Vítimas do Terrorismo no Brasil II: Mário Kozel Filho

Mário Kozel Filho (São Paulo, 06/07/1949 – São Paulo, 26/06/1968) é muito pouco lembrado quando se fala dos que morreram por ocasião da luta armada no Brasil. E a razão talvez se deva ao fato de que esse rapaz tenha morrido, pouco antes de completar 19 anos, vítima de uma atentado terrorista promovido pelos combatentes da liberdade.

Kuka, apenas um garoto…

 Filho de Mário Kozel e Therezinha Lana Kozel, Mário Kozel Filho, o “Kuka”, tinha dezoito anos quando deixou de freqüentar as aulas e de trabalhar para iniciar o serviço militar obrigatório no 4º Regimento de Infantaria Raposo Tavares, em Quitaúna, município de Osasco, em 15 de janeiro de 1968. Em Quitaúna passou a ser o soldado nº 1.803 da 5ª Companhia de Fuzileiros do Segundo Batalhão.

Na madrugada de 26 de junho de 1968, Kuka estava de serviço, montando guarda no Quartel General do II Exército, o atual Comando Militar do Sudeste, na Cidade de São Paulo. Tudo parecia calmo e o silêncio imperava. Os militares dormiam e descansavam. Alertas apenas as sentinelas, cumprindo seu dever de zelar pela vida de seus companheiros e protegendo as instalações do QG. Cabe lembrar que os jovens de serviço naquela noite eram recrutas, estavam cumprindo o serviço militar obrigatório, e tinham, portanto, seis meses de instrução e de serviço nas fileiras do Exército. Não eram soldados profissionais, tampouco agentes da ditadura.

A tranqüilidade no QG seria interrompida por um grupo de dez terroristas, entre eles duas mulheres, que seguiam para ali realizar um atentado em um pequeno caminhão, carregado com 50 quilos de dinamite, e mais três Fuscas. O ataque à instalação militar seria um ato importante no contexto da propaganda da luta armada. Os terroristas seguiam a orientação de seu líder, Carlos Marighella que, no seu Minimanual de Guerrilha Urbana pregava que “o terrorismo é uma arma a que jamais o revolucionário pode renunciar” e que “ser assaltante ou terrorista é uma condição que enobrece qualquer homem honrado.”

 Às 4h30, um tiro quebrou o silêncio daquela madrugada fria de inverno. Uma sentinela havia disparado contra uma caminhonete que tentara adentrar o quartel. Desgovernada, batera, ainda na rua, contra um poste. Um homem saltou então do veículo e fugiu correndo.

Mário Kozel Filho saiu do seu posto em direção à caminhonete acidentada. Ao se aproximar, uma violenta explosão provocou destruição e morte num raio de 300 metros. Passados alguns minutos, quando a fumaça e a poeira se dissiparam, foi encontrado o corpo do soldado Kozel totalmente dilacerado. Ficaram feridos o coronel Eldes de Souza Guedes, os soldados João Fernandes de Souza, Luiz Roberto Juliano, Edson Roberto Rufino, Henrique Chaicowski e Ricardo Charbeau. Só não houve mais vítimas porque o carro-bomba não conseguiu penetrar no Quartel-General por ter batido no poste. Consumava-se mais um ato terrorista da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Participaram da ação os seguintes integrantes do VPR: Waldir Carlos Sarapu (“Braga, “Rui”), Wilson Egídio Fava (“Amarelo”, “Laercio”), Onofre Pinto (“Ari”, “Augusto”, “Bira”, “Biro”, “Ribeiro”), Diógenes José Carvalho de Oliveira (“Leandro”, “Leonardo”, “Luiz”, “Pedro”), José Araújo de Nóbrega (“Alberto”, “Zé”, “Pepino”, “Monteiro”), Oswaldo Antônio dos Santos (“Portuga”), Dulce de Souza Maia (“Judith”), Renata Ferraz Guerra de Andrade (“Cecília”, “Iara”), José Ronaldo Tavares de Lira e Silva (“Dias”, “Joaquim”, “Laurindo”, “Nunes”, “Roberto Gordo”, “Gordo”), Pedro Lobo de Oliveira (“Getúlio”, “Gegê”), Eduardo Collen Leite (“Bacuri”, “Basilio”), integrante da REDE, outro grupo guerrilheiro.  

O corpo de Kozel, depois do atentado.

 O soldado Mário Kozel Filho morreu no cumprimento do dever. Foi sepultado com honras militares no Cemitério do Araçá. Em Decreto de 15 de julho de 1968, foi admitido no grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Militar, no Quadro Ordinário do Corpo de Graduados Efetivos da Ordem Post-Morten, pelo Presidente da República na qualidade de Grão-Mestre da Ordem do Mérito Militar. O decreto o promoveu post-morten à graduação de 3º Sargento. Em sua homenagem, a avenida que passa em frente ao Comando Militar do Sudeste passou a ter o nome de Avenida Sargento Mário Kozel Filho. Claro que praticamente ninguém que passa por aquela avenida sabe o porquê do nome…

Kozel era um jovem comum como tantos da sua idade. Gostava de música. Pode-se até dizer que eram “mais um que amava os Beatles e os Rolling Stones”. Tinha uma irmã, Suzana Kozel Varela, e um irmão, Sidney Kozel, com 14 anos de idade. Seu pai era gerente na Fiação Campo Belo, onde ele também trabalhava antes de ingressar no Exército.  À noite, freqüentava as aulas no Instituto de Educação Ênio Voss, no  Brooklin.  Cursava o antigo colegial.  Não se envolvia com política, provavelmente nem pensava nisso. Mas fazia trabalho social na Paróquia Nossa Senhora da Aparecida, no bairro de Indianópolis.  Pertencia ao Grupo Juventude, Amor, Fraternidade, composto por mais de 30 jovens e cujo símbolo, uma rosa e um violão, havia sido criado por Kuka.

Importante lembrar que Kozel não foi esquecido pelo pessoal da Comissão de Anistia. Em 20 de agosto de 2003 (decorridos somente 35 anos de sua morte), por meio da Lei nº 10.724, a família de Mário Kozel foi indenizada com uma pensão mensal de R$ 300,00 (!!!!!!!!) e depois aumentada para R$ 1.140,00, pela Lei nº 11.257 de 27 de dezembro de 2005 (melhorou muito!). R$ 1.140,00! Era quanto se achava que valia a vida daquele rapaz (afinal, era “apenas um soldado”, né?). E causa mais estranheza e revolta quando comparada às indenizações milionárias sobre as quais já fizemos referência neste site. Fazer o quê? Kuka não era companheiro, não combatia a ditura, não pegava em armas para fazer do Brasil uma Albânia! Era apenas um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones…

 [Referência: A Verdade Sufocada, de Carlos Alberto Brilhante Ustra (Editora Ser, Brasília, 6a edição). Recomendo a leitura!]