Tags

, ,

Disse que não falaria mais do Chico César de Pyong Yang, mas só registro que já está me irritando o comentário limitado que se espalha em alguns veículos da imprensa brasileira sobre o “estado de espírito” do povo norte-coreano por ocasião dos funerais do feioso… As análises de parcela significativa de nossos jornalistas, infelizmente, têm profundidade de pires… (Há exceções, graças ao bom D ‘us!)

Gostaria de informar aos senhores e senhoras jornalistas que sim, a população está, em sua grande maioria, consternada mesmo com a passagem do Grande Líder! E isso se dá por uma razão muito simples: naquele regime totalitário de culto à personalidade do líder, o povo foi condicionado a realmente adorar Kim Jong-Il… Não existe liberdade de opinião e qualquer posição que discordasse disso seria neutralizada. Então, as pessoas estão realmente tristes porque, pela construção do imaginário popular naquele Estado, elas perderam a grande referência, o que era considerada a figura de pai da nação para muitos. É assim que acontece em regimes totalitários…

Segue uma matéria curta, porém muito boa da Reuters sobre os funerais (e na qual, diferentemente de segmentos da imprensa brasileira, os autores se dedicam simplesmente a informar e não a chegar a “conclusões” ou “juízos de valor” sem qualquer fundamento). Pronto, falei!

Neve e lágrimas marcam enterro de líder norte-coreano

Reuters, Brasi – quarta-feira, 28 de dezembro de 2011 08:56 BRST

Por David Chance e Jack Kim

SEUL (Reuters) – O mundo acompanhou ansiosamente na quarta-feira o gigantesco funeral do ex-líder norte-coreano Kim Jong-il, à procura de sinais que indiquem os futuros rumos do isolado país comunista, supostamente prestes a desenvolver um arsenal nuclear.

As sombrias imagens exibidas pela TV estatal mostraram um cortejo fúnebre encabeçado por uma limusine que exibia um enorme retrato de Kim, que morreu aos 69 anos, no dia 17, de infarto. O grupo passava em meio à neve, diante de fileiras de soldados com as cabeças descobertas e abaixadas, na praça principal de Pyongyang.

Um carro que levava o caixão era acompanhado por um choroso Kim Jong-un, filho caçula e herdeiro do dirigente comunista, e também por Ri Yong-ho, chefe do Estado-Maior, e por Jang Song-thaek, tio do novo dirigente e espécie de “regente” na transição.

“Ver essa neve branca cair me fez pensar nos esforços do general, e isso traz lágrimas aos meus olhos”, disse a soldado Seo Ju-rim à TV norte-coreana.

Um dos mitos relacionados a Kim Jong-il é que ele podia controlar o clima, e a imprensa estatal noticiou que os dias próximos à sua morte tiveram vento e frio excepcionais.

A TV local mostrou também civis se curvando e gritando “pai, pai” à passagem das limusines das marcas Lincoln e Mercedes e dos caminhões militares do cortejo. Um locutor disse que as imagens haviam sido transmitidas ao vivo.

“Eu queria que isso fosse um sonho, como pode ser verdade”, soluçava uma mulher de meia-idade. “Como pode uma coisa dessas acontecer no mundo?”

Em certo momento, mulheres chorosas tiveram de ser contidas por homens que, fazendo um cordão de braços dados, impediam-nas de avançar para o cortejo. A procissão durou cerca de três horas, e terminou com uma salva de 21 tiros, enquanto a nova liderança do país assistia à cerimônia de um palanque.

Kim Jong-un se torna agora o terceiro membro da sua família a dirigir o imprevisível regime comunista fundado por seu avô, Kim Il-sung. Pelo calendário oficial norte-coreano, 2012 deverá ser um ano que marque a transformação da Coreia do Norte em uma nação “forte e próspera”.

A Coreia do Norte já realizou dois testes com armas nucleares, e Larry Niksch, que há 43 anos monitora as atividades do país para o Serviço de Pesquisas do Congresso dos EUA, acredita que o país levará apenas um ou dois anos para ter um míssil nuclear operacional, depois de ter produzido suficiente urânio enriquecido para a ogiva.

A perspectiva de que um líder inexperiente, que supostamente nem chegou aos 30 anos, estar de posse de um arsenal nuclear alarma muita gente.

“Sim, estamos observando e vamos analisar como qualquer mudança pode se refletir na nossa política”, disse uma fonte do governo sul-coreano, sob anonimato.

(Reportagem adicional de Christine Kim e Iktae Park, em Seul, e Jim Wolf, em Washington)

Anúncios