Em minha peregrinação por Ypres, descobri que há toda uma “ciência” na organização dos cemitérios militares. E essa “ciência” remonta à Grande Guerra.

De fato, é bom lembrar, até o século XIX não se costumava dar qualquer tratamento especial aos mortos em combate, cujos corpos eram deixados à própria sorte, apodrecendo ou sendo devorado por feras (vide, por exemplo, o campo de batalha no filme A Cruzada).

Com as guerras napoleônicas e os conflitos que lhes seguiram, os combatentes eram enterrados em valas coletivas, sem maiores preocupações com a individualidade dos caídos (uso como exemplo a cena final de Tempo de Glória).

Foi apenas com a carnificina intensa da I Guerra Mundial que os homens provenientes da Belle Époque decidiram dar destino mais honroso aos despojos daqueles que deram a vida pela pátria. E aí a criação dos primeiros cemitérios militares.

Uma primeira observação sobre o assunto foi a decisão de se enterrar os mortos nos lugares onde haviam combatido, evitando-se repatriar os corpos – o que, além dos problemas logísticos, constituiria grande prejuízo ao moral da população, que teria que presenciar seus filhos voltando para casa em caixões.

Uma vez que se criaria cemitérios miltares, como seriam estes? Quem for aos lugares do descanso final dos súditos do Império Britânico verá que as lápides são todas iguais – isso não é por acaso. O padrão seria mantido para se evitar uma heterogeneidade de túmulos (como acontece nos cemitérios civis), quando há aqueles que têm grandes mausoléus sepultados ao lado de lápides singelas, dependendo dos recursos de suas famílias. Ademais, havia a idéia de que todos são iguais na hora da morte, sobretudo em combate.

Outra curiosidade: na lápide deveria constar o símbolo do regimento ao qual pertencia o morto, seu nome e, vez por outra, um epitáfio. Quando não se podia identificar o morto, colocava-se simplesmente “um soldado da Grande Guerra”, “um soldado do Império Britânico” ou mesmo “um soldado do regimento tal”… (É muito tocante estar em pé diante de uma lápide onde se vê a inscrição “a soldier of the Great War”). Também poderia constar a medalha ou comenda recebida pelo morto. E, naturalmente, gravada na pedra, uma cruz, uma estrela de Davi ou mesmo um crescente, dependendo da religião do morto.

Quanto à disposição das lápides, não havia uma ordem muito clara, mas era comum que se colocassem juntas, lado a lado, aquelas de combatentes que haviam perecido juntos. Quando não acontecia assim, havia uma distância pequena entre as pedras… E judeus eram sepultados junto com cristãos, islâmicos ou mesmo ateus. Afinal, combatiam pelo mesmo ideal.

No caso dos súditos do Império Britânico, foi criada uma autoridade para zelar pelos cemitérios militares, prática reproduzida em alguns países. Com isso, os mortos estariam para sempre guardados pelo Império pelo qual lutaram.

São comuns as peregrinações aos cemitérios militares por todo o fronte ocidental de ambas as guerras mundiais. Aprende-se muito sobre a guerra, a história e, sobretudo, acerca do ser humano e sua natureza. Não há como se emocionar diante desses bravos homens cuja vida foi ceifada algumas vezes tão prematuramente (vi-me diante de uma de um jovem de apenas quinze anos). Não há como não lhes prestar as maiores homenagens. São eles, indubitavelmente, os merecedoresde todas elas.

Em tempo, enquanto os cemitérios aliados são constantemente visitados, aqueles onde repousam soldados alemães recebem poucos visitantes alemães. Infelizmente, as novas gerações na Alemanha foram educadas para esquecer as duas guerras mundiais e aqueles alemães que nelas deram sua vida. Isso é triste, uma vez que a memória dos caídos acaba legada a segundo plano. Não deveria ser assim. Também não se pode ter nesses cemitérios qualquer grande monumento ou evocação à bravura dos que pereceram. Verdadeiramente, são modestos.

Minha homenagem aos bravos que tombaram em combate! Que repousem em paz!

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