranianos, que tentam de todas as maneiras a afirmação de seu idioma, sua cultura e sua nacionalidade, vendo a aproximação com a União Européia a esperança de libertação da hegemonia russa – essa aproximação, defendem, é uma questão de sobrevivência para o país, cuja a história foi em sua maior parte de ocupação e dominação por uma potência estrangeira. E ainda existem aqueles de origem polonesa, romena, tártara, que ficam no meio do fogo-cruzado… Ou seja, o que se vê no país agora não são protestos contra um governo, mas uma crise de identidade nacional e uma disputa decisiva pelos destinos da Ucrânia nas próximas décadas.

ucrania-17384614) Por sua posição estratégica, fica evidente que a disputa na Ucrânia ultrapassa os interesses dos próprios ucranianos. Trata-se, de fato, de uma confrontação entre o Ocidente e a Rússia, que se reergue da queda soviética. A Ucrânia é, tradicionalmente, zona de influência direta russo-soviética, é importante para Moscou, e Putin não abrirá mão tão fácil do segundo maior país eslavo, tanto por essa condição quanto por seu valor econômico e político. Das ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia, é o país mais estratégico e geopoliticamente importante para os russos. Que não seja desconsiderada uma intervenção militar direta de Moscou em socorro a Yanucovich. A Ucrânia não é, de forma alguma, a Geórgia.

5) O destino da Ucrânia repousa nas mãos de seus cidadãos, sem dúvida. Mas a disputa internacional não pode ser desconsiderada. E nessa queda de braço entre ocidentais e russos, convém observar atentamente quem cede primeiro. Putin não costuma ceder.

Ucrania36) Algumas mudanças políticas importantes parecem ocorrer nas últimas horas (escrevo no sábado, 22/02, pela manhã, a partir de Brasília): Yulia Timoshenko, ex-primeira ministra e opositora do regime, seria libertada por força de uma decisão do Parlamento (sim, ali, com a herança autoritária soviética, opositores do regime são presos, e presos políticos existem, presos políticos de verdade e não criminosos que em outras partes do mundo erguem o braço para ser dizer perseguidos políticos e são aplaudidos por mentecaptos comprados com ideologia e fé cega ou, simplesmente, com dinheiro mesmo). Yanucovich parece ter deixado a capital e haveria rumores de sua renúncia, parece… A questão é quem fica em seu lugar… E se já teriam negociado isso com os russos.

UcraniaEnfim, a situação na Ucrânia merece cobertura mais efetiva da imprensa em geral e acompanhamento mais atento dos internacionalistas. Pode ser que ali se esteja a vivenciar aquela que será a primeira confrontação em solo europeu de uma nova Guerra Fria. Sim, porque a Ucrânia está em solo europeu, que fique claro… A Rússia também…

Segue artigo interessante com um apanhado geral da situação ucraniana…

Ukraine protesters seize Yanukovich office; jailed rival ‘free under law’

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9:03am EST
Reuters – By Timothy Heritage and Pavel Polityuk

KIEV (Reuters) – Protesters seized the Kiev office of President Viktor Yanukovich on Saturday and his whereabouts were a mystery, as the pro-Russian leader’s grip on power rapidly eroded following bloodshed in the Ukrainian capital.

Parliament voted to free his arch-rival, jailed former prime minister Yulia Tymoshenko. Her daughter said Tymoshenko was already free under Ukrainian law but still in the hospital where she has been held for treatment. Continuar lendo

Luto pela Dama

Margaret-ThatcherDemorei a escrever sobre ela. A correria de ontem e de hoje me impediu de registrar com a clareza devida meu pesar pela transição (é assim que se referem os rosacruzes à morte) daquela que considero uma das grandes mulheres de seu tempo.

O que dizer de Lady Thatcher? Muito já foi dito nas últimas horas. Nada suficiente para que a atual geração entenda quem foi a Dama de Ferro. Junto com Ronald Reagan e João Paulo II, Thatcher compôs o grande triunvirato do mundo livre que, no último quartel do século XX, pôs abaixo a Cortina de Ferro e derrotou o comunismo. Isso já bastaria para tornar aquela senhora inesquecível.

Margaret Thatcher mostrou-se forte quando precisou ser forte. Quanto respondeu à agressão da ditadura argentina, com generais ansiosos por desviar a atenção de seu povo dos problemas domésticos e desafiar um Império que parecia distante e, na percepção machista latino-americana, governado por uma frágil mulher. A Primeira-Ministra era tudo menos frágil. E a senhora de voz firme mostrou-se firme também na defesa da soberania britânica sobre as Falklands.

Margaret-Thatcher2A filha de alfaiate mostrou-se forte também para reformar a economia e a sociedade de seu país. Diante da crise que ameaçava a estabilidade britânica, promoveu reformas que desagradaram a muitos, mas que, a seu ver, eram necessárias. Essas reformas, e a maneira singular com que conduziu o país por 12 anos, dariam origem ao termo “thatcherismo”. Indubitavelmente, a baronesa Thatcher não era uma mulher nada frágil.

A História da Grã-Bretanha é marcada por mulheres fortes. Elizabeth I, Rainha Victoria… ambas deram seus nomes a sua época… Também se pode falar de uma era Thatcher, de um período de grandes transformações no Reino Unido e que reverberaram pela Europa e pelo mundo!

A Grã-Bretanha teve dois memoráveis primeiros-ministros no século XX: Sir Winston Churchill… e Lady Margaret Thatcher… Aquele venceu o nazi-fascismo, esta o comunismo. Ambos foram líderes conservadores enérgicos e sagazes, tinham discurso incisivo, frases de efeito, enfrentaram guerras, encontraram em grandes presidentes dos EUA bons aliados… Churchill e Thatcher conduziram seu povo em horas difíceis, e combateram o bom combate. Churchill e Thatcher deixaram um grande legado!

Não sei mais o que dizer sobre Lady Thatcher… o que sei é que o mundo fica mais triste sem a Dama de Ferro. Eu ao menos fico.

Como não tenho eloqüência tampouco competência para expressar meu sentimento de pesar, concluo essa reflexão com as palavras de meu caro Paulo Kramer, que consegue com primor expor em algumas linhas o sentimento de muitos:

Descanse em paz, baronesa Thatcher! Ao lado de Ronald Reagan e João Paulo II, V. formou a trinca dos estadistas da segunda metade do século 20 que mais admirei. Simplesmente amo aquela sua frase: “A liderança é o oposto do consenso.” É preciso sacudir o conformismo, desafinar o coro dos contentes, denunciar o ‘mais do mesmo’, balançar o coreto — enfim, despertar a humanidade modorrenta para o fato de que a conquista da liberdade, o maior bem da vida individual e social, pressupõe responsabilidade, maturidade e muita coragem; não é coisa para fracotes, covardes, conformistas que só sabem se esconder atrás das plataformas choronas e imaturas dos eternos grupos-vítima. V., Margaret, combateu o bom combate e será sempre uma referência, uma inspiração para todos nós, liberais-conservadores.

Acordei hoje às 05:20 da manhã para uma ida e volta ao Rio de Janeiro. Peço perdão a meus oito leitores por essas linhas truncadas… Morfeu me chama…

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Mais sobre o Mali…

Bom, ao menos a União Européia considera se mobilizar para ajudar o país africano! Espero que não demorem tanto quanto fizeram os ocidentais com Ruanda… Vale a pena ler a análise da Spiegel, sobretudo no que concerne à efetividade de alguma ação européia na crise mali…

SPIEGEL ONLINE10/29/2012 04:31 PM
 

Al-Qaida Threat – EU Weighs Options for Helping Mali

By Horand Knaup, Gordon Repinski and Christoph Schult

The European Union wants to help the Malian army recapture the renegade north from terrorists with a military mission. But the French and the Americans have already been operating in the region for years without success. Can EU intervention really make a difference? Continuar lendo

Parcerias estratégicas… Welcome, Mr. Cameron!

Boa associação entre a sexta e a sétima economias do globo! Claro que não adianta imaginar que isso significa alguma possibilidade de conseguirmos um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Se um dia formos, realmente, uma grande potência, lá estaremos! Ou não…

Congratulations, Mr. Cameron! Tem-se aí um movimento, no mínimo, perspicaz, na Política Externa britânica… Os argentinos que se cuidem… De toda maneira, isso vai matar a Cristina de inveja (só por isso já valeu a visita, heheheheh)!

Cameron leads British hunt for business in Brazil

Reuters, 28SEP2012 – 6:30pm EDT

BRASILIA (Reuters) – British Prime Minister David Cameron had oil and sports on his mind when he visited Brazil this week seeking business opportunities in the South American nation that overtook Britain last year to become the world’s No. 6 economy.

With the European Union in a slump, Cameron has turned to emerging BRIC nations – Brazil, Russia, India and China – as alternative markets for British exports and investments, with little to show so far. Continuar lendo

Paris e Berlim: trabalhando pelo crescimento…

Alguém esperaria uma notícia diferente desta sobre o primeiro encontro Merkel-Hollande após a posse do novo Presidente francês? Quero ver é como vão fazer isso… Se o casamento franco-alemão começar a degringolar, o bloco inteiro poderá colapsar…

Paris et Berlin travailleront ensemble sur la croissance

Reuters.fr mardi 15 mai 2012 23h09

BERLIN (Reuters) – France et Allemagne sont convenues mardi à Berlin, à l’occasion d’un premier entretien entre Angela Merkel et François Hollande, de présenter en commun des idées sur les moyens de relancer la croissance européenne au Conseil européen du mois prochain. Continuar lendo

As forças profundas e as relações franco-germânicas

Claro que os acadêmicos repudiarão meu comentário (estou muito preocupado com isso), mas que essa do avião de Hollande ser atingido por um raio quando estava indo conversar com Frau Merkel pode ser indubitavelmente interpretado como um  sinal dos deuses, ah isso pode! E no primeiro dia de mandato do novo Presidente francês!

As relações franco-germânicas não vão nada bem… Bom lembrar que Frau Merkel apoiou abertamente a candidatura do Sarkô (e se você não se lembra, certamente Hollande se lembra)… E que Monsieur Hollande tem posições bem divergentes sobre como enfrentar a crise européia… Nesse sentido, relações ruins entre França e Alemanha são péssimas para o bloco como um todo… Claro que essas diferenças podem ser superadas em prol do bem maior da integração européia e da resolução da crise… E é provável que alemães e franceses consigam fazê-lo (isso se os gregos deixarem… e os espanhóis… e os italianos…)!

De toda maneira, no caso do raio, se não forem as “forças profundas” interferindo na União Européia, tem-se ao menos um péssimo augúrio para o senhor Hollande…

Avião que levava Hollande a Berlim é atingido por raio e volta a Paris

Revista Época, 15/05/2012

O avião no qual o presidente francês, François Hollande, viajava nesta terça-feira (15) rumo a Berlim para se reunir com a chanceler alemã, Angela Merkel, teve que retornar a Paris após ser atingido por um raio em pleno voo, segundo a rede de televisão francesa BFMTV. Continuar lendo

Grécia fora da zona do Euro?

Rapaz, a Spiegel pegou muito pesado com a matéria que segue (a capa da revista já diz muito)! De toda maneira, apesar de o país representar apenas cerca de 3% do PIB do bloco, a situação na Grécia não pode ser desprezada. Seria o prelúdio para o que pode acontecer com países de maior peso como a Espanha e a Itália? Além disso, preocupa o crescimento de grupos extremistas (como os nazistas e outros segmentos de extrema-direita) e a incapacidade dos partidos que saíram vitoriosos na eleição de formarem o governo.

O comentário de que “está na hora de admitir que o plano de resgate da União Européia/FMI para Grécia falhou” merece atenção, pois reflete a maneira como pensam muitos alemães – insatisfeitos com a idéia de que estariam “carregando a Europa (e os PIGS em particular) nas costas”. Afinal, a exortação para que a Grécia saia da zona do Euro é feita pelo maior hebdomandário alemão sobre a Grécia! Vale a pena conferir.

 Spiegel – 05/14/2012 11:55 AM

Time to Admit Defeat – Greece Can No Longer Delay Euro Zone Exit

After Greek voters rejected austerity in last week’s election, plunging the country into a political crisis, Europe has been searching for a Plan B for Greece. It’s time to admit that the EU/IMF rescue plan has failed. Greece’s best hopes now lie in a return to the drachma. By SPIEGEL Staff

There are many things Alexis Tsipras likes about Germany. The leader of Greece’s Coalition of the Radical Left (Syriza) party drives his BMW motorcycle to work at the Greek parliament in the morning, Germany’s über-leftist Oskar Lafontaine is one of his political allies, and when it comes to his daily work, his colleagues have noticed a certain tendency toward Prussian-style perfection. Continuar lendo

Bomba em Buenos Aires

As motivações devem ser distintas daquelas dos atentados de duas décadas atrás. Porém, parece que o terrorismo está voltando à Argentina. Enquanto isso, aqui em Pindorama, fiquei muito tranqüilo depois que o Diretor do Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência disse, em audiência pública na terça, 24/04, na Câmara dos Deputados, que a probabilidade de acontecer qualquer atentado terrorista no Brasil, mesmo com os grandes eventos que se aproximam, é mínima. Ainda bem que a ABIN está cuidando da gente e que nenhum terrorista ousará cometer atentado em terras brasileiras!

Bomba explode em frente à sede da UE em Buenos Aires; não há vítimas

DA EFE, EM BUENOS AIRES

Uma bomba explodiu nesta terça-feira na entrada da sede da UE (União Europeia) em Buenos Aires sem registrar vítimas, informaram fontes policiais.

Segundo o testemunho de um empregado da segurança do edifício, o ataque ocorreu na madrugada, depois de dois desconhecidos deixarem uma mochila abandonada na entrada da do edifício. Após a explosão, a Brigada de Explosivos da Polícia Federal e de Bombeiros chegou ao local. Continuar lendo

A Zona do Schengen

Para quem não conhece, seguem algumas informações sobre o Acordo de Schengen, que permite a livre circulação de pessoas entre a grande maioria dos países da União Européia (e também Noruega, Islândia e Suíça)…

The Schengen Agreement

In 1985, the Schengen Agreement paved the way for taking down barriers at border controls between Germany, France and the three Benelux countries — Belgium, the Netherlands and Luxembourg. At the same time, it obligated these countries to better protect their external borders. Continuar lendo

Europa: fechando as fronteiras… internas!

A notícia preocupa… Afinal, trata-se de um retrocesso violento no processo de integração europeu. Restabelecer o controle de fronteiras entre os países na Zona do Schengen? Sinceramente, nunca imaginei que fosse ver isso! Será que são os primeiros sinais do fracasso da integração européia?

Der Spiegel Online – 04/20/2012 05:39 PM

Franco-German Schengen Proposal: A Vote of No Confidence in Europe

A Commentary by Carsten Volkery

Germany and France’s joint proposal to allow Schengen-zone countries to temporarily reintroduce border controls as a means of last resort might sound harmless. But doing so would damage one of the strongest symbols of European unity and perhaps even contribute to the EU’s demise.

Germany and France are serious this time. During next week’s meeting of European Union interior ministers, the two countries plan to start a discussion about reintroducing national border controls within the Schengen zone. According to the German daily Süddeutsche Zeitung, German Interior Minister Hans-Peter Friedrich and his French counterpart, Claude Guéant, have formulated a letter to their colleagues in which they call for governments to once again be allowed to control their borders as “an ultima ratio” — that is, measure of last resort — “and for a limited period of time.” They reportedly go on to recommend 30-days for the period. Continuar lendo

Para salvar a Europa… a China!

No mínimo, irônico, um século e meio depois das Guerras do Ópio da pilhagem da China feita pelas potências européias… Sim, o mundo gira… e isso nunca foi tão verdadeiro…

China’s Wen: May consider bigger role in EU rescue

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Reuters 02FEB2012

By Lucy Hornby and Andreas Rinke

BEIJING (Reuters) – China is considering increasing its participation in the rescue funds aimed at resolving the European debt crisis, Chinese Premier Wen Jiabao told journalists on Thursday. Continuar lendo

O mundo após o colapso dos EUA

Artigo publicado no The Peninsula, do Catar. Brzezinski dispensaria apresentações, mas, para os mais jovens e o pessoal que não é da área de Relações Internacionais, vale lembrar que é um renomado acadêmico, tendo sido C0nselheiro de Segurança Nacional de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981, tendo influenciado a política externa democrata no período. Junto com Kissinger (que faz sua contraparte republicana), Brzezinski é um dos grandes pensadores realistas da segunda metade do século XX (quem estuda Relações Internacionais e não o conhece está com sérios problemas…). 

Recomendo a leitura, particularmente a meus alunos que se preparam  para a carreira diplomática. Atentem para o fato de que a perspectiva é de ausência de um novo hegemon quando os EUA deixarem de ocupar essa posição, em um sistema que pode se evidenciar cada vez mais hobbesiano.

Também merece destaque a percepção de que a China não se constitui em sucessor inevitável dos EUA como potência hegemônica. Ao contrário, se teria um conjunto de potências “secundárias” com suas áreas de influência regional (secundárias leia-se todas as grandes que não sejam os EUA ou a China) – aí há a referência ao Brasil.

De toda maneira, é bom lembrar que essa decadência dos EUA não será tão rápida nem talvez tão intensa como preveem alguns ou desejam outros (mesmo porque os EUA são pródigos em bons analistas internacionais e conseguem sempre surpreender em sua capacidade admirável de dar a volta por cima)…

O amigo diplomata que enviou a notícia destaca a referência à Rússia utilizando-se a palavra alemã “schadenfreude”, que significa um sentimento de alegria ou prazer pelo sofrimento ou infelicidade dos outros (só os alemães para conseguirem sintetizar certos sentimentos em palavras). Claro que isso não seria exclusividade dos russos. Por aqui mesmo haveria muita gente (os tais americanófobos) contente com o novo cenário. Eu ainda prefiro ficar sob a hegemonia estadunidense que sob a chinesa…

A faltering US could signal a dangerously unstable world 

The Peninsula – Friday, 27 January 2012 22:59
By Zbigniew Brzezinski

Not so long ago, a high-ranking Chinese official, who obviously had concluded that America’s decline and China’s rise were both inevitable, noted in a burst of candour to a senior US official: “But, please, let America not decline too quickly.” Although the inevitability of the Chinese leader’s expectation is still far from certain, he was right to be cautious when looking forward to America’s demise. Continuar lendo

Para onde vai o petróleo do Irã?

Esta é uma contribuição de minha amiga, Carmen Lícia Palazzo. Achei, realmente, muito interessante, pois é possível ter uma visão geral das exportações de petróleo iranianas.

Observação 1: apesar de 22% das exportações de petróleo do Irã serem para a China, isso representa algo em torno de 10% das importações chinesas do produto (ademais, a China busca alternativas, inclusive aqui na América do Sul e, naturalmente, na África). O mesmo acontece com Japão e Coréia do Sul, para onde os iranianos exportam 14% e 10% de seu petróleo, respectivamente.

Observação 2: a Índia é cliente importante, com 13% do petróleo exportado. Um dado que não está no gráfico é que as importações do Irã representam apenas 8% do petróle0 importado pelos indianos. O Irã é 0 13 parceiro comercial da Índia.

Observação 3: os europeus não dependem tanto do petróleo iraniano, mas não podem simplesmente desprezar essas reservas. E claro que vão querer algo em troca se suspenderem as importações do Irã.

Observação 4: last, but not least, a Rússia não importa petróleo do Irã (claro, pois é um dos grandes produtores). Isso quer dizer que as relações entre os dois países não estão baseadas nesse produto (apesar de um embargo ao petróleo iraniano interferir nos preços internacionais e, naturalmente, nas exportações de petróleo russas – o que, dependendo da situação, pode até ser interessante para Moscou). Que fique claro, portanto, que o apoio russo a Teerã se dá por outras razões mais que devem ser consideradas.

Lindsay: Where Iran exports oil

Editor’s Note: Dr. James M. Lindsay is a Senior Vice President at the Council on Foreign Relations and co-author of America Unbound: The Bush Revolution in Foreign Policy. Visit his blog here and follow him on TwitterContinuar lendo