Mais sobre Monte Castelo

Dois vídeos interessantes sobre Monte Castelo. O primeiro, que toma por base o relato brilhante de Joel Silveira, descreve a campanha sob a perspectiva do repórter que para lá fora enviado. Reitero que Joel Silveira é um dos grandes ícones do jornalismo brasileiro – espero, sinceramente, que seja muito estudado em nossos cursos de jornalismo e seus textos lidos.

O segundo, de Augusto Branco, é uma descrição da campanha da Itália bastante ilustrativa sobretudo para quem tem o primeiro contato com o episódio. Nele, são utilizadas imagens de época e de filmes sobre a Guerra. Está muito bem feito.

Que nossos verdadeiros heróis sejam lembrados! 

Bravura, Heroísmo, Vitória

FEBFora dos meios militares e dos círculos de especialistas, a data de hoje é praticamente desconhecida. Junto à população em geral, ela é completamente ignorada. E, para a sociedade brasileira e seus formadores de opinião, não se vê o porquê dela ser comemorada. Afinal, os brasileiros cantam suas glórias dos campos de futebol, dos desfiles das escolas de samba (segundo alguns próprios componentes, natural e despudoradamente financiadas pela contravenção e até pelo crime), dos artistas que foram bem nos festivais. Heróis? Claro que temos: o jogador de futebol, o artista de TV, o cantor ou, pior, muito pior, o ladrão e o traficante… Esse é o triste retrato de um povo sem valores, sem nobreza, e sem vergonha… Esse é o triste retrato do que os brasileiros nos tornamos.

cm_montecastelo_09Mas não pretendo me estender para falar da degradação moral, política e social a que chegamos. Esta publicação de Frumentarius é para render as maiores homenagens e trazer efusivos aplausos a um grupo de brasileiros que podem, indiscutivelmente, ser chamados de heróis. Refiro-me, por certo, aos nossos Pracinhas, os combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutaram, em 1944 e 1945, nos campos de batalha da Itália, durante a II Guerra Mundial. Esses heróis, juntamente com os integrantes do 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, e com os combatentes da Marinha do Brasil, devem ser sempre lembrados!

castelo3A data de hoje é muito simbólica para a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Foi nossa primeira vitória na II Guerra Mundial. Ocorreu em Monte Castelo, posição estratégica que foi tomada pelos nossos heróis de farda – a duras penas, e com o sacrifício de vidas brasileiras, que fique registrado.

Nenhuma descrição que fizesse aqui poderia retratar adequadamente o que passaram nossos pracinhas no teatro de operações da Itália em geral, e na tomada de Monte Castelo, em particular. Frio, neve, medo, dor, bombas e metralha do inimigo… essas eram algumas das adversidades que encontraram nossos inexperientes combatentes, que atravessaram o Atlântico e enfrentaram, durante o inverno europeu, as temidas tropas alemãs, que contavam com bravos soldados, muitos veteranos de campanhas terríveis como a da Rússia.

img1340O objetivo, Monte Castelo, mostrava-se uma fortaleza inexpugnável onde se acantonavam as tropas alemãs. Era uma posição estratégica, que deveria ser tomada a qualquer custo, como parte da ofensiva para o rompimento da chamada Linha Gótica germânica. Estratégica e realmente muito difícil, pois há três meses (desde 24 de novembro de 1944), as tropas aliadas buscavam a vitória em Monte Castelo. Estadunidenses, britânicos, sul-africanos e poloneses já haviam falhado em quatro tentativas que culminaram em baixas significativas para aquela campanha.

De toda maneira, o Monte deveria ser tomado, e essa missão caberia aos combatentes da FEB, estas sob comando do General Mascarenhas de Morais. Em 20 de fevereiro de 1945 teria início a última ofensiva desencadeada pelo V Exército estadunidense, do qual fazia parte o contingente brasileiro. Combates ferrenhos se deram naquele dia, mas os alemães permaneciam impassíveis em sua posição.

foto_pag_sub1Mas foi a 21 de fevereiro, às 6h da manhã, que começou o assalto final. Três batalhões brasileiros foram ali empregados: o Batalhão Uzeda, seguindo pela direita, o Batalhão Franklin, subindo pelo centro, e o Batalhão de Montanha Sizeno, na reserva (nomes dos comandantes). A defesa alemã estava muito bem posicionada no alto da encosta do Monte. Dali, durante o dia inteiro, vieram tiros e bombas. Atiradores furtivos (snipers) se posicionavam estrategicamente e abatiam os brasileiros. Peças de artilharia caíam sobre os atacantes, que tinham que subir o morro. Fogo, terror e morte. 

2-ataque-a-Monte-Castelo-2Tudo levava a crer que mais um ataque seria rechaçado. Entretanto, eram brasileiros que estavam ali a combater, eram os pequenos e parrudos guerreiros dos trópicos, eram os cearenses, mineiros, gaúchos, paulistas, enfim, os tais brasileiros, que tinham que tomar o Monte.

Então, às 17h40, daquele 21 de fevereiro, após intensos combates, o 1º Regimento Franklin alcançava o cume do Monte Castelo. Monte Castelo fora, finalmente, tomado! A batalha acirrada custara a vida de cerca de 70 soldados alemães e de 417 soldados brasileiros.

Naquele dia, a Força Expedicionária Brasileira alcançou a glória. E homens se fizeram heróis. E o solo da Itália estará para sempre consagrado pelo sangue daqueles guerreiros que vieram de longe, do morro, do Engenho, das selvas, dos cafezais, da boa terra do côco, da choupana onde um é pouco, dois é bom, três é demais… Que D’us abençoe nossos pracinhas! E que esses verdadeiros heróis sejam sempre lembrados!

Segue o link para um artigo do grande Joel Silveira, o maior correspondente de guerra que tivemos, ícone do jornalismo brasileiro, e cobriu a campanha da FEB: http://www.pitoresco.com/historia/guerra/guerra04.htm .

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A Presidente, o traficante e o Embaixador

DilmaMuitos amigos têm-me perguntado o que penso sobre o evento desta semana, quando a senhora presidente da república se negou a receber as credenciais do Embaixador da Indonésia. Serei direto e objetivo: nunca vi um gesto tão infausto e moncoso de um Chefe de Estado brasileiro no âmbito de nossas relações exteriores. Graças a seu arroubo descortês, a senhora presidente jogou por terra um procedimento fundamental nas boas relações entre os povos e ofendeu severamente o Estado da Indonésia e seu povo.

O embaixador é o representante máximo de um Estado junto a outro com o qual mantenha relações. De fato, representa o próprio Estado encarnado na figura do diplomata. Para que seja enviado um embaixador a outro país como chefe de uma missão, é necessário que este e Estado, o Estado acreditado, conceda previamente o agrément aprovando o nome do diplomata. Ele então pode ir ao país, mas suas atividades oficiais só terão início após a entrega das credenciais. Enquanto isso não ocorrer o embaixador não pode realizar qualquer ato oficial – é como se o Estado que o enviou, chamado de acreditante, não tivesse seu representante máximo junto ao acreditado (o Estado que o recebe).

Pois bem, a cerimônia de entrega de credenciais é evento de grande relevância nas boas práticas diplomáticas e de gentileza mandatória nas relações internacionais. Por isso, o embaixador apresenta suas credenciais ao Chefe de Estado, autoridade máxima de uma nação. É assim em todo o mundo, desde que existem embaixadores e soberanos.

É sabido que a senhora presidente não é muito afeita ao cerimonial diplomático – como também não gosta de assuntos militares e despreza o setor de inteligência. No Planalto, são comuns as queixas de demora na recepção de embaixadores para a entrega de credenciais. Isso pode mesmo ser interpretado por alguns governos como descortesia das mais altas e declaração de que o Brasil não se importa com o outro país.

embaixador_indonesiaO que aconteceu na última semana foi mais grave. O Embaixador da Indonésia foi chamado ao Palácio do Planalto para, juntamente com outros colegas plenipotenciários, entregar as credenciais à Chefe de Estado. Lá chegando, e pouco antes de começar a cerimônia, foi chamado em um canto, informado de que a presidente não o receberia, e convidado a deixar o palácio presidencial. Mais grave que um gesto como esse só conheço o rompimento de relações e a declaração de guerra. Sou professor de Direito Internacional há mais de quinze anos e nunca vi nada parecido… É o Brasil se mostrando gentil e solícito ao mundo!

Não discutirei aqui as razões da senhora presidente para gesto tão descortês e ofensivo. Ainda sendo objetivo, todos sabem o quanto a senhora ficou irritada com negativa do pedido de clemência por parte do Governo da Indonésio no caso do traficante brasileiro que foi pego entrando no país com 13 (treze) quilos de cocaína, julgado e condenado, de acordo com as leis daquele Estado, à pena capital. Um traficante de drogas, ou dois, já que há outro pronto para ser executado, criaturas das mais execráveis, que vivem às custas da violência e da morte de pessoas, estão no centro do pior incidente diplomático dos últimos anos, e de uma polêmica que faz com que o governo brasileiro ofenda o maior país muçulmano.

traficante_indonesiaAqueles que me conhecem sabem qual a minha opinião sobre o caso do traficante. Não tenho a mínima pena de criminoso. Como ele mesmo admitiu, já fazia isso há tempos, nunca fez outra coisa na vida, e vivia feliz e satisfeito como mercador da morte. Entrou na Indonésia sabendo do risco, que aceitou. Foi pego, julgado e punido por sua conduta nefasta. Tudo de acordo com as leis do Estado soberano da Indonésia. Teve o que merecia.

Custo a acreditar que a presidente do Brasil realmente nutria tamanha simpatia por um criminoso a ponto de protagonizar semelhante crise diplomática. Parece-me muito mais que a irritação com o caso deveu-se ao fato de ter sido contrariada por um par seu, o Presidente da Indonésia – que, ao contrário de muitos governantes da América Latina, não admite deixar de cumprir as leis de seu país. Associado a essa insatisfação com a “impertinência” do outro Chefe de Estado, pode estar o fato de que a inciativa de gerar a polêmica desvia a atenção de parte da imprensa e da opinião pública de problemas muito mais graves pelos quais o Brasil está passando (e sangrando).

De toda maneira, a presidente não agiu com a altivez que se espera de alguém que ocupe o seu cargo. Deixou o Brasil em uma tremenda saia justa com um país que, apesar de não ter significativas relações econômicas bilaterais com o Brasil, é um protagonista regional e, acima de tudo um Estado soberano que merece respeito. Enfim, ofendeu, repito, um país inteiro e seu povo, a maior nação muçulmana da atualidade.

Em tempo: Jacarta, acertadamente, chamou seu embaixador de volta. Perdemos todos.

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Segue o link para matéria n’O Estado de São Paulo a respeito:
http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-nao-recebe-embaixador-da-indonesia,1637070