É surpreendente como as gerações atuais nada conhecem sobre o que aconteceu há 40 ou 50 anos no Brasil. Como o tema desta semana é o terrorismo em nosso País, e já falei de Marighella e de sua guerrilha urbana, resolvi inserir um texto de outro ícone da esquerda daquela época (e de muitos ainda hoje), cujas orientações e o exemplo (e claro, certo pecúlio) em muito estimularam os “combatentes da liberdade” por aqui: Mao Tse Tung.
Hoje se costuma minimizar a intensidade das ações violentas do período (ou , ao menos, aquelas patrocinadas pelos grupos insurgentes). Quando se fala em violência naqueles anos, em geral (e intencionalmente) a referência é sempre àquela cometida pelos “agentes da ditadura”. Bem, que fique claro: houve violência dos dois lados, pois se entendia aquilo tudo como uma guerra! Ou seja, quem aderiu à luta armada não o fez para brincar! Essas pessoas tinham motivação ideológica clara, objetivos definidos, doutrina para orientar as ações (inclusive as táticas de guerrilha) e treinamento de combate, inclusive no exterior. Tudo isso acrescido de forte convicção ideológica baseada na máxima de que os fins justificam os meios. Se o objetivo era derrubar o regime para se estabelecer a “ditadura do proletariado”, toda e qualquer ação subversiva (seqüestros, roubos, assassinatos) estaria justificada.
Não, não se estava a brincar naqueles anos. Por mais absurdo que hoje nos pareça, por mais que nossas gerações que não viveram aquilo tenhamos dificuldade de entender e acreditar, a verdade é que muitos homens e mulheres que hoje são pacatas figuras proeminentes de nossa sociedade (na política, nas artes, nos negócios) e à época optaram pela luta armada, cometeram crimes (alguns bárbaros) em nome de ideologias. Todos foram anistiados. Destarte, a coisa não era romântica como se pinta hoje.
Costumo dizer que o grande mal do século XX no mundo, e na América Latina em particular, foi a ideologia, ideologia que dividiu irmãos e fez mulheres e homens bons matarem e morrerem. Mas isso fica para outro post…
Segue um texto do camarada Mao. E não me venham dizer que é só retórica. O exemplo chinês era algo factível para o Brasil, muitos da esquerda e da direita realmente nisso acreditavam. Claro que podia acontecer no Brasil sim! Aconteceu na Rússia e na China, países grandes e populosos como o nosso! Aqui também seria possível!
Destaco:
“A táctica que, ao longo dos últimos três anos, nós elaborámos no decorrer da luta, difere de qualquer outra adoptada nos tempos antigos ou modernos, quer na China quer no estrangeiro. Pela aplicação da nossa táctica, a luta das massas tem progredido dia após dia, de tal maneira que nem o adversário mais poderoso pode vencer-nos. A nossa táctica é a da guerra de guerrilhas, e consiste, no essencial, nos princípios seguintes:
‘Dispersar as tropas para levantar as massas, concentrar as tropas para bater o inimigo.’
‘O inimigo avança, nós recuamos, o inimigo imobiliza-se, nós flagelamos, o inimigo esgota–se, nós golpeamos, o inimigo retira-se, nós perseguimos.’
‘Para o estabelecimento de bases de apoio relativamente sólidas, nós adoptamos a táctica da progressão por vagas; quando somos perseguidos por um adversário poderoso, descrevemos um círculo sem nos afastarmos da base.’
‘Levantar um máximo de massas no mínimo tempo possível e recorrendo aos métodos mais adequados.’
E também:
O velho provérbio chinês “Uma faísca pode incendiar toda a pradaria” é perfeitamente aplicável aqui e significa que, muito embora as forças da revolução sejam no momento reduzidas, elas podem desenvolver-se muito rapidamente.
As idéias de Mao orientaram os que optaram pela chamada guerrilha rural. De fato, ainda são difundidas (é bom que fique claro) nos dias de hoje em alguns assentamentos rurais no Brasil, em escolas de certos movimentos sociais. Mas ninguém está muito preocupado com isso… O ovo da serpente nunca eclodirá…

Doutrinando as novas gerações...
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UMA FAÍSCA PODE INCENDIAR TODA A PRADARIA (1)
Mao Tse Tung, em 5 de janeiro de 1930
No nosso Partido, alguns camaradas ainda não compreenderam de maneira correcta a situação actual e não entendem, exactamente, a linha de acção que daí resulta. Acreditam que há-de verificar-se inevitavelmente um auge revolucionário, mas não crêem que tal auge possa ocorrer tão cedo. Essa a razão por que não aprovam o plano de conquista do Quiansi e aceitam, únicamente, a organização de acções volantes de guerrilhas na região fronteiriça das províncias de Fuquien, Cuantum e Quiansi. Além disso, não estão realmente convencidos da necessidade de organizar o poder vermelho nas regiões de guerrilhas, nem, por consequência, inteiramente convencidos da necessidade de acelerar a verificação do auge revolucionário no conjunto do país, consolidando e estendendo o poder vermelho. Eles parecem pensar que, num momento em que o auge revolucionário está ainda longe, seria vão consagrar-se ao trabalho duro do estabelecimento do poder. Eles contam, para começar, estender a nossa influência politica pela via relativamente fácil das acções volantes de guerrilhas. E, dizem, quando o trabalho de conquista das massas à escala do país estiver todo acabado ou, ao menos, muito avançado, passar-se-á ao levantamento armado em toda a China, lançar-se-ão na balança as forças do Exército Vermelho, chegando-se depois à grande revolução que abarcará a totalidade do país. Essa teoria da necessidade da conquista prévia das massas em todo o país, isto é, até aos mais pequenos recantos, para só depois se estabelecer o novo poder, não corresponde às condições reais da revolução chinesa. A fonte de tal teoria deve encontrar-se, essencialmente, na incompreensão do facto de a China ser uma semi-colónia que inúmeros Estados imperialistas se disputam. E, no entanto, basta compreender tal facto para que tudo se esclareça: Continuar lendo →