A coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais.
Provérbios 17:6
Apesar do pouco que passamos juntos, Vovô Sother foi muito marcante em minha vida. “Seu Sota” lia muito (apesar de, como disse ontem, não ter concluído o ginasial), o que fazia dele homem de vasta cultura, sendo conhecido e respeitado na cidade de Caxias. Para mim, era aquele senhor muito magro e de cabelo absolutamente branco, de quem eu gostava de estar perto, pois sempre tinha algo para me ensinar sobre a vida.
Na minha infância, adorava quando, nas férias, viajava para Caxias para a casa de meus avós. Ali brincava em um imenso quintal, com uma grande mangueira ao centro, imponente e em cuja sombra repousava à tarde depois do almoço, degustando seu fruto como sobremesa! Corria pelo jardim cuidado por vovó, dormia em rede (coisa que não consigo fazer hoje), onde também balançava tanto, imaginando ser um piloto de guerra a bombardear as cidades inimigas, que uma vez caí e ralei as costas de um jeito que carrego a cicatriz do tombo até hoje! Bebia litros de Guaraná Jesus (sonho cor-de-rosa!!!), que meu avô comprava pouco antes de nossa chegada, e, repito, adorava ficar perto do velho Sother.
Também me divertia passeando pela cidade de minha mãe, onde ocorreram as batalhas da Balaiada. Ainda muito, muito pequeno, a felicidade era plena quando vovô me levava para o alto do Morro do Alecrim, onde havia ruínas do que fora uma construção bombardeada durante os combates e a praça com a estátua do Duque de Caxias, ladeada por dois canhões usados no conflito. Interessante o quanto gostava, desde a mais tenra infância, de locais de batalha e de temas relacionados à guerra – meus brinquedos sempre foram soldados de plástico, e todo carrinho que ganhava logo virava, de alguma maneira, um veículo militar requisitado pelas tropas…
Porém, o lugar mais marcante de Caxias depois da casa de meus avós era a Santa Isabel, um pequeno sítio comprado por Seu Sother e nomeado em homenagem a vovó Sidoca (cujo nome de nascimento era, de fato, Isabel). Ali, sempre me lembrarei da casa ao centro (pequena e simples, mas que para mim era gigante e um lugar a ser explorado, com baús que me reservavam tesouros históricos, e com peças antigas – como uma espada e algumas espingardas – pregadas às paredes!). E, diante da casa, a pitombeira! Ah, a pitombeira! Quem nunca teve o privilégio de experimentar pitomba não compreenderá o prazer de ficar embaixo da árvore e degustar aquela fruta pequena e suculenta. Sou aficionado por pitomba (talvez porque me remonte à infância no sítio)! Havia, ainda, o pomar em que se destacavam as diversas mangueiras, e uma área com muitas plantas, arbustos e árvores que, para mim, era a “mata” a ser explorada.
Ia muito com vovô a Santa Isabel. E adorava quando ele me entregava um pequeno facão e um cantil e me levava para desbravar a “selva”, onde minha imaginação me alçava à condição de grande explorador de uma floresta inóspita e desconhecida. O melhor de tudo, acompanhado de meu avô, que sempre tinha muito a me ensinar.
Aspecto interessante de vovô é que ele, na infância, vivera com os índios no Maranhão. Apesar de loiro e branco, aprendera muito com o povo da floresta (para usar o jargão do momento), a quem muito respeitava. Conhecia plantas e animais, sabia fazer pintura de guerra com urucum, e sempre tinha um ensinamento indígena a transmitir quando nos embrenhávamos pelas trilhas da mata da Santa Isabel, abrindo caminho a facão entre os arbustos! Essas experiências, de quando era bem pequeno, ficaram marcadas na memória e no coração.
Sinto muita saudade do velho Sother. As crianças deveriam poder passar mais tempo com seus avós, que não poderiam partir tão cedo. Hoje, faltando 28 dias para meu aniversário de 40 anos, enquanto escrevo este texto me veem lágrimas aos olhos junto com a memória das últimas imagens de vovô: estava eu sentado no chão de piso quadriculado, brincando com meus soldados, próximo a sua cadeira de balanço, e ele alegre a conversar com meus pais sobre um livro de troças em forma de poesia, de onde destacara uma quadrinha, da qual, mesmo com meus oito ou nove anos, talvez menos, ouvi uma vez e nunca esqueci, pois associo o poeminha diretamente à imagem sorridente de meu avô:
Chegava o compadre a reclamar com o outro sobre os desmandes da vida. Depois de perguntado sobre o porquê de estar aborrecido, respondeu sobre sua lida:
– Ora, cumpadi! Há quatro coisas no mundo que atormentam um cristão: uma mulher ciumenta, um menino chorão, uma casa que goteja e um burro topão!
Ao que o outro compadre retruca:
– Meu cumpadi, não se incomode com isso! Para tudo tem solução: o menino, a gente acalenta; a casa, a gente retelha; o burro se apara os cascos; tudo isso se arremedeia!
– Mas cumpadi, pergunta o aborrecido, e a mulher ciumenta?
– Ah, cumpadi! O diabo da mulher ciumenta, a gente só resolve na peia!
Troça simples e de um humor até questionável nos atuais tempos do politicamente correto, mas meu avô tirara de um livro seu. Nunca esqueci dessa historinha, que foi a última que ouvi do pai de mamãe. Algum tempo depois, aos oitenta anos bem vividos, um câncer de pulmão o levaria – Seu Sother fumava muito, e seu último pedido, antes de falecer, foi por um cigarro…
Agradeço sempre ao criador por ter colocado o velho Sother, ainda que por pouco tempo, em minha vida. Ele permanece em minha memória e em meu coração.
As fotos de hoje foram tiradas em Santa Isabel. Devo estar com uns quatro ou cinco anos nelas. Na primeira, encontro-me na mata, escondido entre os arbustos, como um guerreiro de selva! Já na segunda, no tanque de água que para mim era uma grande piscina, praticava as técnicas de mergulhador de combate! Ser criança é sempre muito bom!

Faltam 29 dias para meu aniversário!!! Na sequência das crônicas de meus quarenta anos, o texto de hoje é dedicado a meus avós.
Faltam 30 dias! E hoje gostaria de compartilhar com os amigos o que deve ter sido meu primeiro ensaio fotográfico, do qual selecionei quatro fotos que revelam o formalismo com que sempre gostei de me vestir! (Claro que quem me vestiu para o ensaio foi minha querida mãezinha, pois à época eu mesmo só me preocupava com a mamadeira seguinte ou com as contribuições filosóficas que deixava em minhas fraldas – e, de fato, nem com isso!)
Aprecio gravatas (pouco importando o preço ou a marca, pois o que vale é a estampa), pois acho que dão uma composição elegante à indumentária masculina. Afinal, a origem das gravatas está nos antigos regimentos para identificar a vinculação do militar e no pano que os soldados colocavam em volta do pescoço).
Direto da capital capixaba, neste 31° dia que antecede meu aniversário, aproveito para escrever algumas palavras sobre um vício que me persegue desde sempre: chocolate!

Sempre fui uma criança sorridente (dizem). Lembrem que sou o filho da senhora que teve o bebê sorrindo (vide capítulo anterior)!!!

Tá bom! Não sou “completamente avesso” a práticas desportivas. Gosto de caminhar (correr não) e de nadar (preciso voltar a fazer isso). Também já pratiquei tiro (ué, é esporte sim!) e, o esporte que realmente aprecio, esgrima (dedicarei a ela uma das crônicas de meus 40 anos)! Esgrima me fascina e já ensaio há algum tempo voltar à pista. Quem sabe depois dos 40!

Como rosacruz, já dediquei muito de minhas reflexões exatamente aos vínculos que o “destino” estabelece entre as pessoas. E, pensando sob uma perspectiva mística, ciente de que o acaso não existe, tento compreender qual a importância de cada ser humano que passa por minha vida (do seu Maurílio, que com tanto esmero cuida da limpeza lá no escritório, aos seres mui preciosos que optaram por encarnar em minha família).








