O Levante

Estou, efetivamente, surpreso com o que está acontecendo no mundo islâmico… As manifestações por democracia, iniciadas nos países árabes chegaram ao Irã fundamentalista… E agora, no Norte da África, parece ser a vez de Kadafi… É incrível como o regime autoritário e antiocidental da Líbia (em que pese a distensão dos últimos anos) se veja afrontado por manifestações legitimamente democráticas! Parece um anseio que vem realmente de dentro, das ruas, da população do país! É endógeno, tudo leva a crer!

O levante por reformas (não gosto do termo onda revolucionária) é algo sem precedentes nessa parte do mundo! Será que a democracia realmente chegará aos mundos árabe e islâmico? Ou, sendo mais pessimista, é só uma mudança de cadeiras?

Não, parece, de fato, que essa parte do mundo não será a mesma depois do Levante (é como passarei a chamar esses acontecimentos). Ventos da modernidade… clamor por reformas… apelo por mais democracia (?)… fim de regimes autoritários… Tudo acontecendo nessa parte fascinante do mundo, em diversos países, sunitas e xiitas, estados laicos e teocráticos, regimes autoritários tradicionais pró e antiocidentais… Tudo ao mesmo tempo e agora! E com motivações que o têm em comum o clamor por reformas!

Reitero que é interessantíssimo como o Levante é endógeno, partindo do seio da sociedade desses países, impulsionado pela juventude e com a aquiescência dos mais experientes… E o Ocidente, nesse processo todo, é a referência e não o antagonista. São por valores que encontram parâmetro no mundo ocidental (democracia, liberdade, igualdade) que as pessoas se insuflam e exigem mudanças de seus governantes. Não se vê protestos contra os EUA ou Israel, nada de stripes and stars ou da estrela de Davi sendo queimadas. As bandeiras nas ruas são as nacionais, símbolo importante do caráter político e laico do Levante. Nada de choque de civilizações, muito pelo contrário!

Isso que acontece hoje no mundo islâmico, esse movimento endógeno por reformas e por mais democracia, assemelha-se ao que aconteceu nos países socialistas do Leste Europeu e na União Soviética, há duas décadas! Não se pode deixar de fazer um paralelo: motivação relacionada à crise doméstica daqueles regimes, protestos por mais liberdade, não-interferência das potências ocidentais (de fato, estupor, apatia e surpresa por parte dos governos do Ocidente!). E regimes autoritários derrubados pela força das ruas, modelos estabelecidos por décadas e cuja aparente fortaleza nada mais era que um castelo de cartas que não resistiu ao vento da liberdade.

O destino dos povos do Leste Europeu foi definitivamente alterado naqueles dias! E salvo por alguns loucos anacrônicos (geralmente que não viveram naqueles países) ainda defensores de uma ideologia falida e que, felizmente, ficou nos estertores do século XX (à exceção de alguns nichos de atraso cada vez mais raros pelo globo), ninguém mais cogita o retorno daquele modelo. O Leste Europeu está hoje em melhor situação econômica, política e social do que há vinte anos. Oxalá essas mudanças também possam chegar ao mundo árabe e muçulmano. Podemos estar diante de um momento histórico sem precedentes, em que a democracia chega àquela parte do mundo, com todas as conseqüências dessas transformações. E o mais fascinante é que, se der certo o Levante, em alguns anos poderemos nos ver diante de regimes democráticos e modernos naquela região, laicos, pondo abaixo qualquer argumento falacioso de que a democracia e o Islã seriam incompatíveis. E o mundo estará, indiscutivelmente, melhor.