A volta dos Romanov

Conversando hoje pela manhã com um dos meus estimados 15 (quinze) leitores, esse amigo comentou sobre o interesse de sua filha e de alguns colegas lá no trabalho sobre a história da família Romanov (que governou a Rússia durante pouco mais de 300 anos), particularmente sobre o último Czar, Nicolau II, brutalmente assassinado junto com sua família há 101 anos. Coincidentemente, vi na Gazeta Russa agora há pouco uma matéria a respeito do aumento do interesse dos russos na monarquia. 

De fato, o artigo assinala que Nicolau II é mais popular entre seus compatriotas que Lênin e Stálin, e  que 8% dos russos querem o retorno da monarquia; 19% não são contra, mas depende de quem seria coroado, e 66% dos russos são categoricamente contra o retorno do regime monárquico – o que não surpreende, depois de 70 anos de comunismo e três décadas de recuperação daquele estrago… Mas esses 27% simpáticos à causa monárquica chamaram-me a atenção para um fato: os Romanov não foram totalmente aniquilados!

Niclau e Alexei

O Czar e seu filho, Alexei, também brutalmente executado em 17 de julho de 1918, pouco antes de completar 14 anos.

Ainda que a volta da monarquia no país com maior dimensão territorial do planeta seja uma possibilidade muito remota, a Rússia pós-soviética é marcada pela reabilitação do último Czar (que acabou canonizado em 2000 pela Igreja Ortodoxa), e pelo aumento do debate sobre o período imperial e a tragédia que foram os anos sob o comunismo. São poucos os que têm saudade da URSS (constatei isso quando estive no país em 2017 e nas conversas com os nativos), e muita gente vê os Romanov com um misto de curiosidade e simpatia.

Joanisval e Nicolau

O Czar Nicolau II e eu. E tem um mala discursando lá atrás…

Em novembro de 2017, na cidade de São Petersburgo, a capital fundada por um dos maiores Romanov, Pedro I, pude participar da Festa da Luz, um evento ao ar livre em que se projetavam imagens da história do país como referência aos acontecimentos de 1917, no novo feriado russo chamado Dia da Unidade Nacional (já que não se comemora mais a revolução bolchevique). A apresentação mostrava o amor de Nicolau por Alexandra, seu zelo para com os filhos, a beleza da Rússia monárquica, a Grande Guerra e crise que culminou na abdicação do Czar e no Governo Provisório, sucedido pelas conspirações que levaram ao “golpe de outubro”, que é como os russos passaram a chamar o que muitos por aqui ainda denominam saudosamente (ao estilo Neymar, “saudade do que nunca vivemos”) de “revolução russa de 1917”. Sim, parece geral a percepção de que o governo bolchevique conduzido pelo famigerado Vladimir Ilyich Ulyanov et caterva trouxe grandes males e muito mais prejuízos à Rússia e ao seu povo que benefícios, entre eles o totalitarismo stalinista. Confesso que isso muito me alegrou.

Assim, Nicolau II e sua família repousam hoje na Catedral de São Pedro e São Paulo, na antiga capital imperial, e sua memória é cultuada por pessoas das mais distintas origens e classes sociais. Como acontece nas monarquias, de ontem e de hoje, as figuras do soberano e de seus familiares, os símbolos e tradições do império, e a ideia de uma época mais charmosa e feliz permeiam o imaginário de muitos russos quando se fala “nos tempos do Czar” – tempos esses, repito, não vividos por praticamente mais ninguém ali depois de um século.

Se os Romanov voltarão um dia a governar aquele fascinante país, ou mesmo se a Rússia terá novamente um regime monárquico, é muito difícil dizer. Entretanto, o que parece uma certeza é que os russos não querem mais nem cogitar o retorno do comunismo, que se dissolveu há quase trinta anos, apodrecido nas suas ideologias de corrupção, cupidez e violência…

Nicolau e Joanisval

Joanisval e Nicolau

Compartilho aqui com meus leitores um episódio que aconteceu comigo enquanto visitava São Petersburgo por ocasião do centenário dos acontecimentos de outubro/novembro de 1917… Estava eu com um grupo de brasileiros, que haviam ido à Rússia para “comemorar a Revolução de Russa e a vitória do comunismo”. Minha curiosidade, registre-se bem, era eminentemente histórica – afinal, queria vivenciar a Rússia cem anos depois daqueles episódios que lançaram o país no caos!

Não preciso dizer que a maioria do grupo era de esquerda, comunistas e socialistas brasileiros – deveriam ser os únicos que estavam ali a glorificar os feitos do senhor Lênin et caterva. Também não preciso dizer que meu relacionamento com uma parte deles restringia-se apenas à convivência em alguns passeios e a um formal “bom dia” ou “boa tarde” quando nos encontrávamos (pois Dona Conceição me educou bem). Ao contrário das pessoas com quem estive na Normandia, em 2014, nos 70 anos do Dia D (que se tornaram bons amigos, com quem me relaciono até hoje, inclusive por conversas diárias nas redes sociais), daqueles de Leningrado (ops!) e Moscou foram poucos de quem mesmo guardei os nomes…

Mas vamos ao episódio. Estávamos a visitar o Cruzador Aurora, que, em outubro de 1917, teria dado os primeiros tiros para desencadear o golpe bolchevique e a derrubada do Governo Provisório de Kerenski. Fundeado às margens do Rio Neva, na belíssima São Petersburgo, esse navio é hoje um museu em memória da Revolução Russa. Costumeiramente, viajo com uma Bandeira Imperial do Brasil e gosto de fazer retratos com nosso Pavilhão Auriverde. Qual não foi minha surpresa ao ver que um dos nossos colegas de excursão teve a brilhante ideia de levar consigo uma bandeira soviética (sim, a tradicional, vermelha com a foice e o martelo), e quis posar para uma foto com ela no navio!

Fiquei a observar. Quando o sujeito abriu a bandeira, um marinheiro que fazia guarda ali veio em sua direção. O brasileiro achou que o rapaz iria posar com ele (como o fizeram muitos dos russos conosco naqueles dias, numa demonstração cristalina de que são um povo simpático, agradável e nada frio). Vejo os dois tentanto um diálogo impossível. Seguem-se os minutos. O cidadão fica bravo com o marinheiro. O jovem russo mostra-se irredutível nas suas determinações. A bandeira é então colada de volta na mochila, sem que o retrato fosse tirado (eu e um casal amigo tiramos várias fotos com bandeiras no navio…).

Pouco tempo depois, nosso comunista tupiniquim vem em minha direção. Foi creio que a segunda das duas vezes que troquei algumas palavras com ele em dez dias. Olha para mim, com ar frustrado, e balbucia, esperando minha solidariedade (de classe, certamente):

– Acredita que “o soldadinho ali” não me deixou tirar foto com a bandeira? Para você ver, tem “coxinha” em tudo que é lugar!

Ao que minha resposta é automática:

– Não é isso, meu caro. É que aqui eles viveram o comunismo, e têm plena consciência dos males que os comunistas causaram a este país e a seu povo!

O sujeito fica estático cinco segundos (certamente processando a resposta em sua mente patológica), dá meia-volta e vai embora rangendo os dentes (para minha satisfação, não nos falamos mais por toda a viagem). E eu fiquei ali, apreciando a paisagem do Neva já em congelamento, sentindo a brisa fria no rosto, e gargalhando interiormente, lembrando de Nicolau II e feliz comigo mesmo por ter dado minha parcela de contribuição ao povo russo em sua revisão da História e, claro, na reabilitação dos Romanov…

Para a reportagem sobre a percepção russa acerca de Nicolau II, clique aqui (e sim, está em português).

E a seguir um vídeo com um pouco da Festa da Luz, que gravei em 2017. Está também lá no meu canal no Youtube, que você acessa clicando aqui

Em tempo: a agência de turismo que me levou à Rússia foi a Tchayka (hoje operando sob o nome de Rota da Seda). Recomendo muito! Profissionalismo, seriedade e eficiência. Para acessar o site deles, clique aqui. E recomendo falar com o Sérgio Delduque lá – certeza de bom atendimento!

(Atenção! Não estou ganhando nem um centavo de jabá do pessoal da Tchayka. Recomendo porque realmente gostei muito do serviço deles!)

E-Gonomics

Meus queridos 15 (quinze) leitores (pois é, o número aumentou nos últimos dias! Yes!),

Dando continuidade à reestruração de Fumentarius.com (teremos novidades nas próximas semanas!), resolvi associar alguns links de páginas que considero interessantes – são referenciais em minhas leituras e pesquisas. Assim, inseri há pouco o vínculo para E-Gonomics, o blog de um querido amigo, Luiz Congazaga Coelho Júnior, com informação econômica sobre o Brasil, os EUA e outros mercados. E-Gonomics está em constante atualização, então estou certo de que será uma página útil, em especial para meus alunos e amigos interessados em Economia.

Bom proveito!

(Os links estão na barra lateral quando se acessa o Frumentarius.com pelo computador. Ainda aprendendo como colocar isso para o formato de tablet e celular.)

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Livro, um péssimo negócio!

Ao chegar hoje ao shopping para minha habitual programação das tardes de sábado, deparei-me com um cenário triste e uma situação inesperada: uma parede de madeira dividia a Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, restringindo seu espaço a apenas um terço do original… No tapume bege, a mensagem de que estavam em obras e que ali seriam as futuras instalações de uma papelaria conhecida aqui de Brasília.

20190727_152105Sensação das piores para todos os apaixonados por livros e que tinham na Cultura um oásis para matar a sede de conhecimento nos finais de semana, encontrar os amigos entre as prateleiras e tomar um chocolate no Café ali dentro! Sentimento de perda, não só de espaço, mas uma parcela de momentos inesquecíveis… Frustração ao ver os livros, em menor quantidade, distribuídos quase que aleatoriamente em estantes que sobravam, e para as quais os (poucos) vendedores acorriam com um ar de desencanto, meio que tentando reposicionar títulos que não sabiam se realmente deveriam estar ali. “Desencanto” talvez seja a melhor definição daquele cenário.

Olho para o lado e vejo minha filha com lágrima nos olhos… Ela cresceu indo àquela livraria, brincava na seção infantil, entretia-se com as apresentações culturais, passava horas envolvida com as histórias de quem sabia fazer sonhar… Ali certamente seu gosto pela leitura era ninado em um ambiente saudável e acolhedor. Ali ela participou de lançamentos de obras infantis, infanto-juvenis e até de autoria de seu pai, com lembranças, repito, que jamais serão apagadas. E agora, aquela menina vislumbrava o começo do fim, e seu espaço sendo diminuído, perguntando-se se seria a modernidade que estaria a nos afastar daquele companheiro de toda a vida, e que se popularizou a partir do momento em que Gutemberg nos trouxe a imprensa…

Talvez quem viva com livros entenda esse sentimento de frustração. No Brasil, as grandes livrarias entraram em crise nos últimos anos, com a FNAC fechando e sendo comprada pela Cultura, esta, por sua vez, em recuperação judicial, e em grave risco de bancarrota, assim como acontece com a Saraiva, com diversas unidades tendo que cerrar suas portas, e grupos de livreiros tradicionais deixando dívidas de milhões para as editoras e demais credores. Isso tudo levaria muita gente a afirmar que, “definitivamente, o livro é um péssimo negócio, sobretudo no Brasil”.

Não sou conhecedor do mercado editorial, muito menos do negócio dos livreiros. Na condição de autor, o elo mais fraco nisso tudo depois do próprio leitor, percebi, porém, situações que contribuíram para nos colocar na pior crise que o setor que edita e comercializa livros tem enfrentado em toda sua história. De forma alguma farei qualquer análise técnica do problema, mas apresentarei algumas reflexões fruto da observação de quem escreve, adquire constantemente, e é apaixonado por livros.

Um primeiro ponto a ser considerado no “negócio” dos livros é como são distribuídos os valores pagos quando você compra uma obra. Do preço de capa, entre 5% e 10% vão para o autor (normalmente, não se passa disso), que terá sorte se as editoras realmente pagarem esses direitos autorais (do meu primeiro livro, Tribunal de Nuremberg, recebi um imenso calote da Editora Renovar, que nunca me pagou os direitos referentes à segunda edição, em um total descaso com quem gerou a obra – essa falta de profissionalismo para com os autores talvez tenha contribuído para a falência daquela editora). Assim, o autor dificilmente receberá mais de 10% do preço de capa (definitivamente, são raríssimos os autores que vivem de suas publicações no País).

Se entre 5% e 10% é destinado ao autor, a editora fica com cerca de 40 a 50% do preço de capa, parcela para cobrir os custos de produção, distribuição e impostos e, claro, o lucro do editor – é disso que ele e a empresa vivem. Assim, quem se dedica ao negócio de publicar livros e, normalmente, arca com os riscos do negócio (há editoras que dividem com o autor esses riscos da publicação), terá entre 40 e 50% do preço de capa. E os outros 40 a 50%? Bom, esses vão para os livreiros.

Sim, entre 40 e 50% do preço de capa de um livro fica para a livraria – com isso ela paga suas despesas e tem seu lucro. E é com essa margem que ela pode lidar para, por exemplo, fazer promoções e dar descontos. Aqui cabe um detalhe importante: geralmente, os livros são vendidos pelas livrarias por consignação, ou seja, as livrarias recebem as obras e só “pagam” às editoras depois que venderem. Quando, em ocasiões mais raras, os livreiros pagam antecipadamente parte dos títulos que adquirem, fazem-no com cláusulas contratuais que lhes permitam devolver os livros não vendidos depois de um certo tempo, e receber o dinheiro de volta – em espécie, ou em forma de crédito junto à editora. E assim, em linhas gerais, funciona a distribuição dos valores arrecadados com a comercialização de livros, abocanhando as livrarias uma parcela significativa deles!

20181123114426_1200_675_-_livraria_saraivaAinda que os editores reclamem e digam que os vendedores de livros ficam com a maior parte do lucro, sempre foi assim… E, nessa relação muitas vezes complicada com as editoras, pequenas livrarias viraram grandes redes, fizeram investimentos, engoliram livreiros menores, fizeram contratos leoninos com as editoras (que, muitas vezes, reproduziam esse comportamento com os autores), começaram a “diversificar o negócio”, perderam a mão, não abriam mão dos lucros significativos, e começaram a levar tombos, deixar de vender, deixar de pagar os fornecedores, ver suas dívidas crescerem, fechar as portas e tomar consciência de que a crise era uma evidência de que o livro era “um péssimo negócio”!

Nos últimos anos, as perdas foram significativas para muitos que tinham livros como negócio. Entre 2012 e 2019, o número de livrarias no Brasil (que sempre foi reduzido) teria despencado de cerca de 3.500 para 2.500… Rui Campos, proprietário da Livraria da Travessa, teceu algumas interessantes considerações sobre a situação do mercado editorial do Brasil nos últimos anos, em entrevista publicada pela Deutsche Welle, em 31/01/2019:

“Ao mergulharmos na crise sem precedentes que o Brasil enfrentou nos últimos anos, as nossas principais redes revelaram as estratégias equivocadas em que se envolveram. Encontrando financiamento fácil característico dos anos Dilma, usaram e abusaram de busca desenfreada por aumento de faturamento visando ‘abertura de capital’, sem nenhuma preocupação com margens e resultados. (…) Conduziram uma abertura acelerada de megalojas, enxugamento de quadros com a demissão dos livreiros históricos e um forte investimento em livros eletrônicos e em e-readers para leitura de e-books que não performaram nem perto do que se apregoava. Sendo as livrarias criadoras de demanda, nunca essa demanda será totalmente atendida por outras livrarias. Muito irá se perder com consequências ruins para nossas editoras e para o mercado livreiro”. ( – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2019/01/31/as-livrarias-estao-desaparecendo-do-brasil.htm)

“Tudo bem”, você vai dizer, “sempre lemos pouco em relação ao restante do continente, vivemos o período de maior crise econômica de nossa história, e os livros tradicionais estariam perdendo espaço para novas opções tecnológicas como e-books e audiobooks” (usei o gerúndio e escrevo os nomes em inglês porque o pessoal acha mais chique e modernoso usar a língua e o estilo dos gringos, mesmo que os autores sejam Machado de Assis – que nunca leu um e-book – ou Eça de Queiroz – o qual, consta, detestava audiobooks). Só que a verdade não é bem essa…

Pesquisas assinalam que o número de leitores tem aumentado, bem como a venda de livros – sempre que se tem uma bienal esse fato é ressaltado, não? E enquanto e Saraiva e Cultura quase colapsaram, redes como a Martins Fontes, a Leitura (tenho minhas reservas com relação à Leitura) e a Livraria da Travessa cresceram e ocupam mais espaço. Reproduzo aqui um trecho de matéria de O Estado de São Paulo, de 27/12/2018, que trata dessa situação:

Um cenário desolador, que coloca em xeque o modelo de negócio e faz pensar em alternativas para o futuro, mas que tem boas notícias também. A Martins Fontes Paulista, focada em livro, registrou até a véspera do Natal crescimento de 56% no faturamento em relação ao mesmo período de 2017. Alexandre Martins Fontes, que sempre teve a Cultura do Conjunto Nacional como modelo, diz que “uma livraria física deve oferecer tudo aquilo que uma livraria virtual não oferece: atendimento personalizado, ambiente aconchegante, eventos culturais, café, etc.”. A Travessa, do Rio, chega a SP e a Lisboa em 2019. E a Leitura se espalha pelo interior do Brasil, aeroportos e rodoviárias. (Para a matéria completa, vide: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,a-crise-do-mercado-editorial-brasileiro-em-cinco-perguntas,70002658690)

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Voltamos, assim, ao ponto inicial de minhas elucubrações: como a Saraiva e, sobretudo, a Cultura, chegaram a essa situação? Usando as palavras do passageiro perdido, dirigidas o motorista do ônibus, “a que ponto chegamos” para eu entrar na Livraria que se tornou um dos pontos de referência na Capital do Brasil e ver aquele cenário apocalíptico (ao menos para quem ama livros)?

Sinceramente, essas duas grandes corporações editoriais entraram em colapso quando mudaram a sua percepção do comércio dos livros e contrataram “especialistas” para promover uma “reengenharia” em seu “negócio”. Sim, tanto Saraiva quanto Cultura se afastaram das origens, arranjaram “CEOs” e “businessmen” para substituir “donos”, “gerentes” e “diretores” e começaram a conduzir-se como se livros, redes de fast-food e bancos fossem o mesmo tipo de negócio, ou negócios a serem tocados do mesmo jeito: estratégias de vanguarda aplicadas no setor financeiro poderiam ser aplicadas para as livrarias? Por que não? E leitores nada mais seriam que clientes, com “meu negócio preocupado em racionalizar os gastos, aumentar a eficiência, reduzir a despesa e aumentar os lucros?” Claro! “Por que não vender computadores, TVs e DVDs aproveitando o espaço das livrarias?” E “para que eu preciso de vendedores que conheçam e gostem de livros se posso pagar menos para alguém que saiba operar um sistema e verificar no computador que o livro de Joanisval e Marcus Reis, Terrorismo: conhecimento e combate está na seção de Literatura, subseção Terror, ou está esgotado – já que no meu sistema diz que não consta na loja?” Esse mesmo vendedor, diga-se de passagem, vai procurar O Banquete, de Platão, na seção de Culinária – e pode até ser que encontre!

Saraiva e Cultura deixaram de ser livrarias, de contratar livreiros, e passaram a tocar o “negócio de livros”, mais um “negócio”… Esqueceram que o “consumidor” de um livro é, na verdade, um “leitor”. Parecem não saber que quem vai em busca de um livro na livraria está à procura de uma experiência…

Quem lê exerce uma atividade prazerosa desde o momento que chega à livraria (não à “megastore”) para passear pelas estantes, correr os olhos a brilhar sobre as prateleiras, pegar um, dois, três livros, sentar em uma poltrona para passar a outro estado de consciência enquanto viaja nas reflexões de outra pessoa, reflexões essas que se tornam suas a cada página “degustada”. Quem vai a uma livraria quer deixar de lado as preocupações quotidianas, quer fugir, ainda que por alguns minutos, para um universo em que possa, por si só, descobrir algo novo, viver outras realidades. Apenas quem ama livros sabe o prazer que um texto bem escrito proporciona e a importância de uma boa livraria para a saúde mental do ser humano.

Sim, faz toda a diferença chegar a uma livraria como era a Livraria Cultura do Shopping Iguatemi de Brasília! Dezenas de estantes, livros dos mais distintos gêneros, cheiro de livro novo, poltronas para se recostar e apreciar um bom título (que acabaria sendo adquirido), mas não sem antes tirar um cochilo de poucos segundos, porém de imenso potencial revitalizador. Um café no “Café” completa o passeio à livraria que, se há desconto, ainda que simbólico para aqueles que são “fiéis” (sim, porque senão o leitor pode viver tudo isso e buscar a obra mais em conta pela internet – desconto é algo psicológico!), certamente verá o leitor indo embora com a sacolinha e ao menos um livro nela – para voltar na outra semana em busca de mais!

O livro foi, indubitavelmente, uma das maiores criações da humanidade. Portanto, o livro e a humanidade são indissociáveis. Muito difícil vender livros sem gostar de livros. Daí a importância do “livreiro”. As grandes redes sacrificaram seus livreiros. E ao matarem os livreiros que ali estavam, selaram sua própria sorte. A única chance, portanto, é sair do “negócio dos livros” e voltar ao “ofício dos livreiros”.

Para concluir com uma centelha de esperança, se a frustração foi imensa hoje na Cultura, a alegria foi grande diante de um episódio que aconteceu comigo no início da semana: ao entrar na Saraiva do Brasília Shopping, aqui na minha cidade, percebi que a loja estava diferente, com um ambiente mais agradável. Alguma coisa parecia estar mudando ali. Acabei encontrando três livros e fui ao caixa para levá-los (sim, não os comprei pela internet, pois tenho desconto na Saraiva). Qual não foi minha surpresa quando me deparei, trabalhando naquela loja, com o Chiquinho, amigo de longa data, e um dos últimos livreiros aqui do Distrito Federal! Chiquinho dedicou toda sua vida aos livros, é um Livreiro com “L” maiúsculo, alguém que diz com muito orgulho que “saiu da roça para trabalhar na livraria e nunca mais pensou em outra profissão!”. Estava explicado o porquê daquele ambiente diferente, renovado. A livraria agora dispunha de alguém que ama livros, ama falar de livros, ama ser livreiro!

Espero, verdadeiramente, que a Saraiva continue a recuperar-se (e que traga mais Chiquinhos para seus quadros), e que a Cultura retome seu rumo e volte às origens. E as origens da Livraria Cultura dão, por si, uma boa história, uma boa história de dificuldades, desafios e superação, uma história de imigrantes judeus que amavam livros e que viram no comércio dos livros sua profissão.

Livro só será um péssimo negócio se for só “um negócio”. Cada livro é uma peça única, feita por alguém para outra pessoa. Cada livro é uma expressão de nossa cultura, a materialização de nosso pensamento e, sobretudo, em cada livro está uma parcela da humanidade. E, a esse respeito, o encontro com Chiquinho na Saraiva e a experiência nefasta na Cultura, ambas na mesma semana, fizeram-me lembrar as palavras de Charles Chaplin: “Homens, não sois máquina! Homens é o que sois!”.

Seguem os links para as matérias citadas, com informações sobre o mercado editorial brasileiro:

A crise do mercado editorial brasileiro em cinco perguntas

As livrarias estão desaparecendo do Brasil

Sim, chegamos lá!

Duas frases são marcantes para mim desde que me lembro de ter consciência do mundo: “A Águia pousou!” e “Um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade!”. Ambas foram ditas com alguns minutos de diferença e no mesmo contexto. Ambas foram bem pensadas para serem ditas. Ambas representam a maior empreitada conduzida pela raça humana em sua singela existência… Simbolizam também uma grande conquista, o trabalho direto de 400 mil pessoas, como disse Mike Collins (um dos três astronautas da Apollo 11), de engenheiros àqueles homens e mulheres que costuraram os trajes espaciais. Essas duas frases foram ditas por ocasião da chegada da Apollo 11 à Lua.

Aconteceu há exatos cinqüenta anos, em um dia 20 de julho de 1969… Entretanto, ainda hoje, eu, que nem era nascido então, emociono-me ao ouvir a narração de Collins sobre o evento e ao ver as imagens. Com a Águia, bilhões de seres humanos pousaram naquele corpo celeste que sempre foi objeto de curiosidade, de adoração, de iluminação, aquele astro que preenchia a imaginação do homem primitivo, era a referência a sacerdotes e fiéis de distintas religiões, inspiração para poetas e para os amantes. E isso, repito, desde sempre, unindo pessoas em distintos pontos da Terra e de diferentes tempos, mas que toda noite a viam, lá no céu, majestosa e imponente. A Águia pousou! Todos alunissamos com Neil e Buzz.

Sim, o pequeno passo de Neil Armstrong foi um grande passo para toda a humanidade. Pisamos em solo lunar! Alcançamos o objetivo tão almejado desde o início dos tempos, dos nossos tempos. E caminhamos com Neil e com Buzz Aldrin, e os vimos saltar naquela terra (?) de gravidade diferente e, como faria qualquer ser humano, brincar naquele novo mundo! E nunca mais seríamos os mesmos depois daquilo.

Não tratarei aqui das grandes conquistas e dos avanços tecnológicos oriundos do programa espacial que levou aqueles três astronautas da Apollo 11 à Lua. Tampouco farei refência aos inúmeros objetos que temos conosco e que são resultado daquela empreitada. Nada direi sobre o esforço hercúleo de milhares de pessoas para colocar aqueles desbravadores no espaço, nem que os computadores que usavam à epóca tinham capacidade menor que a dos nossos smartphones do dia-a-dia…

O que desejo registrar aqui é apenas minha reverência àqueles que fizeram acontecer, que lá chegaram, e que deixaram um legado maravilhoso de Ciência e humanismo para as gerações que os sucederam! Obrigado, Neil, Buzz, Mike! Obrigado, a todos os envolvidos no Programa Apollo! Obrigado aos que os antecederam! Obrigado por nos fazerem ver a Lua, e a Terra, sob outra perspectiva! Obrigado por fazer este garoto, homem feito, ter seus olhos lacrimejados quando vê as imagens, ouve as histórias e vive, cinquenta anos depois, aqueles momentos! E parabéns, neste 20 de julho, por terem chegado lá, e por nos terem levado com vocês!

Nota: para a narração de Mike Collins sobre aquele episódio, vide: https://youtu.be/uzbquKCqEQY.

 

 

Data triste, há 101 anos…

Na madrugada de 17 de julho de 1918 ocorria um dos episódios mais nefastos do século XX e da História da Rússia: em Ekaterinburgo, nos Urais, o Czar Nicolau II, sua bela família e mais quatro pessoas que acompanhavam o último Imperador da Rússia no exílio, foram brutalmente assassinados por revolucionários bolcheviques a mando do facínora Lênin.
Não cabe aqui assinalar o quão deploráveis foram aqueles acontecimentos, nem a maneira como as vítimas foram arrancadas de duas camas e massacrados a sangue frio em nome da Revolução.
A data de hoje é para lembrar da tragédia dos Romanov e orar pelas suas almas.
E que o comunismo desapareça da História, pois só trouxe dor, tristeza e sofrimento a milhões de seres humanos…

O que acontece quando a guerra acaba?

Muita gente acha que quando se declara o fim de uma guerra, tudo volta à paz imediatamente após a interrupção do conflito. Doce ilusão!
O término da I Guerra Mundial tem uma data precisa: os combates seriam suspensos à 11ª hora do 11° do 11° mês do 4° da guerra, ou seja, em 11/11/1918. Haveria paz no mundo a ser reconstruído…
Mas enquanto a matança cessava na frente ocidental, ao longo de toda a Europa Oriental e do Sudeste, a guerra continuou até, pelo menos, 1923, e milhões (isso mesmo, milhões) de pessoas perderam a vida em conflitos por território, étnicos ou em guerras civis.
Tenho me dedicado ao estudo desse período de imediato pós-guerra, seja a partir de 1918, seja a partir de 1945, e indicarei aqui algumas leituras interessantes.
Acabei de ler The Vanquished – How the First World War Failed to End, de Robert Gerwarth.
Trata-se de obra fascinante e muito bem escrita, que relata o drama dos povos da Europa do Leste, Balcãs, Oriente Médio, Itália, e, do que viria a ser a União Soviética no imediato pós-guerra.
O livro, além de uma análise política e histórica, traz relatos sobre pessoas comuns que viram seus destinos definidos por forças que lhes escapavam à compreensão, e suas vidas alteradas para sempre em razão de sua etnia, religião, nacionalidade ou, simplesmente, “por terem nascido ou vivido no lugar errado”…
Recomendo efusivamente. E em breve trarei outras sugestões nessa linha…