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Pensando um pouco de tudo…

De que Defesa o Brasil precisa?

O próximo Presidente da República encontrará um mundo muito diferente daquele que, há pouco mais de uma década, ainda permitia acreditar em uma progressiva redução da importância do poder militar nas relações internacionais. A guerra voltou à Europa, conflitos de grande intensidade abalam o Oriente Médio, cresce a tensão no Indo-Pacífico e as principais potências aceleram seus programas de rearmamento. Ao mesmo tempo, drones, sistemas autônomos, inteligência artificial, ataques cibernéticos e o emprego militar do espaço têm transformado rapidamente a maneira de se fazer a guerra. Essas tecnologias também permitem que países de menor poder militar desenvolvam capacidades de ataque antes restritas às grandes potências. Nesse cenário, pensar a Defesa Nacional deixou de ser exercício para especialistas e tornou-se questão essencial de Estado.

Para o Brasil, a reflexão sobre Defesa Nacional assume especial importância. Poucos países têm tanto a proteger: um território continental, mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres, vastos recursos naturais, a Amazônia, extensa área marítima no Atlântico Sul, reservas de petróleo e gás em nossas águas jurisdicionais e infraestruturas essenciais ao funcionamento do País. Não se trata de procurar inimigos onde eles não existem, mas de compreender uma regra elementar das relações internacionais: capacidades de defesa levam anos ou décadas para serem construídas, enquanto ameaças podem surgir muito mais rapidamente.

Diante desse cenário global, um dos primeiros desafios do governo que assumir em 2027 será assegurar recursos compatíveis com as necessidades da Defesa. Mais importante que simplesmente elevar despesas, porém, será garantir regularidade e previsibilidade ao orçamento. Programas como o PROSUB, as Fragatas Classe Tamandaré, o SISFRON, o Programa Estratégico Forças Blindadas, o Gripen e o KC-390 atravessam vários governos e não podem ficar sujeitos às oscilações orçamentárias de cada exercício. Descontinuidade significa atrasos, aumento de custos, perda de pessoal qualificado e, não raro, comprometimento de cadeias produtivas construídas ao longo de anos. Investir em Defesa, por sua vez, é preservar conhecimento, tecnologia e uma Base Industrial de Defesa indispensável à autonomia nacional.

Recursos adicionais, entretanto, precisarão vir acompanhados de escolhas. Parcela elevada do orçamento do Ministério da Defesa permanece comprometida com despesas de pessoal, enquanto investimentos, manutenção, treinamento e aquisição de meios disputam recursos consideravelmente mais escassos. Esse desequilíbrio deve ser enfrentado de maneira gradual e responsável. O objetivo não deve ser simplesmente ter Forças Armadas maiores, mas Forças mais modernas, profissionais, bem equipadas e capazes de cumprir as missões que o Estado brasileiro lhes atribui.

Nesse contexto, há uma discussão que não deveria mais ser adiada: a reestruturação das próprias Forças Armadas e do estamento militar. Efetivos, carreiras, comandos, organizações militares, estruturas administrativas e sistemas de apoio precisam ser examinados à luz das capacidades que o País pretende desenvolver nas próximas décadas. Reestruturar não significa desvalorizar a carreira militar. Ao contrário, Forças mais eficientes devem ser capazes de oferecer a seus integrantes formação de excelência, perspectivas profissionais adequadas e remuneração compatível com as responsabilidades e peculiaridades da profissão. Também é necessário ampliar a atuação conjunta das três Forças e fortalecer as estruturas responsáveis por seu planejamento e emprego integrado. A lógica deve ser simples: primeiro se estabelecem as capacidades militares necessárias à Defesa do Brasil; a partir delas, dimensionam-se pessoal, organizações e meios.

Esse processo precisa olhar sobretudo para o futuro. A experiência da Ucrânia e o emprego de drones pelo Irã demonstram como sistemas relativamente baratos podem desafiar forças militares muito superiores, impondo custos elevados à defesa. A disseminação dessas tecnologias, inclusive entre organizações criminosas, exige rever concepções doutrinárias e preparar as Forças Armadas tanto para seu emprego quanto para a detecção e neutralização de ataques. Prontidão, Inteligência, comando e controle, defesa antiaérea, sistemas não tripulados, guerra eletrônica, ciberdefesa e capacidades espaciais assumirão importância crescente nos conflitos contemporâneos. Nada disso elimina a necessidade de navios, aeronaves, blindados ou tropas adequadamente preparadas. Exige, contudo, equilíbrio entre plataformas tradicionais e novas tecnologias, assim como recursos suficientes para assegurar treinamento, sustentação logística e disponibilidade operacional. Equipamentos modernos que não possam ser empregados quando necessários pouco acrescentam à capacidade de defesa.

De que Defesa, portanto, o Brasil precisa? De uma Defesa compatível com suas dimensões, seus interesses e sua posição no mundo; adequadamente financiada, racionalmente estruturada, tecnologicamente moderna e sustentada por uma base industrial sólida. O governo que assumir em 2027 terá a oportunidade de iniciar essa transformação, combinando recursos, planejamento e reforma estrutural. Preparar o País para as incertezas das próximas décadas não é militarizá-lo. É reconhecer que soberania, autonomia e paz também dependem da capacidade de defendê-las.

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