Vítimas do terrorismo no Brasil IV: justiçamentos

Uma prática das mais nefastas entre os terroristas que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 foram os chamados “justiçamentos”, ou seja, o assassinato dos próprios companheiros considerados traidores pelos tribunais revolucionários. Também poderiam ser vítimas dessas práticas quaisquer pessoas consideradas inimigas, como integrantes das forças de segurança do Estado, civis que apoiassem o regime militar ou qualquer um contra o qual recaíssem suspeitas de que pudesse representar ameaça aos planos revolucionários. Em geral, esses justiçamentos eram feitos com requintes de crueldade, inclusive porque deveriam servir de exemplo e instrumento de propaganda revolucionária.

Bom lembrar que as mortes por justiçamento não eram causadas em meio ao fervor de uma batalha, por uma troca de tiros com autoridades estatais ou por uma bala perdida. Eram execuções sumárias e premeditadas, justificadas de maneira fria e cruel pelos mais elevados ideais revolucionários. Afinal, os terroristas (como é, sempre foi e sempre será) se viam no direito de decidir sobre a vida e a morte das pessoas que estivessem em seu caminho. E matavam. E o pior é que esses assassinos não demonstram qualquer remorso por seus crimes e ainda há gente que admira essa conduta!

Dentre as quase duas dezenas de justiçamentos ocorridos no Brasil à época da luta armada, citaremos alguns ao longo da semana. Nenhum está listado entre os crimes cometidos durante o período militar. E os algozes, como deve ser, foram beneficiados pela Lei de Anistia que agora muitos querem revisar. Naturalmente, se isso acontecer, a revisão será para punir aqueles que atuaram em nome do regime, jamais aos combatentes da liberdade (mesmo porque, se a Lei de Anistia for revista de forma imparcial, muita gente nos altos escalões desta República teria que responder por seus atos…).

O assassinato de um militar estrangeiro

O ano era 1968. O Brasil vivia um clima de intranqüilidade nas grandes cidades, em virtude das ações dos grupos de esquerda contra o regime estabelecido em 31 de março de 1964 e a conseqüente reação das forças do Governo Costa e Silva. Era a época de atentados terroristas como explosões de bombas, seqüestros, depredações ao patrimônio público, roubos (chamados eufemisticamente de expropriações) e, claro, combates urbanos entre os terroristas e os agentes do Estado.

 Havia uma mudança, entretanto, na estrutura e funcionamento das organizações de esquerda. O foquismo ganhava força. De acordo com essa teoria baseada nas idéias de Regis Debray e na experiência cubana, o êxito da revolução se daria a partir do estabelecimento de pequenos grupos de militantes, focos (daí o nome) de “heróis comunistas” que, promovendo a chamada “violência revolucionária” insuflariam as massas a aderirem à revolução.

 Foi assim que as grandes organizações comunistas se viram pulverizadas em pequenos grupos. Surgiram, por exemplo, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP) de Marighella [futura Ação Libertadora Nacional (ALN)], o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil (AV/PCdoB) e o Partido Operário Comunista (POC). Em Minas Gerais e na então Guanabara, dissidentes da Política Operária (POLOP) criaram, em abril de 1968, uma Organização Político-Militar (OPM), três meses depois oficialmente denominada de Comando de Libertação Nacional (COLINA).

F. Dumont observa que “essas novas organizações, determinadas a deporem o governo pela força das armas e a implantarem no Brasil um regime comunista, necessitavam, além do componente político, uma estrutura do tipo militar, ágil e violenta, o que exigia um apoio logístico adequado e sistemático, alimentado por dinheiro e escudado pelas armas.” A conseqüência foram os seqüestros, roubos a bancos e a carros-fortes, ataques a instalações públicas, expropriações de toda forma para angariar dinheiro para a causa (além daquele imenso montante que vinha de Moscou, Pequim, Havana ou Tirana). A declaração de guerra ao regime já fora feita. E haveria baixas dos dois lados… e de inocentes.

É nesse contexto que se passa a história do Major Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen, oficial do exército alemão que fazia intercâmbio no Brasil cursando a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), na Praia Vermelha.

Também fazia o curso na ECEME, como “originário de nação amiga” o capitão do Exército da Bolívia, Gary Prado, nada menos que um dos responsáveis pela captura e execução de Che Guevara, em 8 de outubro do ano anterior.

Ora, logo Prado foi assinalado como o alvo ideal para um justiçamento. E quem conseguisse matar Prado certamente entraria para a História como herói da causa revolucionária. Foi com esse propósito que se reuniu um pequeno grupo, integrado por futuros militantes do COLINA, e que deu início ao planejamento da execução de Prado, para vingar todos os revolucionários da América Latina e discípulos fiéis do Comandante!

Assim, na segunda-feira, 1º de julho de 1968, os três revolucionários seguiram, de automóvel, um aluno estrangeiro da ECEME, assinalado como sendo o alvo Gary Prado. Na Rua Engenheiro Duarte, na Gávea, dois assassinos desceram do carro e dispararam à queima roupa dez tiros contra a vítima, que caiu de bruços na guia da calçada. Sua pasta de couro marrom desapareceu, levada pelos terroristas.

A ação fora um sucesso! Tudo dera certo como planejado! O inimigo havia sido executado e Che vingado!

Entretanto, o que os terroristas vieram a descobrir foi que Prado não havia sido morto. A vítima na calçada era, na verdade, o major Edward Von Westernhagen. O primeiro justiçamento promovido pela luta armada resultara em total engano.

O major alemão, vítima de um "justiçamento" por engano...

Em 9 de outubro de 2007, o jornal O Estado de São Paulo, publicou a seguinte matéria, intitulada “Brasileiro lamenta não ter sido o ‘vingador de Che’”:

“O sonho desse intelectual baiano de 66 anos era ter escrito a carta até o fim: ‘Um ano e pouco depois, o Comando de Libertação Nacional, em nome dos oprimidos de todo o mundo, vinga o assassinato de Che Guevara’. Em 1968, o jovem Amílcar Baiardi fez parte do grupo de brasileiros que tentou matar Gary Prado, o militar boliviano que capturara Ernesto Guevara de la Serna um ano antes, em 8 de outubro de 1967, 40 anos atrás. Mas o tiro atingiu o peito errado – e Baiardi participou de um dos principais erros históricos da esquerda brasileira. A frustração o persegue quatro décadas depois. ‘Seria muito reconfortante ter matado Gary’, diz em entrevista exclusiva ao estadao.com.br.” Segue o link para a entrevista: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,brasileiro-lamenta-nao-ter-sido-o-vingador-de-che,62274,0.htm.

 Como se vê, remorso algum por ter tirado uma vida. Afinal, era mais um militar, um agente da repressão. Em nenhum momento foi lembrado o sofrimento da família do major, cujo erro foi vir estudar no Brasil e usar uniforme parecido com o do colega boliviano…

Uma resposta em “Vítimas do terrorismo no Brasil IV: justiçamentos

  1. meu pai cardenio jayme dolce delegado aposentado,foi morto,por terroristas num assalto a casa de saude dr eiras no rj,em 1971

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