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E como o assunto é Europa e crise, resolvi trazer alguns comentários sobre a maior crise pela qual passou o continente europeu: a Peste Negra, chamada à época de Grande Mortandade, que, ao final da década de 1340, dizimou mais de um terço da população do continente, chegando a 60% em algumas cidades. Sobre o assunto, recomendo o livro que leio no momento, A Grande Mortandade, de John Kelly (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011, 417 págs.). Trata-se de obra fundamentada em anos de pesquisa, inclusive junto a fontes primárias, e com riqueza de detalhes.

Segue um trecho do livro, em que Kelly apresenta suas considerações sobre a difusão da peste pelo mundo:

“A peste está entre as mais lentas das doenças errantes. Novas cepas de gripe podem saltar pelo mundo todo em um ou dois anos, mas o Y. pestis [o bacilo causadordo mal], como o vírus da AIDS, está atado a uma completa cadeia de contágio que pode levar décadas para se desdobrar. O principal vetor da doença não é o roedor, o animal mais comumente associado a ela, mas a pulga do roedor. Quando um hospedeiro contaminado morre, a pulga salta para um novo hospedeiro, transferindo-lhe o bacilo da peste, o Y. pestis, por meio de uma mordida na pele. (…) Em uma pulga não contaminada, o sangue de uma picada corre diretamente para o estômago, matando a fome. Em uma pulga contaminada, os bacilos da peste se acumulam na parte anterior do sistema digestivo, produzindo um bloqueio; isto aumenta a capacidade do inseto de transmitir a doença de duas formas. Em primeiro lugar, como nutriente algum está chegando ao estômago, a X. cheopis [a pulga do rato-preto], cronicamente faminta, morde constantemente; e, em segundo lugar, na medida em que o sangue não digerido se acumula na parte anterior do sistema digestivo, a pulga se torna uma seringa hipodérmica viva. Cada vez que morde, ela se engasga com o sangue não digerido, agora maculado pelos bacilos da peste, e vomita na nova mordida.” (pp. 38-39)

Enquanto nesse trecho Kelly esclareceu um aspecto científico da doença, em outros faz narrativa histórica, contando a vida de pessoas que foram vítima do mal que matou mais de 30 milhões de seres humanos (a I Guerra Mundial, bom lembrar, ceifou algo como 10 milhões de vidas). A Peste estava muito relacionada a mudanças no ecossistema e às condições de higiene do homem medieval… Em breve, transcreverei uma passagem sobre a higiene nas cidades européias na Idade Média…

Para um mapa interativo da evolução da peste entre 1346 e 1351, clique aqui. E um artigo interessante sobre o Y. pestis está aqui.

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