Mentira, Escola, Memória

20140822_182047Fui buscar minha filha na escola. Lá chegando, deparei-me com os trabalhos das crianças sobre o “governo militar” expostos em murais nas paredes externas da sala. O conjunto era um show de horrores, irritante… e confirmei o que temia: o ensino está completamente ideologizado, há uma “versão oficial” (e deturpada) da História, e o que é ensinado em sala de aula está impregnado de forte preconceito! Fiquei enraivecido, indignado com o que se prega hoje na escola!

20140822_182110As fotos falam por si. Deixarei que o leitor as veja e avalie. A versão do período ensinada a nossas crianças é de violência, repressão, censura e morte – e só isso! Ah, sim! Claro que só por parte do Estado. Do outro lado estavam jovens combatentes da liberdade (muitos dispostos a tudo, inclusive a matar inocentes, para transformar o Brasil em uma Albânia comunista)! Não havia qualquer referência a atendados terroristas, a guerrilha rural, a discursos inflamados que pregavam o comunismo como a solução e a luta como o caminho para se alcançar esse objetivo! Será que se perdeu a memória disso?

20140822_181949Certamente, houve abusos, violência e morte perpetrados por agentes do Estado nos 21 anos de regime militar no Brasil (hoje isso não existe mais, certo?!?). E não se pode deixar de contar esses fatos às futuras gerações. Mas o que realmente me incomodou é maneira absolutamente parcial como ensinam nossos filhos a respeito! Irrita-me a imagem que se constrói de uma época em que o Brasil alcançou novos patamares de desenvolvimento, que o País industrializou-se, que o civismo era ensinado em sala de aula, havia segurança e ordem! Mas não é o que se tem aprendido nos bancos escolares. E, nesse contexto, mentiras logo se tornam verdades absolutas!

Absurdo que não se ensine, por exemplo, que havia terrorismo no Brasil, que vivíamos em um clima de guerra suja (guerra pressupõe, no mínimo, duas partes em conflito), e que tanto os agentes do Estado que reprimia, quanto os opositores àquele regime (os que optaram pela resistência pacífica e os que recorreram à luta armada e ao terror) eram, em sua absoluta maioria, peças em um jogo de poder entre as Grandes Potências, os dois blocos e seus respectivos serviços de inteligência. Sim, porque para se entender o período é fundamental que se compreenda que vivíamos em clima de disputa bipolar e que imperava o embate ideológico!

20140822_182002Quero que se ensine a meus filhos sobre o período militar, certamente. Mas quero que esse ensino envolva a valorização da democracia e a defesa da alternativa democrática como a única aceitável. Não quero cartilhas tendenciosas, ideologicamente orientadas, que identificam nossos militares (de ontem, mas também de hoje) como monstros desalmados. Não quero esse maniqueísmo e essa parcialidade no ensino da História às gerações mais novas.

Tudo isso me faz refletir sobre como se está contando a História do Brasil nos dias de hoje. Livros que relatam a versão de apenas um dos lados não merecem meu respeito. São eles, porém, os adotados nas escolas. E, simplesmente, ensina-se que, de um lado, havia monstros desalmados (que usavam farda) e, do outro, pessoas comuns que eram perseguidas, torturadas e exterminadas. Só que não foi bem assim, não é?20140822_182057

Estou considerando como irei à direção da escola para tratar do tema. Afinal, gosto muito da instituição de ensino onde estuda minha filha, bem como do profissionalismo e seriedade da professora da pequena. Mas acho, sinceramente, que se deve registrar que estão impondo uma versão deturpada da História a nossas crianças. Será que caminhamos para trás?

Não escreverei mais nada. Estou muito abespinhado para isso. Repito, deixarei as imagens falarem por si. E mostrarem como nas escolas, a mentira impregna nossos filhos e arrasa com nossa memória. Esse é apenas um exemplo do que está acontecendo com o Brasil: uma lenta, gradual e quase imperceptível mudança nos corações e mentes das pessoas, sob orientação clara de um discurso ideológico e doutrinário. É isso mesmo! Gramsci explica.

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Gente que insiste em adoecer à noite

fotos-filas-620-465Pois é! Finalmente (demorou!), o Secretário de Saúde do DF, Elias Miziara, foi demitido. Ele havia declarado que os problemas de saúde pública na capital de Pindorama estavam relacionados aos pacientes, que “têm o mau hábito de procurar os hospitais principalmente à noite”. Afinal, que história é essa do cidadão sair, depois, das 18h, em busca de um pediatra para o filho doente? A infeliz declaração ocorreu paralelamente à morte de um bebê, por falta de atendimento apropriado, no Hospital de Planaltina.

As duas notícias revelam o total descaso com a saúde pública no DF. Também são exemplo da falta de humanidade com que certos profissionais da área (que não representam a maioria, bom esclarecer) tratam pessoas que os procuram em busca de ajuda. Impressiona como certos profissionais da Saúde esqueceram um juramento que supostamente fizeram ao se consagrarem ao serviço do cuidado para com os enfermos.

Saude BrasilA falta de humanidade é um problema privado, pessoal de que mereceria ter seu diploma cassado. A falta de médicos, leitos e equipamentos hospitalares é um problema público e assinala, no mínimo, incapacidade do Governo de gerenciar a prestação de um serviço essencial à população. 

O que me incomoda é, como um Estado que consegue reunir dois bilhões de reais para um estádio de futebol (agora chamado “arena”, por questões de marketing, claro) não tem serviços públicos de qualidade, não oferece ao cidadão uma prestação tão essencial. Absurdo a oitava economia do mundo ter hospitais nas condições dos nossos, com pessoas tratadas como coisas, com pacientes jogados pelos corredores dos hospitais, deitados no chão, sofrendo e morrendo à espera de atendimento!

No Brasil de hoje, o que o cidadão que paga seus impostos e trabalha honestamente para tocar a vida tem que se preocupar é em não adoecer. Porque se ficar doente, não terá atendimento adequado nos hospitais públicos. Se precisar de uma UTI pública, entrará em uma fila de espera, uma fila de morte. E, se chegar com um filho doente a uma unidade de atendimento do Estado à noite, terá que voltar para casa (sobretudo se precisar de pediatra)…

E ainda há políticos que dizem que a Saúde no Brasil vai bem. Não vai. O Brasil está doente, física e mentalmente. Alguma coisa precisa ser feita. Ou isso, ou as pessoas terão que parar com esse péssimo hábito de adoecer…

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Conversando sobre a Grande Guerra

Ao longo dos próximos meses ainda teremos muitas publicações sobre a I Guerra Mundial, a Grande Guerra, o divisor de águas da História dos últimos duzentos anos… Afinal, passados cem anos do início daquele conflito, em agosto de 1914, muito se tem a aprender com ele, tanto em termos de relações humanas quanto no que concerne à política entre as nações.

Segue o link para uma entrevista dada por mim e por meu amigo e historiador, Dario Andrade, à Rádio Senado, sobre a Grande Guerra. Não consegui inserir os arquivos de áudio, por isso vá ao link, e procure a reportagem de 15/08/2014.

Homens indo para alistamento

 

Ajuda Humanitária Russa à Ucrânia

caminhoes russos ucraniaCoisa bonita de se ver! Caminhões russos levando ajuda humanitária aos ucranianos! Afinal, como disse o “Ministro das Emergências” sovié…, digo, russo, a ajuda humanitária é uma prioridade para Moscou (vide artigo a seguir)! Interessante também que com os caminhões com mantimentos chegam também voluntários (uniformizados, cabelo cortado, jeito de soldado russo vestido de voluntário, claro), sempre dispostos a trabalhar pelo bem do povo-irmão ucraniano!

Realmente, os ocidentais têm que aprender com o espírito da solidariedade entre os povos, espírito este cultuado à época do comunismo e da União Soviética! Isso me lembra uma piada contada na Polônia, quando o país pertencia ao bloco socialista:

voluntarios russos 2Dois arqueólogos, um soviético e um polonês, encontram um baú com moedas de ouro na fronteira entre os dois países. Ambos sabem que, de acordo com as leis, esse tesouro pertence a quem o encontrar.

“Camarada, vamos dividir o tesouro entre nós dois, fraternalmente!”, propõe o soviético!

“Dividir fraternalmente não, camarada! Vamos dividir meio a meio!”, retruca o polonês.

Segue o artigo da Ria Novosti, sobre a ajuda de Moscou aos ucranianos…

voluntarios russos

RIA Novosti

Russia’s Emergencies Ministry Says Humanitarian Aid to Ukrainian Refugees a Priority

10:06 19/08/2014

MOSCOW, August 19 (RIA Novosti) – Russia’s Emergencies Ministry plans to increase humanitarian aid to Ukrainian refugees, which it considers its priority task, Russia’s Deputy Emergencies Minister Vladimir Stepanov said.

“The number one task at this moment is to help Ukrainian citizens on Russia’s territory, to deliver them to the temporary settlements, to provide medical and psychological help, to feed them,” Stepanov said, adding that the government was helping with the projects. Continuar lendo

A declaração de guerra

GM_Aug5_1914_GB_Germ_at_WarO dia 3 de agosto de 2014 tem que ser lembrado. Afinal, há exatos cem anos, a Alemanha declarava guerra à França. No dia seguinte, após ter refutado seu pedido para atravessar o território belga para atacar a República Francesa (diante da solicitação alemã, o rei dos belgas teria dito que “a Bélgica não é uma estrada, a Bélgica é uma nação”), o Kaiser Guilherme II ordenou a invasão da Bélgica, país neutro. Como em um grande dominó, a Grã-Bretanha, em 4 de agosto, sob o argumento de garantia da neutralidade belga, declarou guerra à Alemanha. Logo seriam disparados os canhões de agosto.

Em uma semana, em razão da chamada política de alianças e dos tratados secretos: 

1) em 28/07: a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia e a Rússia (aliada da Sérvia) decreta mobilização parcial contra a Áustria-Hungria;
2) em 31/07: a Rússia decreta mobilização total, o que significa, de fato, estado de guerra;
3) em 01/08: a Alemanha (aliada da Áustria-Hungria),  em resposta à mobilização russa, declara guerra à Rússia; e a França (aliada da Rússia) ordena mobilização geral (01/08);
4) em 03/08: a Alemanha então declara guerra à França e invade dá um ultimato à Bélgica, pedindo passagem para atacar os franceses.
5) em 04/08: diante da negativa de passagem de Bruxelas, a Alemanha invade a Bélgica; e, com a quebra da neutralidade belga, a Grã-Bretanha declara guerra à Alemanha.

Acabava um século de paz na Europa. Começavam quatro anos de guerra. Assim ocorreu o início do curto século XX.

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O tigre, o menino, e o idiota

Menino-de-11-anos-atacado-por-tigre-em-zoológico-no-Paraná-tem-o-braço-amputadoUm caso que chocou o Brasil na última semana foi o do menino de dez anos que teve o braço dilacerado por um tigre no zoológico de Cascavel, Paraná. O garoto passou da grade de proteção e começou a “brincar” com o felino, que acabou o atacando. O mais absurdo disso tudo: a tragédia ocorreu sob o olhar do pai, que não só permitiu que o filho passasse para junto da jaula do tigre, como também filmou o garoto a provocar o animal. Não se poderia esperar resultado diferente.

Tem gente que fala em sacrificar o tigre. E aqui fica minha indignação. Sacrificar por quê? Pensemos na situação do pobre animal: preso em uma jaula, com espaço limitado, completamente fora de seu habitat, estressado com gente a sua volta, e um garoto começa a provocá-lo, a mexer com ele. Alguém esperaria uma reação diferente? Mesmo no zoológico, enjaulado, o tigre é um animal selvagem, um felino. E não precisa ser nenhum gênio para saber que animais selvagens são sempre selvagens e agem como animais selvagens! Ora, qual a culpa do pobre felino? Nenhuma. O tigre foi, simplesmente, um tigre.

tigre-cascavelO garoto, por sua vez, arcou com a consequência da traquinagem. Desculpem, mas um menino de 10 anos que não tem juízo suficiente para saber que não se deve brincar com um grande felino, muito menos provocar o bicho, não poderia ser levado ao zoológico. Claro, é uma criança, foi uma tragédia.  O guri deveria estar muito atentado, fazendo traquinagem (o filme amplamente divulgado pelas redes de TV e pela internet revela esse fato). Consta que algumas pessoas teriam dito ao garoto para sair da área, voltar para a grade externa de proteção e não mexer com o tigre. Não deu ouvidos a ninguém, assim como toda uma geração de crianças que crescem desregradas e sem orientação dos pais ou familiares. Infelizmente, aprendeu da pior maneira a não brincar com o que não deve.

O terceiro personagem dessa triste história é o idiota, o mentecapto, o pai do garoto. Sou pai, assim como alguns dos meus leitores. Alguém me explica como um pai leva o filho a um zoológico e permite que ele brinque daquele jeito com os felinos (sim, porque há um filme do garoto primeiramente atentando um leão – exato, o bicho com juba)?!?!? E não me venha com a desculpa de que estava cuidando do outro filho, pois ele filmava o pobre do garoto brincando com o tigre! Foi imprudente, negligente, e deve pagar, duramente, por isso. Criar filhos não é simples. A gente está sempre aprendendo e não pode estar o tempo todo de olho neles. Ninguém disse que seria fácil cuidar de crianças. Mas deixar que elas brinquem com felinos selvagens como se fossem gatinhos é inaceitável. Não encontro justificativa para livrar o sujeito de uma severa punição.

No final das contas, o tigre ficou com a pecha de malvado (sério?), apesar dele próprio ser uma grande vítima da crueldade humana. O pobre garoto perdeu o braço, trauma que só não será maior que o impacto psicológico que o acompanhará por toda a vida. E o idiota que deixou que aquilo acontecesse… continua um grande idiota! Se existe um animal que merece ser sacrificado nessa história toda, esse é o pai do menino.

Para a matéria da Globonews sobre a tragédia, clique aqui.

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Para ler e rir…

Nesses momentos tensos de crise internacional, com a situação econômica brasileira caminhando para um buraco nos moldes daqueles descobertos recentemente na Rússia, e recuperando-me de uma gripe neste forte inverno tropical, busquei descansar um pouco lendo algumas coisas agradáveis… Estou muito satisfeito com os dois livros escolhidos e gostaria de recomendá-los a meus 8 (oito) leitores.

O primeiro, que havia comprado e começado a ler ano passado quando estive na Alemanha, é uma obra de ficção do jornalista alemão (filho de refugiado húngaro), Timur Vermes, intitulada “Er ist wieder da” (ele está de volta). Trata-se de um romance divertidíssimo, no qual Adolf Hitler desperta na Berlim de 2011, em um terreno baldio próximo a seu antigo bunker e descobre-se na Alemanha moderna, unificada, e governada por Angela Merkel. Sendo simplesmente ele mesmo, logo Hitler atrai a atenção da mídia e é chamado a fazer um programa humorístico na televisão alemã, onde interpreta… Adolf Hitler! Detalhe: a estória é contada em primeira pessoa, com o autor narrando as impressões do líder nazista sobre este admirável mundo novo. É, de fato, uma sátira acerca da sociedade moderna e a influência da mídia sobre as pessoas comuns. Para quem lê em alemão, recomendo o texto original… muito agradável como Vermes brinca com algumas expressões e gírias, e com o jeito de falar das pessoas, por exemplo, dos berlinenses. E a boa notícia para quem não lê em alemão, mas gostaria de se divertir com um romance hilário, é que acabou de sair a versão em português: “Ele está de volta” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014). E a tradução de Peterso Rissati está muito boa!

Outro livro hilário que também recomendo é “Foi-se o Martelo: a história do comunismo contada em piadas”, de Ben Lewis (Rio de Janeiro: Record, 2014; tradução de Márcio Luís Penteado Ferrari). O autor fez uma ampla pesquisa nos países do Leste Europeu e da antiga União Soviética sobre as piadas contadas à época dos regimes comunistas – algumas que rendiam àqueles que as propagavam e a seus ouvintes penas severas, como prisão, tortura e, em certos casos, até a morte. Lewis intercala a narração sobre o contexto em que eram contadas as piadas (e a resposta do Estado e de seu aparato repressor) com a transcrição de muitas delas. Já ri muito nesses últimos dias.

E, para finalizar, uma das piadas de “Foi-se o Martelo”, que se passa em um Gulag (campo de trabalhos forçados soviético) e ilustra bem a loucura daquela ideologia fundada nos devaneios de Marx, Engels e Lênin:

Um novo prisioneiro chega ao campo. Os internos começam a perguntar de quantos anos era sua sentença.

“Vinte e cinco anos”, respondeu o novato.

“Pelo quê?”

“Nada. Não fiz nada: sou inocente.”

“Não me venha com essa história. Os inocentes pegam só cinco anos.”

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