Visita de Obama ao Brasil: entrevista ao Congresso em Foco

Achei muito valiosa essa passagam de Barack Obama pelo Brasil. Segue entrevista nossa ao Congresso em Foco, onde há uma síntese de minha percepção disso tudo… Claro que ainda postarei alguns comentários a respeito do tema, mas a matéria a seguir retrata bem minha percepção.

Uma coisa que faltou dizer… ninguém merece os “protestos contra o Presidente dos EUA” na Cinelândia, particularmente os dos partidecos, sindicatos e movimentos sociais… Ô povo chato!

Tudo bem, nada contra a liberdade de expressão. Mas que esse pessoal anacrônico é sem noção, ah isso é! Não tenho paciência para isso…

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=36438

20/03/2011 – 19h48

Brasil evolui de patamar com Obama, diz especialista

Professor de Relações Internacionais valoriza o fato de o presidente norte-americano ter insistido na visita ao país quando há um conflito em curso no Oriente Médio. Para o acadêmico, gesto reflete a importância da parceria entre as duas nações.

Fábio Góis

A primeira visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil neste fim de semana está longe de ser apenas meramente simbólica ou protocolar, como pode ter parecido. A opinião é do professor de Relações Internacionais Joanisval Gonçalves, que avaliou o gesto como positivo e, de acordo com a postura e os discursos de Obama em Brasília e no Rio de Janeiro, demonstra a evolução de status de parceria do país junto à nação norte-americana. Mais: ele acredita que as recentes mudanças na política externa brasileira têm agradado à Casa Branca.

“A visita foi muito positiva, e simboliza uma reaproximação entre Brasil e Estados Unidos, e dentro de um novo patamar. Os EUA deixam claro que passam a ver o Brasil de uma forma diferente, agora como um parceiro de caráter global, e não mais regional”, disse o professor, para quem o discurso amistoso de Obama em mais de uma ocasião significa a seriedade de propósitos da parceria entre as duas nações.

Para Joanisval, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, o fato de Obama ter vindo ao Brasil no começo do mandato da presidenta Dilma Rousseff, com quem chegou a trocar gracejos em diversas ocasiões, reflete não só apenas essa mudança de “patamar” do Brasil. Para além dos vínculos comerciais e políticos, diz, isso sinaliza que os recentes posicionamentos da diplomacia brasileira, como reafirmação dos direitos humanos e repúdio aos regimes ditatoriais no Oriente Médio, por exemplo, têm se aproximado do pensamento diplomático norte-americano. Em que pese o protagonismo da presidenta Dilma nesse sentido.

“Isso assinala de forma muito positiva que os Estados Unidos entenderam, perceberam o recado da mudança na política externa da presidenta Dilma em relação ao presidente Lula. Durante praticamente os oito anos [da gestão Lula] – e isso ficou mais significativo nos últimos anos do governo Lula – houve não só um afastamento dos Estados Unidos, mas uma aproximação com países que eram considerados adversários, ou até antagonistas dos Estados Unidos, como Irã, Cuba, Venezuela. E a própria Líbia”, avaliou Joanisval, referindo-se à guerra em curso travada em território líbio, resposta de países aliados ao desrespeito do ditador Muamar Kadafi, há 42 anos no poder, às determinações da ONU. Ele lembrou ainda que o atual ministros das Relações Exteriores, Antonio Patriota, era o embaixador do Brasil nos EUA desde à época em que Obama disputava as eleições presidenciais.

O especialista, que é consultor do Senado para a área de Relações Exteriores e Defesa Nacional, disse que o fato de Obama ter vindo ao Brasil em um momento de conflagração bélica naquele país demonstra ainda mais a importância da visita – ao contrário da corrente que interpreta a coincidência dos episódios (Obama e Dilma brindavam no Palácio do Itamaraty enquanto os bombardeios aéreos norte-americanos eram autorizados pelo próprio presidente) acabou por ofuscar o encontro presidencial. “Não me pareceu algo tão tenso.”

“Ainda que consciente de que poderia executar ações militares – decisão que acabou tomando – contra a Líbia, ainda assim Obama não cancelou sua viagem. Quer dizer, do Brasil ele anunciou essa ação”, lembrando que a incursão militar “é muito mais encabeçada pela França e pelo Reino Unido do que pelos EUA”. “É uma questão de política externa que foge à perspectiva de América Latina.” Diante do cenário, avalia, constam positivamente em favor da diplomacia Brasil-EUA o fato de a presidenta Dilma ter demonstrado solidariedade ao problema enfrentado pelo povo líbio e, como membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU, o Brasil ter optado por se abster sobre as medidas contra a Líbia.

“O importante é que a política externa da presidenta Dilma já demonstrou uma condenação muito enfática a qualquer regime autoritário, talvez até pelo passado dela de resistência e luta contra a ditadura”, destacou Joanisval, acrescentando que Dilma não tem a “simpatia” natural” e a “proximidade” que o presidente Lula demonstrava em relação a Kadafi.

Amenidades e apreço

Para Joanisval, o fato de Obama ter feito discursos cordiais não sinaliza que a retórica sobrepujará as implicações práticas da parceria. “Muito pelo contrário. Temos dois momentos interessantes da visita do presidente Obama. Ontem [em Brasília], que foram discursos de Estado, dentro daquele contexto de relações de Estado – quando, tanto ele quanto a presidenta Dilma foram incisivos no interesse em desenvolver cooperação, parceria diferenciada. Vários acordos foram assinados”, lembra o professor.

“Esse discurso de hoje [no Theatro Municipal, no Rio], Obama fala para o Brasil e para o povo brasileiro. E, com isso, ele demonstrou não só o comprometimento para com o Brasil, mas também deixou claro que os Estados Unidos conhecem, ou tem buscado conhecer mais o Brasil e estão dispostos a se aproximar mais do país”, acrescentou.

O professor explicou ainda por que o presidente Obama, ao invés de declarar enfaticamente apoio à inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, como queria a diplomacia brasileira, preferiu manifestar “apreço” à ideia, como consta decomunicado subscrito também por Dilma. “De fato, foi efêmero [o teor do apoio], mas não podia ser diferente. Um assento permanente no Conselho é uma pretensão muito antiga do Brasil. Agora, a questão é que o Conselho reflete uma realidade: para ser membro permanente, com poder de veto, tem de ser grande potência mundial”, ponderou o especialista. “Nesse sentido, não só potência política, como também militar. O Brasil ainda não chegou nesse estágio.”

Para Joanisval, a versão de que a mera declaração de “apreço” mostra o pouco interesse dos EUA sobre o tema é equivocada. “Eu diria que a manifestação do presidente Obama foi até amistosa: não gerou nenhum compromisso, mas diz que [a inclusão] é interessante, diz que a ONU precisa ser reformulada, e é importante que o Brasil esteja nessas mudanças quando isso acontecer.” Para o professor, o Brasil certamente conquistará o posto quando chegar à condição de potência global.

Contra as barreiras

Em relação ao posicionamento enfático da presidenta Dilma contra o protecionismo comercial norte-americano, bem como salientando os avanços da economia brasileira, o professor acredita que ficou clara a seguinte mensagem. Dilma criticou também, entre outros pontos, a pouca transparência com que as regras e as atividades de exportação são estabelecidas e conduzidas pelos EUA.

“O Brasil está de braços abertos aos Estados Unidos – assim como eles abriram os braços para o Brasil –, está disposto a estabelecer parcerias, a cooperar a aumentar as relações comerciais e econômicas, mas isso é uma via de mão dupla. É claro que, se os Estados Unidos querem algo do Brasil, eles têm de oferecer alguma coisa em troca. Eles têm de abrir mão, por exemplo, dessas barreiras não-tarifárias e renegociar esses acordos e a maneira como tratam os produtos brasileiros”, analisa Joanisval, para quem o gesto da presidenta demonstrou a autoridade do governo brasileiro como “parceiro diferente”. “O Brasil não é um parceiro de terceiro escalão nessa relação com eles.”

Ainda no contexto comercial, o professor disse acreditar que a intenção norte-americana de se tornar um “grande consumidor” de combustíveis brasileiros, principalmente o petróleo do pré-sal, é estratégica para ambos os países. “Os Estados Unidos já são um grande consumidor e, nesse sentido, uma parceria com o Brasil é tremendamente importante. Não só porque o Brasil é um grande produtor e gerador de energia limpa e renovável, como também tem uma matriz energética muito forte em termos de combustíveis fósseis, agora com o pré-sal”, avalia.

Ele observa ainda que os parceiros tradicionais dos EUA na questão do petróleo estão em área de instabilidade, como o Oriente Médio. “Ou estão hoje sendo governados por líderes que têm uma certa posição refratária com relação aos Estados Unidos, como é o caso da Venezuela. Daí para o desenvolvimento de parcerias com o Brasil é um passo”, acrescentou o professor, para quem oacordos firmados ontem entre Brasil e EUA são um “primeiro passo importante”.

“Esse acordos ainda vão passar pelo Congresso, ainda serão discutidos, mas foram assinados. Ambos ressaltaram que Brasil e Estados Unidos são as maiores economias e as maiores democracias do hemisfério. Nada mais natural que estejam muito próximos”, conclui, lembrando a pluralidade dos acertos de cooperação nas áreas econômica, de biocombustíveis, espacial e de educação.

Ausência “do cara”

Joanisval considera ter sido acertada a ausência do presidente Lula na solenidade do Itamaraty – reuniram-se para um brinde de praxe em uma mesa, além de Dilma e Obama, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, desafeto do petista, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o vice-presidente da República, Michel Temer. Todos os antecessores de Dilma na Presidência foram convidados e compareceram ao convescote, à exceção já mencionada de Lula – Itamar Franco e Fernando Collor sentaram-se em outra mesa.

Joanisval não concorda com a impressão de que Lula tenha sido indelicado ou demonstrado desinteresse. “Sinceramente, eu achei que ele fez certo. A presença do presidente Lula, naquele momento, talvez ofuscasse a presença da própria presidenta Dilma, e até do presidente Obama. Lula é uma figura muito emblemática no Brasil e, nesse sentido, não seria de bom tom um presidente que acabou de deixar o poder participar de um evento como esse. Ele fez bem, deixou a presidente Dilma ser o centro, a estrela brasileira desse encontro”, sublinhou. “A figura do presidente Lula é sempre muito polêmica. Então acho que foi um ato de muita sensatez ele não ter participado.”