Apesar de sair um pouco da linha de publicações do site, achei que valia muito a pena postar este texto de um grande amigo. Boa reflexão!

Brasília-DF, 29 de julho de 2011

UM MILHÃO DE AMIGOS

Por Antônio Vandir de Freitas Lima

Ninguém quer ter um milhão de amigos. O Rei Roberto estava errado. Foi pego pelo engano do assembleísmo, filhote estúpido do democratismo. As pessoas querem, sim, um milhão de opiniões favoráveis para os seus projetos mesquinhos. Então, forjam a falácia dos amigos. Amigo. ‘A’ significa anulação. Também pode significar tudo. É essa dificuldade semântica de subsumir o signo ao significante; que tornou possível a existência da Filosofia. ‘A’ pode ser anarquismo, sem o sentido emprestado hodiernamente, mas o anarquismo prodhoniano, bacuniano, que rejeita o controle governamental, a intromissão na vida íntima, cotidiana das pessoas. O anarquismo da Sociedade Alternativa de Raul Seixas, com fortes tendências pessimistas de Schopenhauer.

‘A’ é o Alpha e representa parte de Deus no alfaômega, no princípio e no fim, no princípio que quer encontrar o fim; mas Deus não pode ser parte, como não pode ser todo, tem que ser absolutamente, alfaomegando-se eternamente… O A de amigo é a aproximação dos Egos que não provoca anulação. Um milhão de amigos é uma tremenda boboeira, ou uma infantilidade revestida de poesia para figurar em uma canção. A democracia nos leva a essa encruzilhada de ter que ser um que se submete ao conselho de muitos, simulando que muitos é maioria e que maioria é o melhor para todos. Tudo falácia! O Congresso só representa a grupos minoritários travestidos de opinião pública, estampados no editorial dos grandes jornais.

 O migo é o Eu, o ego, tudo o que não é o outro. Então, a-migo é o não-eu. Por não ser eu, o A intui a aproximação – o outro comigo, porém muito mais que isso: significa que essa aproximação não traz danos à personalidade. Amizade não se conquista no grito. Já bem sabia Cecília Meirelles, que gritando ao abismo à procura de amigo ouvia apenas o som do eco repetindo: migo, migo, migo. Aliás, dizemos “o” eco, mas Eco é uma ninfa, logo, um ser feminino. O feminino é o contraponto, a amortização da razão. A Eco, que quer o amor de Narciso, impedindo o seu auto-encontro, o seu ensimesmismo, sua egotrip. Um único amigo é impossível de ser reconhecido, um milhão de amigos, uma tarefa dêitica presente somente na gramática de Deus.

 A-migo é tudo o que eu trago para compor a minha personalidade, acoplar ao meu individualismo. Mas, como indivíduo, que penso sozinho dentro da minha cabeça, é impossível essa incorporação da amizade. A essência do ser humano é a solidão. Todos os seus atos são vontades solitárias, são atomismos cometidos no mundo fenomênico. Onanismos incapazes de preencher o vazio existencial. Estará sozinho quando o seu animal de estimação morrer; estará sozinho quando o seu filho crescer e sair de casa; estará sozinho quando adoecer e passar noites angustiantes no quarto do hospital; estará sozinho quando for ao enterro de um ente querido e estiver voltando cabisbaixo observando os túmulos frios no cemitério; estará sozinho quando perder o sono à noite e ficar sapeando o controle remoto, indo de canal a canal, em busca de algo que não está na grade da TV; estará sozinho quando descobrir, por fim, que a amizade não existe…

 Um milhão de amigos para bem mais forte poder cantar. As formigas não são amigas, formam um único organismo e agem para a manutenção desse organismo vivo. Os leões não são amigos, a identidade genética os leva a agirem em grupo pela preservação da espécie; são prisioneiros dos genes. Os homens não são amigos, nas eras prístinas eram obrigados a cooperarem para poder vencer as atrocidades à volta, as vicissitudes circundantes; hoje em dia, buscam uma forma de convivência em que o suor de uns seja o combustível da voluptuosidade de outros. Os homens não são amigos, são solidários apenas no câncer, como dizia Nelson Rodrigues. Ser solidário é compartilhar um pouco da própria solidão. Solidariedade, empatia, altruísmo são apanágios de nossa egocentricidade e não fazem parte da amizade. Amizade é uma ação ficta e não fática – só representa a verdade para aqueles que a fabulam.

 A cigarra não canta por amizade, mas faz ode à preguiça. A andorinha não se importa com o verão e nem faz conta da solidão. Fingimos a amizade como fingimos a camaradagem no trânsito, porém, no fundo, tudo o que queremos é chegar primeiro. O som ligado no carro toca a música antiga e aquela mulher não está lá para ouvir. Nuvens brancas que vão passando, carregam os sonhos, apagam a lousa de nossas ilusões. Amigo, comigo, sem-migo – inimigos são íncubos de minha própria criação.

 Amigo. Ad Mecum, que está comigo. Alguns dizem que amigo provém de amar, mas considero tal hipótese muito pretensiosa. De toda sorte, arrisco: amigo é tudo que está comigo e que eu amo. Amizade é a minha própria voz, a voz ditando as palavras, a voz da canção no rádio, a voz cartesiana dentro da minha caveira provando que ainda estou vivo.

 Antônio Vandir de Freitas Lima

Policial Legislativo Federal

Especialista em Inteligência Estratégica

drvandiesel@gmail.com

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