Aparelhamento da História (ou Da Modificação dos Sete Mandamentos na Parede do Celeiro)

Uma das práticas correntes do regime totalitário soviético dirigido por Josef Stálin era modificar a História, inclusive a História da Revolução Russa e da guerra civil que a seguiu. Não foram poucas as vezes em que se riscou da História (e do mundo real) qualquer referência a pessoas que eram desafetos do Grande Líder, o Camarado Stálin. Era usual modificarem mesmo fotografias, onde pessoas desapareciam de uma hora para outra. Isso aconteceu com o próprio Trostky (vide fotos em que o criador do Exército Vermelho foi apagado). É o que poderíamos chamar de “revisionismo histórico stalinista” (pensei no termo agora, não sei se já existe… deve existir).trotskyapagado

Bom, a verdade é que estão fazendo isso por aqui também. Na prova do processo seletivo para o programa Brasília Sem Fronteiras, a banca colocou uma questão associando o nazismo ao liberalismo e entendeu isso como verdadeiro. Absurdo ideologicamente orientado e falsidade histórica. Para piorar as coisas, um brilhante ex-aluno e bom amigo meu fez rápida pesquisa e descobriu que a referência para a questão foi retirada da wikipedia (isso que você leu!).

Pelo visto, o camarada Stálin fez escola aqui em Pindorama. Continuamos rumo à ignorância e ao retrocesso. Não pude deixar de pensar na passagem da obra magistral de George Orwell, A Revolução dos Bichos (Animal Farm), em que os Sete Mandamentos da Fazenda dos Bichos escritos na porta do celeiro foram paulatinamente alterados pelos procos que governavam o lugar…

Sobre o caso da prova e da associação (errônea) entre nazismo e liberalismo, segue artigo muito interessante do meu amigo Roberto Ellery. Recomendo a leitura atenta. Roberto demonstra que de liberal a agenda nacional-socialista nada tinha. Mas parece que alguém faltou a essa aula de História na banca do Brasília Sem Fronteiras… Ou então a coisa tem sido deliberada (Gramsci explica)… 

prova Brasilia Sem Fronteiras2

Doutrinação em Questão do Brasília sem Fronteiras?

Roberto Ellery, Blog do Roberto Ellery, 19/05/2014

Espero que seja um mal-entendido, se não for é algo muito grave. Vi no FB uma polêmica em relação a uma questão em uma prova do Programa Brasília sem Fronteiras elaborada pelo CESPE. A afirmação era a seguinte:

“Adolf Hitler presidiu a Alemanhã entre 1933 e 1945, tendo implantado nesse tempo o Nacional Socialismo, também conhecido como nazismo, movimento político e ideológico baseado no nacionalismo, no racismo, no totalitarismo, no anti-comunismo e no liberalismo econômico e político”

O gabarito parece apontar a afirmação como certa. Isto é um absurdo, um despropósito. Que um partido que se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães tenha por base o liberalismo econômico já seria motivo para levantar desconfiança dos mais atentos. Definitiviamente as agendas socialistas e trabalhistas não encontram abrigo no pensamento liberal, mesmo o nacionalismo não pode ser facilmente encaixado no liberalismo.

Alguém pode no entanto argumentar que o nome do partido não necessariamente guarda relação com a prática do partido. Neste caso uma alternativa é olhar o programa, existem várias versões na internet do Programa do Partido Nazista, as diferenças são devidas a tradução e não mudam o ponto que quero fazer, segue abaixo o programa como aparece na Wikpedia em português (link aqui). Os que não gostam da fonte sintam-se livres para buscar outras fontes. Segue o programa:

  1. Nós pedimos a constituição de uma Grande Alemanha, que reúna todos os alemães, baseados no direito a autodeterminação dos povos.
  2. Pedimos igualdade de direitos para o povo alemão em relação às outras nações e a revogação do Tratado de Versalhes e do Tratado de Saint Germain.
  3. Pedimos terras e colônias para nutrir o nosso povo e reabsorver a nossa população.
  4. Só os cidadãos gozam de direitos cívicos. Para ser cidadão, é necessário ser de sangue alemão. A confissão religiosa pouco importa. Nenhum judeu, porém, pode sercidadão.
  5. Os não cidadãos só podem viver na Alemanha como hóspedes, e terão de submeter-se à legislação sobre os estrangeiros.
  6. O direito de fixar a orientação e as leis do Estado é reservado unicamente aos cidadãos. Por isso, pedimos que todas as funções públicas, seja qual for a sua natureza, não possam ser exercidas senão por cidadãos. Nós combatemos a prática parlamentar, origem da corrupção, de atribuição de lugares por relações de partido, sem importar o caráter ou a capacidade.
  7. Pedimos que o Estado se comprometa a proporcionar meios de vida a todos os cidadãos. Se o país não puder alimentar toda a população, os não cidadãos devem ser expulsos do Reich.
  8. É necessário impedir novas imigrações de não alemães. Pedimos que todos os não alemães estabelecidos no Reich, depois de 2 de agosto de 1914, sejam imediatamente obrigados a deixar o Reich.
  9. Todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmos deveres.
  10. O primeiro dever do cidadão é trabalhar, física ou intelectualmente. A atividade do indivíduo não deve prejudicar os interesses do coletivo, mas integrar-se dentro desta e para o bem de todos. É por isso que pedimos:
  11. A supressão do rendimento dos ociosos e dos que levam uma vida fácil, a supressão da escravidão do juro.
  12. Considerando os enormes sacrifícios de vidas e de dinheiro que qualquer guerraexige do povo, o enriquecimento pessoal com a guerra deve ser estigmatizado como um crime contra o povo. Pedimos por isso o confisco de todos os lucros de guerra, sem exceção.
  13. Pedimos a nacionalização de todas as empresas que atualmente pertencem a trusts.
  14. Pedimos uma participação nos lucros das grandes empresas.
  15. Pedimos um aumento substancial das pensões de reforma.
  16. Pedimos a criação e proteção de uma classe média sã, a entrega imediata das grandes lojas à administração comunal e o seu aluguel aos pequenos comerciantes, a baixo preço. Deve ser dado prioridade aos pequenos comerciantes e industriais nos fornecimentos ao Estado, aos Länder ou aos municípios.
  17. Pedimos uma reforma agrária adaptada às nossas necessidades nacionais, a promulgação de uma lei que permite a expropriação, sem indenização, de terrenos para fins de utilidade pública, a supressão de impostos sobre os terrenos e a extinção da especulação fundiária.
  18. Pedimos uma luta sem tréguas contra todos os que, pelas suas atividades, prejudicam o interesse nacional. Criminosos de direito comum, traficantes, agiotas etc. devem ser punidos com a pena de morte, sem consideração de credo religioso ou raça.
  19. Pedimos que o direito romano seja substituído por um direito público alemão, pois o primeiro é servidor de uma concepção materialista do mundo.
  20. A extensão da nossa infraestrutura escolar deve permitir a todos os alemães bem dotados e trabalhadores o acesso a uma educação superior e, através dela, aos lugares de direção. Os programas de todos os estabelecimentos de ensino devem ser adaptados às necessidades da vida prática. O espírito nacional deve ser incutido naescola a partir da idade da razão. Pedimos que o Estado suporte os encargos da instituição superior dos filhos excepcionalmente dotados de pais pobres, qualquer que seja a sua profissão ou classe social.
  21. O Estado deve preocupar-se em melhorar a saúde pública mediante a proteção da mãe e dos filhos, a introdução de meios idôneos para desenvolver as aptidões físicas, pela obrigação legal de praticar desporto e ginástica, e um apoio poderoso a todas as associações que tenham por objetivo a educação física da juventude.
  22. Pedimos a supressão do exército de mercenários e a criação de um exército nacional.
  23. Pedimos a luta pela lei contra a mentira política consciente e a sua propagação por meio da imprensa. Para que se torne possível a criação de uma imprensa alemã, pedimos que:Pedimos a liberdade no seio do Estado para todas as confissões religiosas, na medida em que não ponham em perigo a existência do Estado ou não ofendam o sentimento moral da raça germânica. O partido, como tal, defende o ponto de vista de umcristianismo positivo, sem todavia se ligar a uma confissão precisa. Combate o espírito judaico-materialista no interior e no exterior e está convencido de que a restauração duradoura do nosso povo não se pode conseguir senão partindo do interior e com base no princípio: o interesse geral sobrepõe-se ao interesse particular.
    1. todos os diretores e colaboradores de jornais em língua alemã sejam cidadãos alemães;
    2. a difusão dos jornais não alemães seja submetida a autorização expressa. Estes jornais não podem ser impressos em língua alemã;
    3. seja proibida por lei qualquer participação financeira ou de qualquer influência de não alemães em jornais alemães. Pedimos que qualquer infração dessas medidas seja sancionada com o encerramento das empresas de impressão culpadas, bem como pela expulsão imediata, para fora do Reich, dos não alemães responsáveis. Os jornais que forem contra o interesse público devem ser proibidos. Pedimos que se combata pela lei um ensino literário e artístico gerador da desagregação da nossa vida nacional; e o encerramento das organizações que contrariem as medidas anteriores.
  24. Para levar tudo isso a bom termo, pedimos a criação de um poder central forte, a autoridade absoluta do gabinete político sobre a totalidade do Reich e as suas organizações, a criação de câmaras profissionais e de organismos municipais encarregados da realização dos diferentes Länder, de leis e bases promulgadas pelo Reich.

Os dirigentes do partido prometem envidar todos os seus esforços para a realização dos pontos antes enumerados, sacrificando, se for preciso, a sua própria vida.

Munique24 de Fevereiro de 1920.

Esta é uma agenda liberal? Estado garantido os meios de vida dos cidadãos (7), suspensão dos rendimentos dos ociosos e fim da escravidão dos juros (11), nacionalização de corporações (13), participação nos lucros (14), aumento no valor das pensões (15), entrega das grandes lojas a administração comunal (16), reforma agrária sem indenização e fim da especulação fundiária (17), saúde pública (21) e poder central forte (25). Parece uma agenda de uma partido socialista, na realidade é a agenda de um partido socialista.

Até entendo que os socialistas tentem renegar os nazistas com a desculpa que o nazismo era anti-marxista e anti-comunista, o que de fato era. Mas jogar o nazismo na conta do liberalismo vai além do limite do razoável. Espero que o CESPE, como instituição respeitável que é, tome as medidas cabiveis para esclarecer esta situação.

http://rgellery.blogspot.com.br/2014/05/doutrinacao-em-questao-do-brasilia-sem.html

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