Líbia: desentendimentos entre a OTAN e os rebeldes – ponto para Kadafi

As tropas de Kadafi já retomaram Brega, quase tão importante quanto Bengazi. Os rebeldes questionam as ações da OTAN, que parece não estar alcançando muito êxito em esmagar as forças leais a Trípoli.

Toda essa incerteza na efetividade nas operações patrocinadas pela OTAN e a falta de coordenação entre a coalizão e os rebeldes só fortalece a Kadafi, que consegue uma sobrevida inimaginável em alguns gabinetes de Paris, Londres ou Washington.

Minha pergunta permanece: quem terá condições de substituir Kadafi? Haverá Líbia pós-Kadafi ou o país se transformará em uma Somália, dividido entre as várias tribos e clãs que o coronel cross-dressing conseguiu aglutinar em torno de seu governo?

Rebeldes líbios culpam Otan por avanço de Gaddafi

terça-feira, 5 de abril de 2011 20:06 BRT – http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE7340LG20110405

Por Angus MacSwan

BENGHAZI, Líbia (Reuters) – O chefe do Exército rebelde da Líbia criticou a Otan por sua lentidão no comando dos ataques aéreos para proteger civis e disse que a aliança “está deixando o povo de Misrata morrer todos os dias.”

Misrata, que está sitiada pelas tropas governamentais, é o único grande centro urbano no oeste da Líbia cuja revolta contra o líder líbio, Muammar Gaddafi, não foi esmagada e, por isso, enfrenta o ataque de tanques e francoatiradores.

A cidade é agora prioridade para os ataques aéreos da Otan, disseram dirigentes da organização, antes das declarações do líder rebelde.

“A Otan nos abençoa de vez em quando com um bombardeio aqui e acolá, e está deixando o povo de Misrata morrer todos os dias”, disse o chefe das forças rebeldes, Abdel Fattah Younes, em Benghazi, que fica no leste do país. “A Otan nos desapontou.”

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) está encarregada desde 31 de março dos ataques aéreos contra a infraestrutura militar de Gaddafi, bem como do policiamento da zona de exclusão aérea e do embargo à venda de armas ao país, atribuições que antes eram de uma coalizão liderada por Estados Unidos, Grã-Bretanha e França.

A Otan está se movimentando com muita lentidão, permitindo às forças de Gaddafi avançar, disse Younes, acrescentando que os rebeldes estavam estudando levar as reclamações ao Conselho de Segurança da ONU, que autorizou essa missão. “A Otan se tornou nosso problema”, disse ele.

Em resposta, a Otan afirmou estar se incumbindo de seu mandato.

O impasse na frente de batalha no leste da Líbia, deserções no círculo de poder de Gaddafi e a situação dos civis afetados pelos combates, ou enfrentando escassez de comida e combustível, intensificaram as ações diplomáticas para buscar uma solução para a guerra civil no país, um importante produtor de petróleo do norte da África.

Os protestos contra o governo, iniciados em 5 de fevereiro, conduziram à guerra civil depois que forças de Gaddafi abriram fogo contra manifestantes. Ele, então, esmagou as revoltas no oeste da Líbia, restando Misrata e o leste do país nas mãos dos rebeldes.

O poder aéreo da Otan está mantendo o equilíbrio na Líbia, impedindo as forças de Gaddafi de sufocar a revolta, mas sem dar condições, por ora, para que os rebeldes consigam uma vitória clara.

“Ou a Otan faz o seu trabalho corretamente ou vamos pedir ao conselho nacional que levante a questão no Conselho de Segurança”, afirmou Younes a repórteres. Ele foi ministro do Interior no governo de Gaddafi e desertou.

Questionado sobre os comentários de Younes, o porta-voz da Otan, Oana Lungescu, disse que “os fatos falam por si mesmos. A velocidade das operações desde que a Otan assumiu não diminuiu. Nós realizamos 851 saídas nos últimos seis dias. Nós estamos cumprindo nosso mandato.”

5 respostas em “Líbia: desentendimentos entre a OTAN e os rebeldes – ponto para Kadafi

  1. Uma opção que me parece já estar sendo tratada é a divisão entre a região de Tripoli que ficaria com o Gaddafi e a Sirenaica que ficaria com os rebeldes numa confederação tribal. Isto se não tiver maneira de derrubar o ditador, é claro.

  2. Será que já temos alguma indicação da maneira “correta” de escrever Gaddafi, Kadhafi, Sirenaica, Cirenaica & outros em português? Fico sempre em dúvida, ainda mais que a maioria dos artigos são em inglês e em francês. Aceito sugestões e correções…

    • Bom, como envolve transliteração, eu uso o mais simples: Kadafi ou Kadhafi… De toda maneira, dá para saber que é o Cauby de Trípoli…

  3. Parece pouco plausível que Kadafi aceite de bom grado abrir mão da região leste do país, que produz boa parte do pretóleo exportado pelo país (aliás, segundo vi no Estadao, parece que os rebeldes estão se preparando para exportar o primeiro carregamento desse recurso por conta própria). Mesmo que seja forçado a reconhecer a divisão pela perda do controle militar do leste ou para chegar a um acordo para se manter no poder, ele é imprevisível o suficiente para lançar um ataque contra o território emancipado quando se sentir mais confiante. Penso algo parecido a respeito do Sudão, onde o Omar al Bashir aceitou muito tranquilamente a separação da região sul do país. Deve haver algo por trás dessa mansidão, talvez o prenúncio de outro violento conflito armado no continente africano

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